No Ar Rarefeito: Um relato da tragédia no Everest em 1996 – Jon Krakauer

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“Às vezes me perguntava se eu não tinha percorrido um longo caminho para descobrir que o que eu realmente procurava era algo que eu tinha deixado para trás”.

(JON KRAKAUER, No Ar Rarefeito, 2006)

 É sempre uma experiência interessante e enriquecedora quando saímos da nossa zona de conforto em qualquer aspecto da vida e não deixa de ser diferente com a literatura. Tenho dificuldade de imaginar um livro mais distante do que costuma me agradar do que uma história real sobre uma tragédia, porém, No Ar Rarefeito (Into Thin Air: A Personal Account of the Mount Everest Disaster, Jon Krakauer, 2006, Companhia de Bolso, 288 p.) só poderia ser descrito exatamente assim, mas esse fato não impede que eu considere esse livro um dos mais bem escritos que chegou as minhas mãos.

O que era para ser um artigo especial para uma revista esportiva transforma o jornalista e alpinista americano Jon Krakauer – também autor do famoso livro Na Natureza Selvagem (Into the wild, 1996, Editora Companhia das Letras, 214 p.) – em um dos protagonistas da tragédia ocorrida em 1996 no Monte Everest.

Acompanhando uma expedição comercial especializada em conduzir os clientes ao topo da maior montanha do mundo, Jon, além de relatar sua experiência a caminho dos 8848 metros de altitude, nos agracia com a história envolvendo o Everest que sempre fascinou o homem.

Impressiona a indústria bilionária que movimenta esse canto remoto do mundo e o quanto, apesar de injeção de dinheiro, a mercantilização da montanha interfere na cultura do Nepal e põem em perigo a vida dos sherpas, os habitantes da montanha, que são os que mais se expõem para fazer com que alpinistas ricos, porém mal preparados, cheguem ao cume do Everest.

Enquanto Krakauer analisa com uma pitada de culpa do sobrevivente, sua própria vida e as consequências daquele ano em que foram registradas mais mortes no Everest – 19 no total – o leitor pega carona nas inóspitas condições do Himalaia e nas emoções do escritor.

Confesso que antes desse livro não conseguia entender a atração por escaladas dessa magnitude, que ultrapassa o amor pelo esporte, colocando a vida em um risco desmedido. Contudo, Jon Krakauer, munido com sua talentosa escrita que flui de um assunto para outro sem ao menos nos darmos conta disso, nos permite vivenciar essa experiência que está ao alcance de poucos.

A única outra oportunidade de degustar uma paixão por um estilo de vida ariscado foi nos livros do também excelente Richard Bach – autor da já clássica fábula “Fernão Capelo Gaivota” (Jonathan Livingston Seagull, 1970, Editora Record, 152 p.) – em que podemos acompanhar seu pequeno avião sobrevoando as planícies norte-americanas na sua belíssima descrição em “Nada Por Acaso” (Nothing by Chance, 1978, Editora Hemus, 205 p.).

Virando as páginas dos livros, saio da minha zona de conforto – escalando, voando, sentindo – e não é essa a beleza da leitura?

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4 Comentários

  1. Muito boa resenha. Na época em que trabalhava em livrarias, havia muita procura desse livro.

  2. Amo livros que tratam de fatos reais por causa do ponto de vista Real, eu já tinha visto o filme quando mais novo, porém, não sabia que se baseava em cima de um livro. Pelo o que você resenhou o livro parece ser bem escrito e com questões pessoais, sociais mensuradas com coerência.
    Parabéns!

  3. Livros baseados em histórias reais são sempre fortes e muito emocionantes. E pela sua resenha, parece que o livro vai além da questão da tragédia, trata também de questões sociais envolvendo os habitantes da região. Bem legal.

    Parabéns pela resenha,

  4. Oi Tatiana,
    Eu assisti ao filme que foi baseado no livro do autor e, principalmente na tragédia que aconteceu no ano de 1996 (o filme se chama Everest). Uma série de eventos que culminou com uma tragédia com várias mortes, inclusive de dois alpinistas experientes. Serve de alerta para quem quer alcançar os seus limites e os limites do mundo. Escalar o Monte Everest, com seus mais de 8 mil metros não é para qualquer um e movimenta muito dinheiro, muitas vezes à custa de sherpas. Todo ano milhares de alpinistas, profissionais ou não, tentam esse feito. Tenho curiosidade em ler o livro do Jon, afinal o relato deve ser mais cru do que o filme.
    Excelente resenha.
    um abraço,

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