Vanderley Sampaio

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  1. Fale-nos um pouco de você.

Nasci em Garça, no interior de São Paulo, em 1972. Morei muito tempo por lá. Cursei Jornalismo na UNESP, em Bauru, e trabalhei na área durante quase 10 anos. Escrevo poesia desde a adolescência. Sempre gostei de escrever, de ouvir música, de teatro… Fiz parte de um grupo amador de teatro quando ainda era bem jovem. Escrevi bastante na época da faculdade, quando conheci minhas primeiras referências literárias, mas em outros momentos da minha vida, acabei escrevendo com pouquíssima frequência, por conta do trabalho ou estudos para concursos públicos. Trabalhei em diversos órgãos e, atualmente, sou servidor da Prefeitura Municipal de São Paulo. Moro desde 2007 na capital paulista, fiz faculdade de Direito na USP e, nos últimos quatro anos, retomei a escrita com bastante afinco e, junto com minha companheira Rose Almeida, criamos o blog de poesia Absurtos, que já tem mais de 145 mil seguidores nas redes sociais.

  1. O que você fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?

Como eu disse antes, sou servidor público. Nem sempre encontrei tempo ou inspiração para escrever, mas a criação do blog funcionou justamente para me fazer exercitar a escrita. O nome Absurtos é um trocadilho entre as palavras “absurdos” e “surtos”. Porque a inspiração pode ser entendida como um surto, algo que vem de repente e toma conta da gente, provocando uma poesia inesperada, impactante. Mas o absurdo da coisa é não esperar somente pelo surto, é trabalhar com o que se tem, pesquisar, experimentar formas, temas, sons… Meu primeiro livro não nasceu no blog, já existia muito antes. Eu gostaria de tê-lo publicado há tempos, porém, não foi possível. Certamente, a força e a dinâmica do Absurtos muito me estimularam a tentar de novo e, finalmente, pude fazer o livro acontecer. A inspiração vem de pequenos fatos do cotidiano, de uma sensação universal ou de um tema abordado numa conversa. A escrita constante estimula a inspiração e não o contrário.

  1. Qual a melhor coisa em escrever?

Escrever é uma forma de libertar a palavra de dentro de você. E a palavra pode ser o que você pensa sobre algo, mesmo que não seja um poema autobiográfico. Colocar-se no lugar do eu lírico e reagir de acordo com a lógica da persona envolvida nos versos é a grande viagem mágica do poeta, do escritor.

  1. Você tem um cantinho especial para escrever?

Não tenho um lugar específico para escrever. Uso bastante o bloco de notas do celular e isso me permite escrever em qualquer local.

  1. Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?

Escrevo essencialmente poesia, mas já escrevi contos e estou escrevendo um romance há muitos anos, que pretendo finalizar algum dia. Contudo, meu gênero preferido é mesmo a poesia.

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  1. Fale-nos um pouco sobre seu (s) livro (s). Onde encontra inspiração para título e nomes dos personagens?

Meu livro chama-se “Bolerus” (com “u” mesmo), reúne 80 poemas, escritos em diversas fases da minha vida. Um deles (A noite), escrevi por volta dos 15 ou 16 anos de idade. Há outros escritos entre os 19 e 22 anos, na época da faculdade de Jornalismo. Mas há uma boa parte que foi feita entre 2014 e 2016. As temáticas variam bastante, contudo, seguem uma lógica. Há textos que contemplam assuntos mais abrangentes, sociais, a realidade do mundo que nos cerca. Outro conjunto de poemas trata mais da relação do indivíduo com os outros. E, sem dúvida, não faltam versos que falem da solidão e das reflexões do eu lírico sobre si mesmo. Há uma variação de formas. Todos os poemas do livro estão em movimento; os versos dançam ou desenham formatos. Há uma referência direta à poesia visual ou concreta. Todavia, nem tudo foi criado assim. Muitas das imagens surgiram já na fase de edição, diagramação. Os versos são livres de metrificação, mas as aliterações são frequentes. As rimas não são obrigatórias, porém, há um ritmo, uma preocupação sonora. Sobre o título “Bolerus”, vale contar que havia um programa em uma rádio FM de minha cidade natal, em que os ouvintes mandavam recadinhos, mensagens, que eram chamados de “piches”, por se assemelharem às frases que eram pichadas nos muros do interior de São Paulo. Nos intervalos da programação musical, os locutores liam os recados. Um amigo meu, chamado Alex Lecci, achava que as mensagens continham textos com pouca qualidade, cheios de lugares-comuns, e sugeriu que nós escrevêssemos algo mais elaborado. Nós já escrevíamos várias coisas naquele tempo, inclusive, fazíamos uns contos em parceria. Como vários ouvintes usavam pseudônimos nas mensagens que enviavam, o Alex inventou o pseudônimo da nossa dupla: Tangos e Boleros (este com “o”). Ele era o Tangos e eu era o Boleros. Alguns desses escritos já eram poesia. Quando fui escolher o título para meu livro, acabei me inspirando nessa fase, embora nenhum poema ali seja um daqueles “piches”. Na busca pelo jogo das palavras, descobri que “boleros” eram ritmos, músicas, danças, mas que “bolerus” era um tipo de besouro. Ou seja, a poesia contida em “Bolerus” tem o movimento da dança, porém, é capaz de incomodar, tirar do eixo confortável e belo.

