Leonardo lopes da Silva

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  1. Fale-nos um pouco de você.

Sou uma pessoa apaixonada pelas letras e pelas línguas nas quais elas são escritas. Sou um sonhador que tem ataques de realismo, um humanista com uma formação profundamente espiritual, um viajante e explorador de cidades, museus, livrarias, florestas e mundos literários, que valoriza muito a vida em família e o encontro com amigos e novos contatos, porém desejoso de manter um espaço onde eu possa estar sozinho e recarregar as baterias da minha introspecção. Sou amante de cozinhas e sabores de todo o mundo, além de rock, indie, jazz, blues, soul e MPB. Assisto filmes por diretor – Sidney Lumet, Hitchcock, Charlie Kaufman, Sophia Coppola, Tarantino, Jason Reitman, Wes e Paul Thomas Anderson, Spielberg – e sou louco por qualquer coisa escrita por Neil Gaiman.

  1. O que vc fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?

Sou professor de português e inglês, e esse é o meu ganha pão e paixão profissional. Também faço traduções e interpretações . A inspiração para a escrita vem da minha vivência emocional de fatos do meu dia a dia e da realidade ao meu redor, além da vontade de querer escrever das mesmas fontes onde os grandes poetas que li e leio se inspiraram.

  1. Qual a melhor coisa em escrever?

A possibilidade de criar uma voz, um tom e musicalidade, uma paisagem poética que nunca pensei pudesse partir de mim. Muitas vezes estranho o que escrevi, pergunto-me de onde vieram as imagens e metáforas dos poemas. Não consigo  recitar de cor muitos poemas, eles parecem ter vindo de uma parte de mim até então desconhecida. É muito interessante se redescobrir através da própria escrita.

  1. Você tem um cantinho especial para escrever? 

Tenho sim, é o meu quarto e a minha cama.

  1. Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?

Acho difícil definir. Creio que comecei firmemente no romantismo poético, e fiquei tão revoltado comigo mesmo por estar em algo tão lugar comum que passei a experimentar com outros estilos. Possuo uma forte veia simbolista, mas o fato de escrever na maior parte do tempo em verso livre, com neologismos, rupturas morfológicas e sintáticas, e hibridismos, me posiciona no modernismo poético, próximo ao surrealismo.

  1. Fale-nos um pouco sobre o seu livro. Onde encontra inspiração para o título dele? E o títulos dos poemas?

O título veio de uma afirmação feita por uma grande amiga minha, que ao ler os poemas, disse que eles eram pulsantes. Como o livro descreve de certa forma o nascimento e o desenvolvimento da minha voz poética, achei válido associá-lo à ideia de língua, muito cara a mim, uma língua própria. A minha língua. Como tudo que escrevo, desejo dar às palavras duplos, triplos, múltiplos sentidos. O pulsar é também um tipo de estrela muitíssimo especial. Uma estrela que, ao atingir o seu apogeu, implode e torna-se muito menor e mais compacta, girando em seu eixo a velocidades estonteantes. Neste processo ela emite sinais de radio regulares, que se propagam pelo universo,  e são captadas por nós. Elas possuem um tom próprio e único, e poderiam muito bem ser confundidas com um sinal de uma civilização extra-terrena.  Essas estrelas podem ser as referencias para que criemos o nosso GPS do universo.  O mais fascinante nisso tudo é – o que esses sinais devem dizer? Poderiamos um dia decifrar a “língua” destas estrelas pulsares? O que elas teriam a nos dizer? Penso que a imagem de uma estrela pulsar é a metáfora perfeita para o que é ser escritor e poeta, e  a sua importância no nosso universo de letras.

  1. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?

Interessante você perguntar isso. Nos poemas mais antigos, as ideias vinham de forma muito mais compulsiva e obcecada, uma torrente de metáforas e imagens. Os poemas mais recentes sao formados com um certo tom e vocabulário próprios, que ajudem a construir uma imagem visual e auditiva marcantes na mente do leitor. Tenho algumas imagens base que quero construir e algumas palavras que penso ser necessárias, e que são postas juntas através de livre associação. Coisas estranhas ocorrem quando escrevo, como por exemplo, a fissão de palavras para a construção de novos significados. No poema “Lusitar” , que escrevi recentemente, quebrei a palavra “explorador”, que normalmente usamos para descrever os descobridores portugueses, para exortar o espirito português atual a “explorar a dor” (que ele evita), que ele se veja por dentro, que se redescubra para continuar a desbravar outros mundos! Lusitar também parte do adjetivo lusitano, que pode ser reentendido como trazer a luz aonde você transita, luz e andar, lusitar.

  1. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?

