Não Verás País Nenhum – Ignácio de Loyola Brandão

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Esse magnífico livro “Não verás país nenhum”, do jornalista Ignácio de Loyola Brandão, data de 1981. Classifico como um dos melhores livros que já li, envolvente e inteligente, uma obra completamente atual, que trata a questão da água e o aquecimento solar em desequilíbrio. Foi a escolha da PUC Minas, quando prestei vestibular para Psicologia, mas antes de qualquer coisa, marcou minha relação com o uso da água e o saneamento.

 Tal leitura nos faz pensar que o livro foi escrito em 2015, pois parece que nos remete a uma crise hídrica atual. A narração é elaborada de forma a constituir um momento reflexivo e crítico ao sistema sócio político brasileiro. Como foi escrito em uma época de transição política, traz a tona o momento pós-ditadura e nos cria condições para um olhar sobre a História e sobre a memória.

 Um livro reconhecido e premiado internacionalmente, capaz de transportar literalmente o leitor para um mundo caótico e apocalíptico. Escrito de uma forma envolvente e angustiante, deparamo-nos com um retrato de do homem convivendo com o caos e a destruição causados por ele mesmo. Um livro forte, que nos faz pensar sobre nossas escolhas e sobre o que queremos para nós e para o futuro de nossos filhos.

 Ignácio Loyola Brandão escreveu um livro, que além de ser um romance, é um memorial histórico. A ideia, o autor reaproveitou do conto de sua autoria: “O Homem do Furo na Mão”, escrito em 1972. O livro nos fala sobre um lugar onde tudo era controlado pelo Esquema, uma espécie de governo totalitário do futuro. O cenário é constituído por águas poluídas, doenças estranhas, aquecimento solar, miséria total, comidas artificiais que injetam drogas tranquilizantes no sangue. Para os menos privilegiados, há somente a opção de urina reciclada para beber. As pessoas precisavam de fichas para beber água, circular em bairros diferenciados, amontoadas em acampamentos paupérrimos.

Apesar de ter sido escrito em 1981, o livro narra a vida numa visão futura de 2003, pelo personagem principal Souza, de 55 anos, casado com Adelaide, professor afastado pelo Esquema, o regime político que controlava tudo e todos. Foi afastado porque fazia os alunos pensarem, fato nada interessante para o Esquema. Sua vida começa a mudar, quando uma simples coceira na mão se transforma em um buraco. Um furo que vai tomando conta de sua mão, de sua mente, de sua alma, de sua vida!  É a partir do furo inesperado em sua mão, que a vida de Souza se transforma.

 Com a leitura desse livro, ficaremos estagnados com a cerimônia do corte da última árvore no Brasil e com a naturalidade da água reciclada de urina e o museu da água, onde há águas engarrafadas do passado para que as crianças conheçam os recursos hídricos de outrora.

 O livro tinha intenção quando foi escrito, de ser um alerta ácido, mas bastante sério do que nos esperava no futuro. Esse futuro teoricamente em 2003 relata parte de nossa realidade atual e um futuro breve. “Um ano sem gota de água e as represas de São Paulo secaram. Apavorado, o povo fazia promessas, enchia as igrejas”. Parece frase do governo atual de Alckimin, mas nada mais é, que a narrativa desse incrível livro.

O ano de 2003 passou, mas o aspecto profético do livro insiste em permanecer, lancinante em nossos pensamentos!  A educação ambiental e ecológica pode nos salvar? Infelizmente nada se faz nesse país sem o aval dos políticos. Mas, porque com todo o poder nas mãos, eles não fazem nada para nos salvar do desastre ambiental que o autor Ignácio de Loyola Brandão nos alerta e que já presenciamos em pequenas doses de escassez e racionamento? Não verá país nenhum, é um livro que impressiona, assusta e conscientiza! É de longe, uma das melhores leituras de minha existência! No final, fechamos o livro com uma vontade emergente de refazer nossas escolhas, mudar nossa relação com água e a ecologia e sair divulgando aos quatro cantos a importância de nossos atos presentes!

 Resenha de Mhorgana Alessandra, resenhista do Arca Literária

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