O labratuz e outras desventuras – Judith Nogueira

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Sinopse: Se a intenção ao ler O labatruz e outras desventuras é a de apreciar fábulas que tenham o que chamamos comumente de “finais felizes”, esqueça.

Este livro contém uma trilogia de contos que falam de temas tão indigestos quanto frequentes na existência humana: “O labatruz” (solidão), “O construtor de navios” (frustração) e “O homem que fazia luz” (morte).

Os personagens são exaustivamente testados em seus específicos infortúnios. É neste exato ponto que as histórias tocam o real e provocam identificação, afinal, não é sempre que aparecem fadas com suas varinhas mágicas para nos valer.

Me conta uma coisa, qual o objetivo seu quando senta para ler um livro? Você sempre aguarda finais felizes melosos, açucarados?

Se a resposta foi sim esse livro não é para você!

Quando me interessei por ler esse livro me foi passado que ele era juvenil.

Após ler eu tenho que fazer uma ressalva… esse livro faz até mesmo alguns adultos tremer nas bases.

Vivemos em uma sociedade em que alguns assuntos ainda, em 2015 são tabus.

Solidão, frustração e morte quase não estão nos vocabulários dos jovens brasileiros e isso, no meu ver, erroneamente.

Ao tratar desses assuntos no seu livro Judith tende a abrir a mente do jovem, fazendo com que ele procure saber mais sobre e evite, no caso da solidão e frustração, a cometer os mesmos erros dos personagens.

São três histórias.

A primeira é o Labatruz. Nome dado ao livro, conta a história de um ser que é encontrado por lobos e criado como filho por eles. Fez-me lembrar muito da história dos bebês que criados por uma loba fundaram mais tarde a cidade de Roma, Rômulo e Remo.

Ao longo da leitura percebi que Labatruz não tem nada a ver com a lindinha história dos irmãozinhos romanos.

Como qualquer adolescente nesta fase da vida, o ser não fica contente com sua vida, pois se sentia um patinho feio na alcatéia. As lobas não o sentiam atraente deixando o pobre muito triste. Assim, como na impulsividade de todo ser nesta idade ele foge de sua realidade e ganha o mundo.

Aqui começa a história de solidão do pobre ser que nem sabia qual era sua raça, sua espécie. A única coisa que sabia é que lobo não era e que era mamífero.

Ele passa por alguns questionamentos nesta viagem a procura de um outro ser como ele, encontra alguns animais pelo caminho e … bem, não posso ficar contando tudo aqui.

Confesso que eu fiquei tão fascinada pela história que acredito que ela merecia uma continuação, um livro somente para esse personagem especial. Mas ao mesmo tempo eu achei a história um pouco pesada, talvez não recomendaria para menores de 15 anos, pois os pequenos não poderiam saber lidar com a carga emocional do texto.

A segunda história é do Construtor de Navios. Linda, ao mesmo tempo triste.

Como lidar com as frustrações da vida?

Uma pessoa que nasce com um dom, vive em função dele, faz dinheiro por sua habilidade com esse dom, mas ainda lhe falta algo.

O construtor de navios era um menino quando recebeu esse apelido. Sempre fascinado com o que fazia queria sempre saber mais e mais. Quando adolescente se apaixonou e sua namorada não se importava sendo a segunda paixão do moço.

Vieram os filhos, o construtor estava feliz, passaria todo o seu conhecimento aos filhos, mas os interesses desses eram outros, outra realidade, outra vida, agora o construtor era rico, sua família não precisava mais de se esforçar, os filhos não tinham interesse em saber o oficio do pai.

Faltava alguma coisa, o construtor ficou triste, o vazio em seu peito cada vez maior.

Um dia ele descobriu, faria o navio perfeito com o motor perfeito.

Aqui, neste momento, Judith nos transporta para o mundo da frustração.

De como um vazio no peito e uma obsessão pode nos transformar em outra pessoa.

Esse texto é mais tranquilo de ser lido por crianças a partir de 9, 10 anos, a carga emocional dele não é tão pesada como o do primeiro texto.

A terceira e última história era do Homem que fazia a luz.

Um garoto fazia, literalmente, a luz.

As vezes ele estava muito animado, a luz era mais forte e quando, ao longo do dia, se cansava, a luz ia diminuindo de intensidade até ficar tudo escuro.

Era assim todos os dias.

Um dia esse menino, já adolescente, se apaixonou.

 Ele ficou tão feliz que sua luz ficou quente, limpa, linda. As flores ficaram felizes com toda aquela luz, ficando mais coloridas. As pessoas da cidadezinha estavam adorando toda aquela beleza. Deram a aquele momento o nome da namorada do menino, Primavera.

Com o tempo o namoro ficou mais sério e eles, o menino e Primavera, começaram a namorar, digamos mais intensamente.

Seus corpos entrelaçados faziam com que o menino fizesse mais luz, um calor descomunal tomou conta daquela cidadezinha, as pessoas começaram a usar roupas mais comportáveis. Havia horas que o calor era tão forte que não se conseguia sair na rua.

A esse momento deram o nome de verão.

Só que como toda paixão uma hora o “fogo” acaba e Primavera deixou o menino.

A partir daí a autora lida, de maneira muito inteligente com a solidão, frustração e morte.

A morte do amor, a morte de uma paixão e também a morte física do homem que fazia luz.

Eu sinceramente achei primorosa a maneira em que ela fez a analogia de fases de uma vida sentimental com as estações do ano.

Acredito que todos deveriam ler esse texto, pois nos faz pensar na vida sentimental e na maneira que podemos lidar com alguns problemas.

Super indicado para maiores de 15 anos e com algumas ressalvas para menores desta idade.

Resenha de Daniele Cabral, resenhista parceira do Arca Literária e do blog  Magia e Letras

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