Um Filho para Mariana – Vanessa Cardoso

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Quais os critérios que usamos para classificar um livro como bom ou não? É verdade que gosto é algo muito particular; o que me agrada pode não agradar a você, e vice versa. Eu defino como bom o livro que contém uma história coerente, que inspira, que diverte, que ensina, que nos faz pensar. Uma história que seja capaz de nos surpreender. E foi exatamente o fator surpresa que mais me agradou neste livro que estou resenhando.

Para começar pela capa eu já fui tecendo algumas ideias: tem “cara” de livro espírita, essa coisa assim bonitinha, um casal juntinho, o mato verde aparecendo e tal. Depois foi o título: “Um Filho Para Mariana”. E eu pensei: deve ser dessas histórias de mulheres que desejam engravidar, mas descobre que ela ou o marido possui alguma dificuldade que impede a concepção. Tudo muito comum. Pois bem, não é nada disso.

O livro foi escrito pela Vanessa Cardoso e possui 261 páginas que a gente lê, assim, sem perceber o tempo passar de tão agradável que é. A história é narrada em primeira pessoa pela personagem-título, o que ajuda na fluidez com a qual toda a trama é desenvolvida.

O ano é de 1988. Mariana é uma pessoa bastante agradável. Trabalha como técnica em enfermagem num hospital e ama o que faz. Teve que batalhar muito para chegar até ali. Suas funções eram exercidas principalmente no berçário, onde ela aprendia muita coisa sobre maternidade. Ela sabia, por exemplo, só apenas de observar o olhar e o comportamento das pacientes e seus familiares, se a gestação havia sido planejada, se a gravidez transcorreu com a participação do pai, entre outras coisas.

Também, o que ela destaca no exercício da profissão é a proximidade com alguns pacientes. Muitos no leito, vendo o findar da vida e aproximação da morte, falam de suas dores, de seus lamentos, de suas angústias, de seus arrependimentos. Também de suas conquistas, de suas alegrias, dos momentos agradáveis que carregam dentro de si. Ela se sentia mais íntima dos pacientes que dos colegas.

Ela é casada com Paulo, um excelente arquiteto. Aos 30 anos, seu marido era a desorganização em pessoa, mas quando tomava o rumo e a concentração, realizava as coisas quase que na completa refeição. Tem uma coisa na relação do casal que me chamou muito à atenção: tudo era faixada. Eles se amavam, mas apenas fraternalmente. Nunca houve qualquer contato mais íntimo entre ambos. Eram amigos desde a infância e estavam nessa há quase 11 anos. Para mim não é algo novo; sei de histórias verídicas de pessoas que vivem situação semelhante. No transcorrer dos fatos vamos entender o porquê.

Depois de um plantão puxado, tudo o que ela queria era tomar banho e relaxar. Mas algo de muito grave acontecera: Mariana atende um telefonema, e é informada que seu sogro falecera, provavelmente vítima de infarto. Ele vivia no interior, na sua fazenda. Paulo é filho único, mas sua relação com o pai nunca foi boa. Ainda assim ele se mostra muito sentido, e os dois se preparam para viajar rumo ao funeral.

Quando eles retornam, Paulo diz a Mariana que está na hora dela realizar um dos seus desejos: ser mãe. Como eles não possuem relacionamento sexual, o método seria através da inseminação. Surge entre eles um momento de euforia com esse objetivo, mas as coisas se complicam. O rapaz tem estado gripado com muita frequência. Numa recaída, consultam um especialista, e o médico revela à enfermeira sua suspeita, que mais tarde é confirmada: Paulo está com aids.

Vale lembrar que a história se passa em finais do século XX. Naquela época, não tínhamos as opções de tratamento disponíveis hoje. As pessoas que contraíam a doença morriam em pouco tempo. Além disso, o preconceito era muito porque a maior parte das vítimas eram homossexuais masculinos, e a enfermidade era chamada de “peste gay”. As pessoas contaminadas escondiam até onde podiam, pois a exclusão social era certa.

Aconselhados pelos médicos, o casal abandona a ideia da gravidez. Com a desculpa de descansar e resolver algumas pendências na fazenda, Paulo propõe a Mariana que eles tirem férias juntos o mais rápido possível. Isso acontece. Ele é o único herdeiro, mas decide tomar providências para que sua esposa, e seu primo Pedro, que era o braço direito de seu pai na administração do negócio fossem contemplados.

Mariana acha estranhos alguns movimentos do arquiteto. Ele está em constante contato com o advogado, em reuniões demoradas e secretas. Além disso, Paulo insiste em fazer com que ela tenha algum tipo de “caso” com outro homem, e meio que indiretamente empurra seu primo Pedro, que é solteiro, para ela.

Passado alguns dias, Paulo levanta cedo, e diz que irá sair para caminhar. As horas passam, e como ele não retorna, Mariana vai com Pedro procurá-lo, receosa que alguma coisa de mal lhe tenha acontecido. No trajeto, se depara com uma cena que mudará o rumo de toda a sua vida.

Volto a dizer que o livro é muito agradável. O fato de ser uma história simples, porém muito bem escrita, faz com que eu possa indicar, sem medo. Confira!!!

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