Leca Haine

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  1. Fale-nos um pouco de você.
    Eu me considero uma pessoa em uma eterna busca. Talvez por ter sido jovem nos anos 80, um tempo em que a vida do vizinho tinha muita importância para a sociedade, penso que isso me castrou a ponto de não acreditar em minhas habilidades. É como se eu devesse ser a melhor em tudo o que fosse fazer, caso contrário, melhor era nem começar. O julgamento das pessoas era algo muito forte e só quando consegui me desprender desse sentimento e observar que ninguém consegue ser bom o tempo todo,  eu consegui usar a minha criatividade a meu favor, ou seja, começar a fazer coisas que realmente gostava de fazer. Escrever, sem dúvida, é a melhor delas.
  1. O que vc fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?
    Eu sou formada em jornalismo e sempre trabalhei nessa área. Atuei durante muito tempo fazendo assessoria de imprensa para a Saúde, ou seja, conseguia mostrar para as pessoas que também existem iniciativas de sucesso num setor tão cheio de falhas e dificuldades. Esse foi um grande aprendizado.
  2. Qual a melhor coisa em escrever?
    Sem dúvida, no meu caso que lido com a ficção, é sentir-se um pouco “senhora do destino”. Fico fascinada em saber que a vida de determinada personagem está em minhas mãos, ao mesmo tempo em que penso muito no sentimento do leitor. Jamais serei uma autora que vá trair a confiança de quem se dispôs a adquirir e ler uma obra minha. Acho uma sacanagem matar uma personagem de graça, só para poupar esforço na construção de diálogos, ou simplesmente deixar o fim da história solto no ar. O leitor tem o direito de seguir até o fim envolvido com a história e confiante de que terá um entendimento pleno quando terminar de ler.
  3. Você tem um cantinho especial para escrever?
    Não exatamente. Escrevo na copa, na sala ou no quarto. Só preciso mesmo é de uma boa xícara de café rsrsrsrs. Ultimamente, meu lugar preferido é esse da foto.
  4. Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?
    Ficção adulto e infanto juvenil. “A Torre” e “Quero muito ser Clarice”, são destinados ao público adulto, sendo que as crônicas em Quero muito ser Clarice, tem uma vertente feminina. Atualmente, escrevo “Lua Azul e a Terra Paralela”, para o adolescente de dez anos em diante. Para minha surpresa, estou curtindo muito porque me dei conta que esse público é tão ou mais exigente que o adulto, ou seja, é um trabalho desafiador. Elaborar diálogos que possam prender atenção de um jovem, cheio de opções de entretenimento, é um grande exercício literário.
  5. Fale-nos um pouco sobre seu(s) livro(s). Onde encontra inspiração para títulos e nomes dos personagens?
    Basicamente uno as minhas vivências com fragmentos de diálogos com pessoas que fui conhecendo ao longo da vida, observações feitas em viagens, pessoas que de alguma forma me marcaram, e vou construindo um enredo. Já em relação ao título, jamais opto por algo que não tenha a ver com a história apenas para ter um apelo comercial. Meus títulos sempre se referem a algo importante dentro da obra. Quando pensei em escrever “A Torre”, por exemplo, o título me surgiu quase que imediatamente. Uni o fato de ser um prédio alto, para a época em que foi construído, com a decadência em que se encontrava no início da narração. Com “ Lua Azul e a Terra Paralela”, acontece o mesmo.
  6. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?
    Para falar a verdade, muito antes de pensar no universo do livro, cenários etc, identifico o drama de cada personagem. Sem isso, simplesmente a história não caminha. Uma vez identificado qual será o drama, a angústia de cada um, o próximo passo é criar o que acontece ao redor. Imagino os cenários a partir de cidades que conheci, principalmente em viagens de carro e ônibus, onde é possível observar as pessoas, os locais onde vivem etc.
  7. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?
    De forma consciente, acredito que não. Aliás, acho que o grande barato da escrita é você ler bastante, avaliar vários autores, e a partir daí criar o seu próprio estilo. Penso em diversificar ao máximo a minha forma de escrever, contudo, o estilo Leca Haine sempre estará presente em cada uma das obras, seja ela de que gênero for.
  8. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?
    Ofereci A Torre diretamente a umas 15 editoras convencionais via e-mail, por meio de uma sinopse. Muitas não responderam e algumas disseram que a história era boa, mas que não tinha disponibilidade para novos autores. As editoras que aceitaram publicar, trabalham com o sistema de impressão por demanda e entre essas, eu escolhi a Editora Biblioteca 24Horas. Sem falsa modéstia, pensei que essas editoras perderam uma ótima oportunidade em publicar um ótimo livro. Confio na minha história e sei que A Torre tem potencial, inclusive, para ir para o cinema. Sei que preciso trabalhar bastante para isso, seja divulgando, seja escrevendo outros livros para compor a minha obra. De uma coisa eu tenho certeza: Ouvir o meu primeiro leitor, na verdade leitora, dizer que adorou A Torre foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos. De lá para cá, todo mundo que tem lido, tem gostado bastante e várias pessoas me mandam mensagens de incentivo e elogios ao livro. O meu pensamento é que com muito trabalho e dedicação, um dia em chego lá.
