Diário de uma escrava – Rô Mierling

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Esta é uma obra que inicialmente foi disponibilizada na Rede Social Wattpad onde atingiu mais de 1 milhão de leituras, tornando-se sucesso absoluto na plataforma, tanto em visualizações como em comentários, e que sequencialmente foi editada e lançada pela editora Darkside. Neste livro o leitor se deparará com vários aspectos que envolvem o emocional e o social dos personagens, e sensações inesperadas que serão despertadas durante a leitura. Em seu tema central contém o estupro de vulnerável, a privação social e o terror psicológico. Objetivamente, é uma história que possui um tema oculto da alma de toda pessoa: a crueldade.

     Rô Mierling nos entrega uma trama emocionalmente forte, psicologicamente visceral e além de tudo Real. Em seu enredo, escrito de forma simples, é apresentado ao leitor a jovem Laura em seu dia 1.728 de cativeiro – que é um buraco construído por debaixo do quarto da casa do seu sequestrador –, cerca de 4 anos e 7 meses, o nome do homem que tirou sua liberdade é Estevão, que perante a sociedade mostra-se bom, vive uma vida feliz com sua esposa, essa que demonstra visivelmente seu amor por ele. Um belo plano de fundo que serve para mascarar sua real essência, que pelo ponto de vista de Laura, de outras vítimas e até mesmo dele, é um terrível psicopata. Um Ogro – maneira a qual a protagonista o chama em seu silêncio durante toda a história.

     A motivação dele em cometer crimes de estupro e agressões físicas radicais envolve uma questão psicologicamente fantasiosa onde acredita que as meninas gostam do terror que ele promove ao estuprá-las, ao torturá-las fisicamente e moralmente até que provoque suas mortes.

     A história transcorre com Laura relatando de maneira específica todo o horror que vive desde que foi pega pelo Ogro, coisas que a destruíram por dentro criando marcas que não saram, que não podem ser arrancadas de sua mente e corpo. Decidida a reagir e planejar sua fuga acaba vendo-se presa a esse homem, e ao analisar os fatos, caso consiga fugir, sofre um insight onde se convence de que sua vida será a mesma coisa, nada irá mudar, pois continuará sendo prisioneira, vista como a anormal que conseguiu sobreviver a coisas que muita gente não conseguiria. Isso fica nítido nos seguintes trechos:

     “… Como vou olhar para minha mãe e meus amigos? E se eles puderem ver em meu rosto as atrocidades que o Ogro fez comigo? Como vou poder aguentar a dor da humilhação?”; “Nunca mais seria a mesma pessoa, não serei mãe, esposa, não terei família, nunca serei feliz”.

     A pessoa sofre o impacto social, pois vira uma espécie de vítima culpada, a famosa questão imposta pela sociedade na maioria das vezes: a culpar é da vítima.

     Laura fica numa situação em que sente presa ao Ogro, mesmo sendo humilhada, torturada e abusa. Vive numa bolha de infelicidade e ao mesmo tempo de medo de perder o que lhe resta.

     Ela chega num nível de dependência tão alta de seu abusador que acaba ficando presa a ele e não vendo outra saída se não for a morte, caso não for para estar com ele, porque todo o resto, no seu ponto de vista, já está comprometido, mesmo livre ou solta sua vida real e interna nunca mais será a mesma, pois no seu interno tudo já está destruído e seu externo marcado visivelmente pelo sofrimento.

     É possível afirmar que este livro tem o poder de deixar o leitor impressionado com um desfecho inesperado, mas que demonstra – acima do comum – a natureza cruel do ser humano.

     Até que se chegue ao desfecho da história vários personagens são apresentados de maneira objetiva, não deixando dúvidas sobre suas respectivas importância na trama, ou seja, uma narrativa com ponto de vista alternando entre um narrador onisciente e um narrador-personagem, elevando a leitura para um nível alto a cada página. A reviravolta acontece no psicológico da personagem que logo reflete na trama, isso já no meio da leitura, é onde vemos sinais da Síndrome de Estocolmo sendo refletida em seus atos, uma das coisas que conduziu a personagem à sua escolha no final. Tudo muito bem arquitetado pela Rô Mierling. A escrita dela é simples, em grande maioria substituindo termos chulas por palavras que dão compreensão do que se trata, isso referente às cenas que envolvem tortura sexual, ponto bastante positivo, mostrando que não precisa escandalizar para chocar as massas.

