Uma Lição Muito Antiga (Semeadores)

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Houve um dia, quando o tempo não era medido como hoje, em um lugar que não é mais visitado, um Ser, filho das Estrelas, que pediu para obter o poder de conhecer e compreender o Universo em que vivia.

Seu Criador falou-lhe:

— O que pedes será teu criança, se souberes esperar o devido tempo.

— Morrerei se tiver que esperar, dá-me agora — disse o filho das estrelas.

Mas o seu criador não o atendeu

Sendo filho das estrelas o ser tinha o poder latente que todos os filhos das estrelas têm de saber onde encontrar o que buscam.

Impaciente, buscou diretamente na fonte o que desejava.

Seu poder era grande, tinha vivido mil vidas e lembrava-se delas, mas sua sede de conhecimento era maior que sua capacidade de compreender.

Após algum tempo, apesar de advertido, descobriu como beber da fonte do conhecimento.

Sua sabedoria era suficiente para compreender que poderia suportar apenas dez por cento do conhecimento que a fonte lhe daria, mais do que isso poderia mata-lo.

Previdente como julgava ser, reuniu mais doze que, como ele, pudessem suportar dez por cento do conhecimento.

Seu plano era simples, somando todos, mais do que cem por cento poderia ser absorvido sem ninguém perecer.

Mas a criança das estrelas esqueceu que o conhecimento quando junto ao próprio conhecimento multiplica a si mesmo e não apenas soma-se ao que já existia.

Levando avante o seu intento desgraçou a si mesmo, aos que o seguiram, e a todos que estavam a sua volta, antes que o seu criador pudesse conter a fúria do que não deveria ser libertado de forma tão negligente.

A água da fonte que mataria a sede, afogou aos ineptos que não sabiam como lidar com o que estava alem da sua compreensão. Mais sorte teve os que pereceram na catástrofe, pois a eles foi dado seguirem em frente no caminho da roda da vida, abençoados pelo esquecimento do que lhes ocorrera.

Houve aqueles que não tiveram tanta sorte, e ainda aquele que, em sua ambição deixou-se cegar e não merecendo sequer o pouco do poder que tinha adquirido, agarrou-se com as unhas da alma ao que julgava lhe pertencer por direito adquirido, não se importando com o preço a pagar.

Seu criador apiedou-se do filho das estrelas e falou-lhe:

— Criança das Estrelas, devolve o que foi tomado de forma tão ilícita para que possas seguir o teu caminho em paz.

— Prefiro ser destruído a perder o que duramente consegui.

— Conseguiste? Roubaste o que não compreendes e se quiseres manter o que agora possuis terás que pagar o preço.

— Farei o que quiseres, mas jamais deixarei o que por direito me pertence, prefiro perecer a perder o objetivo de minha existência.

— O Objetivo da Existência de cada um sempre é alcançado a seu devido tempo, querer o que não pode suportar a ter é incorrer desejar a dor e a desgraça, dia virá em que te lembrarei disso.

— Que assim seja.

— Se esta é tua decisão, Assim Será!

A criança das estrelas viveu quatro mil vidas carregando o fardo do conhecimento sem jamais poder usá-lo, pois cada vez que o usava, mais conhecimento era acrescentado e mais seu fardo aumentava.

Os músculos de sua alma jovem tinham a força e o fogo da paixão, porém a caminhada era longa e a cada passo dado o fogo diminuía e o peso multiplicava.

Por fim, vencido pelo desespero, o filho das estrelas chamou seu criador e lhe disse.

— Pai, reconheço que errei, tira-me este fardo dos ombros, deixa-me seguir o caminho que mereço.

— O que dizes? Eis que o caminho que segues é o que escolheste para ti, não posso dar-te outro que não mereças mais que este que tuas escolhas criaram.

— Permita então que seja exterminado e possa começar tudo de novo.   — Filho das Estrelas, se pudesse te atender já o teria feito no instante que vi a tua dor, mas não sou mais teu guia, deixei de sê-lo no momento em que tomaste o rumo dos teus passos em tuas mãos. Foste a minha criança e te protegi até que perdeste a inocência, agora deves aprender a proteger a ti e aos que te seguem. Este é o preço do conhecimento que adquiriste.

— Por que não me mataste então, impedindo-me desta forma de seguir o caminho errado? Não foi a tua negligência que precedeu o meu erro?

— Um dia, Filho das Estrelas, aprenderás sobre o caminho. E o caminho será o teu guia e a tua resposta! Até lá deixo-te a benção da ilusão que perdurará até que teus olhos possam ver a luz sem ofuscar-se e teus ombros possam erguer o peso dos teus atos sem se partirem. Assim Será! Um dia filho, verás que não estou, nem jamais estarei adiante ou atras de ti, e sempre estarei ao teu lado.

Só então a criança das Estrelas pode dormir o sono desperto, abençoado pelos Deuses, e trilhar o caminho que a levaria de volta a casa.

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Houve um ser que desejou mais do que qualquer outra coisa saber porque o criador permitia que houvesse sofrimento no mundo, apesar de possuir o poder do Universo.

E tanto desejou que lhe foi concedido.

E tendo conhecido buscou os meios de destruir o sofrimento.

Lembrou que já vivera antes e que tinha o poder e prudente que julgava ser ensinou e concedeu o poder aos que o seguiam.

