O preço de um amor – Elizabeth Bezerra

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É uma trama que inicia-se com uma linguagem jovem e que minuciosamente vai se tornando algo adulto, escrita de forma madura, e com personagens que transbordam um carisma que conquista o leitor, e posso dizer que é difícil não se deixar envolver em cada capítulo.

     Como o livro é muito bem estruturado e pautado vou fazer essa resenha dividindo a história em três atos, assim como as obras de Shakespeare.

     Rebecca Nascera destinada a ter uma vida de princesa, cheia de amor, conforto e paz, porém, esse destino mudou de rumo no momento em que seus pais contrataram o serviço de babá numa noite em que teriam um jantar com os Hunter – seus velhos amigos.

     O grande fato é que a babá era uma criminosa se passando pela irmã e que junto a um amante idealizou um sequestro envolvendo a criança.

     No prólogo o leitor tem noção do sequestro até o momento em que pegam a criança, porém, o desenrolar fica no ar, pois pula 17 anos após…

Primeiro ato:

      Rebecca é uma jovem meiga e recatada que viveu toda sua vida num orfanato comandado por freiras, que as receberam de braços abertos quando fora deixada numa caixa na porta do orfano com apenas uma pulseira no seu braço com seu nome escrito. O único vínculo que tem com seu passado desconhecido e que pode desvendar sua origem.

     Ela acaba de completar 18 anos e como regra do orfanato tem sair e seguir com sua vida.

     A responsável pelo local, por gostar muito dela, acaba por conseguir um emprego como babá da filha de uma família rica, os Hunter, a qual o anfitrião Max sempre faz doações ao orfanato.

     E é no clima de nova jornada em que Rebecca sai do local rumo ao seu próximo destino, mesmo sendo difícil ter de deixar todos que fizeram parte de sua vida até o presente momento, incluindo sua melhor amiga Brianna a quem considera irmã.

     Tudo parece ser bom – embora haja uma carga emocional pesada pelo fato de a anfitriã, Olivia, esteja com câncer terminal e Rebecca tenha de ser a babá de Caroline por esse motivo –, até o momento em que conhece Michael, o filho mais velho do casal. Um garoto de 19 anos, encantador por sua beleza, porém com fama de cafajeste. O tipo de cara de toma o coração de uma garota e depois a descarta quando a usa, assim é visto.

     Michael, é o tipo de garoto galã que usa de seu charme para fisgar as meninas, porém tem seu lado sentimental bem escondido e que ao conhecer Rebecca vai deixando transparecer para ela – algo que nunca fizera antes com nenhuma garota.

     A cena do primeiro contato entre os dois foi bem inesperada, pois foi no meio de uma brincadeira em que ela acaba sendo uma “vitima” dele. E a cena é bem convincente: no momento do golpe do primeiro olhar, em que ela ver Michael e sua atração é instantânea, algo que a faz até acelerar o coração como se já fosse num nível de paixão, e isso é totalmente coerente, uma vez que diferente de outras garotas da mesma idade que  tem convívio com garotos, Rebeca sempre viveu num orfano em volto de mulheres, e os garotos que ela tinha contato eram crianças, então, ao se deparar com um rapaz praticamente da sua idade é plausível que se atraia de imediato.

     A autora soube desenvolver bem Rebecca, por ser uma pessoa reclusa da vida social e pouco experiente ela acaba sendo inocente em vários aspectos, um dos vários pontos acertados pela Elizabeth.

     Voltando ao enfoque do enredo:

     Com o passar do tempo ela se apega à Olivia, a quem ela sente uma conexão como se fosse uma mãe.

     Michael, como um cafajeste, começa a atiçar a jovem garota, pondo ela sobre a parede diversas verses, usando seu charme para pegar a menina inocente, até que se ver diante de uma situação não apenas de desejo, mas de sentimentos mais fortes… É quando se dar conta de que a quer mais do que uma simples ficada.

     Olivia – que se culpa pelo sequestro da filha da amiga Laura, por ter sido ela a promover o jantar naquele dia – quica com a teoria de que Rebeca possa ser a filha de sua melhor amiga.

     O leitor também começa a ter convicção disso por causa dos sinais referentes a pulseira e idade em que fora deixada no orfanato.

     Vendo-se encurralada por Michael e fortemente atraída acaba por se deixar fluir pelo romance aceitando entrar num namoro às escondidas, com medo de quebrar a confiança de seus patrões a quem jurou não quebrar, mas já é tarde e ela não sabe disfarça. Olivia já sabe e aceita e aprova a relação, porém alguém não muita amistosa com a pobre moça deseja o contrário e essa pessoa é Stacy, ex de Michael. Uma garota fútil e mesquinha que prefere todos embaixo de seus pés ao invés de no mesmo páreo, que ameaça Rebeca de destrui-la caso venha ficar no seu caminho com Michael.

Segundo ato:

      Com namora praticamente firme os dois vão para uma casa em Greenville, um local lindo onde aproveitam seus dias à sós, e neste segundo ato, na festa de Hanna, irmã de Stacy onde Rebecca também estar, é onde aparece Roger – primo de Michael.

