Helder Caldeira

0
1325

  1. Fale-nos um pouco de você.

 Escritor, 38 anos. Chato pra caramba! Recentemente, fui chamado de “estranho” por algumas pessoas nas redes sociais (risos). Criador do conceito “Bananeira Jeitinho” no jornalismo político. Autor dos livros “Águas Turvas”, “O Eco”, “Pareidolia Política”, “Bravatas, Gravatas e Mamatas” e “A 1ª Presidenta”.

  1. O que vc fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?

Escrevo profissionalmente há mais de uma década. Antes, paralelamente, exerci funções públicas e na iniciativa privada. Atualmente, conquistei a independência necessária para viver daquilo que escrevo.

  1. Qual a melhor coisa em escrever?

Qualquer coisa que alguém diga sobre as belezas e maravilhas de escrever será meramente clichê. Válido e legítimo, mas clichê. No meu caso, escrevo por necessidade física e mental. Quando não posso ou consigo escrever, adoeço. Na verdade, penso ser esse o destino de qualquer profissional que ama verdadeiramente aquilo que faz.

  1. Você tem um cantinho especial para escrever? 

Sim, tenho um escritório apenas para o ofício. É necessário. O ato da escrita é como uma oração: você pode fazê-la em qualquer lugar, com ou sem barulho, cercado de pessoas ou absolutamente solitário. Mas, quando escritor está no seu templo, a oração surge mais forte, é mais vigorosa. (vou encaminhar duas selfies do meu templo!) Helder Caldeira Meu Cantinho Meu Templo 02

  1. Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?

Uma espécie de Romance de Folhetim. Foi onde encontrei meu verbo de encaixe. Mas, minha origem literária é Crônica Política, não-ficção (ainda que no Brasil a Política esteja mais para roteiros ficcionais de categoria B).

  1. Fale-nos um pouco sobre seu(s) livro(s). Onde encontra inspiração para título e nomes dos personagens?

Nomear uma obra literária é exercício dos mais delicados e difíceis. Aquela palavra, ou um conjunto delas, tem o poder de resumir centenas de páginas, cenas, diálogos, pensamentos, etc. É uma escolha que extrapola a relação autor+livro. É exatamente o título de uma obra a gota de visgo que une o quadrilátero autor+livro+leitor+personagens. Ainda que em menor escala, a matemática é mesma com os nomes das personagens. Sabe aquela história de alguém olhar pra você dizer: “Olha, sabia que você tem cara de Helder mesmo?” Esse é o mistério da “certidão de nascimento” das personagens.

  1. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?

No meu caso, o “universo” da pesquisa é infinitamente maior que o próprio livro… ou livros! Não raro, durante a pesquisa para uma obra, acabo encontrando apontamentos para outras que virão (ou não!). É um arco que vai do estudo da origem de uma cidade até o perfume daquele cravo de defunto no velório de um desconhecido, da busca pela verossimilhança ao narrar o perfil antropológico de um povo até o onírico desenho que o percurso de uma lágrima deixa no rosto da viúva. A pesquisa para construção de uma obra literária é algo fantástico!

  1. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?

Não acredito que estilos literários tenham “donos”. É muito comum ouvir: “Fulano escreve suspense e mistério como Agatha Christie”; ou “Beltrano narra sua terra aos moldes de um Tolstói”. Ser comparado com Agatha Christie ou Liev Tolstói, em primeira instância, soa elogio de grande envergadura. No entanto, a arte de unir palavras em frases e delas estruturar um livro é algo semelhante a uma impressão digital. Ou seja, numa segunda instância de análise, a comparação pode até ser enorme ofensa ao autor e à obra, ainda que o espelho seja magnífico. Por óbvio, existem as inspirações, os ídolos, os estilos que gravitam um escritor. Mas, ninguém bebe o rótulo de um vinho!

  1. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?

Acho que esse desafio da publicação é, sem dúvida, o maior na carreira de um escritor. Mesmo porque, toda vez que um escritor termina uma obra, invariavelmente ele a considera uma barbada para o Jabuti de Literatura! Nesse primeiro momento, não temos qualquer vestígio de autocrítica. Então, é sempre um processo doloroso submeter sua obra literária à apreciação de editoras e só receber negativas. Some-se a isso o caótico mercado editorial brasileiro, que não consegue equilibrar a justíssima busca pelo lucro com best-sellers e autores consagrados, com a abertura de espaços para estreantes e desconhecidos. Mas, a evolução tecnológica e a explosão da comunicação horizontal através das redes sociais estão mudando esse “modelo” ao redor do mundo. Quantos livros escrevi e não consegui publicar? Vários!

  1. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?

