Felipe Catusso

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  1. Fale-nos um pouco de você.

Meu nome é Felipe Catusso, campineiro nascido em 1989, atualmente morador de Jaguariúna. Sou professor de Geografia e Atualidades em escolas e cursinhos populares na região de Campinas, Geógrafo formado pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).  Leitor assíduo, sobretudo de ficções utópicas/distópicas e literatura fantástica, apesar de ter aprendido a importância e o valor da leitura de obras que teorizam sobre as bases históricas, geográficas, sociais e culturais sobre as quais nossa sociedade de desenvolve. Desde a época do Ensino Médio, sempre fui engajado em atividades democráticas participativas, como atuação em grêmios e conselhos consultivos.

  1. O que vc fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?

Sou professor de Geografia a Atualidades, mas já dei aulas, também, de Ciências Sociais. Como sempre fui fascinado pela literatura, desde muito cedo me arrisquei a escrever pequenos ensaios, poesias e pequenos contos, sempre na tentativa de desconstruir e reorganizar meus próprios pensamentos. De um tempo para cá, cresceu a vontade de compartilhar algumas provocações e inquietações com demais leitores e leituras, no intuito de ampliar as possíveis respostas e novas perguntas que se originam das dúvidas originais.

  1. Qual a melhor coisa em escrever?

Há no ato de escrever uma paradoxal relação entre as infinitas possibilidades de tudo que você pode criar e a incontestável limitação do universo histórico-cultural, que é também físico e temporal, no qual você está inserido. Reconhecer nisso a possibilidade de romper com estruturas e paradigmas ultrapassados e arriscar propor novas formas de pensar, agir e transformar a realidade é, no meu entendimento, o grande legado da literatura.

  1. Você tem um cantinho especial para escrever? (envie-nos uma foto)

Geralmente escrevo no notebook, que pode estar comigo na rede, na mesa da cozinha, no sofá, no chão, na sala de espera, ou no computador de mesa que fica no escritório, geralmente para as revisões e trabalhos que exigem uma tela maior para não castigar tanto a vista! (risos) Minha caligrafia é feia e consigo escrever mais rápido no teclado, mas tenho dezenas de rabiscos e anotações em cadernos, bloquinhos e pedaços de papel que não conseguem esperar pelo computador e ficam registrados ali mesmo até serem aproveitados numa nova obra.

  1. Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?

O livro MEDO – Ministério Extraordinário da Defesa e da Ordem é uma ficção fantástica distópica permeada por aventura e suspense num cenário que pode parecer de um pretérito distante, apagado pelo tempo, ou futurista, mais próximo do que pensamos. É a primeira narrativa de ficção que publiquei, mas anteriormente publiquei, também, coletâneas de poesias com engajamento social, de cunho filosófico-reflexivo , algumas sentimentalistas, outras brincando com a liberdade da escrita contemporânea.

  1. Fale-nos um pouco sobre seu(s) livro(s). Onde encontra inspiração para título e nomes dos personagens?

“MEDO” seria originalmente o nome do livro – só “medo”, como substantivo simples. Mas, durante a trama, percebi que precisava de um nome para a estrutura representativa do autoritarismo e do controle representados pelo Estado na ficção. Daí veio a ideia de transformar o MEDO em sigla para Ministério Extraordinário da Defesa e da Ordem, compatível com a repressão exercida para dar manutenção à estrutura ideológica descrita no livro. Quantos aos personagens, é tudo fruto da criatividade que se apossou da trama, do começo ao fim! De alguma forma, a sonoridade dos nomes parece complementar e ressonar a personalidade e as características de cada personagem que faz parte do livro.

  1. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?

