Rafael Rosa Dias

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  1. Fale-nos um pouco de você.

Me chamo Rafael Rosa Dias, tenho 32 anos e escrevo regularmente a seis anos. Publiquei alguns volumes de forma independente e agora tenho uma obra no catálogo da Editora Buriti intitulada Lua de Sangue. Sou acadêmico de Sociologia e participei de algumas organizações não-governamentais, onde também fui palestrante em escolas.

  1. O que você fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?

Desempenhei diversas atividades ao longo da vida, seja em empresas multinacionais da área de tecnologia até pequenos escritórios de advocacia. Trabalhei nos setores de atendimento ao público, financeiro, cobrança, administrativo e outros. A inspiração para começar a escrever veio do constante consumo de literatura que balizou minha vida desde a infância. Desde contos dos Irmãos Grimm, passando por Oscar Wilde em O Príncipe Feliz e Outros Contos, até, mais recentemente, Leonel Caldela, André Vianco, Neil Gaiman, Leonardo Gori, entre inúmeros outros. Minhas preferências sempre oscilaram do realismo fantástico ao terror, e é dentro desse espectro que componho minhas histórias.

  1. Qual a melhor coisa em escrever?

Entrar em contato consigo mesmo. Existe um mundo efervescente, fantástico, em nossa mente, e a escrita possibilita, não apenas a entrar em contato com outras pessoas e compartilhar um pouco da fantasia que habita em nós, mas também a dar vida a nossos sonhos mais secretos.

  1. Você tem um cantinho especial para escrever? (envie-nos uma foto)

Não. Escrevo onde a inspiração se faz mais presente. Usualmente utilizo um computador para isso, mas também carrego comigo cadernos e um dispositivo portátil para escrever quando a inspiração queima em minha mente. O computador serve mais para dar forma ao texto e corrigi-lo, conforme as necessidades literárias do projeto.

  1. Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?

Escrevo no gênero fantasia e terror, voltado mais ao suspense. Mas escrevi uma obra, ainda inédita, em que abordo temas mais contemporâneos, sem qualquer elemento fantástico. Trata-se de um manuscrito intitulado O Ceifador no Campo de Trigo, contando a história de um adolescente de treze anos que sequestra o ônibus escolar durante um passeio de sua turma, decidido a assassinar alguns colegas que o maltrataram. Foi o único livro que escrevi fora do gênero fantasia.

  1. Fale-nos um pouco sobre seu(s) livro(s). Onde encontra inspiração para título e nomes dos personagens?

Gosto de pensar nos nomes conforme as personagens vão ganhando forma, vão progredindo. Não parto do nome e daí crio a personagem. Faço o caminho inverso. Deixo minhas personagens mais livres, sem seguir à risca um roteiro preestabelecido, fazendo com que evoluam conforme a história avança, como se tivessem vida própria e eu fosse meramente um espectador.

  1. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?

Para escrever Lua de Sangue eu pesquisei muito sobre mitologia europeia, pois a história se passa na remota região de Ardennes, entre a França e a Bélgica, em uma época igualmente remota. Criei um vilarejo típico da região e uma sombria floresta assombrada por bruxos e lobisomens. Para não ficar no lugar-comum dessas histórias, me aprofundei em pesquisas sobre a mitologia medieval dessas criaturas, alterando conforme a necessidade da minha própria história. Pesquisei também a política e a estrutura jurídica da época, bem como o armamento utilizado pelas forças militares, que desempenham um papel crucial na história. Assim sendo, embora seja um conto sobre um vila perdida no meio do nada e atacada por seres mitológicos, o enredo se diferencia das demais obras do gênero por trazer elementos totalmente novos.

  1. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?

Embora seja um leitor voraz, na hora da composição de minhas histórias, sou somente eu. Não me inspiro em outros autores porque tenho um método próprio de criação e escrita. Modifico a linguagem do livro para se adaptar melhor à história que ele conta. Em Lua de Sangue, adotei uma linguagem mais melancólica, mais pessoal, como se o narrador, mesmo distante, se aproximasse das personagens pela empatia, tomando parte ativa nos acontecimentos.

  1. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?

