Leonardo Nóbrega

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  1. Fale-nos um pouco de você.

Nasci em 1960 no Centro de Fortaleza (CE) em uma época em que se podia respirar e circular tranquilamente pela cidade. Sou o quinto filho de uma família de seis, portanto com quatro irmãos mais velhos o que influenciou muito meu gosto por ler (meu irmão mais velho era, e ainda é, obcecado por livros e me apresentou desde pequeno a Júlio Verne), além do meu pai que sempre tinha um livro nas mãos e minha mãe licenciada em História. Sou marido, pai, professor, geógrafo, psicanalista, escoteiro e escritor.

  1. O que vc fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?

O meu trabalho oficial, por assim dizer, é de professor. Faço parte do quadro de professores do Estado do Ceará e ensinei por 25 anos em uma escola particular de Fortaleza de onde me afastei há dois anos.

Escrever sempre esteve presente na minha vida, mas só escrevi o primeiro romance quando cheguei à casa dos 40 anos e esse livro jamais foi publicado (nem será. Ficou terrível. Está enterrado no quintal embaixo de camadas de terra e com concreto por cima rsrsrsrs). O meu primeiro romance publicado (Outros Tempos) veio de uma questão que assola todos em algum momento da vida: como teria sido viver em outra época? Veio daquela frase que escutamos tanto dos mais velhos que compara o tempo de hoje com o passado: Na minha época. Mas a inspiração vem de vários lugares e modos, para o escritor tudo é inspiração.

  1. Qual a melhor coisa em escrever?

Pergunta difícil, fiquei tentado a responder que é tudo, mas acho que provocar emoções, sensações e reflexões nos leitores é muito legal. Ter a oportunidade de exteriorizar tudo aquilo que transborda no nosso íntimo e puder ser quem não  somos através dos personagens que criamos, além é claro do aprendizado, não se escreve bem sem pesquisa. Aprende-se em cada livro escrito mais do que qualquer tempo de escola.

  1. Você tem um cantinho especial para escrever? 

Tenho sim. Minha casa não é tão grande, mas  meu quarto de dormir que é enorme (22m²) e serve como escritório/biblioteca.

  1. Qual seu gênero literário? já tentou passear em outros gêneros?

O Outros Tempos é um romance histórico com pitadas de suspense e o Crimes do Tarô, embora se passe em 1935 não é exatamente um romance histórico, embora faça alusão a algumas características da época. Ele está mais para um romance policial de suspense leve e crítica social. Entretanto os dois que estão a caminho (isso mesmo, tem dois sendo produzidos rsrs) não acontecem no passado, mas no presente e são mais ligados à psique, são mais introspectivos, mas mantêm uma característica da minha escrita que é um quê de mistério.

  1. Fale-nos um pouco sobre os livros “Outros Tempos” e “ Crimes do Tarô”

Falei um pouco na pergunta acima e para não escrever uma tese (rsrs) vou tentar responder essa com a sinopse dos livros. Na ordem de publicação:

Outros Tempos: Ulisses, um jovem e bem-sucedido jornalista que vive na bela e agitada cidade de Fortaleza, tem sua despreocupada vida de solteiro transformada quando acorda, numa manhã qualquer, no ano de 1942. Nessa “nova” vida, no passado, o recebimento de um pacote misterioso deixado para ele pela bela Camille o envolverá em uma série de eventos relacionados com a II Guerra Mundial, com uma célula nazista no Brasil e com a resistência brasileira, que o levará, alternadamente em suas duas vidas, por um labirinto angustiante de segredos, códigos, traições e mortes, mas também de poesia, festas e romance. Uma história envolvente e surpreendente.

   Crimes do Tarô: O policial Tomás tem uma vida sossegada  naquela pacata cidade praiana. Seu trabalho se resume a resolver conflitos familiares, pequenos furtos e, muito raramente, algum crime passional. Entretanto essa paz é interrompida bruscamente após a invasão ao principal banco da região. O ladrão, que o guarda-noturno jurava ser uma mulher, havia levado o dinheiro e deixado para trás um defunto e uma cidade em polvorosa, além de duas figuras coloridas dentro do cofre vazio. Duas cartas de tarô. Crimes do Tarô é uma trama costurada com ação, romance, mistério e suspense que passeia por comunidades ciganas e sociedades secretas. Roubos, mortes e paixão conduzirão o leitor através de vielas fétidas e labirintos esotéricos a um desfecho instigante e surpreendente.

  1. Onde encontra inspiração para os nomes dos personagens?

Os nomes dos personagens surgem de diversas formas. No Outros Tempos procurei usar nomes mais antigos mesclados com algumas homenagens ou vinganças (hehehe) dependendo da personalidade do personagem. Já no Crimes, como tem uma pitada de esoterismo, eu pesquisei os significados dos nomes (Por exemplo: a cigana mais experiente se chama Sônia, que significa a sábia), mas mantive homenagens a amigos que já faleceram e também a colegas escritores vivos, evidentemente rsrs, inclusive com títulos de livros escondidos no texto.

  1. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?

