Igor Alcantara

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1. Fale-nos um pouco de você.
Sou Igor Alcantara, 38 anos (em 2015), escritor mineiro, atleticano e residente em Los Angeles. Além de escrever, também participo de alguns podcasts de assuntos diversos que alcançam milhares de ouvintes a cada semana.
Como leitor, não me prendo a um gênero específico, mas já que sou um amante de clássicos, gosto de livros bem escritos e com personagens bem construídos. Normalmente não leio livros de autores ou com a temática “da moda”.
Entre meus escritores favoritos estão Kafka e Dostoievski, mas também sou grande fã de autores mais populares como Stephen King e Douglas Adams.

2. O que vc fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?
Eu trabalho no mercado de tecnologia, mais especificamente com Business Intelligence. No entanto, isso é apenas a forma como eu ganho dinheiro e sustento a mim e a minha família, pois como profissão real eu tenho a literatura. É ela que tem meu maior comprometimento.
Minha primeira inspiração a escrever, acredite ou não, veio já aos onze anos de idade. Por falta de opção de livros infantis no local onde passava minhas tardes após a aula, eu comecei a ler uma coletânea de contos russos e um em particular chamou minha atenção. Foi “O Capote” de Nikolai Gogol. Depois daquilo eu decidi que seria escritor. Naquele mesmo ano escrevi meu primeiro conto, que se chamava “A Rosa de Moscou”.
Desde então nunca parei de escrever. Escrevia muitos contos, mas a maioria não terminava já que no meio daquilo eu tinha outra ideia e começava a trabalhar nela. Comecei até um romance aos meus quatorze, também nunca finalizado. Só depois, já com dezessete anos, aprendi a ter disciplina para planejar, começar e terminar uma obra.

3. Qual a melhor coisa em escrever?
Saber que um pouco de você está eternizado e irá sobreviver à sua morte. É um sentimento quase espiritual de sobrevivência.

4. Você tem um cantinho especial para escrever? (envie-nos uma foto)
Sim, é na varanda de meu apartamento em Los Angeles que tem uma bela vista para as montanhas de San Fernando Valley.


5. Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?
Eu não escrevo em um único gênero literário. Acho que o escritor que comete o plágio de si mesmo e fica muito tempo escrevendo livros de um mesmo tipo, ou pior, de uma mesma saga, está sendo preguiçoso e está perdendo a oportunidade de evoluir.
Dos meus cinco livros publicados, três são romances e dois são de contos. Quanto ao gênero, escrevi romance histórico, aventura, fantasia, romance filosófico e recentemente me aventurei pelo horror macabro.

6. Fale-nos um pouco sobre “Hendecágono”, “Trinta e Três” e “Mutuwa”. Onde encontra inspiração para título e nomes dos personagens?
Hendecágono e Mutuwa são livros de contos. No entanto, eles têm algo em comum: em cada livro, os contos que o compõe se interligam. As histórias são independentes, mas elas se complementam. Por exemplo, o personagem de um conto aparece em outros contos. A ideia é que ao final, o leitor tenha duas obras: cada conto individualmente (que podem ser lidos em qualquer ordem) e um romance construído pela junção das diferentes histórias.
De todo modo, não é apenas isso que une os contos de uma obra, é também a temática. Faço isso por preferir que um livro meu, mesmo que de contos, seja uma obra completa ao invés de uma coletânea de histórias aleatórias.
Escrevi Hendecágono enquanto enfrentava um conturbado período de depressão, por isso o livro carrega um pouco disso. Na matemática, Hendecágono é o nome do polígono com onze lados. Neste livro, são onze contos que abordam os diferentes aspectos da solidão: como a solidão na hora da morte, a solidão de estar perdido, a solidão do amor não correspondido, a solidão de ter um segredo e não poder conta-lo a ninguém e outros.
Mutuwa, meu livro mais recente, é também minha primeira experiência no gênero do horror. São oito histórias que se passam em uma pequena e isolada vila cercada por dois rios que representam a religião do local. São eles os rios Abada (Vida) e Mutuwa (Morte). Nestas histórias, fatos estranhos e macabros acontecem, especialmente quando se desrespeita o culto aos rios e se comete infrações como sair às ruas sem máscaras ou não obedecer ao toque de recolher. É um livro para se ler à noite debaixo do cobertor.
Trinta e Três, meu quarto livro, é um romance histórico que se passa no Brasil entre 1944 e 1977, portanto trinta e três anos. Ele foi escrito a partir de uma pergunta que fiz a mim mesmo: como teria sido se Jesus tivesse nascido no Brasil do Século XX? Seguindo essa ideia, “meu Jesus” (no livro chamado de Emanuel), nasce no sertão nordestino, mas logo cedo se muda para São Paulo com seus pais José e Maria. Eles fugiram para escapar da fúria de um importante fazendeiro da região, Coronel Herodes. Trabalhou como pedreiro na construção de Brasília, fez faculdade, reuniu doze seguidores que juntos lutaram contra a ditadura militar e fugiu da perseguição implacável do Major Saulo de Tarso. Assim, viveram importantes e conturbados momentos da história brasileira.

7. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?
Depende do livro. Muito do que escrevo vem da observação do dia-a-dia. Às vezes o olhar de uma pessoa na rua te inspira a escrever todo um arco narrativo. Já quando estou construindo os personagens, estudo psicólogos, pensadores e filósofos que me ajudam a compreender como aquela pessoa pensa.

8. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?
Não de forma consciente, mas acredito que todo escritor é a soma de suas experiências pessoais com tudo o que leu em vida. Dos autores que percebo terem mais influenciado minha escrita posso citar Franz Kafka, Fiodor Dostoievski e Oscar Wilde, que foram aqueles a quem mais li em toda minha vida.

9. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?
Até meu primeiro livro sim. Ele foi escrito em 1997 e só publicado em 2011, portanto, 14 anos depois. Após este, o processo aconteceu naturalmente.

10. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?
Gosto do maior espaço que escritores nacionais estão conquistando e o fato de cada vez mais jovens terem entre seus ídolos autores brasileiros. No entanto, acho que existe uma tendência mundial de se seguir modinhas de sucesso e isso acaba comprometendo a diversidade e o próprio mercado.
Anos atrás, quando livro de vampiro estava na moda, todo mundo escrevia livros de vampiros. Hoje são romances eróticos, mas o mercado de fantasia ainda domina. Essa característica monotemática me incomoda um pouco.
Que fique claro: não sou contra nenhum gênero literário, apenas sou contra que apenas os gêneros da moda ganhem espaço nas editoras e na mídia.

11. Recentemente surgiram vários pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?
Acho que como em todo boom, a grande maioria é de qualidade ruim, mas vejo isso como algo natural como em tudo que cresce. O tempo acaba por separar o joio do trigo.

12. Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?
Acredito que reduz o acesso à literatura, mas não vejo como o principal culpado para isso. A responsabilidade maior está nas escolas que não conseguem ensinar o amor à literatura às crianças. Não há como uma criança aprender que ler é divertido se ela é exposta a livros que ainda não está preparada, como a maioria dos clássicos nacionais. Acho que deve-se começar com uma leitura mais simples e empolgante que dialogue com os jovens. Isso aumentará a demanda por livros e, no final da cadeia, reduzirá os preços.

13. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?
1984 de George Orwell.

14. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria? (nome da musica + cantor)
Depende do livro, mas para escolher uma música apenas eu escolheria “Comfortably Numb” do Pink Floyd.

15. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”?
Alguns, mas talvez o número um seja “O Processo” de Franz Kafka.

16. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?
Sim, estou começando a trabalhar no meu sexto livro. Será um romance que terá os bastidores da política como pano de fundo. Ainda estou na fase inicial de pesquisas, mas já li cerca de quinze livros para me ajudar na composição dos personagens.
Além deles, em paralelo estou trabalhando em um novo livro de contos, mas é algo que ainda vai demorar alguns anos para ficar pronto.

17. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?
Alguma coisa sim. Existem sites e blogueiros sérios e que sabem do que estão falando, mas existem também muitos que só querem é ganhar livros de graça. Felizmente os de maior expressão, como a Arca Literária, são os que se sobressaem.

18. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?
A maioria das pessoas que eu gostaria que conhecessem meu trabalho já estão mortas, então considerando apenas pessoas vivas, eu cito duas: Neil Gaiman e Stephen King.

19. Qual a maior alegria para um escritor?
Sem dúvida é quando um leitor puxa conversa para falar de um de seus livros. Me sinto como um pai ouvindo elogios sobre o filho.

20. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.
Não deixem de ler jamais e, se você quiser ser um escritor, leia ainda mais. Um bom escritor é, antes de tudo, um leitor ávido. Saia de sua zona de conforto e leia de tudo, autores e gêneros variados. Especialmente, visite os clássicos. Eles são estudados e reverenciados por um bom motivo. Leia-os e aprenda com os grandes.

Um comentário

  1. Melhor entrevista que li até aqui (não li mais que dez). Curiosamente tem muito em comum com meu Artigo postado na minha Coluna dessa semana (Mexendo Com Vampiros e Zumbis…). O autor é um sujeito culto e sabe do que está falando. Senti falta da menção de autores brasileiros (clássicos), mas no geral valorizou muito esse espaço de Entrevistas! Esse modelo de entrevista é muito interessante… Desejo ao autor muita lucidez e imparcialidade no livro que está escrevendo acerca da política, pois poderá servir de consulta no futuro!

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