Por que o escritor tem que pagar para vender?

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Li um texto esta semana em que Neil Gayman dizia sobre editoras e autores. A relação entre os dois tem que ser de somente ida para o autor. Se ele realmente falou isso ou não, não sei, mas tem muita verdade.

É mais ou menos assim: o autor está vendendo o seu produto, que é um livro, seja de crônicas, poesia, ou romance e como qualquer vendedor, é claro que ele quer ganhar sobre o produto que está vendendo. O problema é que o produto nunca é vendido da forma como ele quer. Ao menos aqui no Brasil.

Não tenho pleno conhecimento de como é feito fora do Brasil, mas nos Estados Unidos, até onde sei, todo escritor tem um agente e um editor. A editora só pega para publicar pelo potencial de venda do livro, que é o nosso produto. Nesse caso negociam os valores dos direitos e o autor recebe um adiantamento do contrato e das vendas. O escritor é um vendedor de produto, ele pode ter ou não um agente, mas normalmente não perde. Aliás, ele ganha, e muito à medida que o livro vai vendendo.

Aqui no Brasil, talvez seja um dos países em que o escritor ao invés de ser pago pelo seu produto, ele paga para que o produto seja vendido, com promessas de vendas. E paga caro. E ainda temos a imensa concorrência com os livros de autores internacionais. Como competir, por exemplo, contra 50 tons de Cinza? A saga Harry Potter? Não deveria haver competição. Até porque temos os nossos produtos, que são tão bons quanto.

As editoras brasileiras, ainda não confiam nos escritores tupiniquins, só o que posso pensar. Mas também não posso deixar de pensar que as editoras vivem de autores que pagam para publicar, e não das vendas dos livros.

O mercado editorial nacional é muito deficiente.

Apenas são selecionados para grandes editoras aqueles que atualmente estão em primeiro lugar nas plataformas grátis. Que são livros com muitas leituras e muitos seguidores. Não digo best seller porque a tradução seria melhor vendido e nessas plataformas não se vendem livros. Somente divulgação de autor e obra.

Um escritor em início de carreira nunca vai chegar a uma grande editora, a não ser que seja algo surreal o que esteja escrevendo. Nesse caso ele vai pagar caro para ter seu produto publicado. E ainda assim tem que tirar mais do bolso para que esse produto seja vendido nas melhores livrarias do país.

Como diria Neil Gayman, isso está errado. Porque o autor só perde dinheiro. Não recebe, não ganha, e muitas das vezes, não vende.

É por isso que existem muitos autores independentes, porque deve ser a única forma de se conseguir ganhar algum dinheiro com venda de livros, e mesmo assim não está isento de ter prejuízos.

Isso precisa mudar no país. Infelizmente não vejo mudanças a curto prazo.

Nosso país não tem o costume de ler, a média nacional de livros lidos por ano é uma brincadeira de mau gosto. Precisamos mudar a mentalidade do brasileiro, para que ele passe a ler mais, a gostar de ler e principalmente, que compre livros.

Além de tudo isso ainda tem que brigar para que o livro não seja pirateado e livremente passado pela internet.

Esse tipo de situação só muda com muita educação. Do estado, da união, dos pais.

Editoras têm que confiar no autor, acreditar no produto. Se confiar em ambos o livro será bem recebido por quem gosta de ler. Não temos divulgação.

O que ainda salva são as parcerias com os blogueiros. Muito pouco.

Digo isso porque sou um escritor, já com livro publicado, mas a editora pouco ou nada fez com publicidade do livro, a divulgação foi praticamente nula. Talvez no início, mas depois nem sequer uma lembrança.

E paguei para publicar… e paguei por livros em demanda. Já que estou vendendo o certo não seria eu receber pelo meu produto?

Enfim, isso precisa mudar.

Antonio Henrique Fernandes

Colunista

2 Comentários

  1. Obrigado Vânia,
    esse cenário precisa mudar, para sermos um país sério que dá incentivos aos seus próprios escritores.
    bjs

  2. Belíssimo texto, onde retrata a pura realidade do cenário editorial do nosso país. Realmente nossa cultura em relação a leitura precisa mudar urgentemente, e a questão da cobrança absurda que o escritor precisa pagar para ter seu livro publicado é vergonhoso.

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