Vinicius Ribeirinho

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  1. Fale-nos um pouco de você:

Sempre travo quando me fazem essa pergunta. Sobretudo porque me sinto em constante mudança e o que sou hoje pode não ser mais o mesmo daqui a algumas horas. Vou tentar me definir pelas coisas que me dão prazer então. Gosto de cuidar de plantas, desenhar, cozinhar, viajar, andar de bike, ir à praia e curtir as pessoas, os lugares. Tenho uma viagem muito grande com texturas e isso se exprime claramente nos meus trabalhos. Faço da poesia uma constante. Sou de Gêmeos com ascendente em Capricórnio e lua em Touro.

  1. O que você fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?

A escrita é o que me move. Mas tenho duas outras ocupações que não deixam de estar relacionadas ao ofício de escrever e que me preenchem tanto quanto: sou ilustrador e educador social. Duas posições que me tornaram mais sensível e profundo nas minhas relações e por conseguinte na maneira como ponho em palavras minhas impressões do mundo. Quando criança, mesmo antes de aprender a ler e a escrever, fazia livrinhos com folha A4 e fingia que havia várias histórias para contar. Na real, sempre fui um contador de histórias. Com o passar dos anos, conhecer pessoas simples e saber de suas andanças me inspirou a tornar protagonista todos aqueles que gostariam de enviar sua mensagem para o mundo. Sinto que suas vidas não podem ser de um todo esquecidas.

  1. Qual a melhor coisa em escrever?

Viver outras vidas. Transitar por vários mundos. Parafraseando uma escritora inglesa (Virginia Woolf) que gosto muito, continuar as histórias que nossos amigos não são capazes de terminar.

  1. Você tem um cantinho especial para escrever? (Envie-nos uma foto)

Para falar a verdade, costumo escrever nos lugares mais improváveis (quando a ideia vem, só deixo fluir). Às vezes na praia, no ônibus, no banheiro de uma boate ou na mesa de bar. Uma vez até (confesso, não com orgulho) tive que fazer uma pausa durante o sexo porque uma poesia inteira estava martelando na minha cabeça e precisava jorrar no papel.

  1. Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?

Pergunta difícil. Costumo misturar vários gêneros literários num único conto, como é o caso do Carne Trêmula, em que há suspense policial, erotismo, fluxo de consciência e crítica social. Prefiro me definir como alguém que experimenta; nesse aspecto, sou um artista antropofago.

  1. Fale-nos um pouco sobre seu (s) livro (s). Onde encontra inspiração para título e nomes dos personagens?

Fúcsias e outros contos (meu primeiro livro) veio à público através de um concurso literário realizado pelo Governo do Estado do Ceará em 2010, quando eu contava apenas 20 anos. Apesar da imaturidade na escrita e o puritanismo exagerado devido minhas preferências de leitura daquela época, sinto-me muito orgulhoso por ter alcançado meu sonho ainda tão jovem. Boa parte dos contos presentes nesse livro foram concebidos durante o Ensino Médio (muitas vezes nas aulas de Matemática e Física ). Meu segundo livro, o romance Charada Azul (2016), contudo, foi fruto de uma pesquisa intensa e dolorosa sobre a vida sofrida de pessoas na periferia de Fortaleza. É um livro psicodélico e sarcástico, onde a miséria de uma cidade grande é retratada através dos olhos de um pequeno-pseudo-burguês cuja vida protegida regada a festas, viagens e drogas sintéticas o levam a entender o real sentido da vida através de uma epifania causada por uma bad trip de LSD. Geralmente uso nome de personagens conhecidos da literatura e do cinema para os meus personagens.

  1. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?

Acima de tudo, a vivência. Costumo me expor às situações que retrato nos livros. Depois muita leitura, pesquisa online e deixo fluir como um rio.

  1. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?

