Pepita – Passei a minha infância e adolescência sendo perseguida, sofrendo bullying – Mar’ Junior

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Nossa ações repercutem para o positivo

 ou negativo, elas reinventam a

nossa capacidade de nos transformar.”.

(Mar’ Junior, in: Pepita, 2017)

 Segundo Camago (vide referência no final da resenha), “bullying é um termo da língua inglesa (bully = “valentão”) que se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas… com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa”. Esse é o tema central do livro Pepita, escrito por Mar Junior.

Pepita, vinda de uma família abastada, é uma garota bonita, inteligente que esconde um grande sofrimento. No dia de sua formatura no ensino médio rememora as causas dessa angústia: a perseguição sistemática dos colegas de escola, que a fez de alvo durante 15 anos.

A falsa percepção de que apenas os “diferentes” são excluídos cai por terra quando conhecemos Pepita. Narrado em primeira pessoa pela garota, no começo o leitor fica em dúvida, assim como os professores da escola de elite que ela frequenta, se a perseguição que Pepita diz sofrer por parte das colegas, comandada pela Canina, líder das “populares”, realmente acontece na intensidade descrita. Contudo, essa incerteza inicial é irrelevante, já que os sentimentos de rejeição da protagonista são bem sólidos e moldam o comportamento tanto dela quanto de seus pares.

Pepita se mostra muito madura para a idade, possivelmente por causa de sua composição familiar peculiar – por mais que a garota alegue ser normal se relacionar via post it com os pais. Em contraste apresenta uma tremenda inocência em relação a certas armações que beiram ao absurdo, mas infelizmente, de acordo com vários casos verídicos, totalmente plausíveis. Peguei-me diversas vezes dizendo: ‘Pepita, não faz isso, não confie nessas meninas perversas’! Essas aberturas que a protagonista insiste em repetir deixam claro o quanto a garota apenas gostaria de ser aceita.

O autor, na construção do enredo, evidencia por meio das atitudes dos professores, coordenadores, diretores e pais, o quanto é o ambiente que promove as situações propícias para o surgimento do bullying. Essa prática de agressão, que pode ser velada ou explícita como de Canina, Juliana e companhia, é uma questão de poder e controle, não diferindo de uma violência fora do âmbito escolar.

Não é apenas o alvo do bullying que é intimidado, mas também os outros colegas que, por receio de serem as próximas vítimas, se calam e até mesmo se juntam nas ofensas. Medidas simples como realmente escutar os queixosos e não torná-los ‘o causador de problemas’ já seriam de grande alívio, além de educar para que a empatia seja uma constante, afinal, Pepita tem toda a razão: o convívio escolar é o primeiro lugar que aprendemos a nos portar e sempre será espelho do futuro da sociedade.

O livro é de leitura rápida, mas as citações bíblicas no início de cada capítulo podem deixar alguns leitores desconfortáveis, mas não compromete a trama, que visa mais a reflexão e não a doutrinação. Apesar de a linguagem ser um pouco mais elaborada do que o comum para uma adolescente, é condizente com a personagem principal que, além de ser uma das melhores alunas de um colégio particular só para meninas, buscou refúgio nos livros, na música e no atletismo para enfrentar a batalha diária e solitária, encontrando a resiliência que muitas vezes os adolescentes não têm a sorte de possuir.

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