     O que torna Diário de uma escrava uma leitura atrativa é a riqueza do seu teor em dar ênfase em algo que é real, além de ser uma leitura forte combinada com elementos narrativos bem estruturados e nunca rasos. Diferente de alguns livros que são escritos para somente o entretenimento. Este contém algo bem mais além do que somente entreter o leitor com uma ótima história, também mostra o que acontece na sociedade em que vivemos. Tem um cunho social envolvido.

     Pelos diálogos, ambientes e maneira como a escrita é levada, tive a impressão de que as cenas pudessem terem sido reais, e ao finalizar a leitura, após o epílogo, contém uma sessão com Notas Finais ressaltando relatos de casos reais de pessoas que foram mantidas como escravas sexuais, além também de um artigo sobre a Síndrome de Estocolmo. Elementos usados na história para deixá-la com teor real.

     O livro é em versão capa dura composta com o desenho de uma borboleta que vai da capa à contra capa, logo no início se tem uma referência a uma, que ao ler e levando em conta a questão metafórica você entende o que o trecho quer expressar como mensagem, algo que faz referência a liberdade e a prisão. No entanto, eu tive outro ponto de vista do motivo da capa conter uma, que é a do efeito borboleta – a teoria do caos.

     A diagramação é muito bem feita, as fontes usadas no corpo do texto e nos títulos são bem visíveis, no acabamento as bordas do corte das folhas são tingidas de azul e rosa que ao fechar o livro dar um efeito colorido.

     Não é um livro que precise de um segundo volume, porém, caso houver será algo que não terá problema, pois terão outros pontos a se explorar.

     Rô Mierling é gaúcha/brasileira, escritora, roteirista e antologista. Além de “Diário de uma escrava” também é autora de “Contos e Crônicas do Absurdo“, “Íntimo e Pessoal”, “Quando as Luzes se Apagam“, “Pedaços de Mim”, “Cicatrizes da Escravidão” e muitos outros. Coordenadora em mais de quarenta coletâneas de contos nos mais diversos assuntos, entre o dramático e o sinistro, do paranormal ao crime sádico.

     Fernando Mello é resenhista e colunista do Arca Literária. Autor das obras “Sob o domínio do silêncio”, “A garota por quem me apaixonei” e “Uma nova chance”.

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Resenha de Fernando Mello

22 Comentários

  1. Capa desse livro é linda, amei a resenha, pelo visto o livro é bom mesmo, fiquei super curiosa para ler ele agora, vai entrar na minha lista de compra no mês que vem!

  2. Adorei a resenha e super amei o livro. Infelizmente, o numero de vítimas aumentam diariamente e é preciso ficarmos alertas. O perigo pode estar do nosso lado e os inocentes acabam pagando o preço.

  3. É um tema forte. Fiquei curiosa , e ao mesmo tempo você me deixou pensativa, pois, por mais que saibamos que as pessoas são capazes de atrocidades, quando se trata desse tipo de violência sempre da uma dor no peito.

    Parabéns pela resenha.

  4. Conheço e tenho vários livros da Rô mas esse eu não conhecia. E sinceramente se tem o selo Darkside tenho certeza que é bom. Eles não dão ponto sem nó, como dizem lá em Minas.
    Gostei muito do enredo, o carcere privado é um assunto muito delicado e tratá-lo pela visão da vitima é chocante.
    Fiquei muito interessada em ler. Vou aproveitar a bienal daqui do Rio pra procurar.

  5. Só uma palavra para definir: QUERO!
    Ainda não tinha ouvido falar, mas pelo o que você disse ai sobre esse livro e por ela ser brasileira já quero!
    Amei Fernandinho!!
    Beijossssss!!

  6. Show de bola Fernando, eu ti lendo esse livro semana passada, deve ser bom mesmo porque você já leu.
    Gostei da sua resenha, depois vou querer emprestado e SEM contrato de empréstimo! 🙂

    • Obrigado Tomaz, empréstimos somente com contratos rubricados, identidade, CPF, dois números de contato e comprovante de residência e de renda. kkkkkkk

  7. Gostei da história Fernando, parece ser bem forte daquelas dignas de filme de cinema. Vou conferir depois.

  8. Esse livro é aquele que você tava lendo semana passada Fernandinho?!
    Pelo o que vc descreveu parece ser ótimo, quase um filme né. Depois em empresta pra ler pf
    Beijos amigo!!

  9. Ual, deve ser ótimo esse livro. Fiquei super curiosa em ler agora, ela é brasileira? Se for mesmo, se garantiu! Sucesso para ela

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