Eu diria que me inspiro em vários autores e livros. Sou antropofago. Minha escrita é como um Frankenstein, um corpo montado com vários membros de pessoas de várias épocas, classes sociais, gêneros e estilos narrativos. Admiro muito a escrita de Clarice Lispector, Cecília Meireles, Carolina de Jesus, Socorro Acioli, Julián Fuks, Milton Hatoum, Beatriz Bracher, Selva Almada, Gabriel Garcia Márquez, Julio Cortázar, Hemingway e Fitzgerald, Christopher Isherwood, Virginia Woolf, João Silvério Trevisan, Caio Fernando Abreu, Drummond, Mia Couto, Saramago, Ngozi Adichie… Enfim, a lista é infindável.

  1. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?

Eu não diria dificuldade. Na verdade um livro foi rejeitado por uma editora por ter conteúdo “inapropriado” (leia-se inapropriado um livro cujo personagem central era abertamente homosexual e fumava maconha). Segundo eles, todo o livro estava bom, mas precisava ter algumas partes “alteradas” e o personagem central deveria ser mais “comercial”. Na época não dei muita importância e decidi focar em outros trabalhos. Se o caso tivesse ocorrido hoje, teria por certo feito um estardalhaço nas redes sociais.

  1. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?

Acho incrível como nos últimos cinco anos a literatura brasileira se reinventou e trouxe grandes nomes como Socorro Acioli, Julián Fuks e Geovani Martins (entre outros). E fez com que já conhecidos escritores redescobrissem sua narrativa, como é o caso de Milton Hatoum com o sensacional Noite da Espera.

  1. Recentemente surgiram várias pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?

Os termos “bom” e “não tão bom” são relativos. O que temos são pessoas que se identificam ou não com esse ou aquele autor/gênero/estilo e escritores que estão experimentando e se descobrindo. Acredito que a publicação independente possibilitou muito o nascimento de novos autores e também tornou possível as pessoas realizarem seus sonhos.

  1. Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?

Falta de incentivo e apoio do Governo Federal que nos últimos dois anos tem deixado a Educação e a Cultura de lado (Fora Temer!) e os altos impostos. Resultado disso, a triste realidade de uma população que não tem como comprar livros pois precisa priorizar o básico do básico como alimentação e gás de cozinha.

  1. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?

Honestamente, nunca tive esse pensamento. Gostaria, no entanto, de ser tão sensível e cru como Carolina de Jesus em “Quarto de Despejo” e desprendido como Geovani Martins em “Sol na Cabeça”.

  1. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria? (nome da música + cantor)

No momento, eu diria “Cavalo Corredor” de Getúlio Abelha, “Gasolina Neles” de Teto Preto, todo o álbum da deliciosa Letrux “Em Noite de Climão”, “Um Corpo no Mundo” da Luedji Luna e os arranjos deliciosos de Tetê Espíndola, Liniker, Francisco el Hombre e Jaloo.

  1. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”?

Todo ano encontro um “livro da minha vida” (acho que anualmente troco de “vida” rsrs). Atualmente estou me identificando muito com “Em Nome do Desejo” de João Silvério Trevisan, “A profecia Celestina” de James Redfield e “Sol na Cabeça” de Geovani Martins.

  1. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?

Estou com três projetos no momento, um que mistura ilustração e poesia, em que visito pessoas desconhecidas nos diversos bairros de Fortaleza (cidade onde moro) para desenhá-las em diversos ângulos e contar suas vidas com muita poeticidade; um livro de contos homoeróticos; e um romance sobre a atual situação política do nosso país.

  1. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?

o muito. Costumo procurar sugestões entre os amigos mais próximos e aqueles espalhados pelo Brasil e o mundo.

  1. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?

Gostaria muito que João Silvério Trevisan lesse meus livros e que pudéssemos ter altas conversas sobre literatura, viagens e sexualidade.

  1. Qual a maior alegria para um escritor?

Quando alguém se identifica com o que escrevo e diz “isso é exatamente o que sinto/penso/sou”.

  1. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.

Escreva diariamente, sobre todos os assuntos possíveis. Procure sua voz própria, passeie por múltiplos universos literários. Não se desanime diante das dificuldades, escrever é viver no papel. Beba muita água, coma bem, durma bem, escreva sempre que tiver vontade e pare no auge da criatividade para não deixar sua fonte esgotar (aprendi com o mestre Haruki Murakami). Acumule ideias. Abra sua mente. Seja livre e faça/dê amor!

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