Decadência da Musa Fragmentada – Danny Marks

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Houve um tempo em que reunia todo poder de vida e mistérios de morte. De si brotava toda sabedoria, estratégias de destino, sentidos, ilusões e sentimentos.

Era a Deusa Virginal, a Consorte Celestial, Mãe de toda humanidade e de todas as artes, motivo e consequência de todos os atos concebíveis, com os cabelos irradiando estrelas e os pés enraizados na terra.

            Sob o seu manto a vida simples e natural, ao seu olhar os caminhos eram de busca pela beleza em todas as coisas.

            Mas os filhos crescem, em tamanho e numero e espalhados pelos ventos, habitam em outros lares. Ela fragmentou-se para acompanha-los.

            Foi virginal para alguns, mãe acolhedora para outros, sábia idosa em santos lugares e, sacerdotisa de si mesma, era rainha de todos.

            Na quantidade de papeis necessários distribuiu-se em força e fragilizou-se. Tomou então o complementar como seu protetor.

            Mas esqueceu de ensinar sobre o todo aos seus filhos e filhas, e com o tempo o peso dos múltiplos papeis recaiu sobre seus ombros e ela, na servidão.

De inspiração para a beleza maior, tornou-se necessidade de ideal menor.

            Tornou-se motivo para conquistas, para acúmulos, para excessos. De provedora de paz, tornou-se sombria dama de guerra conclamando seus soldados para a batalha em troca de prazeres e luxúria. E, com o tempo, de prêmio passou a espólio.

            Sua força acorrentada na servidão, sua multiplicidade condicionada a necessidades dos dominadores, sua sabedoria desfeita em pedaços impossíveis, em luta contra o si mesmo, descartada da unicidade.

            Quebrado o vinculo com o supremo, tornou-se terrena. Um corpo a seduzir e a servir, um espírito a doar a luz e a penar na escuridão.

            E de fragmento em fragmento, de pedaços que se partiam, foi perdendo o entendimento de si e buscando-o cada vez mais no que lhe faltava.

            O guerreiro que lhe daria a sua vida, tornou-se o poeta que cantava a saudade e a perda. Do consorte se tornou amante, às vezes dona, às vezes objeto.

E tornou-se mulher, sacerdotiza, prostituta, mãe, filha, estranha, corpo cristalino em frágil beleza, molde, motivo, horror, amor, desejo, dor, esteio, corrente, sangue e suor.

            Enclausurada, exposta, armazenada e servida na necessidade, na ansiedade de alcançar glórias do passado, através da reconquista de si através do outro, perdeu-se novamente.

E de inspiração para o sublime tornou-se reprodutora do poder estabelecido.

Revoltou-se contra a natureza de si projetada no mundo e em virulenta corrupção de seu ideal, voltou-se contra suas partes lançando-se em embates que valorizavam o que possuía e desmereciam o que poderia se tornar.

            Destituída do que lhe parecia virginal, em sua essência de amante, deixou de ser mulher, não por abrir mão de vaidades ou compartilhar o pouco que possuísse com seu consorte, mas por deixar de acolher em si o amor que elegesse na busca pelo possuir que pudesse alcançar através do que lhe pertencia na troca que se fizesse.

            Valorizou a sedução e o sexo como fonte de conquista e caiu na armadilha de ensinar aos que deveria resgatar, para ser resgatada, a vilania da posse, a corrupção do todo na busca da satisfação imediata pela parte.

            Cada vez mais separou-se de si mesma, adotando por vezes a parte que lhe era menor como estandarte de luzes, e lançou-se a luta com as mesmas armas que a subjugavam e a partiam em pedaços.

            E mesmo o corpo deixou de ser inteiro e passou a ser rosto, cabelos, seios, bundas, pernas e pele. Deixou de ser natural e estendeu-se na confecção cosmética da suposta perfeição, vencida no discurso das vencedoras fabricadas.

            Despiu-se da inteligência para se refugiar em fragilidades, despiu-se de valores para se tornar desejável, despiu-se da sensualidade para se tornar objeto, despiu-se para encontrar-se.

            E por não conseguir, incorporou a busca pela igualdade ilusória que lhe roubaria definitivamente a pluralidade de ser múltipla.

            Violentada por si mesma, voltou-se contra si em fúria cada vez mais injusta, reduzindo-se ao extremo.

E o poeta que tanto tempo levou para entendê-la, chorou os pedaços que restaram e na montagem imaginária, tenta restabelecer a dignidade que, decadente, ameaça desaparecer para sempre.

            Nesse suspiro é que resiste a inspiração da humanidade e a esperança de que a Musa, ao ouvi-lo, retorne a Ser.