  1. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?

Não recorri a uma pesquisa profunda para compor o livro todo, mas aqui e ali precisei estudar o contexto e o vocabulário adequado. Por exemplo, em “Zumbidos Palmares I” e “Zumbidos Palmares II”, o projeto de um poema que fosse visual e ao mesmo tempo sonoro, exigiu-me, sim, a procura por alguns dados históricos sobre Zumbi e por termos que soassem apropriados para aquele assunto. A forma de palma do poema remete à palmatória.

  1. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?

Durante a faculdade de Jornalismo tive contato com o trabalho dos poetas concretistas: Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari… Também fiquei muito impressionado com a poesia de João Cabral de Melo Neto. A palavra como forma e a palavra ressignificada são coisas que me encantam. As múltiplas possibilidades metafóricas da palavra fazem da poesia de João Cabral, por exemplo, um rio de comunicações. Mas até a incomunicabilidade da palavra isolada num dicionário, muda o discurso que se propõe. Às vezes, o discurso fica mudo. Os “Rios sem discurso” de João Cabral me instigaram a nadar por essa seara. Li também os romances, contos e a poesia de Machado de Assis, embora muita gente ignore que ele tenha escrito dentro deste último gênero. E sempre o admirei. Mais recentemente, debrucei-me sobre a poesia de Arnaldo Antunes, que tem um trabalho visual e sonoro muito forte em seus textos. Contudo, minha grande referência literária sempre será Fernando Pessoa. Escrevo muitos poemas sobre inquietações humanas, solidão, angústias… Bebo dessa frustração e dessa busca pelo sentir tão evidentes em Álvaro de Campos (heterônimo de Pessoa).

  1. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?

A vontade de publicar sempre existiu. Mas o acesso a uma editora, para quem vivia no interior, há mais de 20 anos, era praticamente impossível. Não havia tantas editoras independentes, por demanda etc. E sempre houve a dificuldade do gênero poesia. É o caso de se pensar: publicam menos porque vende menos? Será que se publicassem mais e fizessem um trabalho mais consistente de valorização da poesia, os livros do gênero venderiam mais? A maioria das editoras não tem foco na poesia. Mesmo que há alguns anos a poesia de Leminski tenha se tornado best seller, isso não gerou impacto tão significativo assim para os novos poetas. Enfim, os meios de autopublicação digital e a possibilidade de fazer uma edição independente em pequenas editoras e gráficas especializadas é que tornaram possível o sonho de muita gente. As inovações tecnológicas simplificaram a produção gráfica e tornaram as publicações físicas mais acessíveis também.

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  1. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?

Hoje há gráficas e editoras que se profissionalizaram na produção de livros de autores independentes. É possível encontrar material de qualidade, com edições bem feitas a um preço justo. O cenário da literatura nacional pode se fortalecer à medida em que dá mais oportunidades para que novos escritores publiquem seus trabalhos. A tendência é que essas pequenas editoras se solidifiquem no mercado. E o ramo dos livros digitais também tende a crescer.

  1. Recentemente surgiram várias pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?

É evidente que um número avassalador de publicações não garante qualidade literária. A autopublicação, por exemplo, se não contar com o cuidado de um editor, de um revisor e de outros profissionais do meio, pode resultar num livro mal escrito e mal diagramado, ainda que possa ter um conteúdo interessante. A verdade é que todos podem escrever e têm o direito de publicar. Democratizar a arte e a leitura é fundamental. O que nos resta é desejar que sejam criados mecanismos de informação e educação para que os leitores tenham condições de avaliar a qualidade técnica dos livros no mercado. De todo modo, será sempre melhor que mais autores tenham a chance de publicar.

  1. Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?

