O amor nos tempos do AI5 – Ricardo Faria

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Antes de entrar na análise propriamente dita do livro, vou situar para o leitor o que foi o AI-5—forma abreviada de referir-se ao Ato Institucional n°5:

O Ato Institucional nº 5 AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, durante o governo do general Costa e Silva, foi a expressão mais acabada da ditadura militar brasileira (1964-1985). Vigorou até dezembro de 1978 e produziu um elenco de ações arbitrárias de efeitos duradouros. Definiu o momento mais duro do regime, dando poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou como tal considerados. (http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/AI5)

Esclarecido essa questão, iniciamos agora um breve resumo da trama do livro:

O professor Afonso está em sua casa, no escritório transformado em biblioteca particular, ouvindo a música”  Petiti Suite –Em Bateau “ de Debussy.Graças ao efeito mágico que Debussy-um músico impressionista- conseguiu imprimir na sonoridade da sua Obra,Afonso se percebe mais calmo, combatendo por fim a ansiedade de mais um retorno às aulas .Mesmo após anos em que lecionava“História Contemporânea” na universidade, essa ansiedade jamais o abandonara e aquele ano não seria diferente.

Casado com Celina-7 anos mais nova que ele- e pai de um casal de filhos, Afonso, 42 anos, tinha uma vida confortável ao lado da mulher e filhos, morando na casa que herdara dos pais dele.

Ainda naquela noite, véspera do princípio das aulas, ele sonhara com um barco onde ele estava com alguém-o rosto parecia borrado e ele não identificava o outro passageiro, navegando por águas plácidas. Ao fundo, ele ouvia o movimento “Em Bateau”. De repente, as águas tingem-se de vermelho e ele e o outro passageiro são tragados por um rodamoinho. Ele acorda aflito. Cético, ele não interpretou aquele sonho como um presságio.

No dia seguinte, ele conhece sua nova turma e entre os alunos, surge Haydée, a presidente do CE (central dos estudantes).

Logo a jovem é envolvida num primeiro caso: alguns jovens são acusados de fazerem trote com universitárias seminuas. Instala-se um mal estar,mas Haydée resolve a questão fazendo um abaixo assinado confirmando que tal situação jamais ocorrera,conseguindo inclusive a assinatura de Afonso. Foi o primeiro contato entre eles e o gatilho para uma futura relação de cumplicidade.

Quando Afonso passa vários livros para referência, Haydée se queixa que um dos livros mencionados não existe na biblioteca da universidade e novo mal estar se instala, porque havia recursos para adquirir os livros, só não havia “vontade politica”. Era o AI5-O ato institucional número 5 criada por militares e colocada à força de lei, mostrando suas garras nas entrelinhas, proibindo a divulgação do conhecimento e coibindo qualquer livro, música ou manifestação que pudesse ser ou originar uma expressão de rebeldia para a juventude.

Mas, esperta, Haydée percebeu que Afonso só indicaria um livro que tivesse lido, e que, se o livro era proibido, ele provavelmente teria um exemplar!

Afonso riu e confirmou a suspeita de Haydée. Como mesmo a Xerox de livros eram vigiadas e proibidas- nos casos considerados “rebeldes”- ele sugeriu que a jovem fosse à sua casa para ler o livro em questão.

Aos poucos a cumplicidade transforma-se em algo a mais, ainda não concretizado. Quando Guerra- colega de universidade e padrinho de casamento- comenta com Afonso sobre o filme recém-lançado – Dr Jivago-Afonso leva Celina para assistí-lo. Agora é a vez de Celina perceber o não dito: sob o pano de fundo da revolução russa, surge um triângulo amoroso no filme, e Celina logo transfere a situação para ela, Afonso e Haydée.

Ela e o marido têm uma conversa franca e ela aceita o caso dele, desde que isso não abale o relacionamento do casal.

Porém, nem tudo são águas assim tão calmas: uma aluna na faculdade, após três dias dedesaparecida, reaparece torturada das formas mais sórdidas e cruéis.

O clima, a cada dia, torna-se mais tenso na universidade.

Ainda que o liberalismo sexual mascare a dor e a insegurança, elas estão presentes naquela época. O autor Ricardo Faria permeia cada linha com comentários e informações sobre a situação política, cultural e ideológica do Brasil e do mundo nas 508 páginas do romance.

O Amor nos tempos do AI5”.

Logo, será Celina quem terá a oportunidade de experimentar a liberação da sexualidade feminina, que aos poucos se fixava na sociedade e passaria a formar um quarteto amoroso: ela e o marido, ela e Toninho. Afonso e Haydée e Afonso e Celina!Neste caso em particular, não havia a troca de casais (o swing) que, a proposito, também surgiu naquela época como um formato de relacionamento válido, como bem pontuou o autor.

A capa de ”O amor nos tempos de AI5” retrata duas figuras: Uma central: a figura de uma mulher ao fundo, com cabelos curtos, tendo a boca coberta por um esparadrapo.

Logo abaixo, numa menor proporção, aparece a mesma mulher dançando com corpete e tutu (um tipo de saia para o ballet).

Sobre o azul claro que predomina a cor de capa, surge uma espécie de tinta de cor vermelha que é lançada de cima para baixo, mesclando as cores e contaminando em vermelho e laranja a sensação de paz que o azul tão claro, quase branco, desperta no leitor.

Repleta de simbolismo, a capa é a melhor representação para este romance: há de se ler o que está apenas insinuado nas entrelinhas.

A linguagem culta, sem ser excessivamente rebuscada e uma revisão cuidadosa trazem para o leitor uma experiência única ao ler este romance.

Vou além: sugiro uma releitura, fixando o olhar sobre as formas sutis de expressar a emotividade no livro, os relacionamentos, as ideologias que permeiam não apenas essa Obra como a vida de cada um que viveu os tempos da ditadura no país.

Uma música veio à lembrança uma música e por fazer parte da MPB da época e que denunciava o “calar de boca” que impunham a todos naqueles dias, servem de uma espécie de resumo musical de “O Amor nos tempos do AI5”, do autor Ricardo Faria, através dos versos de Chico Buarque, em especial o trecho que considero ainda mais oportuno:

Música: Apesar de Você. (Chico Buarque)

Hoje você é quem manda/Falou, tá falado/Não tem discussão/A minha gente hoje anda/.

Falando de lado/E olhando pro chão, viu/Você que inventou esse estado/E inventou de inventar/Toda a escuridão/Você que inventou o pecado/Esqueceu-se de inventar/.

O perdão.

(Estribilho)

Apesar de você/Amanhã há de ser/Outro dia/

Resenha de Michelle Paranhos, resenhista do Arca Literária

Um comentário

  1. Interessante a temática deste livro e a resenha está muito boa.
    O livro já se encontra na minha lista de leitura para 2017.
    Um abraço.

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