Pesquiso costumes, fatos, objetos, tipos de prédios etc… que ocorreram e existiam à época e características dos grupos que serão citados, tendo o cuidado de não usar nomes que sejam reais, a não ser nos casos de domínio público, e/ou que sejam ofensivos. E, no caso das profissões que aparecem na trama, como esses profissionais desempenhavam suas funções. Algumas pesquisas são próprias de cada livro, por exemplo, no Crimes do Tarô precisei estudar sobre o Tarô de Marselha que é o usado no livro. Li artigos na internet, comprei e li livros sobre o assunto, comprei as cartas e as usava como inspiração espalhadas sobre a mesa e, é claro, consultei uma taróloga.

  1. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?

Freud afirmou em 1914 que “recusou o enorme prazer de ler Nietzsche”. Ele fez isso para não se influenciar pelo pensamento do filósofo que era extremamente parecido com o dele. Claro que estou a zilhões de quilômetros de distância dos dois (meus mestres), mas procuro seguir essa linha. Embora não possamos fugir às influências que nos impõem a vida tento (não sei se consigo), na medida do possível, me manter original. Para isso durante o tempo em que estou escrevendo um livro suspendo qualquer leitura que não seja pesquisa para o texto. Mas, confesso ter certa inveja e o desejo de algum dia escrever como o Albert Cossery e o Saramago.

  1. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?

Na verdade nunca tentei publicar pelos caminhos tradicionais de enviar o original para a apreciação das editoras. Participei de concursos literários, mas com o original que está enterrado no quintal rsrs que, obviamente, não ganhou nada. Eu sou auto publicado, paguei para publicar o Outros Tempos e a aceitação dele (leia-se vendas) pagou o Crimes do Tarô que, eu espero, pagará o Mensageiro da Morte (título provisório)

  1. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?

Instigador e esperançoso. Tem muita gente boa aparecendo pelo país.

  1. Recentemente surgiram vários pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?

Acredito que sempre foi assim, sempre tivemos, em todas as artes, obras excelentes, medianas e medíocres. Mas somente as boas sobrevivem e cabe ao público, seja leitor ou espectador, separar o que deve ser mantido do que será descartado.

  1. Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?

A cultura é quase sempre cara, mas acredito que no caso específico dos livros tem havido uma tendência para a queda. Talvez pela ampliação das possibilidades de publicação. Quando eu próprio vendo meus livros posso vender mais barato já que não vou ter custos dos quais as livrarias não podem fugir, como aluguel, energia, impostos diversos, salários e vários outros. Além disso, hoje o autor pode contar com os e-books que tornam o acesso mais barato para o leitor. Os meus ainda são apenas físicos.

  1. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?

Existem alguns. Dom Quixote; A Volta ao Mundo em 80 Dias; O Caso dos Dez Negrinhos;  Peixe Grande; As Intermitências da Morte; Mendigos e Altivos; Mantive o ponto e vírgula porque a lista poderia se estender mais. Mas gostei muito de ter a ideia do Outros Tempos e do Crimes do Tarô. No futuro alguém vai incluí-los em uma lista como essa. rsrsrs

  1. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria? 

Outros tempos – Artigo 26   https://www.youtube.com/watch?v=fyhbVzqaNQY

Longarinas https://www.youtube.com/watch?v=Qsk2hV01HNQ

As duas canções são de autoria de Ednardo, cantor e compositor cearense e falam de passagens importantes da história da cidade de Fortaleza.

Crimes do Tarô – https://www.youtube.com/watch?v=G33DhXWUxgI

  16. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”? 

Acho que poderia eleger um para cada fase da vida, mas, provavelmente, ainda não li nenhum tão  importante assim e talvez nunca considere algum assim.

17. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?

Sim. Estou continuando a escrita do livro Mensageiro da Morte e começando outro com título provisório de O Homem no Quarto.

  1. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? o que você acha sobre isso?

Não acompanho tanto quanto gostaria, mas não vejo problemas quanto a isso. A única reserva é em relação ao entendimento do(a) blogueiro(a). Percebo que às vezes o crítico não captou muito bem o que o autor quis dizer (ou o autor não deixou claro rsrs) e faz a crítica baseado(a) na própria expectativa. Até acho isso natural. Depois da obra publicada ela não pertence mais ao autor e sim ao leitor que vai “grudar” nela sua história de vida, sua realidade.

  1. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?

Meu pai, falecido em 2013 e que por isso, infelizmente, não chegou a ler os meus livros.

  1. Qual a maior alegria para um escritor?

Vou me permitir parafrasear Kafka para responder: Queremos livros que afetem os leitores como um pontapé. Um livro tem ser como um machado diante de um mar congelado em nós.

  1. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.

Certa vez vi uma frase no para-choque de um caminhão que dizia assim: Se você está lendo isso é porque está perto demais. Então leitores, se vocês estiverem lendo isso (tiveram essa paciência toda rsrs) é porque estão no caminho certo.  Ler nunca é demais e é o primeiro e mais importante passo para ser um cidadão consciente e não manipulável, mas também para se tornar um escritor. Existem leitores que não escrevem, mas vocês nunca irão encontrar um escritor (bom) que não leia muito e se um dia resolverem escrever sejam independentes e profissionais. Independentes para escreverem o que e como desejarem sem se deixarem e profissionais na publicação e na própria imagem. Lembrem: O livro e o seu escritor são produtos (alguns colegas irão me excomungar por isso rsrs) e devem ter uma qualidade superior. Abraços e obrigado à Arca Literária e a Ceiça Carvalho.

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