Antes de escritor, sou apaixonado pela leitura. Leio de tudo – mas o que mais me fascina são os livros que provocam reflexões, nos deixam indignados, desconstroem o senso comum e enchem nossa cabeça de questionamentos e possibilidades. Fã de gênios da ficção como Aldous Huxley, George Orwell, Júlio Verne, Douglas Adams e grandes pensadores como Milton Santos, Voltaire, Marx, Kropotkin, Bakunin, me senti inspirado a escrever um volume que dialogasse mais com as gerações com que tenho contato nas escolas. Pensei em algo mais próximo da linguagem atual, com críticas e provocações que acertassem em cheio os leitores e leituras da juventude atual.  Apesar de fictício, o universo controlado pelo MEDO faz uma série de paralelos com a organização ideológica a que estamos submetidos hoje em dia.

  1. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?

Tudo o que já um dia, de alguma forma, está presente no que escrevo, porque faz parte da minha matriz identitária, mas as influências mais marcantes vêm de Aldous Huxley, George Orwell, Júlio Verne, Douglas Adams, Milton Santos, Voltaire, Marx, Kropotkin e Bakunin.

  1. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?

A maior dificuldade de autores iniciantes é, sem dúvida, ingressar no chamado “mercado literário” e competir com a gigantesca máquina de produção de best-sellers em série. As próprias editoras e gráficas têm dificuldade em competir com os valores dos livros que chegam em containers, às toneladas, produzidos em larga escala por valores muito baixos, endossados pelo marketing viral, quando não por produções cinematográficas milionárias. As leis de incentivo à produção cultural no Brasil, sobretudo na área da Literatura, ainda são escassas e sobrecarregadas com burocracias, o que acaba condicionando as possibilidades de lançar novas obras a um nível de poder aquisitivo que apenas pequena parte da população brasileira possui.

  1. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?

A leitura, sobretudo de livros, vem sendo prejudicada pela comodidade da linguagem encurtada e muito informal, típica de internet, whatsapp e afins. As ideias, muitas vezes, se perdem e é comum ver a garotada em idade escolar e até adultos com grande dificuldade de organizar o pensamento de forma escrita e interpretar textos mais elaborados. Apesar disso, o interesse por apropriar-se dos debates acerca de política, economia e sociedade tem chamado a atenção do público jovem por roteiros de ação e suspense que abordam possibilidades de transformação e revolução nesse sentido. Bons livros são essenciais para a formação de bons leitores. Bons leitores são indispensáveis numa sociedade que almeja conquistar Cidadania e autonomia de pensamento. 

  1. Recentemente surgiram vários pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?

Os modismos e tendências globais acabam por direcionar o público jovem aos mesmos livros, geralmente estrangeiros, e subvalorizam (ou até mesmo descartam) as obras nacionais, sobretudo de escritores e escritoras que não têm seu nome divulgado pela grande imprensa. Falta, diante da massificação cultural e da globalização das tendências culturais, buscar a legitimação da produção cultural brasileira – mesmo que ela faça alusão à cultura globalizada – e fortalecer os canais de valorização, divulgação, avaliação e acesso ao material produzido por autoras e autores brasileiros, apoiando-se sobretudo nas redes sociais, de grande alcance e acesso facilitado, em termos financeiros. Antes de triar as obras de qualidade, penso que o importante seja fomentar a produção cultural nacional e, depois, deixar que o movimento cultural assuma suas próprias características, modeladas pelas demandas características de cada lugar, cada tempo e cada construção ideológica em que vier a existir.

  1. Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?

Num mundo onde se paga dois, três mil reais por um celular, quatrocentos reais por uma calça jeans, trezentos numa noite de balada, fico realmente abismado quando alguém reclama por um livro custar trinta, quarenta reais. Todavia, sem que pode ser um valor alto a enorme parcela da população brasileira que vive nos limites da sobrevivência e, como cidadãs e cidadãos brasileiros, também tem assegurado pela Constituição o direito à Cultura. Nesse sentido, reforço a importância de projetos sociais de incentivo à leitura e acesso aos livros, como bibliotecas comunitárias, feira de trocas, clubes de leitura e a disponibilização da versão digital das obras gratuitamente ou por valores realmente acessíveis. Falando nisso, a versão digital do MEDO estará disponível a partir de fevereiro!

  1. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?