 Crianças que eram, riram do que podiam fazer e brincaram com o poder que possuíam, mas as brincadeiras ficaram violentas e o ser teve que para-los antes que machucassem a si mesmos e aos outros de forma irreversível.

Maltratado pelos que outrora o seguiam deu-lhes as costas levando consigo o poder, a dor e a solidão, pois compreendeu que não existia ninguém capaz de segui-lo em seu caminho.

Mas o tempo passou e novos juntaram-se a ele, buscando a luz que dele irradiava.

Desta vez, julgando-se prudente, não quis que o seguissem e ordenou que fossem a frente dele, e os empurrou pelo caminho.

Percebendo-se a frente do mestre, cada qual pegou rumo diferente, ignorando as advertências daquele que tentava resgata-los para o caminho, mas por estar atrás deles, não o ouviram.

O Ser chorou a nova perda, mas seguiu adiante como não podia deixar de ser. Passou a trabalhar na solidão, porém os seus atos e suas palavras atraiam mais e mais seguidores e passou a falhar-lhes e quis ser um deles, e ao vê-los em perigo salvou-os, e decidiu por eles qual caminho seguir, e passou a viver uma vida que não era sua e nem de ninguém e eles o seguiram como cordeiros que tinham se tornado sob seu jugo.

Somente tarde demais percebeu o que tinha feito e desiludido e humilhado chamou seu criador e disse-lhe:

— Perdoa-me, pois errei, liberta-me deste fardo. Não sou merecedor de carregá-lo, que a outro seja entregue.

— Que assim seja, criança das Estrelas, mas o fardo deve ser carregado por alguém. Aponta-me quem desejas que o faça.

— Pai, não o daria ao meu pior inimigo. Não existe outro meio?

— Uma vez te ajudei e te abençoei. E veja que retomaste o mesmo caminho, arrancar-te do que escolheste te faria sofrer mais do que se seguisses sempre em frente e alcançasses o que busca.

— Sinto-me cansado, creio não estar preparado para o que me aguarda.

— Cada ser no universo carrega o fardo que é capaz de suportar, levar menos do que isso deixaria o ser relapso, arrogante, irrefletido. Levar mais do que o necessário seria torná-lo inepto e atordoado.

— Que devo fazer então?

— O avaro carregaria um fardo de ouro com alegria, o sábio carregaria livros sem hesitar, o generoso recolheria o que pudesse do caminho para distribuir para aqueles que encontrasse aumentando e diminuindo constantemente o fardo que carrega, somente o humilde leva menos do que necessita e vive descansado, mas sempre sentindo falta de algo que não trouxe.

— Devo ser humilde para descansar?

— A avareza leva um fardo pesado com alegria, a arrogância o carrega sem pestanejar, a sabedoria o leva por ser útil, a generosidade o faz por amor aos outros, e a humildade permite que descanses enquanto sonhas com o que não possuis.

— Devo ser todos em um?

— Acaso existe unidade e exclusividade nos sentimentos? Existe aquele que está sempre feliz, satisfeito, triste, paciente, furioso, arrogante ou generoso? Meu filho a sabedoria consiste em usar-se o que se tem de bom e de ruim de forma produtiva.

Existiram há muito tempo dois semeadores a quem foram dados dois sacos de sementes para cada um. Um saco continha sementes de boa qualidade e no outro havia sementes apodrecidas. Um dos semeadores jogou as sementes podres fora e semeou apenas as boas.

O outro enterrou as podres para que não causassem danos, vigiou-as e aguardou que se misturassem a terra. Por fim semeou as sementes boas no solo que havia trabalhado e suas plantas nasceram mais fortes que a de seu amigo.

— Então devo usar tudo o que possuo para seguir adiante?

O amigo do semeador — continuou o criador ignorando a interrupção — ao ver como as plantas cresciam na horta do vizinho correu para pegar aquelas sementes que havia descartado e despejou-as sobre as raízes de sua horta.

Fungos cresceram das sementes podres e insetos nocivos foram atraídos matando as plantas que germinavam. O semeador ficou sem nada.

— Faltou-lhe a sabedoria para usar o que tinha.

— Sobrou-lhe arrogância para pensar que já sabia tudo o que precisava e evitar aprender com o outro como fazer corretamente. Faltou-lhe paciência para aprender como fazer, faltou-lhe humildade para conformar-se com o que já possuía e não desejar o que não estava pronto para ter, sobrou-lhe o desespero de começar novamente, totalmente dependente da caridade dos outros.

— Compreendo mestre.

— Então diga-me: Qual dos semeadores serás?

— Nenhum, pois aprendi que cada um deve ser o que é, e tentar copiar os passos dos outros leva à queda fatal. Observarei e aprenderei com os outros, mas somente quando o conhecimento fizer parte de mim como um solo adubado plantarei as sementes que tenho guardado, e quando o fizer será a minha maneira.

— E quanto ao teu fardo?

— Se o carrego é porque me será útil, arriá-lo agora poderá me fazer retornar no caminho mais tarde para buscar aquilo que só então descobri que preciso. Seguirei com passos mais curtos quando me sentir cansado, mas irei até o final da jornada com aquilo que me pertence.

— Que a tua vontade seja feita, Irmão das Estrelas! Hoje aprendeste do caminho e o caminho aliviou o teu cansaço, não te esqueças disso.

— Obrigado, Pai. Que os frutos deste momento sejam doces a quem os buscar em suas necessidades.

— O que desejas, meu filho. Assim será…