O FASTASMA QUE MORA EM MIM

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O FASTASMA QUE MORA EM MIM

 

Essa semana uma leitora de um dos meus livros – Contos e Crônicas do Absurdo – entrou em contato comigo pelo Facebook me dando um flashback sobre o livro lido. Entre as muitas coisas que ela citou, um ponto que me deixou em reflexão foi a alusão que ela fez a introdução do livro. A introdução intitula-se O nascimento de um fantasma: o início de tudo.

Nessa introdução eu narro meu primeiro encontrou com a leitura e o começo da minha carreira como ghost writer. Para quem não sabe um ghost writer é uma pessoa que escreve para o escritor. Isso mesmo, você não leu errado.

Ghost writer significa escritor fantasma. Como se dá isso? Alguém, qualquer pessoa, resolve que precisa de um texto, um discurso, um artigo científico para um congresso, uma introdução para um livro, uma apostila para um concurso ou mesmo um livro inteiro. Ela precisa desse material intelectual, mas não tem tempo, vontade, capacidade ou conhecimentos para construir esses textos e então ela contrata alguém que o faça. A pessoa escreve o que foi pedido, da forma que foi pedido, recebe por isso, entrega o texto ao contratante e puft, desaparece. Assina-se um contrato onde o “contratado” passa os direitos do texto para o “contratante” uma vez que ele foi pago para isso, assina-se ainda um termo de confidencialidade, onde o contratado – ghost writer – se compromete judicialmente de nunca revelar que aquele texto ou livro é de sua autoria. O contratante pega o material escrito, dá seu toque pessoal (ou não) assina como se fosse seu e divulga o texto, artigo ou livro.

A minha leitora ficou indignada ao saber que no Brasil existem muitos (muitos mesmo) escritores que possuem seu fantasma particular. Porque, segundo ela, ler um livro e saber que não foi escrito pela pessoa que tem o nome na capa do livro é ofensivo e enganador.

Mas vejamos de outro prisma. Atrizes não são como aparentam, modelos fotográficos usam quase em sua maioria o Photoshop. Atores usam dublê, nossos políticos jamais escrevem seus próprios discursos, salvo engano. Então porque não existiria, na literatura, mascaras e enfeites?

Nada é o que parece. O livro que você está lendo pode não ter sido escrito por quem você pensa que escreveu. No Brasil, onde a indústria literária é altamente comercial e capitalista, quem tem dinheiro quer lançar livros, rápido e muitos.

Às vezes o escritor tem talento, mas não tem tempo. Ele então faz um rascunho e o ghost writer escreve o livro contextualizando a ideia do autor. Às vezes, uma pessoa qualquer, nessa nova moda de todo mundo ser escritor brasileiro, resolve que quer aparece nas prateleiras da Saraiva. Ela tem dinheiro, é bonitinha, papai paga o ghost writer, e ele escreve o livro. Papai paga uma grande editora, ela lança o livro e no sábado quando você for ao shopping verá o livro da bonitinha nas prateleiras da Saraiva. Legal, não é mesmo?

Você pode estar pensando: mas ela está falando contra ela mesma, afinal ela é um ghost writer.

Sim, estou falando de algo que vivo, que conheço e que faço há mais de dez anos. Mas não estou falando isso para denegrir a imagem de ninguém e sim para esclarecer. Não se sinta enganado, sinta-se esclarecido.

Tudo pode ser ilusão nessa vida e você deve ter a escolha de ser ou não iludido. Eu tenho meus escritores favoritos, e se eu descobrir que eles têm seus fantasmas, eu não ligo, eu gosto das histórias, me iludo deliciosamente, sem pudores, mas eu sei que sou iludida e essa á minha escolha. Por isso eu escrevo esse texto, para que você tenha sua escolha. Claro que você jamais vai saber realmente quem escreve seus livros e quem não escreve.

Mas de uma coisa eu posso te dar certeza: esse é um serviço caro, muito caro. Portanto, os autores independentes, esses que ficam entrando no nosso Facebook para pedir que compartilhemos o livro dele ou que compremos seu último exemplar, com certeza ele tem todo o mérito de ter escrito o próprio livro, porque se ele tivesse dinheiro para pagar alguém para escrever o livro dele, também teria dinheiro para pagar uma grande editora brasileira.

Portanto, não se preocupe. Somos todos inocentes!!

“A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos.” Platão

Rô Mierling – Autora e assessora editorial

Contos e Crônicas – Íntimo e Pessoal – Diário de uma Escrava – Quando as Luzes de Apagam

Site: romierling.recantodasletras.com.br

 

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