  9. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?
    Gosto muito e posso explicar. Até bem pouco tempo atrás, você ia a uma livraria e os títulos nacionais eram sempre os mesmos, os clássicos ou aqueles autores que por serem conhecidos, insistiam em publicar obras semelhantes às que já haviam publicado só para continuarem ganhando dinheiro. Hoje em dia, acredito que a literatura no Brasil está mais democrática, apesar de todas as dificuldades que o autor iniciante e o mercado editorial enfrentam. Hoje em dia o leitor tem muitas opções de títulos, inclusive com preços mais acessíveis.  É claro que não acontece da noite para o dia, mas uma boa história sempre terá um bom boca a boca, e essa ainda é a melhor forma de divulgação.
  10. Recentemente surgiram vários pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?
    Melhor o ruim do que nada. Num país como o nosso, onde apenas cerca de dez por cento das pessoas leem, é preciso analisar essa situação com uma certa tolerância. Mesmo de baixa qualidade, se o livro for escrito corretamente, dentro dos padrões da língua portuguesa, acho que tem o seu valor. Penso que é preciso “comer pelas beiradas”. Se alguém que nunca teve um livro nas mãos, aceita ler algo de qualidade duvidosa, pode ser que desenvolva um espírito crítico e comece a ler livros de qualidade mais à frente. Em contrapartida, se ele não ler nada, nenhuma chance terá de algum dia ser um bom leitor.
  11. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?
    A série Poderosa, de Sérgio Klein, me fez pensar algo parecido. Joana Dalva faz acontecer tudo o que deseja, apenas escrevendo com a mão esquerda. Simples, porém muito criativo e envolvente. Também sempre tive em mente, e ainda pretendo desenvolver algo semelhante,  a “Um teto todo seu”, da Virginia Woolf. Apesar de ter sido escrito no início do século passado, acho que a temática é super atual. Como uma mulher/estudante/mãe/esposa(namorada)/servidora(funcionária) pode arranjar tempo para sentar e escrever? Quem irá se preocupar com isso senão ela mesma?
  12. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria?
    Creio que “Descobridor dos sete Mares” do Tim Maia reflete bastante o momento em que estou vivendo.
  13. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”?
    Cem anos de solidão, do Gabriel Garcia Marques, é algo maravilhoso. No Brasil, Toda Poesia, de Paulo Leminski, é possível reler sempre e a cada dia te mostra algo novo.
  14. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?
    Muitos projetos. Estou finalizando Lua Azul, como disse anteriormente, e desenvolvendo o enredo de uma história adulta, onde uma mulher é obrigada assistir uma outra tomar o seu lugar junto ao seu marido e filhos. Um drama enorme.
  15. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?
    Sempre que posso, dou uma olhada nos blogs literários. Eu acho muito importante o trabalho desenvolvido pelos blogueiros porque eles lidam com a informação instantânea, que é exigida atualmente no mundo e por isso mesmo criam um público cativo e exigente. É claro que você fica sujeito a elogios e também a críticas, mas essa é uma necessidade para todo mundo que quer desenvolver um bom trabalho. As críticas são fundamentais para que se possa readequar a rota e seguir por um caminho melhor. Quanto àquelas críticas sem lastro, do tipo o livro é uma grande M… e pronto, esqueça e vá dormir sossegado. Crítica boa é aquela que além de apontar erros, te aponta caminhos. É importante lembrar que nem Jesus conseguiu agradar a todo mundo. Se você acredita no que faz, siga em frente.
  16. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?
    Queria muito ouvir a opinião de Clarice Lispector sobre os meus escritos. Como isso é impossível, Fernanda Montenegro, a Diva Deusa, seria uma ótima opção rsrsrsrs.
  17. Qual a maior alegria para um escritor?
    Sem dúvida é ouvir alguém dizer que gostou do seu trabalho. Eu particularmente também gosto de ouvir ideias diferentes da minha, mas o leitor que simplesmente ama o que você escreveu, não tem preço. Poderia ficar conversando durante horas a respeito e buscando melhorar um ou outro ponto da obra usando a vivência desse meu leitor.
  18. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.
    Escrever é difícil. Tem dias em que você simplesmente não consegue ordenar as ideias, ou está tão cansado que não tem coragem para ficar sentado à frente do computador. Deixe passar esses dias, não force a barra porque você mesmo não gostará do resultado e volte a escrever no dia seguinte. Escreva sempre, é como um treino. Se não tiver ideias para dar continuidade ao seu livro, intercale escrevendo contos ou crônicas, mas não fique grandes intervalos sem escrever. Também pense no que te faz feliz escrevendo. Se você quer alcançar um grande público ou um círculo restrito, desde que seja de pessoas que pensem como você. A partir daí, delineie a sua obra no que quer alcançar mais à frente. Escolha a sua meta e siga em frente. Não desista. Somos mais de 190 milhões de brasileiros e tem muita gente esperando para ler o que você escreveu. Isso sem contar os leitores estrangeiros.

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