Fazes-me falta – Inês pedrosa

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Descobri o livro ‘Fazes-me falta “por acaso;  Era mais uma das aquisições que eu fazia num antigo sebo (que já não existe mais) na região metropolitana do Rio de janeiro.

Confesso que o título me encheu de curiosidade.

Naquela época, eu ainda não ouvira falar da escritora portuguesa Inês Pedrosa, e encantou-me conhecer sua biografia na orelha do Livro. Não li a contracapa e a sinopse contida ali, queria surpreender-me com a história. Era uma leitura totalmente às cegas.

Bem, nem tanto assim.

Impossível não me comover e traçar mil histórias em minha mente ao olhar a capa extendida do livro.

Publicado em 2002 foi publicado aqui em 2009,  O romance cuja  capa mostra fisgou-me ao primeiro olhar, mostrava uma parede nua, e, num ângulo reto, o chão de taco de madeira (um tipo de piso antigo). Encostado à parede creme, quatro molduras de tamanhos diferentes.

Molduras vazias: uma maior, outra um pouco menor e duas onde só caberiam telas infantis, bem pequenas.

Ao olhar a cena,  a leitura visual,somado ao título “Fazes-me falta” contou-me uma história de algo não realizado,uma casamento que nunca existiu,quem sabe marido,mulher,um casal de filhos?

Quando comecei a ler o romance de pouco mais de 200 páginas descobri uma trama num ao estilo espistolar ( através de cartas)

Uma história a duas vozes: um homem e uma mulher.

Embora as cartas sejam direcionadas um para o outro não há assinatura e é pelo contexto das epistolas que traçamos o perfil dos personagens.

Ela, uma professora universitária de 28 anos, que ministra uma cadeira de “história das mentalidades”, feminista, politizada, que, graças a isso, certo dia acaba entrando na politica.

Ele, um homem conservador, com 56 anos de idade, que um dia para não cair no tédio, resolver estudar História e a encontra como sua professora.

O relacionamento entre eles sempre ficou na promessa, cada um se envolveu com outros amores, mas o relacionamento entre eles, que nunca se firmou como tal, nunca os deixaram partir para assumir realmente esses amores.

Logo no inicio do livro, entretanto, descobrimos que a mulher está morta. E isso não é spoiler, na verdade.

 É sobre esse fato, que se constitui a trama do livro: porque agora, esse relacionamento não se concretizará a não ser no mundo dos sonhos.

Pelas cartas, descobrimos que as discussões entre os dois versavam de Deus à politica. Discutiam sobre tudo, discussões acaloradas. Ele a chamava de “Sininho” porque ela gostava de se pavonear, ele sempre se escondendo de tudo, ensimesmado.

Um amor calado, distante, presente, avassalador, lento e doloroso.

A Epígrafe, na abertura deste romance, talvez seja a síntese perfeita, através de versos, de “Fazes-me falta”, de Inês Pedrosa.

                    “Feliz assim por seres tudo o que sou?

                     Feliz por perderes tudo o que sei?

                     Só não te dou o que não serei.

                    Não, a minha morte, a não ta dou” (Pedro Tamem)

 Um romance dramático espetacular. Recomendo.

Resenha de Michelle Louise Paranhos, resenhista do Arca Literária

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