Sim, vários poetas e escritores foram e são meus pais literários, como Olavo Bilac, Machado de Assis, Alvares de Azevedo, Castro Alves, Cruz e Souza (sempre!!!), Augusto dos Anjos, Shakespeare, Blake, Wordsworth, Shelley, Tennyson, Walt Whitman, DH Lawrence, George Orwell (mudou para sempre as minhas noções de ficção científica e de sátira política), Emily Dickinson, Don Marquis (engraçadíssimo!), e o meu mui querido Wilfred Owen, a perda mais trágica da literatura inglesa para a 1a. Guerra Mundial.

  1. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?

A maior dificuldade foi superar a síndrome de escritor de gaveta. Quando finalmente tomei vergonha na cara e pus como um proposito na minha vida a necessidade de expor os meus poemas ao mundo, a Editora Chiado foi a primeira a me dar essa oportunidade. Recebi a proposta de publicação uma semana depois de decidir publicar um livro de poemas e de submeter o meu manuscrito a eles.

  1. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?

Bastante fragmentado, com muito talento que precisa obter o estimulo certo para ser visto e reconhecido. Vivemos demasiado do passado e do que vem de fora, e  ainda não temos um aprofundamento do hábito da leitura como uma afirmação de identidade pessoal, cultural, nacional. Quantas pessoas podem dizer ter lido as grandes obras da literatura nacional de forma gradual e cronológica, chegando aos tempos atuais, com uma ideia exata de nossa riqueza cultural e literária? Muitos poucos. Precisamos criar leitores sim, mas estimulá-los a ir além, a se aventurar mais em outros gêneros, a se perderem e se reencontrarem, e expressarem a multidão de vozes que eles ouviram e ouvirão.

  1. Recentemente surgiram vários pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?

A infância de um novo período de produção literária sempre ocasiona esta multiplicidade de obras e de autores, que naturalmente estão em momentos distintos de sua vida como escritores. É um fenômeno bem vindo, mas é bastante difícil lidar com o fato que é preciso tempo e paciência até que o seu livro encontre o seu publico alvo, e que muitas vezes você se sente atrasado em relação ao que você escreve, que milhares, milhões de pessoas já escreveram, escrevem e escreverão sobre o que você escreve, agora em escala global, e que tem de deixar uma marca própria para ser lembrado de alguma forma.

  1. Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?

A lógica da oferta e da demanda é uma falácia no mercado editorial. Há muitos leitores que desejam consumir mais, porém como irão fazê-lo sem ter acesso aos livros com preços mais adequados a realidade econômica brasileira? É importante criar um ambiente que estimule as editoras a publicar obras de forma sustentável, mas sem perder a visão de formação e amadurecimento do publico leitor brasileiro, levando em conta o fato que as mídias digitais fazem uma parte essencial deste processo.

  1. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?

“O Jogo dos Tronos”, de George R.R. Martin. Ainda teria idade, saúde e vitalidade para escrever os livros antes que os escritores da serie de TV sequestrassem a narrativa.

  1. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para o seu livro qual seria?

Ziggy Stardust, de David Bowie – Aerials, de System of a Down – Wonderful One, de Jimmy Page – Right Through You e Cant not, de Alanis Morrisette – Bomb Track, de Rage Against the Machine – The Real Mc Coy, de McCoy Tyner – A Love Supreme , de John Coltrana.

  1. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”?

Sim. “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo. Especialmente “Continente” e “Arquipelago”

  1. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?

Sim, estou começando a investir mais em contos. Escrevi o meu primeiro, chamado “Felix”, e gostei do resultado, apesar de achar torturante o processo de escrita dele. Gostaria de desenvolver maior versatilidade e transitar entre o verso e a prosa sem tantos atritos.

  1. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?

Acompanho sim. Os blogueiros são os maiores aliados de quem necessita de amplificar a sua presença no meio literário. Eu os vejo como colegas queridos e amantes da escrita, como eu. As criticas que recebo são quase sempre positivas.

  1. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?

Alguém como Luis Fernando Verissimo ou Jose Saramago, se ele ainda estivesse vivo.

  1. Qual a maior alegria para um escritor?

Descobrir tantas interpretações validas para algo que você escreveu com um intento diferente. Ver o brilho nos olhos de que lê  a sua obra pela primeira vez. Conseguir mudar o ponto de vista de alguém sobre poesia.

  1. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.

Ouse sempre querer conhecer mais, ver mais da vida, do mundo. Virar as paginas de um livro possibilita isso tão bem quanto virar a esquina de uma cidade antiga que você está explorando. No caminho você irá reencontrar partes de você e do seu mundo, escritas de outra forma, fazendo o seu coração pulsar de outra maneira, mudando a cor de seu  céu e da sua relva. Viaje no tempo e no espaço sem sair do seu lugar. E não deixe de perder a esperança no Belo, você sempre o encontrara, no passado glorioso, no presente decadente e no futuro incerto.

 

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