Geena-Eles voltaram – Geraldo Medeiros Jr

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. No prólogo de Geena-Eles voltaram o autor Geraldo Medeiros jr apresenta Felipe, que morre após sofrer um acidente com apenas 30 anos e deixa víuva Maria, ainda grávida do filho do casal, Caio.

Após sete anos, porém, Felipe torna-se o primeiro ressuscitado.

 Dois anos depois e o fenônemeno de ressucitação de Felipe mostra-se não como um fenômeno isolado, ao contrário: a cada dia mais e mais pessoas retornam à vida e procuram por seus entes queridos.

As reações dos familiares é que variam caso a caso.

Enquanto alguns se sentem muito felizes, outros familiares se mostram incomodados porque conseguiram superar o sentimento de perda de maridos ou esposas e formaram novas famílias com outros relacionamentos. O que fazer com esses seres que agora retornavam, quando eles não eram mais queridos no seio familiar?

Nessa primeira parte do livro, o autor Geraldo Mediros jr apresenta as reações não apenas das pessoas que ressuscitam de forma dócil, sem esboçar reação, com uma capacidade de regeneração e imunes às doenças dentre outras capacidades, que ficarão mais claras para o leitor ao longo do livro- mas especialmente dos familiares e conhecidos que conviviam com eles.

Tanto as pessoas de bom caráter quanto os marginais ou desafetos voltavam com a mesma docilidade no comportamento e não esboçava reação de defesa, o que fez iniciar uma onda de “ajuste de contas”, aflorando a agressividade daqueles que por algum motivo foram anteriormente injuriados pelos ressuscitados enquanto ainda vivos. O que resultou em uma onda de violência sem precedentes.

 Rapidamente, porém, os que ressurgiram conseguiam se recuperar das atrocidades sofridas e isso gerou uma espécie de salvo conduto para o comportamento atroz.

Poderiam ser torturados, violados e sofreriam a dor de cada ato praticado e, ainda assim, se regenerariam.

Além disso, eles tinham uma fome contumaz, especialmente no calor, gerando aos poucos um desabastecimento da população, não apenas brasileira como mundial.

A situação chegu a tal ponto que o G20 se reuniu para discutir o assunto mundial. “ressuscitados’”.

Além disso, a constituição não apenas a Brasileira como a forma de entendimento mundial, interpretava o limite da morte individual como o término das obrigações governamentais para garantia e exigência relativa aos direitos indivíduais através das constituições.

As organizações que garantiam os direitos humanos- em suma, o direito à vida plena- também não tinham claro como estabelecer com qual parcela da população atuar: se os que estavam vivos ainda ou aqueles que ressurgiam. A discussão em torno do fato de que se ressucitados poderiam ser ou não considerados indivíduos por já terem morrido, fomentou várias discussões sobre o assunto, de ordens religiosas, políticas e financeiras em todo o mundo.

Uma onda de suicidios iniciou-se não apenas entre pessoas doentes gravemente, na esperança de ressurgirem com a saude perfeita.

A questão religiosa também se manifestou com seitas como Além do Céu que induzia a onda de suicídios e ainda a Igreja Católica posicionou-se sobre o assunto: como falar de inferno ou céu e do temor da morte se agora a vida eterna era aqui mesmo, entre os vivos?

Uma agência criada com o intuito inicial de proteger a essa nova leva de pessoas (?)- a Agência de Coordenação e Controle dos Ressucitados –ACCR- foi criada inicialmente pela ONU, mas logo cada agência tinha uma filial em cada país do mundo e logo a agência começou a chamar pessoas para estudar os ressucitados.

Uma das medidas adotadas pela ACCR_BRASIL seria transferí-los para o sul do país, por ser um ambiente frio, para assim melhor protegê-los-ao menos era isso que alegavam.

Quando submetidos a baixas temperaturas eles se sentiam melhor, agiam normalmente, embora também consumissem mais alimentos. Em altas temperturas, entretanto, eles ficavam letárgicos.

 E pesquisadores foram chamados para promover estudos e responder algumas perguntas sobre o fenômeno, como a bióloga Rejane.

Esse trecho comenta um ressurgimento, como acontecia:

“Rejane ficou mais eufórica ainda. Uma espécie de fascinação combinada com ansiedade e medo. O ser dentro do casulo se contorcia fortemente… Foi aí que um gemido profundo e uma contração espamódica dos braços, quase um gesto de agonia, fez romper a membrana. De dentro, imerso numa espécie de líquido aminiótico, surgiu um ressucitado. Era um homem, coberto de um líquido gelatinoso e sangue. Ele emitiu um longo e doloroso apelo, quase um grito cheio de dor e agonia. Rejane, num instinto, lançou-lhe sobre ele e pos se a limpar-lhe o rosto com um lenço. Em seu colo, depois de fitá-lo nos olhos de um jeito bem maternal, Rejane ergueu-o com cuidado e deixou-o ali, em pé”.

Uma coisa, porém ficou claro com as pesquisas: eles tinham alguma fotossensibilidade-e por isso o fenômeno se dava em pespecial à noite como bem observou a bióloga Reajane, que iniciou a trabalhar no caso, por pedido do governo e que eles toleravam melhor o frio.

Outro especialista consultado seria Rui, um antropólogo, que o pedido de miliatres e da Agência fará uma pesquisa de 15 dias durante o período no qual responderá perguntas para o governo, mas especialmente tentará responder o que não ficou claro para ele: porque a insistência da ACCR em transferir os ressucitados para o Sul?Afinal, não seria mais lógico deixá-los com as familias do que transferir essa situação delicada para o governo? A Agência estava retirando das familias mesmo aqueles ressucitados cujas famílias aceitarm seu retorno e o poderiam manter economicamente.

