Nossas urgências

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Uh! O dia precisava ter umas 30 horas!

Foto: Anne Hataway no filme “O diabo veste Prada”

 

Correndo pra lá e pra cá, resolvendo coisas sempre urgentes demais, e quando se vê já são seis horas – como disse o Quintana –, e quando se vê já é hora de (tentar) dormir (com uma agenda sendo escrita na cabeça), e não deu tempo, mais uma vez, de fazer aquilo que você queria, de ficar mais tempo com as pessoas que você mais aprecia, de diminuir um pouco o nível de estresse, ansiedade, preocupação.

Se o século XIX foi o do tédio, dos lânguidos corpos em profundas contemplações – atrás de xícaras de chá –, o XX foi o começo do que agora chamamos de “capitalismo selvagem”, um termo social depreciativo que fala sobre como vivemos em um sistema que não para, que não volta atrás, que não tem piedade. Longe de mim falar mal da tecnologia, que hoje nos dá tanta satisfação, saúde e torna as tarefas mais eficientes, mas o sistema em que vivemos atualmente de fato nos rouba, dente outras coisas, uma muito importante: o tempo.

Cada vez mais os pais apenas deixam suas crianças na escolinha, mal as veem, familiares às vezes nem se cruzam durante o dia, é trabalho cedo até bem tarde, é agora e não mais tarde, é fazer das tripas não só coração, mas rim, baço e pulmão, é ter que marcar hora para namorar ou paquerar, é cada vez menos sair com os amigos queridos, ou com menos amigos, é deixar de notar, muitas vezes, as coisas mais simples e belas do mundo – um pôr do sol, difícil de ver do engarrafamento neurótico do fim da tarde; um mar, um lago, um campo de flores, gente de todos os tipos, detalhes. Cada vez mais as pessoas correm, correm, correm como formigas, e no fim elas talvez estejam correndo de suas próprias vidas.

É até motivo de orgulho dizer que “não tem tempo”, que afinal é uma dessas pessoas úteis e bem-sucedidas do mundo atual, que “não fica batendo perna por aí”, que “tem mais com o que se preocupar”, mas até que ponto estamos sacrificando as coisas que realmente importam e que nos fazem mais bem, pelas que são “urgentes” e “inadiáveis”? Eu sei, existem mesmo coisas urgentes e inadiáveis. Mas, até que ponto?

E quando se vê já são seis horas, já são sessenta anos, o relógio já começa a falhar. O que você vai lembrar não serão os dias em que conseguiu fazer aquele trabalho extra, surpreender seu chefe, execrar-se para cumprir todas as suas metas – e que haja mesmo sacrifício, mas sem prejudicar (muito) a si mesmo; não, o que você vai lembrar serão os bons momentos com aqueles que você ama, as boas conversas, os abraços, os beijos, o lazer, as viagens, os lugares novos, os velhos lugares de sempre que preenchem a alma.

Não deixe nunca o tempo engolir, como um dragão feroz que é, as melhores pessoas e as melhores coisas da sua vida. Você nunca sabe quando ele dará a “dentada” derradeira, quando te roubará, de uma vez por todas, seu tempo para viver. Reavalie suas prioridades. Nem tudo é para agora, para ontem. Amar, sorrir e se divertir são sempre as mais urgentes de todas as nossas necessidades. São as coisas que nos fazem viver de verdade.

 

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