Eu não acho que o livro é necessariamente caro. Penso que, provavelmente, pouca gente dá o devido valor ao livro. Por exemplo, um livro de poesia no Brasil, nas principais livrarias, custa em média entre R$ 30 e R$ 40. Um ingresso de cinema fica em torno de R$ 20 a R$ 30 (dependendo da região, do dia da semana e se a projeção é especial, o preço varia mais). Uma pipoca pequena para acompanhar o filme não custará menos que R$ 10. Uma cerveja long neck numa casa noturna de São Paulo custa uns R$ 12. Podemos considerar todas essas coisas muito caras para o perfil financeiro do povo brasileiro. Contudo, é o livro que será preterido na escolha, embora ele custe o valor de três míseras garrafinhas de cerveja numa balada (sabemos que muita gente toma muito mais do que isso!). O livro é um meio de cultura, de educação, mas também é de entretenimento, de prazer. Comparado a uma entrada de cinema ou teatro, ele está dentro da média de preço, com a vantagem de poder ser emprestado e atingir um número maior de pessoas.

  1. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?

Eu adoraria ter escrito “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Acho a ideia do “defunto autor” uma das mais geniais que já existiram.

  1. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria? (nome da música + cantor)

Lembro-me de ver na TV, em 2008, a minissérie Capitu. E assim como muita gente, fiquei maravilhado com a melodia daquela música que Bentinho e Capitu dançavam: Elephant Gun, do Beirut. Aquela harmonia, aqueles arranjos… Acho que tem muito a ver com a dança do “Bolerus”, nesse contexto de algo que pode soar alegre e que logo em seguida parece melancólico, cujas sonoridades são um pouco estranhas, mas podem agradar muito.

  1. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”?

Difícil escolher um livro apenas… Apesar das muitas linhas temáticas baseadas em Álvaro de Campos, devo dizer que “O Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa), me impactou muitíssimo nas minhas primeiras leituras. “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, também ficou guardado como uma grande referência. E como exemplo de literatura contemporânea, Chico Buarque, com “Estorvo”.

  1. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?

Tenho novos projetos em relação ao próprio “Bolerus”. Estou preparando a edição do audiolivro, que garantirá a acessibilidade dos poemas a um público que esteja impossibilitado de ver e ler, além de oferecer o recurso para alguém que goste de ouvir poesia enquanto dirige ou realiza alguma outra atividade. Muitos dos poemas foram pensados de uma forma sonora, auditiva. A sonoridade é perceptível para quem lê, mas ficará muito mais evidente com o poema falado. Mas a novidade que já está no ar é o e-book (livro digital), que está à venda na Amazon por um preço bem menor que o livro físico, o que amplia as possibilidades de compra de quem estiver interessado. Um exemplo: um seguidor do Absurtos, que vive em Portugal, cogitou adquirir o livro. Mas só o frete ficaria em torno de R$ 80, sem contar o tempo de envio. O livro digital atravessa fronteiras muito mais facilmente. E temos vários seguidores em Angola, Moçambique, Portugal etc. Os demais projetos se referem às outras séries de poemas presentes no blog. “Kurz” e “Demetrius” são duas séries que provavelmente vão se tornar livros nos próximos anos.

  1. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?

Sim, eu acompanho o andamento de blogs de crítica literária. Há muita gente na internet que fala de livros que leu, seja por apreciação pessoal ou por encomenda. Há edições muito festejadas, de autores famosos, que vendem muito e, por isso, estão sendo comentadas. Mas há quem garimpe o meio literário à procura de novos autores, de talentos escondidos e de edições independentes. É mais raro, mas existe. Os resenhistas e os blogs são muito importantes para esse movimento de democratização da literatura.

  1. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?

Certamente, Arnaldo Antunes. Adoraria que ele lesse o “Bolerus”. Aliás, o último livro do Arnaldo, “Agora aqui ninguém precisa de si”, lançado em 2015, vencedor do Jabuti de poesia, teve fundamental importância durante o processo de elaboração do meu livro. Estive presente ao lançamento do livro dele, em que houve uma apresentação especial antes da sessão de autógrafos. Isso me inspirou a realizar uma espécie de leitura dramática durante o meu lançamento. E, nisso, tive o apoio essencial do grupo de teatro de que fiz parte no ano passado.

  1. Qual a maior alegria para um escritor?

A grande alegria de quem escreve não é somente uma. É ter sempre sobre o que escrever e poder fazê-lo. Em seguida, ser lido, alcançar um público. Assim, ter um livro publicado é muito bom! E, por último, ser reconhecido pelo seu trabalho. Uma boa crítica e um prêmio literário também caem bem.

  1. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.

Para os leitores da revista, sugiro que continuem lendo! Quem chegou até aqui para ler entrevistas de novos autores, demonstra interesse em literatura e isso é muito legal. Leiam mais poesia também. E para quem escreve e está começando, digo o mesmo: leiam. Seja para adquirir repertório, referências ou ampliar vocabulário, ler ainda é o melhor caminho. E se quem escreve não lê, como esperar ser lido? E depois, não ter medo de escrever, reescrever, revisar e submeter seu texto à apreciação de outras pessoas. Escrever é uma arte, mas também é uma prática.

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