Para que os Vivos e os Mortos Descansem em Paz – Danilo Otoch

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O livro Para que os Vivos e os Mortos Descansem em Paz já me chamou a atenção pela capa, ilustrada de forma elegante e com cores fortes. Em principio, me remeteu ao sentido das cores: preta que me fez pensar no isolamento, no medo e na solidão da tortura simbolicamente mostrada em uma pessoa sentada e sendo torturada. O vermelho me fez pensar no sangue, derramado pela opressora ditadura militar.

 O Autor Danilo Otoch é policial, formado em História e além deste romance, escreveu outros livros de contos e poesias. