Mme. Brülhardt – Lúcia Amélia Brüllhardt

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O relato Biográfico Mme. Brülhardt inicia-se com um prólogo da autora bastante elucidativo, no qual entendemos o significado do título.

 Mais do que um simples sobrenome, a autora Lúcia Amélia Brüllhardt revela que o sobrenome Brüllhardt deriva do dialeto suíço brüele (chorar) + hardt (duro. Forte).

 E, ainda no prólogo,diz,contundente:

“Por isso este livro chama-se Mme. Brüllhardt, aquela que chorou copiosamente, mas que reviveu, através da obra e da graça de Deus manifestada naquele momento em sua vida.”

A capa do livro é a releitura do artista plástico Ed. Ribeiro que retratou Iansã com a Técnica “Derramamento de tinta”.

 A tela Iansã foi pintada especialmente para ilustrar a capa desse livro.

E quem seria Iansã?

Iansã é um orixá feminino- uma deusa da cultura africana- que comanda os ventos e o raio. Protetora e guerreira, Iansã está na abertura deste livro que relata os principais acontecimentos da vida de Lúcia Amélia, que são como duas pessoas: Uma Lucia Amélia que sobreviveu, vitoriosa, guerreira, a uma vida de angústias e desafios e a outra Lúcia Amélia conhecida como a glamourosa Mme. Brülhardt.

E é Mme. Brülhardt que introduz a história.

 Nesse momento a senhora está num salão onde será homenageada na noite de gala dos Laureados Madalena’s no luxuoso hotel, na cidade de Biel-Bienne, na Suíça.

Mas, ela alerta que:

“Nem sempre foi assim. O glamour e o sucesso vieram por conquistas. O lançamento desse livro significava a consciência de que renascera para uma nova fase. Quem estava ali sabia disso, principalmente aqueles que acompanharam sua trajetória desde sempre. Mulher forte, carismática, de personalidade, nunca se curvou diante das intempéries da vida. Pelo contrário, enfrentou uma a uma, até sair de todas elas vitoriosa e exuberante”.

E nesse momento somos apresentados por Mme Brülhardt à Lúcia Amélia, que nasceu na cidade de São Paulo em 1967.

Filha de um casal com um relacionamento ainda imaturo que se casou apenas um ano após se conhecerem e namorarem, com dois meses de casamento receberam a notícia da gravidez.

A menina já comemorou o aniversário de um ano na casa da avó materna. O pai não queria uma filha e sim um menino e isso foi o gatilho para a primeira separação do casal.

Foi a primeira vez que mãe e filha se refugiaram na casa da avó materna, que passou a ser o destino certo sempre após uma das frequentes brigas do casal.

Com três anos de idade, Lúcia Amélia deixou de ser filha única e nasceu aquela a quem a menina chamaria carinhosamente de “Brancola”.

Devido às frequentes separações, ela não teve residência fixa em sua juventude.

 Com nove anos aconteceria a primeira comunhão de Lúcia e a festa que se seguiria, mas a menina teve que sair às pressas da comoemoração porque sua avó chegara com duas passagens para Vitória e em seguida para Serra, onde elas iriam morar.

Ali, a primeira grande mudança no comportamento da menina se apresentou -talvez um forte indício de depressão- que foi devidamente ignorado.

Foi quando ao final do ano o boletim apareceu repleto de notas vermelhas e o pai a espancou sem dó nem piedade e a mãe, com medo de apanhar também, não interveio em favor da filha.

Debilitada emocionalmente,a menina ingeriu todos os comprimidos que vira pela casa e como acabou revelando a mãe o que acontecera,fora salva a tempo ao ser levada ao hospital.

Esssa foi sua primeira tentativa de suicídio. Mas nem de longe, a única tentativa e conheceremos as motivações ao longo da narrativa.

Aos poucos a mãe compreendeu que elas não podiam viver daquela forma, sob o julgo do que é hoje chamada violência doméstica.

 A mãe passou a fazer bolos e a menina vendia na escola, mas como ela sofira com zombarias por morarem num bairro de classe média, a jovem Luicia Amélia sentia-se diminuida cada vez mais.

O pai dela-cada vez mais violenta- se iimbuía de poder e fazia maldades com a filha.

Numa dessas atrocidades Lúcia Amélia tentou pela segunda vez suicidio e a mãe finalmente se separou do marido.

O rapaz com quem Lucia Amélia viria a ter a primeira relação sexual consensual acabara por ser seu primeiro marido, num casamento prematuro, para “calar a boca” da cidadezinha do interior.

O rapaz, que desejara casar-se com ela, ficou feliz com acordo, mas não Lúcia Amélia, muito menos a familia dele.

Quando nasceu o primeiro filho, devido aos poucos recursos a criança morreu em poucas horas, mas o bebê fora posto num caixão, enterrado e esquecido-aos menos pelos outros. Lúcia Amélia nunca se esquecera da dor de perder um filho.

 Tempo depois nasceria Emanuel e seria um momento feliz, mas nem por isso a vida reservaria apenas alegrias para ela dali em diante.

A felicidade fugia entre seus dedos e ela era velente, estrategista e saía-se das situações, mas a depressão nunca deixara de rondar sua vida e vez ou outras ajustavam-ela e a vida- as suas contas.

 A jovem fazia o que fosse preciso e pagava o preço que exigia a sua liberdade e rebeldia.

Às vezes saía-se vitoriosa. Outras vezes levava rasteiras da vida.

Separada do marido fugiu com um rapaz para Minas e passou a viver em regime quase de cárcere privado, pelo ciúme doentio do segundo marido.

É interessante quando a autora pontua:

‘Continuei minha vida de festas e diversão, alternando momentos de altos e baixos. Aqui abro um parêntese e pergunto: – Qual o ser humano que, passando por tudo o que passei, consegue manter o equilíbrio? Em noites de superlotação, as festas no clube da cidade não eram as mesmas sem a minha presença. Os olhares de todos se voltavam para mim. Admiravam a minha beleza, charme e audácia. E, fatalmente, no dia seguinte, eu era a principal notícia do dia.

E ainda comenta num outo momento, trazendo a mensagem do dito popular para si: “falem mal, mas falem de mim”.

Uma amiga Betty conseguira um emprego de dançarina na suíça a convencesse para ir para lá se encontrar com ela, que a estaria esperando no aeroporto e lá chegando, após um tempo, é que Lucia Amélia se dá conta que a amiga é na verdade é uma treficada do sexo.

Como a personagem Lúcia Amélia deixa de se prostituir para dar a primeira grande virada em sua trajetória e, num país distante para onde fora levada como escrava sexual, dar a volta por cima e se tranforma na Mme. Brülhardt?

 Isso é que o leitor terá que descobrir.

Narrado em primeira pessoa, ora em terceira, através do alter ego que recria a trajetória da menina pobre que nasceu em São Paulo e viveu como nômade em várias regiões do país cometeu várias tentativas de suicídio.

É ela, a Mme. Brülhardt que narra como um testemunho em pouco mais de 100 páginas a controvertida história da criadora da ONG MADALENA’S (Organização Não Governamental) para atuar de forma preventiva contra a exploração de meninas.

Embora curto, é um livro muto intenso, do tamanho de um conto e narrado como um testemunho de vida, como página de um depoimento, um diário, uma recordação vivida.

É interessante olhar de fora e ver as consequências boas e más de cada ato praticado,assim como é complexo não entender um pequeno conto biografico como um gatilho para examinar a própria vida enquanto leitor,naquilo que poderia se assemelhar ou distanciar-se dos fatos narrados.

Não se deixem levar pelas poucas mais de 100 páginas com a idéia pré- concebidade de que seria um livro de fácil leitura por ser pequeno.

A narrativa é fluída sim, simples até, mas com vocabulário preciso.

 A leitura é contundente e se torna dificl e bela, pela dramaticidade e superação que a mensagem apresenta.

Mme. Brülhardt é contado mais com narrativas do que com diálogos e omite alguns fatos e altera nomes por se tratar de fatos e situações de pessoas reais.

Interessante depoimento. Vale muito a pena ler.

Resenha de Michelle Louise Paranhos, resenhista do Arca Literária

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