10 Comentários

  1. Parabéns pelo texto.

    Achei muito interessante, conseguiu demonstrar a complexidade feminina, suas facetas, sua força e também toda a cobrança que recai sobre a mulher em seus diversos momentos e fases. A mulher é sempre múltipla, nunca singular, é sempre plural, devido as suas jornadas triplas. É sempre muito cobrada, sempre existe a exigência de que seja perfeita e de fato, acaba sendo sim, mais do que perfeita. Novamente Parabéns.

    • Obrigado Lia,

      Espero que goste dos próximos textos também. Assim que a Ceiça resolver coloca-los no ar rsrs.

      Grande abraço 🙂

  2. De toda forma, parabenizo pela forma de retratar a figura feminina de forma geral, que muitas vezes é demozida pela sociedade.

    • Eu agradeço. Vamos torcer para que as pessoas aprendam a respeitar, senão a entender, as diferenças e sua importância para que a sociedade cresça melhor e mais forte, de forma inclusiva.
      A fragmentação do Feminino tem provocado, na minha opinião, o aumento da intolerância em todos os níveis e é importante ressaltar que ambos os aspectos (Feminino e Masculino) estão presentes em todas as pessoas e compõem a base da construção da personalidade. Reprimir, destruir, demonizar, rejeitar qualquer uma das partes é nos tornar menores do que poderíamos ser, e nos lançar cada vez mais no abismo dos preconceitos.

  3. Olá!
    Bom, interessante o texto, mas se o mesmo foi escrito para a Madonna (digo isso por conta da foto), tem trechos que não concordo muito.
    Sou fã da Madonna desde os 11 anos, e um dos motivos que mais me fazem amar essa mulher é o seu poder de reinvenção, além do fato de doar-se imensamente para a sua arte, mesmo que muitas vezes o retorno seja ingrato, e ela não seja entendida.
    Estamos em uma época tão “artificial”, visando apenas dinheiro e likes, que encontrar artista que mesmos após tantos anos se mantêm firmes nas suas ideias é magnifico. Madonna fez e faz o que desejou, quando desejou e na hora que desejou.
    Vida longa a Rainha que abriu caminho para as “divas” que infelizmente hoje dizem reinar em seu lugar.
    U mundo precisa de mais autenticidade, o mundo precisa de mais pessoas que façam, e não fique apenas falando, falando…
    “Como uma oração, a sua voz me guia. Como uma musa para mim, você é um mistério..”

    • Oi Samanta, tudo bem?

      Respondendo ao seu questionamento, não, não é sobre a Madona (atriz, cantora, etc) que é uma pessoa admirável pela sua história de vida e trajetória pública (nem sempre há uma sintonia entre as duas partes, felizmente neste caso há).
      O texto fala sobre o Feminino na forma poética, e a decadência que observei nas ultimas décadas. Sempre me interessei pelo Feminino e até fiz algumas teses de graduação com essa temática. Para um homem é difícil compreender a complexidade do Feminino, descrito por Freud pela primeira vez na sua Conferência XXIII. Como o pai da psicanálise recomendou, fui buscar nos poetas uma perspectiva que pudesse me ajudar e me fascinei pelo tema.
      Este texto tenta alertar, mulheres e homens, para a perda dessa essência. Uma perda sistemática e intencional, na minha opinião, que pode ter sérios problemas não apenas na cultura geral, mas na perda de um elemento fundamental da evolução da nossa sociedade. Quanto mais “vozes” se calam ou são submetidas a um padrão menor, mais perdemos da necessária capacidade de compreender a diversidade e tornar o mundo melhor.
      Infelizmente as coisas tem piorado ainda mais desde que apresentei esse texto pela primeira vez, mas o apelo continua valendo e espero que seja atendido, algum dia.

      • Olá!
        Obrigada pelo retorno!
        “Quanto mais “vozes” se calam ou são submetidas a um padrão menor, mais perdemos da necessária capacidade de compreender a diversidade e tornar o mundo melhor.”
        Esse é justamente o ponto!

        Seguiremos acreditando em uma mudança positiva, ainda sonho com um mundo mais justo.

        Abraços!

        • Eu que agradeço, Samanta. Continuemos sonhando, continuemos nos falando, e as coisas vão melhorar.

          Abraços!

    • Oi Vera,
      Havia respondido o seu comentário, mas desapareceu por algum motivo que não sei (normalmente alguma falha de atualização, sempre há problemas do tipo em sites). Mas de qualquer forma era apenas um agradecimento pelo seu comentário. 🙂

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