Dificilmente tenho a impressão de que queria ter tido a ideia do autor ou da autora… geralmente fico empolgado, extasiado, algumas vezes, quando ideias brilhantes aparecem nos livros, o que acontece com frequência quando leio as obras incríveis de José Saramago ou Douglas Adams.

  1. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria? (nome da musica + cantor)

Tenho uma lista de músicas bem extensa que sempre fica tocando enquanto escrevo, que vai desde Os Mutantes, Chico Buarque e Zé Ramalho até Angra (principalmente os discos Holly Land e Angels Cry), Shaman, Helloween, Gamma Ray, Funkadelic e Scott Joplin.

  1. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”?

Vários! (risos) “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de Saramago, sem dúvida foi um deles, talvez o principal. “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams, também, e, a obra que levo até hoje no exercício do magistério, “Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal”, de Milton Santos.

  1. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?

A continuação de MEDO – Ministério Extraordinário da Defesa e da Ordem já está com os primeiros capítulos sendo escritos! O título provisório, divulgado em primeira mãos para as leitoras e leitores da Arca, é “MEDO – A Ascenção de Nova Atlãntida”. 

  1. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?

Estou sempre de olho nos lançamentos nacionais e levo muito em conta a opinião das blogueiras e blogueiros que comentam as obras, pois estão em contato direto com o público leitor e acabam por refletir as demandas e o momento cultural vivenciado pelas leitoras e leitores. Trata-se de um trabalho muito importante, essencial para fortalecer, divulgar e valorizar a produção cultural brasileira.  

  1. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?

Apesar do instinto de querer que os grandes mestres que me inspiraram a escrever o livro o lessem, sei que, estando, ainda, tão distante da genialidade e competência deles, provavelmente o resultado não seria tão bom! Além disso, a maioria já morreu!(risos) Mas queria muito que Fernando Meirelles, verdadeiro patrimônio cultural do Brasil, lesse o livro e se inspirasse a fazer uma adaptação para o cinema. Muita gente que leu o livro me diz que ele “tem cara de filme” por conta da riqueza do detalhamento dos cenários, personagens e situações, além da fluidez da leitura. Já que é pra sonhar, vamos sonhar alto, né? (risos)

  1. Qual a maior alegria para um escritor?

Mais do que uma forma de expressão, escrever é compartilhar anseios, indignação, reflexões, sonhos e pensamentos com pessoas que tiveram diferentes vivências, diferentes experiências e, por isso, podem levar em frente as ideias originais e desenvolvê-las em diferentes contextos, colaborando com o processo civilizatório, em permanente construção e desconstrução. Sou bastante realista em relação à possível repercussão do livro e não tenho preocupação alguma com dinheiro ou fama, mas sim em dar o maior alcance possível às inquietações e provocações necessárias às transformações sociais e ideológicas que tanto almejamos.

  1. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.

O conformismo, o consumismo e a banalização da Vida são temas centrais da crítica trazida pelo livro. Aceitar uma sociedade desigual, opressiva e injusta em troca da manutenção de alguns privilégios que convencem as pessoas de que a Defesa e a Ordem são formas legítimas de sustentar o Poder. Muito mais preocupada em consumir e possuir, grande parte da população deixa de lado a luta pelos direitos humanos, pelo desenvolvimento social e reduzem o valor da vida do outro ser humano, que não lhe diz respeito, naturalizando a violência. A princípio parece uma crítica pessimista, mas o tom é de provocação – um convite a pensar num modelo social diferente, que não repita erros cometidos no passado e não se acomode com as situações desumanas a que assistimos hoje em dia. Leiam! Pensem naquilo que os inquieta. Escrevam a respeito! Reflitam, provoquem e, nas palavras de Gandhi, “seja a mudança que você quer ver no mundo”.

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2 Comentários

  1. Oi, Felipe. Muito boa a sua entrevista. Gostei muito da sua opinião na pergunta 12. Continue assim e que tenha muita sorte e perseverança em sua trilha literária.
    Abraços,
    Leo Vieira

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