Sobre Homens e Tulipas

0
498

O Jovem parou em frente ao portão de ferro que guardava a entrada da mansão, tocou a campainha e aguardou.

Estava com seu terno novo, e apesar do calor, tremia. Não era de frio, apenas nervoso. Tinha enviado seu currículo para uma empresa e fora convidado a comparecer naquele local.

Um homem idoso, se aproximou e lhe disse.

— O que deseja?

— Eu fui convocado para vir aqui, estou interessado em ocupar a vaga que ofereceram e…

— Ah, sim, venha comigo.

Abriu o portão e começou a se dirigir para um local afastado da casa.

Enquanto o recém chegado andava atrás do velho, reparou que este usava roupas gastas sujas de terra. Deve ser o jardineiro, pensou.

Ao chegarem próximos de um canteiro de tulipas o velho lhe disse.

— São muito delicadas e precisam de certo cuidado para plantá-las. Já plantou tulipas?

— Não, nunca tive oportunidade…mas é que…

— Venha! Vou lhe mostrar como se faz.E com todo cuidado mostrou ao rapaz como se plantava a tulipa. Depois pegou outra e a entregou ao jovem.— Tente você agora…Talvez não tenha outra oportunidade para aprender a fazer corretamente…

O jovem ficou indeciso, poderia se sujar todo e ficaria mal apresentado quando fosse ser entrevistado, mas o velho era simpático e parecia achar aquilo muito importante. Quem sabe se tomasse cuidado…

Pouco a pouco foi fazendo como o velho lhe dizia e acabou plantando a tulipa, porém sujara a roupa.

— Caramba, e agora, preciso me apresentar bem para o seu chefe. Deste jeito ele nem querer me ouvir…

— Posso lhe emprestar uma roupa.O jovem ficou pensando, que tipo de roupa o jardineiro teria para lhe emprestar, mas para não desagradar o homem resolveu aceitar.

Foram até uma pequena casinha onde o velho lhe deu uma roupa limpa mas gasta pelo uso.

E lá se foi meu emprego, pensou o rapaz. Talvez se pudesse explicar o ocorrido… Perguntou para o jardineiro onde poderia encontrar o local das entrevistas.

— Ali na casa grande, já tem alguns esperando lá…

— Então deixe-me ir, já devo estar atrasado. Obrigado por me ensinar a plantar tulipas. Talvez precise de arrumar emprego de jardineiro.

— Ora meu jovem, tudo o que se aprende é usado, até quando menos se espera.

Apressado o jovem foi até onde o velho lhe indicara, e lá encontrou com mais três que esperavam ser atendidos. Imediatamente viu o olhar de zombaria dos outros, todos de terno, e ele com as roupas do jardineiro.

Pensou em ir embora, mas resolveu o que tinha mais a perder? Resolveu ficar.

Logo entrou um senhor com um belíssimo terno e um sorriso cativante, cumprimentou a todos e abriu uma pasta onde se estavam alguns papeis.

— Vejo que todos foram aprovados nos testes iniciais, e gostaria de lhes dar os parabéns, mas nossa empresa necessita de pessoas especiais para o cargo que estão angariando.

— Eu tenho vinte anos de administração, sou….

— Sim, claro. — disse o senhor interrompendo o candidatos afoito — Sei que quase todos aqui, têm experiência em empregos anteriores, exceto nosso jovem amigo…

 O jovem que já estava sem jeito pelas roupas acabou tendo que suportar o riso mal disfarçado dos colegas.

— Porém, buscamos experiência de outro tipo. — Continuou o anfitrião — Como já disse, nossa empresa precisa de pessoas especiais, com qualidades especiais. Para isso preparamos um ultimo teste, aquele que conseguir passar terá o emprego.

Conduziu-os até uma sala onde se viam tulipas esperando para serem plantadas em vasos.

— Plantem uma Tulipa e sejam nossos novos funcionários.

O jovem agradeceu a sorte e fez como o jardineiro havia lhe ensinado. Não se preocupou com as roupas, compraria outra para o jardineiro, como agradecimento.

Os outros tentando não se sujar acabavam quebrando a delicada planta.

— Isso é ridículo. O que plantar tulipas provará sobre minha capacidade de trabalho que minha experiência anterior não tenha provado? – disse um dos candidatos furiosos.

— Prova muito para mim.

Todos olharam para aquele que havia entrado na sala, Era o velho do jardim, só que agora usava roupas bem cortadas.

— Todos vocês passaram pelo mesmo teste. A cada um de vocês chamei para ensinar como plantar tulipas, mas somente um se dignou a aprender. Somente um mostrou respeito por um desconhecido e ignorando seus problemas pessoais procurou ser gentil. Quando as dificuldades aumentaram, poderia ter desistido, se rendido a uma situação, mas não o fez. Não me importa o motivo, me importa a atitude.

— Mas… Você é o jardineiro….— disse um dos candidatos.

— Desculpem, foi uma falha minha, senhores, quero lhe apresentar o contratante. Este é o patrão, ele adora tulipas, poucas pessoas tocam nas suas espécies raras. Essas mesmas que estavam manipulando com…um certo cuidado.

— As tulipas são como as pessoas — disse o patrão — precisam mais do que técnicas, precisam de respeito, que as tratem como se fossem únicas de sua espécie, porque muitas vezes o são. Técnica eu posso ensinar a qualquer um, mas vivencia e respeito, somente a vida pode ensinar.

— Mas isso é um insulto, ser discriminado por não saber plantar tulipas.

— Não, rapaz! Não vou contratar alguém tão arrogante que não queira aprender algo novo, ou tão imaturo que necessita ver cargos e não qualidades para ter respeito. Minha empresa precisa de pessoas que comandem as máquinas, não o contrário. Saiam! Quanto a você meu jovem, no bolso de sua calça está o contrato de trabalho se quiser pode assiná-lo e devolva-o junto com as roupas. Não sei quando poderão ser úteis novamente.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here