Na Minha Pele – Lázaro Ramos

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Assim que soube que Lázaro Ramos estaria lançando um livro trazendo reflexões e considerações sobre negritude, fiquei interessado em conhecer o conteúdo. O fato de se tratar de uma personalidade que está sempre na mídia, que possui considerável nível de fama e que sempre aparece na tela das tv’s através das novelas que participa certamente despertou o interesse de muita gente. Talvez não tenha sido o meu caso; talvez sim. Não vejo novela e por isso sou incapacitado de avaliar os papéis representados por ele. Mas vi vários de seus filmes.

Uma amiga querida certo dia postou um comentário em certa rede social falando que “o livro do Lázaro não tem nada demais”. Isso me deu certo freio em querer ler, pois a pessoa que produziu tal comentário é muito “ligada” nas discussões quem envolvem a questão de raça, de preconceito, e nós já debatemos sobre a temática convergindo em muitos pontos. Ainda assim decidi que iria experimentar a leitura, incentivado pela oportunidade de comprar o livro por um valor promocional.

Pois bem, Na Minha Pele, distribuído pela Editora Objetiva e com 147 páginas é um livro que, ao meu ver, pode ser encarado por dois lados: se a pessoa  já tem certo engajamento nos debates que envolvem a problemática do racismo, é possível que considere esta obra como “mais uma” e que de modo prático pouco tem a acrescentar. Se por outro lado o leitor ou leitora for alguém que pouco se interessa ou pouco se dá conta do quanto é importante trazer esse problema à tona (e me parece que o objetivo é alcançar esse público) não se pode desmerecer o valor de sua importância.

O autor nas primeiras páginas começa falando de suas origens, de sua família e do local onde nascera, no interior da Bahia. Ressalta que quando criança não se sentia diferente, diminuído, pois no ambiente em que vivia não havia espaço para privilégios de acordo o tom de pele. Depois que veio morar na capital baiana, na sua adolescência, é que veio passar por situações em que pode perceber que ser negro tinha as suas consequências impostas cultural e socialmente.

Ainda na adolescência Ramos começou a envolver-se com a arte de representar. Participou de alguns grupos, e foi no Bando de Teatro do Oludum que viu aflorar toda a sua negritude, onde pessoas semelhantes a ele batalhavam pelo mesmo propósito. Era onde ele podia se sentir igual. Onde o olhar de diminuição, de menosprezo não o alcançava. Era onde ele encontrava força e coragem para enfrentar os desafios.

Depois ele vai tratar de sua carreira. Fala dos seus primeiros trabalhos. Dos muitos “não” que recebeu. Das vezes que viajava apenas com o dinheiro da passagem. Do seu encontro, de sua amizade e da parceria que constituiu com o também baiano e ator Wagner Moura. Conversa sobre seus personagens que o tornaram mais conhecido. E das recusas que fez ao ser convidado para representar papel de escravo. Fala também dos seus projetos no cinema e no teatro.

Mas não é só sobre sua vida e carreira que o autor aborda. Ele traz comentários sobre o valor do respeito à ancestralidade e à religiosidade. Trabalha bastante a questão da família, de como ela foi e é importante para a sua formação como homem. E de como é necessário que nós, negros, mostremos aos nossos filhos, netos, sobrinhos ou até mesmo vizinhos valores que enalteçam a cultura negra, enalteçam o que é ser negro.

Destaca também suas entrevistas no programa “Espelho”. Cita alguns de seus convidados e convidadas e da importância que tiveram ao apresentarem suas ideias e reflexões sobre negritude.

Lázaro conquistou o seu sucesso através de muito trabalho e do seu talento. Ele pode ser considerado um exemplo pela comunidade negra? Por moças e rapazes pertencentes à classe pobre e que sonham em ver um dia alcançados os seus ideais? Pode servir de inspiração para um leque de pessoas que cotidianamente esbarram em obstáculos ali colocados pelo simples fato de sua cor não ser a mesma de quem tem os merecimentos? Eu acredito que sim.

Nós ainda vivemos numa sociedade em que o negro e na negra são vistos como subalternos. Em regiões como a Bahia, por exemplo, onde o número da população negra é maior, somos olhados com espanto quando ocupamos um cargo de importância ou demonstramos ter certo nível de conhecimento, ou até mesmo nos propomos a falar sobre variados assuntos.

Vivemos num ambiente onde negros e negras são tratados como excêntricos. Onde características próprias da negritude são tomadas como acessórios por gente de pele clara. Onde os corpos negros são hipersexualizados, e somos tomados como meros objetos descartáveis que possuem a obrigação de proporcionar prazer.

Termino deixando um trecho que considero pertinente para trazer reflexão:

“Meus amados amigos brancos, vocês têm sim, que pensar muito sobre isso ao educar seus filhos. Afinal eles têm que ter o compromisso de tornar toda essa merda um lugar um pouco melhor. Têm que saber que tem gente que recebe tapa na cara da polícia com dez, doze anos de idade por só uma suspeita. É pouco? Você acha mesmo pouco? Você acha mesmo lógico? Tem gente que só por ter as características que tem é considerado de menos valor. O seu filho que é branco, não experimenta essa sensação.

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