Eu Quero que Você Queira!

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Coluna De Boca Fechada

 

O assunto da semana na coluna De Boca Fechada é o meu direito de não gostar de você. Isso mesmo. Eu tenho esse direito, você sabia?

Eu tenho direito de gostar de maçã e não de pera, de gostar de você e não de João, de querer a morte e não a vida, de buscar amor e não paixão. É meu direito, e seu também. Isso tudo ocorre porque eu sou um indivíduo, individual, singular, único. O que me faz assim, o que me dá o direito de ter livre arbítrio em minhas vontades, desejos e ações é Deus, soberano absoluto. Logo não será você, nem Zé, nem Maria que vão me tirar esse direito.

Não somente eu tenho esse direito de gostar do que eu quiser. Todos nós temos esse direito. Mas onde eu quero chegar com isso?

Quero chegar ao direito que todos nós temos, de forma individual, de gostar do que quiser, preferir e apoiar o que bem entenderemos sem sofrermos retaliações por isso. Isso simboliza o nosso “direito” de ter direitos. Onde o meu direito acaba no começo do seu.  Cada qual no seu quadrado lembra? E todos respeitando um o quadrado (direito – gostos – preferências) do outro.

Voltemos esse discurso, acima feito, para a Literatura. Essa, na atualidade, surge com “enes” gêneros, que por sua vez possuem suas características. Logo, temos o gênero literário erótico, policial, fantasia, romântico, entre outros. E no cenário do individualismo e dos direitos pertinente a cada um de nós, eu não gosto de Fantasia, por exemplo. Mas gosto do gênero Policial. Eu prefiro literatura americana à literatura alemã. Tudo certo até agora? Perfeito.

O problema começa quando um sujeito quer deliberadamente tirar do outro o direito que lhe é alusivo de gostar do que bem entender. Pessoas que criticam outros por gostarem de Fantasia (da qual não gosto). Mas eu não tenho direito de falar mal da Literatura Fantástica Brasileira, por exemplo, só porque não gosto de lê-la. Não tenho o direito de falar mal da Literatura Romântica Brasileira, só pelo fato de eu não querer comprar livros desse gênero. E muito menos tenho eu o direito de impor meu gosto aos outros.

Visualize a cena: Só porque gosto de maçã, agora vou entupir você de maçã e achar ruim se você cuspir fora as maçãs que eu enfiar na sua boca. Agressivo, certo?

Mas é isso que, às vezes, vemos acontecendo no meio literário das mídias e redes sociais, onde uns querem impor seus gostos literários aos outros, que, manifestando sua não simpatia com um gênero ou outro, são rotulados, discriminados ou até ofendidos.

Onde está escrito que sou obrigada a gostar de Terror ou de Romance? Quem você pensa que é para querer obrigar o outro a gostar do seu livro, da sua história ou do gênero literário que você prefere? Eu sou contista, mas reconheço que muitos leitores não gostam de contos. Se você experimentou e não gosta, ótimo. Tem quem goste.

Parece tudo muito dramático, quando colocado dessa forma, mas é isso que ocorre, de forma velada ou aberta. É esse o cenário que muitos debates levantam quando uma página de Facebook, por exemplo, começa a evidenciar certos gêneros literários em detrimento de outros.

O que nos faz sociedade civilizada e em evolução é o respeito que eu devo ter para com seu direito. Posso dizer que não gosto, posso não querer ler, mas não posso, como ser social que sou, imputar a você meu gosto literário, ele é meu e você tem o seu. Que direito alguém tem de apontar como “menor” um gênero literário? Tudo é literatura, tudo tem seu valor.

Afinal se todos nós gostássemos de chapeuzinho vermelho onde colocaríamos Carlos Drummond de Andrade?

A leitura abre mentes, expande mundos e nos faz desenvolver muitas habilidades socais e cognitivas e isso é contraditório ao ato de forçar o outro a querer o que você quer e gostar do que você gosta, tirando dele o direito de ter suas vontades e preferências. Vamos nos atentar a isso cada vez que levantarmos nossas vozes contra ou a favor de um gênero literário, um autor, um estilo ou uma nacionalidade literária. Eu não gosto, mas se você gosta, tudo bem! Não importa porque eu não gosto, aceite e pronto. Isso é o resultado prático do hábito de leitura, faz de nós, seres sociais, civilizados, respeitadores dos direitos do outro.

Se nós agirmos contra isso, então não somos leitores e sim provocadores de debates vãos e sem sentido. E para esses, sempre existe uma pia cheia de louça para ser lavada!

Abraços Literários

Rô Mierling

Contatos: romierling.recantodasletras.com.br

 

 

 

 

 

2 Comentários

  1. Obrigada Daniel..Temos que respeitar o direito do outro de ter suas opções, quer sejam literárias ou políticas..bjs Rô

  2. Um texto perfeito e muito atual, inclusive para o momento politico.
    Parabéns Rô!
    Daniel Barros

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