Morangos com Chantilly

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Morangos com Chantilly

 

Escrever para mim é como espirrar. Vai dando aquela vontade, aquela ânsia, aquele desespero, aquela coceira e enfim, sai. Um espirro, um alívio. Uma sensação de descarregar algo preso. Por isso eu escrevo, assim consigo colocar para fora tudo que vejo, que sinto e o que percebo no mundo que me rodeia.

Eu não faço finais felizes. Não escrevo sobre amor romântico ou mundos de fadas. Respeito muito quem o faça, mas não dá para mim.

Eu sou uma contista que conta o real, escrevo o drama do cotidiano, o acidente da esquina, o trauma de uma alma.

Porque falar de coisas ruins ou opressoras? Porque às vezes falar, conversar, colocar para fora é a melhor forma de conviver com uma sociedade que não nos apresenta muitos finais felizes. Ou vocês acham que após segundo turno das eleições desse ano vamos todos vestir roupas rosas, comer morangos com chantilly e dançar valsas ao luar?

Claro que distrair a mente, viajar e sonhar sempre é bom. Tirar um pouco o pé do chão, distanciar-se da realidade dura e cruel que nos cerca, uma vez ou outra, é legal.

Mas ser alienado da nossa verdade, da nossa política e do que realmente nos afeta é uma coisa que eu não concordo. Alienados perdem qualidade de vida, perdem a chance de mudar o país, de fazer diferença, de educar nossos filhos de uma forma inovadora para que, ao menos eles, possam conseguir se defender frente a situações onde a corrupção, a vulgaridade, a falta de moral, a mentira e o engano imperam.

Eu escrevo sobre a realidade, não sobre a desgraça. Se o mundo que me cerca fosse feito de amor, sinceridade, lealdade, verdade, companheirismo e igualdade de direitos, quem sabe eu poderia sim escrever mais finais felizes. Mas na nossa atual conjuntura política, social e econômica, onde vive a grande parte dos brasileiros, não dá para fingir que somos duendes, porque por mais que eu me esforce jamais poderei ir para a Terra da Nunca.

E que venham finais, sejam trágicos ou felizes (quem sabe não é?). Porque eu prefiro dizer a verdade a ser chamada de omissa.

As nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros.” Oscar Wilde

6 Comentários

  1. Ola Tiarles.. Obrigada por seu comentário, fico feliz que tenha gostado do texto. No entanto, deixa eu abrir um parêntese muito importante, eu não quis dizer que os contistas ou escritores de fantasia são alienados, JAMAIS. Acredito que eles fazem parte dos sonhos e fantasias de todos que gostam dos gênero. O que eu quis dizer, e lamento não ter sido entendida dessa forma, é que muitos leitores “só leem” fantasia, isolando-se de contos reais ou livros mais dramáticos-realistas, alegando que se fosse para ler desgraça, leriam jornal. Foi essa minha colocação. Acredito que temos que ler um pouco de tudo, sem jamais nos isolarmos da realidade social em que vivemos. Grande abraço..Rô Mierling…

  2. Bom texto, muito bem escrito, parabéns… Mas em um ponto discordo, você diz
    “… Alienados perdem qualidade de vida, perdem a chance de mudar o país, de fazer diferença, de educar nossos filhos de uma forma inovadora para que, ao menos eles, possam conseguir se defender frente a situações onde a corrupção, a vulgaridade, a falta de moral, a mentira e o engano imperam.”
    Que forma melhor há de se fazer isso se não através de um bom conto ou uma boa fábula? hehe
    Nem sempre contistas fantasiosos são alienados, até pelo contrário, eles viram demais a realidade e agora a remontam de uma forma para que as pessoas vejam, através de uma luneta, um lugar melhor e talvez uma maneira de se chegar até lá.

  3. Bom texto, muito bem escrito, parabéns… Mas em um ponto discordo, você diz
    “… Alienados perdem qualidade de vida, perdem a chance de mudar o país, de fazer diferença, de educar nossos filhos de uma forma inovadora para que, ao menos eles, possam conseguir se defender frente a situações onde a corrupção, a vulgaridade, a falta de moral, a mentira e o engano imperam.”
    Que forma melhor há de se fazer isso se não através de um bom conto ou uma boa fábula? hehe
    Nem sempre contistas fantasiosos são alienados, até pelo contrário, eles viram demais a realidade e agora a remontam de uma forma para que as pessoas vejam, através de uma luneta, um lugar melhor e talvez uma maneira de se chegar até lá.
    Abraço

  4. Cláudia, obrigada por seu comentário..Amei suas colocações..Queria eu também ter mais morangos em minha vida, e ver a valsa com menos intempéries , quem sabe eu consiga em breve, não é mesmo?..Bjs..Rô Mierling

  5. Gostei do seu espirro, ou melhor, da sua crônica. A vida às vezes é doce, às vezes nem tanto. Também escrevo, tudo o que publico tem o sabor, o aroma, as cores do meu instante. Acho que sim, poderemos dançar uma valsa, tudo depende desse instante, a realidade pode ser triste, mas o sabor pode ser de morangos com chantilly. Aquilo o que flagramos em letrinhas e que expressamos em palavras adoça a vida alheia. Parabéns pelo texto!

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