Com qual intuito a agência tomou essa medida, se era do conhecimento de todo o alto de custo de manutenção dessa pós-vida?

Além disso, porque enviá-los para o sul do país se a fome deles aumentaria com a baixa temperatura e isso resultaria num exponencial desabastecimento do país? Porque não incentivar a educação deles e a reinserção na sociedade os transformamdo em economicamente ativos diminuindo os custos para mantê-los? Seria possível ensiná-los?A quem interessava mantê-los na ignorância?

Como não poderia deixar de ser, a questão financeira está essencialmente atrelada às questões politicas e nesse interím, a posição politica do autor torna-se claro na voz de certos personagens, como na fala do economista Ebrahim Klein:

“Em suma, Ebrahim explicou que, um sitema econômico global ao ser interferido por algo imprevisível, sofre grandes perdas. Certamente isso deveria ser evitado com novas esratégias, principalmente aquelas não ortodoxas. Um sitema criativo ganha com as turbulências e melhora com a desordem”.

“-Sim, senhores. Sei bem disso. O comunismo foi um erro. Porém, estamos num mundo diferente. Assolado por um fenômeno que nenhum de nós consegue controlar. Nesse caso, a união de forças e mentem férteis torna-se necessária. Não estamos mais brincando de sermos iguais, estamos buscando equalizar forças, o que é bem diferente. No comunismo o poder continuava a existir nas mãos de poucos. Neste caso, agora, o poder estará nas mãos de qualquer um”.

“A ACCR detém um enorme poder. Temo que isso seja perigoso para o munndo. Ela, agência, não pode influenciar nas decisões governamentais, os esforços e recursos financeiros sejam efetivamente globalizados. Deve haver uma descentralização do poder para que sejamos capazes de sobreviver à crise que está por vir.”

A questão é que tal declaração do economista caiu como bomba. Descentralizar o poder significa perder status, e isso, é claro, nenhum político deseja.

Muito menos Orozimbo Dias, que no inicio do livro está como candidato à presidência do Brasil, tão carismático quanto dono de um passado obscuro, e que, através de uma campanha eleitoral repleta de estelionato e corrupção, consegue se eleger e passa a interferir diretamente no desenrolar da situação.

Convicto de que muita coisa está sendo mal contada e existe algo muito suspeito por trás da remoção dos ressuscitados, Rui vai passar um tempo na reserva para onde eles foram transferidos e assim inicia-se a segunda parte do livro, quando os mistérios não só se intensificam como aos poucos começam a ser solucionados.

Na segunda parte do livro Geena-Eles voltaram, o autor apresenta outros personagens como Talita que terá fundamental importância para desenrolár dessa trama,assim como o papel de Rejane,de Felipe e de seu filho Caio – que é agora um ressuscitado-falecera no auge de seus dezoito anos.

E é na reserva que Rui passa a procurar por Ericka, sua esposa querida há tempo falecida, na esperança de reencontrá-la e começa a desvendar os motivos dos interesses politicos do governo Brasileiro. E É lá, na reserva, que ele escuta sobre a Fase final-mas nada fica muito claro sobre o significado disso, e enquanto algumas coisas se esclarecem a maioria ainda permane por descobrir, que será desvendado numa reviravolta surpreendente na terceira parte do Romance.

O Romance Geena-Eles voltaram– do autor Geraldo Medeiros Jr é, na teoria, um romance de ficcção científica, mas no fundo, é muito mais que isso.

Reflete, de forma inequívoca, sobre os bastidores da politica que assola hoje o país (ainda que a trama se passe num futuro) tanto aqui no Brasil quanto restante do mundo.

A quem interessa a fome da população? As doenças, a miséria? Por que e principalmente, para quem, interessa que o rovo permaneça ignorante, afastado daquilo que acontece na política entre aqueles que supostamente foram pelo povo eleitos para garantir os direitos desse mesma população a ser esquecido?

A democracia- enquanto regime de governo- é mesmo a solução tão apregoada?

A capa do livro Geena só será bem compreendida pelo leitor ao ter lido, pelo menos, metade da trama: O navio que atravessa o gelo na capa frontal e, na contracapa, numa imagem extendida, o gelo transforma-se em nuvem onde mãos suplicantes por socorro pedem socorro àqueles que já estão no céu e de lá em cima, mantém as mãos para baixo, na tentativa frustrada de tocar as mãos daqueles que imploram por ajuda.

O interessante é que ao virar de cabeça para baixo o livro, a cena se inverte, e aquele que pedia é agora aquele que oferece ajuda. E, ainda assim, as mãos permanecem sem se tocar… Será que há ajuda possivel para os ressucitados?

A diagramação é bem feita, livro bem revisado.

 O título da história é muito interessante, mas a compreensão do significado dele cabe ao leitor descobrir, após a conclusão do livro.

Não obstante, posso adiantar que Geena é um projeto… De quem e para quê, isso não me cabe revelar.

Um Romance denso, complexo, que aparenta ter muito mais que 400 páginas pela profundidade dos assuntos abordados e, ainda assim, é muito bom de ser lido.

O vocabulário culto, entretanto, é de fácil entendimento e leitura flui com facilidade.

Sobretudo, posso afirmar que Geena-Eles voltaram do autor Geraldo Medeiros JR não é um romance para entretenimento, ao contrário: é uma mensagem forte, essecialmente político/filosófica para ser minuciosamente analisada.

Uma das mais elaboradas e melhor estruturadas tramas que tive o prazer de ler e resenhar neste ano de 20016.

Recomendo.

 Resenha de Michelle Louise Paranhos, resenhista do Arca Literária

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