Jim Carbonera

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Jim Carbonera nasceu no Brasil, em 1982. Formado em Turismo, preferiu arriscar-se na literatura ficcional. Sua musa inspiradora é a cidade de Porto Alegre, onde reside. É amante da arte alternativa e provocativa, e autor dos livros Divina Sujeira (Boêmia Urbana, 2º ed. 2011/15) e Verme! (Boêmia Urbana, 2014). Suas obras tem como cenários ambientes ríspidos, libertinos e atrozes. Segue o estilo literário do Realismo Urbano e Transgressivo

  1. Fale-nos um pouco de você.

Sou natural de Porto Alegre e resido ainda hoje nessa cidade que serve de inspiração para minhas escritas. Tenho como principais influências autores latino-americanos. Exemplo: Alberto Fuguet do Chile, Pedro Juan Gutiérrez de Cuba e Reinaldo Moraes do Brasil. Sou formado em turismo, mas exerci a profissão apenas por quatro anos. Abandonei-a para dedicar-me integralmente à literatura. Minhas obras têm como cenários ambientes ríspidos, libertinos, melancólicos e atrozes; e meus personagens possuem a subversividade como característica principal. Sigo o estilo literário do Realismo Urbano e Transgressivo. Sou autor dos livros Verme! (Boêmia Urbana, 2014) e Divina Sujeira (Boêmia Urbana, 2º ed. 2015). No fim do ano estarei lançando meu terceiro livro, intitulado: Royal 47.

  1. O que você fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?

Antes de começar a escrever, trabalhei em agências de turismo, hotéis e restaurantes. Agora me concentro em viver e escrever. E sobre a inspiração para a escrita, sempre fui um cara que gostei da parte obscura do ser humano, aquela que tentamos esconder. Essa, para mim, é a que revela o nosso verdadeiro eu. Nossas fantasias e segredos que tentamos guardar a sete chaves, mas que volta e meia, acabamos expondo em dado momento da vida. Vivemos numa sociedade em que atuamos diariamente. Temos que nos encaixar nesse ou naquele grupo, e somos obrigados a agirmos como atores. Por isso não me interessa esse lado da encenação humana, pois é falsa. Diferentemente daquele que nos angustia e, em alguns casos, nos enlouquece. E é sobre esse lado, o soturno, que vem a minha inspiração. Além dos cenários urbanos em que os meus livros se passam.

  1. Qual a melhor coisa em escrever?

A solidão e a liberdade, neste ponto são excelentes. Trabalhar sozinho, receber ordens apenas do seu cérebro, sem a intervenção de ninguém. Sem ter alguém te supervisionando ou dizendo pra você fazer isso ou aquilo. E sem a obrigação de cumprir horários. Esses são os fatores primordiais para minha satisfação em escrever.

  1. Você tem um cantinho especial para escrever? 

Hoje em dia escrevo mais no meu quarto. Mas depende. Quando estou entediado, posso ir para uma cafeteria, ou simplesmente mudar de cômodo da casa. Não me apego muito ao lugar, e sim, ao meu estado de espírito.

  1. Qual seu gênero literário? já tentou passear em outros gêneros?

Escrevo Realismo Urbano e Transgressivo. Como estou engatinhando na profissão, nem pensei em sair do gênero. E nem sei se conseguirei um dia. Não me forço a escrever o que eu não gosto. Odeio padronização mental e andar conforme a maré. Se um dia vier a calhar de eu mudar de estilo, foi por vontade própria, e não por imposição de A ou B ou do mercado.

  1. Fale-nos um pouco sobre o livro “Divina Sujeira” e “Verme”. Onde encontra inspiração para os nomes dos personagens?

São livros que seguem o mesmo tema e apresentam o mesmo protagonista, porém, com ideias e intensidades diferentes. Nesta segunda edição do Divina Sujeira, a primeira parte é um romance protagonizado e narrado pelo Rino Caldarola. Na segunda parte da obra, são contos subversivos, com temas bastante polêmicos e contados em terceira pessoa. Nesses contos, abordo temas como estupro, vingança, castração, necrofilia, ménage à trois etc. Já o Verme!, é um livro mais reflexivo. Onde o personagem principal está inquieto e aflito com o que está se passando ao seu redor. Quer sair da casa dos pais, lançar um romance e mudar-se para uma zona mais boêmia da cidade. E dentro desses questionamentos, ele faz uma crítica social sobre diversos temas que nos deparamos diariamente. E sobre o nome dos personagens, varia muito. Às vezes quero que comece com determinada letra, outras vezes quero que o nome tenha algum significado que se molde ao personagem; e algumas vezes, simplesmente, é o primeiro nome que vem à cabeça. Então, eu pelo menos, não tenho uma fórmula exata para nomear os personagens.

  1. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?

Normalmente gosto de vivenciar os cenários em que se passa a história. Necessito invariavelmente já ter passado pelo menos uma vez pelo local.

  1. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?

Meu grande herói na literatura é o cubano Pedro Juan Gutiérrez. Se escrevo, devo muito a ele e aos seus livros. Ele foi o cara que me tirou as amarras, o medo e a censura da escrita. E me fez ter coragem de fazer um strip-tease para o leitor.

  1. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?

Essa pergunta é complexa. É difícil um autor não ser publicado hoje em dia. Estamos lotados de editoras caça-níqueis. Publicam qualquer porcaria, não revisam, fazem péssimas capas etc. Claro que há editoras excelentes, porém, é quase impossível de conseguir um contrato com elas. Olham muito o mercado, não criam artistas, e sim, fantoches editoriais. Assim como as gravadoras de música, as editoras não se preocupam com a qualidade, visam apenas o lucro. E o que contribui para isso é a falta de questionamento e discernimento dos consumidores. Compram às cegas ou o que está na crista do momento. E há diversas formas de ser publicado: selos independente, pagar para editoras, fazer com editoras que trabalham sob encomenda e por aí vai. Então, não ter nenhum livro rejeitado hoje em dia não é motivo para soltar fogos de artifícios.