     Fica claro que ele e Michael têm problemas que envolvem o passado.

     A questão que fica no ar é: Será que Roger apareceu mesmo do nada ou Stacy está por detrás disso querendo aprontar algo?

     Com o passar da trama a autora nos fez ver Roger como uma boa pessoa que quer reconquistar Hanna com a ajuda de Rebecca, e que provavelmente aconteceria com Rebecca, Michael, Hanna e Roger, aquilo que acontecera cerca de 18 anos antes com Olivia, Max, Laura e Nicholas, como se a geração atual caísse no mesmo destino da geração passada, porém, não foi bem assim…

     Aprofundando mais na história você descobre que Roger é um tratante à mando de Stacy que juntos querem separar Rebecca de Michael, e conseguem isso dias antes de Olivia falecer, sequestrando-a, dopando-a e forjando uma cena que faz Michael presenciar e fazer com que a odeia.

     Após acordar num hospital depois de ter passado três dias desacordada, descobre que estar grávida de um mês. Procura pela família Hunter, e descobre que Olivia morreu e ao mesmo tempo é excluída da família por Michael.

     Esse segundo ato termina com ela, sendo excluída por Michael, Vivendo reclusa com Brianna em outro local durante a gravidez e descobrindo que Laura e Nicholas são seus verdadeiros pais, e é aí, caro leitor, que se entra no terceiro ato o qual se é difícil parar de ler.

Terceiro ato:

      Rebecca após conhecer o pais e ver-se num novo mundo; num novo nível de vida que poderá lhe proporcionar alicerce para conseguir seguir em frente, decide se reinventar: onde a garota inocente meiga e fraca, começa a dar lugar para uma mulher, mãe, filha, forte, segura e independente.

     Fica por cima de toda a tragédia.

     Decidida a esquecer a atual situação de sua vida que se tornará seu futuro passado que não deverá ser tocado, convence os pais a se instalarem na Inglaterra.

     Estuda para ser a futura presidente da empresa do pai, enquanto tem de ser mãe e filha e amiga. Seu foco é usado como barreira para que tudo o que viveu seja esquecido, inclusive sentimentos amorosos – onde fica claro ser um dos pontos fraco dela.

     Entendo perfeitamente a personagem nesse aspecto, por ela ter criado um muro para que a razão e certas emoções não se mesclassem, assim, evitando sua fragilidade vir à tona, mas isso tem seu preço, pois, quanto maior o muro ficar mais a pessoa se torna fria. O ser humano precisar sentir, viver, deixar-se fluir, quando isso não acontece ele apenas existe. Embora Rebecca transmita amor à família e amigos, seu lado amoroso romântico estar se congelando e sempre abaixo de qualquer outro sentimento que possa ter.

     É quando entra Alex, que após um desentendimento acaba com trabalhar com ela, lado a lado à comando de seu pai.

     Mas assim como é na vida real é na literatura: o passado nunca morre, sempre virá te pegar de modo a trazer à tona tudo o que sempre evitara, como se fosse o propósito do destino querer te desestruturar ou dar uma oportunidade de finalizá-lo. E isso não foi diferente para Rebecca.

     Em um jantar em que estar com Alex, quando ela finalmente decide baixar alguns níveis do muro para tentar sentir algo por alguém novamente, eis que Roger aparece para acender nela e trazer o que sentira por anos e esconderá somente para si: ódio, dor, rancor, desespero e sede de vingança.

     Eis aqui, caro leitor, que a voz da mágoa dela grita aos quatro cantos do mundo, e é nesse momento que decide devolver todo o mal que a fizeram, àqueles que a machucaram: Roger, Stacy, e por último Michael.

     Nesse momento percebi que ela se tornará exatamente aquilo que abominava em Stacy: Manipuladora e argilosa.

     Claro que há diferença entre ambas, mas no final das contas deixa essa imagem.

     E o final, caro leitor, você terá de descobrir. Apenas digo que… Quando tiram algo de você… alguém tem de pagar.

     A pergunta final é: será que ela realmente vai conseguir se vingar de Michael, ou o ódio que tanto sente é na verdade amor?

      Para finalizar quero dizer que a história é tão bem estruturada e nivelada que não tem como não gostar. Até me arrepiei ao escrever isso agora enquanto repasso toda a história na minha cabeça.

     A evolução da personagem é grandiosa e bem pautada em níveis.

     Primeiro ela começa sendo uma garota indefesa, gentil, inocente com medo de encarar o mundo em que tem de viver e dar de cara com o desconhecido, com situações nunca vividas antes e sentimentos nunca sentidos, passando por provações, perdas e aos poucos com a experiência vivida até a maturidade, se cria uma força imensa tornando-se uma mulher poderosa e autoconfiante.

     Sem falar nas referências desde Shakespeare à Jane Austin.

     Além de personagens carismáticos e que nos ganham como: Brianna, Alex, Olivia (filha e avó), Michael, Nicholas, Max e Laura.

     É um livro que certamente lerei mais do que uma vez.

Resenha de Fernando Mello, resenhista do Arca Literária

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