O Pontinho Desapontado – Palmira Heine

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O livro infantil O Pontinho Desapontado é um encantador conto de fadas que brinca com uma constatação: O ponto final existe apenas para finalizar as coisas, para terminá-las. Encerra as histórias, encerra as brincadeiras… Os momentos alegres… Tudo no mundo tem um fim e quando o momento da despedida chega, é a hora do ponto final.

O pontinho queria ser como sua irmã- a vírgula- ou como os outros sinais de pontuação da sua família: o Ponto de interrogação e as reticências.

Mesmo quando existia a pausa da vírgula, logo em seguida surgia o recomeço.

O mesmo acontecia com as reticências. Tudo podia ter continuação… Menos se ele estivesse por perto!E a cada vez ele se sentia ainda mais triste… Era mesmo uma crise existencial, que coisa!

 O que fazer então? É claro que ele recorreu à Fada da Pontuação e ela, apressadamente concedeu a ele a realização de seu pedido: que o transformasse em qualquer outro sinal de pontuação, menos um ponto final.

Então a fada o transformou, mas pensou em também dar a ele uma lição muito importante… Ele desapareceria por sete dias e como estaria invisível, poderia saber tudo que iria acontecer, sem ser visto, porém. E então poderia voltar atrás e retornar, se fosse assim seu desejo. O que acham que aconteceu?

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Contei para vocês o tema central de O Pontinho desapontado como se falasse para as crianças, durante uma contação de histórias.

Aliás, foi essa sensação que experimentei ao ler este pequeno grande livro: senti-me como se tivesse diante de uma platéia contando a história para os pequenos e compartilhei com eles as surpresas, a magia e o ensinamento valioso; Em outros momentos, eu era a criança – aquela criança que ainda existe em mim-que se solidarizava com o pontinho!

Com apenas vinte páginas ricamente coloridas, tanto nas ilustrações quanto na cor vermelha da fonte utilizada e que desperta a curiosidade da criança, esse conto do gênero alegórico ilustra um ensinamento de vida através de situações semelhantes às reais, utilizando-se para isso de seres inanimados, no caso os sinais de pontuação.

Este conto pode ser encenado através de pequenos esquetes na pré-escola, ou ser apresentado por teatro de fantoches, sendo um apoio para o profissional da educação que poderá narrá-lo em diversas apresentações interativas.

As crianças se encantarão ainda mais com o livro porque aborda um assunto recentemente introduzido para eles, que possivelmente se encontram em fase de alfabetização: O valor dos sinais de pontuação especialmente do valor do ponto final, é claro.

Porém, O Pontinho Desapontado poderá servir tanto como apoio pedagógico para professores ao abordar este assunto na sala de aula, como ser escolha para livro paradidático em futuras leituras extraclasse.

A autora Palmira Heine aborda, numa linguagem apropriada para o universo infantil, um tema complexo: o fim das coisas, do encerramento de ciclos.

 A despedida para as crianças é algo de dificil compreensão, porque as crianças têm na rotina e na previsibilidade a sua segurança, e temem a separação ou a perda como situações irreversíveis e sempre envoltas em tristeza.

 E mais: o que fazer quando nos desapontamos? Porque, afinal, nos despontamos? O caráter afetivo deste conto é amplamente trabalhado numa linguagem acessível para a primeira infância.

Ao se solidarizar com o pontinho, a criança também percebe que ela, em algum momento, quis – ou ainda quer-evitar um ponto final em sua vida: ou a mudança de escola; ou uma mudança de bairro; perda de parentes ou ainda de animaizinhos de estimação. As crianças bem pequenas estão vivenciando várias situações conflitantes e nem em todas elas encontrarão a previsibilidade que desejam, ainda que nem sempre sejam capazes de nomear este sentimento. Como lidar com este momento desconhecido com coragem e alegria? É a proposta deste livro.

Por outro lado, o Pontinho deseja ser outra coisa, diferente daquilo que ele é.

E essa é, talvez, a lição mais importante deste livro: uma forma de falar sobre as diferenças, valores e aceitação.

Penso que este livro deverá ser lido pela criança, se possível na presença de um adulto e que este adulto esteja aberto às inevitáveis perguntas que virão.

Um livro maravilhoso para crianças, pais e educadores. Recomendo.

Resenha de Michelle Louise Paranhos, resenhista do Arca Literária

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