JOÃO GUIMARÃES ROSA – O GENIAL E EXTRAORDINÁRIO ESCRITOR BRASILEIRO

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Guimarães Rosa não foi apenas um grande escritor, o que por si só já seria muito, ele foi e continua sendo um escritor único, singular. Sua escrita, sua linguagem, sua obra, sua maneira de contar uma história não encontram paralelo em nenhum lugar do mundo. João Guimarães Rosa é essencialmente brasileiro, uma joia preciosa da literatura nacional.

O escritor nasceu em Cordisburgo, uma pequena cidade em Minas Gerais em 27 de junho de 1908. Desde muito cedo já demonstrava ter uma capacidade intelectual muito acima da média, antes dos 7 anos começou a estudar francês sozinho. Na infância aprendeu francês e depois o holandês com um padre da sua cidade.

Esse fascínio por aprender novas línguas o acompanhou durante toda a sua vida. Guimarães Rosa se tornou um poliglota, falava fluentemente mais de dez idiomas e lia, além desses, em uma outra dezena de línguas.

Quando chegou ao que hoje é chamado de ensino médio, Guimarães se mudou com a família para Belo Horizonte e passou a estudar num colégio de padres alemães e lá em pouco tempo aprendeu alemão.

Aos 16 anos entrou na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Além de cursar a faculdade ele já escrevia seus primeiros contos. Nessa época participou de um concurso promovido pela revista O Cruzeiro e foi o vencedor, seus contos foram premiados e publicados em 1929 e em 1930, neste mesmo ano ele se formou, tornando-se médico, anos mais tarde abandonaria essa carreira admitindo que não tinha vocação para a medicina, que sua vocação estava mesmo no terreno das ideias e das letras. Chegou a exercer a profissão, durante dois anos trabalhou numa pequena cidade do interior mineiro, onde travou conhecimento e amizade com os curandeiros e benzedeiras da região, sabedor da importância dessas pessoas para as comunidades mais pobres, conversava muito com elas, ouvia suas histórias, tinha contato com o conhecimento popular a respeito de ervas e chás medicinais. Provavelmente muitas dessas histórias, conversas e conhecimentos populares serviram de material para as histórias e romances que ele escreveria mais tarde. Depois de trabalhar nessa cidadezinha ele prestou concurso para o cargo de Oficial Médico na Infantaria do Exército. Foi aprovado, mas além das cerimônias cívicas do quartel não havia muito o que fazer e Guimarães Rosa passou a dedicar-se cada vez mais ao estudo de idiomas. Foi também no quartel que ele fez uma intensa pesquisa nos arquivos sobre os jagunços que existiam na região do São Francisco e dessa pesquisa conseguiu um farto material que o inspiraria na criação de seus incríveis personagens.

O escritor Guimarães Rosa foi um homem muito culto, um verdadeiro erudito, mas ao mesmo tempo uma pessoa muito sensível, cheio de simplicidade ao tratar com as pessoas do povo, um “curioso” como ele mesmo se denominava. Essas características impressionavam quem o conhecia. Certa vez, um amigo admirado com a sua cultura, sugeriu que ele se inscrevesse no concurso para trabalhar no Itamarati. Guimarães passou em segundo lugar. Nesse período ele participou de dois concursos literários, em 1936, com uma coletânea de poemas intitulada “Magma” ele recebeu o prêmio da Academia Brasileira de Letras e no ano seguinte participou com a obra “Contos”, que anos mais tarde se tornaria o livro “Sagarana”, muito premiado e considerado um dos livros mais importantes da literatura contemporânea brasileira. Neste livro é usada uma linguagem totalmente inovadora nunca antes vista na literatura nacional.

Em 1938 o escritor foi nomeado Cônsul em Hamburgo e passou a viver na Europa. Em Hamburgo ele conheceu Aracy Moebius de Carvalho, uma diplomata brasileira que veio a ser sua segunda esposa, ambos tinham sido casados e eram desquitados. Viveram juntos até a morte do escritor. O mundo enfrentava a segunda guerra mundial e por várias vezes Guimarães Rosa escapou da morte, chegou a ter sua casa destruída durante um bombardeio enquanto ele estava trabalhando. Ele era um homem místico que acreditava na força das energias negativas e positivas, que para ele, pessoas e coisas possuíam. Muito observador, estudioso e crítico teve sempre muito interesse pelas crendices e culturas populares.

Durante o período que ele e a esposa trabalharam como diplomatas, durante a guerra ajudaram a proteger muitos judeus, assinando vistos para eles. Sua ajuda foi tão importante, que em 1985 o governo de Israel fez uma homenagem ao escritor e a sua esposa, nomeando um bosque próximo à Jerusalém com o nome deles.

Em 1951 Guimarães Rosa retornou ao Brasil e fez uma excursão pelo sertão de Mato Grosso anotando tudo sobre a fauna e a flora brasileira, sobre as crenças, superstições e costumes dos sertanejos.

Ele recolheu um farto material que foi utilizado na construção de sua obra prima “Grande Sertão Veredas” lançado em 1956.

