Pilulas azuis – Frederik Peeters

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Fred conheceu Cati numa festa, organizada por amigos em comum. A garota despertou a atenção do rapaz pelo seu jeito descolado, e apesar do pouco diálogo, ele a descreveria como um tipo de “pessoas especiais… que a gente já acha familiares na primeira vez que encontra, com quem a gente não se espanta de cruzar por acaso numa esquina, e em que a gente se surpreende pensando quando está ouvindo música…”.

Durante um tempo, os “esbarros” pelas vielas de Genebra foram as únicas formas de contato entre os dois, até que um Cati aparece na frente do Fred segurando um garotinho no colo. Trocam algumas palavras, ambos apressados, e carregando no rosto a expressão de cansaço, um cansaço não apenas físico, mas a reunião de todos os cansaços possíveis de existir.

Dias depois, um novo encontro, desta vez numa outra festa. E foi a partir daí que Fred e Cati passaram a se ver com mais freqüência, e com menos pressa. Num jantar na casa dele, onde o nível de cumplicidade era palpável e os dois sabiam que a coisa poderia engrenar mais ainda, Cati revela algo, uma coisa que iria marcar aquele momento e que daria um norte mais incisivo na relação dos dois: ela era soropositiva, e o filho dela também.

O transcorrer da história é recheado de lágrimas, dor, dúvidas, mas com doses maiores de risos, esperança e muito, muito amor. Fred passa a conviver com todo o ritual medicamentoso que um portador de HIV possui, e que precisa carregar pelo resto da vida. Está sempre presente nos momentos mais delicados em que ela e o “lobinho”, nome carinhoso que eles chamam o garotinho, enfrentam.

A história também é uma aula sobre AIDS. Em determinado trecho, quando estão no médico, atormentados pelo pânico da camisinha estourada, o doutor explica, didaticamente, as formas mais prováveis de se contrair a doença, e as maneiras em que é mais fácil encontrar um rinoceronte branco do que adquirir o vírus. As inúmeras formas de preconceito vindo de familiares, amigos e estranhos também são retratadas, drama que soropositivos, ainda no século XXI enfrentam, ainda que exista gama maior de informação e o tratamento tenha avançado ao longo dos anos.

Pílulas Azuis, por ser um relato autobiográfico, atrai a narrativa para mais próximo do leitor. É mergulhar de cabeça na história e viver juntamente o drama, mas também a satisfação da convivência dessa família. Tem uma coisa muito, muito legal no final. É um post-scriptum. Não dá pra falar sobre ele sem dizer spoilers. Então, vá correndo ler o quadrinho!

Resenha de Renato Neres

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