O “Telefone sem Fio”

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Pensando...

Telefone sem fio. Quem nunca brincou disso na infância, na adolescência, em algum momento da vida? É assim: um ao lado do outro, o primeiro sussurrando para o segundo alguma coisa, o segundo para o terceiro e assim por diante até o último. E aí se vê a discrepância entre a mensagem inicial e a final. Ela foi deturpada, houve entropia (ruído no processo de comunicação entre emissor e receptor, como se fala na área da Comunicação). Conforme o emissor inicial vai ficando mais distante, o ruído vai aumentando.

Há muita coisa que a gente sabe por “telefone sem fio”. A gente ouviu alguém dizer, e esse alguém também ouviu outros dizerem, e esses outros aprenderam com outros e assim por diante. Há muita coisa em que a gente acredita, e que a gente faz, sem saber por quê. Apenas porque alguém disse. E alguém disse que é certo. E disse que é errado. E disse que faz bem. E que faz mal. E que é pra ser assim. E como é mesmo? Sem todas as superstições, enfeites e adereços contextuais, ocasionais, adaptações, superficialidades, opressões, as entropias do tempo e das mentes obstinadas dos ouvintes.

Há algum tempo eu me acostumei (ou tenho tentado me acostumar) a “desafiar o telefone sem fio”. Questionar o porquê de certas coisas, que vão de hábitos a crenças a conceitos de certo e errado. É claro, temos nossos parâmetros, mas mesmo estes, principalmente os mais antigos, que seriam as “mensagens originais”, sofreram a ação de interpretações particulares, de coisas que se tornaram corriqueiras, pensamentos que se tornaram leis, tabus indestrutíveis que ecoam de lugares desconhecidos.

E desafiar o “telefone sem fio”, o socialmente aceito e ensinado e acordado, dói. Ir contra a maré cansa. Um dia Francisco de Assis foi, Giordano Bruno foi (a Terra, o homem, a divina criação, tinha que ser o centro do sistema no lugar do Sol!), Lutero, Elvis Presley (não existia rock! E era a “música do diabo”), Martin Luther King (negros eram negros, outro tipo hostil de gente), Jesus Cristo! E muitos, muitos que todos os dias, um dia de cada vez, questionam o “telefone sem fio”, o que sempre ouviram falar que é verdade, que é certo, mas que pode não ser – e por que seria?

O ser humano nunca lidou bem com quebras de tradições. Questionamentos sobre mensagens de “telefones sem fio milenares”. Eles fizeram fogueiras para queimar pessoas vivas por causa disso, decapitaram e empalaram, tiraram a liberdade daqueles que nasceram livres. E eles fizeram isso, muitas vezes, em nome de um Deus cuja mensagem sofreu tantas entropias a ponto de torná-la irreconhecível.

O natural é não aceitar o diferente daquilo que aprendeu. Algo irônico, pois a Humanidade só evolui com novos conhecimentos e percepções. Faíscas pululam furiosas da dúvida e da mudança. Não defendo arrancar todas as raízes. Apenas algumas. Outros solos, outras sementes, outras realidades. Cortar o fio do telefone, às vezes é necessário.

Aprendamos a ter, dentro de nós, filtros. Não acreditemos cegamente em tudo, não duvidemos cegamente de tudo. Não façamos porque todo mundo faz, não deixemos de fazer porque ninguém fez. E se ninguém fez, de repente eu posso fazer. E se ninguém viu, de repente eu esteja vendo. E isso possa mudar as coisas. Ao menos eu mesmo, o que é uma grande coisa.

E se todo mundo estivesse errado? E se a tradição precisasse urgentemente ser mudada? A começar por mim?

E se a entropia estivesse ensurdecendo nossos corações? E se viver, e ser, fosse adentrar a escuridão da autodescoberta, uma solitária e constante peregrinação em direção ao que é mesmo verdadeiro?

Há uma frase do Bukowski – que não exatamente nos deu um exemplo de vida, entre mulheres de uma noite e bebedeiras de todas as noites e dias – que eu adoro:
“Aonde quer que a multidão vá, corra na outra direção. Eles estão sempre errados. Por séculos estiveram errados e estarão sempre errados”.

A Inquisição, as Eleições e até Jesus Cristo que nos digam, porque o povo O escolheu para morrer no lugar de Barrabás.

Nem tudo o que aprendemos está errado. Nem tudo o que aprendemos está certo.

Descubra por si mesmo! Essa é a jornada da vida.

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