  1. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?

É um cenário onde o sol está nascendo para todos. Justamente pelo que comentei na pergunta anterior. Agora, se as obras estão sendo bem-feitas e com qualidade tanto de texto como editorial, é outra história.

  1. Recentemente surgiram vários pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?

Sinceramente… tenho muitas restrições. Tem muita gente escrevendo por achar cool dizer que é escritor. Como se isso fosse uma forma de imposição e respeito intelectual. Bobagem pura. Acabam banalizando a profissão como crianças mimadas que descartam seus brinquedos; dentro de pouco tempo abandonarão a literatura e tocarão suas vidas em outros segmentos. Outro ponto, é que a nossa literatura está sendo consumida por sagas/fantasia e romancezinhos juvenis. Escritores que preferem viver em mundos paralelos como se estivessem jogando RPG, ou então autores que usam uma fórmula muito chata, pré-definida: primeiro o amor, depois a desilusão e, por fim, a redenção. Em muitos aspectos acho que esses livros retardam os adolescentes. Não os fazem refletirem sobre nada. E sinto os escritores com muito medo de se expor. Pior que a censura que sofremos de fora para dentro, é a interna, feita por nós mesmos. Onde colocamos um monte de obstáculos morais perante a nossa literatura. E isso não pode acontecer. A arte deve ser livre. Ela deve instigar, provocar e encorajar o leitor. E não o fazer agir como um tremendo imbecil. Quando falo disso, não estou generalizando, pois existem autores contemporâneos excelentes! E para ficar claro, não estou defendendo livros complexos, cheios de pensamentos abstratos; até porque, minha narrativa é exposta de maneira simples, sem rodeios e explícita. Porém, prego que o conteúdo deva ser reflexivo e questionador.

  1. Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?

Acho que além dos impostos, há um superfaturamento das editoras. Basta ver os preços dos e-books, que era para ser algo baratíssimo. Mas não, um e-book é quase tão caro quanto um livro impresso. E isso nos faz correr das grandes livrarias e recorrer aos sebos (ou promoções na internet).

  1. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?

Clube da Luta, do Chuck Palahniuk. O estilo de escrita, a loucura da narrativa e o desenrolar do livro, é tudo muito perfeito pra mim. E fico muito satisfeito que o David Fincher tenha conseguido transparecer perfeitamente a ambientação do livro pro cinema.

  1. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria? (nome da musica + cantor)

Wiser Time – Black Crowes, pelo sentido de liberdade e coragem que a letra passa.

  1. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”?

Animal Tropical do Pedro Juan Gutiérrez. É o único livro que li três vezes.

  1. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?

 Agora em julho devo estar lançando somente em e-book a 2º edição do meu primeiro livro, Divina Sujeira. E no fim do ano lanço pela Editora Giostri, mas de maneira impressa, meu terceiro livro: Royal 47.

  1. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?

Nunca me importei com crítica quando são bem fundamentadas. Assim como elogios superficiais também não me cativam. O importante pra mim é a argumentação. Leio todas as resenhas que fazem sobre as minhas obras, e a grande maioria me desaponta, pois não relatam os pontos fortes e fracos dos livros, e sim, fazem basicamente uma sinopse das obras. Mas há blogueiros que são geniais. Vão a fundo na narrativa. Não são preguiçosos e não se agarram a preconceitos ou gostos pessoais. Às vezes enxergam coisas que nem o autor visualizou. Acho isso muito louvável!

  1. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?

Os diretores de cinema Gaspar Noé, Chan-wook Park e Lars Von Trier. Nesta ordem.

  1. Qual a maior alegria para um escritor?

Pra mim, é o reconhecimento do público. Como o conteúdo dos meus livros não seguem os padrões de mercado, e às vezes até chocam; quando vejo muitas garotas ou garotos de 16 anos lendo e interpretando a obra sem amarras, livres de qualquer pré-julgamento, me dá uma satisfação quase orgástica. Principalmente quando elogiam o Rino, um sujeito tão controverso mas que causa admiração neles. Isso é bom demais e prova que os adolescentes estão muito longe de serem bitolados, basta fomentar e fazê-los enxergar que há muita merda e verdade à frente deles. E não somente mundos fictícios e romances héteros infantojuvenis.

  1. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.

Agradeço a paciência por terem me aguentado até agora e para quem está iniciando uma carreira literária, deixo o seguinte recado: primeiramente assuma isso como uma profissão. Mesmo que trabalhe em outros locais, não leve à literatura como um hobby. Escrever é algo sério, árduo e doloroso. O artista no Brasil é desdenhado e taxado de vagabundo, justamente por não brigar pela causa. Não assumir aquilo que faz. Um músico não precisa aparecer na televisão para poder dizer que é músico. Um escritor não precisa ser o Paulo Coelho para ter o direito de assumir aquilo que é. E outro conselho, é que mande à preguiça se foder. Sente na cadeira e escreva. Se está com falta de inspiração, ache ela. Coloque no papel algum acontecimento do seu dia. Alguma lembrança. Ou simplesmente descreva o seu quarto. Mas escreva, escreva e escreva. Se isso não for uma prioridade para você, uma paixão; nem comece, pois de aventureiros à literatura já está abarrotada.

 


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