O mercado editorial é amplo e, estranhamente, fechado. Em épocas de crise financeira em um país não muito afoito ao prazer da leitura, é natural que as editoras se voltem sobretudo a autores com maior potencial comercial pois, apesar de todo o discurso em contrário, as editoras são empresas e as empresas miram o lucro, o dinheiro. Então temos muitos autores que foram importantes no passado mas que, agora, não conseguem publicar nada novo, apenas livros insossos de crônicas e pensamentos diversos, sobrevivendo pela força do nome que conseguiram criar na época em que ainda faziam literatura. E vendem bem. À nova geração resta a auto publicação, prioritariamente por meios eletrônicos, trabalhando duramente para fazer nome e conseguir contrato com editoras consagradas.

  1. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?

A relação entre editoras e escritores precisa avançar no país. Normalmente a editora compra um manuscrito pronto por um prazo determinado, e o autor cede, por esse tempo, os direitos autorais. O sistema seria melhor para todos se a editora assumisse o autor como um funcionário, dando suporte material e financeiro para que o livro evolua sem que o autor tenha de se preocupar com outras questões. Como pode o autor nacional, que normalmente escreve sozinho, competir com autores estrangeiros, cujos livros são o resultado de uma estrutura muito bem organizada? Então, mesmo que a literatura nacional tenha produzido autores de grande qualidade, ainda é inferior à literatura estrangeira, sobretudo a europeia e americana.

  1. Recentemente surgiram vários pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?

Essa explosão de autores nacionais é resultado direto da facilidade em se produzir e propagar conteúdo digital. O mesmo ocorre na música e em outras artes. Conforme se democratiza o acesso a essas novas ferramentas, mais profissionais surgem em cada área. O próprio mercado e a própria concorrência acabam servindo de niveladores. Não sei avaliar se o que está sendo produzido é bom ou não, mas a verdade é que existe conteúdo para todos os gostos e opções. O melhor mesmo é a profissionalização da escrita, para a produção de conteúdo realmente relevante, mesmo que o fim seja apenas a recreação.

  1. Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?

A literatura teria um alcance proporcionalmente maior conforme uma política de valorização do livro fosse seriamente colocada em prática, e isso passaria por editoras e livrarias diminuindo o percentual de lucro embutido em cada exemplar, e o poder público reduzindo a indecente carga tributária. O correto seria o livro ser isento de tributação, ou ao menos com alíquotas reduzidas. Da forma como está hoje, a literatura continuará a ser um mercado claudicante.

  1. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?

Certamente A Menina Que Roubava Livros, de Markus Zusak. Foi um dos livros que mais me impressionaram, principalmente pela linguagem e pela escolha incomum do narrador, a própria Morte.

  1. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria? (nome da musica + cantor)

Lua de Sangue cai bem com Lobo da Estepe, dos Cascavelletes. O clima da música fecha bem com o clima do livro.

  1. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”?

Tolkien e sua mágica trilogia do anel. Uma das melhores coisas que um ser humano foi capaz de conceber.

  1. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?

Diversos projetos, tantos que nem tem como citá-los aqui. Mas trabalho atualmente em uma trilogia que estou gostando muito, com o título provisório de Harlow e O Círculo de Magos Elementais. Assim como Lua de Sangue, esta história trará novos e surpreendentes elementos a um gênero que parece saturado.

  1. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?

Uma crítica literária nada mais é do que opinião de um leitor. Toda opinião é válida. Se o livro não agradou, ele é criticado; se agradou, é elogiado. O importante é saber separar críticas honestas daquelas que parecem advir de escritores frustrados. Ninguém está imune ao erro. A crítica deve ser vista como um elemento a mais na avaliação de uma obra literária, e não como o ponto definitivo.

  1. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?

Minha namorada. Ela tem uma sensibilidade interpretativa de textos simplesmente surpreendente, talvez pelo fato de ser uma poetisa muito competente. Seu talento é algo raro nos dias que correm.

  1. Qual a maior alegria para um escritor?

Não há para o escritor alegria maior do que ver alguém lendo seu livro. Tudo o mais desaparece diante desse evento.

  1. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.

A literatura é a mais apaixonante e a mais completa das artes. Não importa os sacrifícios exigidos ou os percalços que certamente aparecerão, no final, o obra terminada, o livro pronto, compensa tudo. Ver a história saindo de sua mente e ganhando forma definida, e ver essa mesma história sendo compartilhada entre as pessoas, é a maior das glórias reservadas a um escritor, o verdadeiro significado de literatura. O mercado editorial é fechado, procura autores com algum tipo de público já formado, a literatura não remunera adequadamente, e muitos portas são fechadas na procura por meios de publicação. Mas quando o autor segura seu livro impresso na mão, percebe que o caminho que o levou até ali não foi tão ruim assim.

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