Neste romance Guimarães Rosa transcende, ultrapassa com a sua escrita inovadora todos os “limites” que poderiam haver na criatividade de um escritor, seu texto é surpreendente e sua forma de falar sobre o sertão e sobre a gente simples e rude que habita esse universo é totalmente nova, deixando claro seu extraordinário talento e sua incrível capacidade de retratar esse mundo até então pouco conhecido pela maioria dos leitores. A linguagem do livro surpreende, chega a intimidar o leitor no primeiro momento pela “novidade” dos novos termos e pela maneira tão inovadora de como é desenvolvida a trama, mas depois o leitor vai adentrando o universo de Guimarães Rosa e quando percebe já está fascinado e envolvido por esse “sertão”, pelos personagens tão ricos e interessantes, por seus conflitos e suas angústias psicológicas magistralmente criadas pelo escritor.  Guando foi lançado, o livro “Grande Sertão Veredas” causou um grande impacto dentro dos meios literários, foi também um grande sucesso comercial, recebeu prêmios importantes e foi traduzido em várias línguas. Foi ao mesmo tempo aclamado e combatido pela crítica e pelo público da época, por sua característica extremamente inovadora, nem todos conseguiram alcançar e entender sua brilhante narrativa.

Em 1961 Guimarães Rosa recebeu o prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra e seu talento passou a ser reconhecido também fora do Brasil.

Em agosto de 1963 foi eleito, por unanimidade, membro da Academia Brasileira de Letras, a posse só aconteceu 4 anos depois em 16 de setembro de 1967. Três dias após a posse o escritor Guimarães Rosa faleceu subitamente enquanto estava sozinho em seu apartamento em Copacabana, não houve tempo nem para que ele fosse socorrido. No mesmo ano ele tinha sido indicado ao Prêmio Nobel de Literatura, mas com a sua morte sua indicação foi cancelada.

João Guimarães Rosa foi literalmente um mestre das letras, um escritor genial que soube usar todo seu conhecimento linguístico na construção de uma linguagem totalmente inovadora em seus textos, criando novas palavras, utilizando-as simultaneamente com palavras antigas e já esquecidas e expressões regionais,  sua maneira de contar uma história é única, seus romances além da  linguagem inovadora  denotam seu  total domínio da  técnica de escrever e seu  enorme talento e incrível capacidade criativa . Esse escritor tão extraordinário rompeu as fronteiras brasileiras com sua genialidade e é reconhecido em muitas partes do mundo.  O fato de dominar tantas línguas estrangeiras, de ter absorvido tanta cultura ao longo da vida e de manter em seus romances sempre a discussão sobre o ser humano e o universo que o cerca, num visão inovadora e  poética, que analisa o homem em relação ao seu espaço, um tema universal, tudo isso fez de Guimarães Rosa um escritor do mundo, seu talento não ficou restrito ao solo brasileiro, ultrapassou as fronteiras e chegou  a muitos outros países. Ao mesmo tempo Guimarães Rosa é um patrimônio da literatura brasileira que deve, merece e precisa ser conhecido e lido pelos brasileiros porque ele escreveu sobre nosso povo como nenhum outro escritor fez antes, conseguindo captar os sentimentos e nuances mais escondidos da alma do sertanejo, do homem rude, comum que traz dentro de si, apesar das falsas aparências, um verdadeiro caleidoscópio de “cores”, de múltiplas e interessantes facetas, cobertas pela aparência, cinza, comum e corriqueira de simples cidadão.

Texto escrito por Ivana Lopes- Tradutora, Escritora  e Colunista

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 Fontes de Pesquisa:

 www.releituras.com/guimarosa

 www.ebiografia.com/guimaraes rosa

 revistacult.uol.com.br – Welington Andrade(Doutor em literatura pela USP e
professor da Faculdade Cásper Líbero)
foto( Pensador)

http://pensador.uol.com.br/autor/guimaraes_rosa/biografia
www.guiadoestudante.abril.com.br
www.infoescola.com

 

14725691_10154085108952309_670127205574865685_nMeu nome é Ivana Lopes sou tradutora formada em Letras pela PUC. Além de traduzir gosto muito de ler e de escrever e sou apaixonada por literatura. A tradução acabou me dando ferramentas que me levaram a escrever meus próprios textos. Estou muito feliz em ter uma coluna na Arca Literária, vou publicar aqui artigos que falam dos grandes mestres da literatura brasileira e mundial. Tenho diversos artigos publicados em outros blogs e no meu próprio site (Mestres da Literatura) http://ivanascl168.wixsite.com/meusite. Escrevo sobre literatura porque desejo incentivar a leitura dos grandes escritores e poetas, ao escrever sobre suas vidas procuro despertar a curiosidade dos leitores pelas suas obras. Acredito muito no valor da leitura como uma forma de transformação da sociedade.

https://www.facebook.com/tradutorafreelancer01/?fref=ts

 

Um comentário

  1. Guimarães Rosa dizia “viver é perigoso”. Euclides da Cunha dizia “viver é adaptar-se”. Um padre que também escreveu livros dizia que “viver é sagrado”. Aquele médico e aquele engenheiro foram lógicos. O padre foi ontológico. Aqueles estão como que “imortalizados”, este como que esquecido. Euclides e Guimarães competentíssimos. Um deles detentor da mais explosiva engenharia de expressão escrita. Talvez, Deus o sabe, estes 2 acadêmicos foram como que transmutados por este mundo sedutor e pesado cobrador numa espécie de “fenonhos”, mistura de fenômenos com medonhos. Toda a herança destes 2 nobres compatriotas está transbordada de coisas do mundo e esvaziada do sentido último da existência. Faltou um verniz, o verniz da Verdade. Isto não invalida ou diminui suas heranças. Poder-se-iam ser grandes legados. Sem o saberem estes 2 irmãos diplomados foram fulminantemente horizontais. Todo ser humano é um mistério. Resta-nos lamentar que a transcendência da Verdade não os verticalizou, não os lubrificou. Eu quero apostar por exemplo que Euclides ainda vivo nos 50 anos teria escrito A Amazônia e iluminado pelo Universo faria desaparecer o estrelato de Os Sertões…:)

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