Existe esse “novo cenário”? O que temos no Brasil é um autor nacional aqui, outro ali, ambos nadando sofregamente contra a corrente criada pela zona de conforto de editoras e livrarias quanto a publicação e comércio de obras internacionais lastreadas pelo sucesso de vendas em outros países. Pegue, por exemplo, a lista dos “dez mais vendidos” em ficção na última edição da revista Veja. Só temos dois autores nacionais: Paulo Coelho e Augusto Cury. O que há de “novo”? Observe bem: cá estou expondo uma correlação fundamental na vida profissional de um escritor que é o comércio, escrever+publicar+vender. Vendemos as histórias que contamos. Não vivemos graças ao livros nas gavetas. Verdadeiros escritores precisam ter um volume razoável de vendas para conseguir continuar seu trabalho. E o que temos no Brasil é o exato contrário: gente publicando seus livros, recebendo um sem-fim de tapinhas nas costas em eventos literários, críticas ululando nas “colunas especializadas” e um baixíssimo volume de vendas. Qual “cenário” torna-se perene assim? Nenhum. Não por acaso, todas as semanas surgem novas “promessas” da Literatura Nacional. Muitos deles, no ano seguinte, estão prestando concurso público ou distribuindo currículos, porque precisam sobreviver e todos aqueles confetes e serpentinas não são automaticamente transmutados em vias de subsistência financeira.

  1. Recentemente surgiram várias pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?

Acho que o equívoco está justamente em chamar algumas “coisas” de livros. Eu já escrevi muitas “coisas”. Revisitando aquelas escritas, percebo que não as ter publicado foi uma bênção! O pior é ver que algumas “coisas” eu consegui publicar! Isso sim é desesperador. O advento do self-publishing promoveu esse “boom de coisas”: publicações sem um editor, sem revisor, sem profissionais qualificados e absolutamente necessários na construção de um livro. Por outro lado, esse movimento acaba pressionando o mercado editorial e abrindo frestas que podem ser bem aproveitadas. É uma questão de oportunidade.

  1. Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?

Há dois fatores díspares nessa questão: 1) O Brasil é um país pobre com custo de vida de país rico, uma engenharia financeira necessária à manutenção do nosso ridículo e imenso “Estado-Pai-de-Todos”; e 2) Não acho que os livros sejam tão caros. Basta comparar com o preço de uma entrada para uma peça de teatro, da pipoca no cinema, do misto-quente de aeroporto ou do litro de gasolina. Num país que pouco lê, todo livro será caro demais!

  1. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?

Noutra resposta citei Agatha Christie e é dela a engenharia literária que mais invejo, em “Assassinato no Expresso Oriente”. A narrativa do livro é extremamente simples, mas seu contexto é genial. Circunscreva personagens estereotipados em elevado grau num cenário único e mínimo, um vagão de trem parado no meio do nada, preso por uma tempestade de neve; acrescente um assassinato e um detetive belga baixinho, bigodudo e excêntrico; e espalhe pistas por todos os cantos possíveis. Deu-se um dos maiores e mais geniais romances policiais da História. Invejo Dame Agatha dia e noite! (risos)

  1. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria? (nome da musica + cantor)

No romance “Águas Turvas” utilizei o recurso de criar uma trilha sonora. A recepção dos leitores foi extraordinária. Fui de Paul Simon a Rufus Wainwright. Neste momento, estou passeando por músicas brasileiras de raiz para um novo livro.

  1. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”?

O “livro da minha vida” tem a ver com símbolos, não com identidade. Quando era adolescente e fui apresentado ao romance “Memorial de Maria Moura”, de Rachel de Queiroz. Fiquei fascinado com a narrativa e a construção literária. Foi um livro transformador e, posso dizer, acabou definindo minha profissão e, claro, minha vida.

  1. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?

Estou escrevendo um novo romance e um livro sobre Política. Sem spoilers, please!!!

  1. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?

Acompanho com enorme entusiasmo. Eles são a nova fronteira da crítica em todo mundo. Acredito que, atualmente, são os grandes propulsores do universo literário. Há quem vocifere contra a ebulição de opiniões sobre tudo nas redes sociais. Vou exatamente no caminho oposto. Antigamente, um cidadão era proclamado “doutor da verdade” e sua opinião atravessava os dias, meses e anos como absoluta. Hoje, isso não existe mais. A era digital não trouxe apenas maior acesso à informação. Ela também ampliou muito o potencial de formador de opinião que existe em cada um, a capacidade de ser veículo da informação e não um mero guiado.

  1. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?

Eu adoraria assistir ao Jair Bolsonaro lendo “Águas Turvas”. Não por admiração. Fico imaginando o que um romance familiar homoafetivo poderia causar no deputado… (risos!)

  1. Qual a maior alegria para um escritor?

Viver de suas obras. Isso significa que elas foram publicadas e alcançaram o fim ideal: o leitor.

  1. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.

Durante toda entrevista, falei muito sobre a relação comercial na Literatura e bem pouco sobre onirismos. É óbvio que ser absorvido em sonhos, fantasias, ideias quiméricas é essencial para um escritor. Esse será o combustível do trabalho literário. No entanto, combustíveis são úteis quando há um motor. E esse motor é exatamente a disponibilidade e disciplina que cada escritor deve ter ao longo da vida. Essa simbiose precisa existir. É preciso ter os pés fincados na realidade e a ciência de que você é um pipoqueiro chegando com seu carrinho numa praça cheia de outros pipoqueiros. Por que as pessoas devem desejar sua pipoca? Se você está disposto a encarar francamente essa questão, seja você um pipoqueiro. Ou melhor, um escritor.

 Quer participar de nosso bate papo? envie-nos um email parceria.arca@gmail.com

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here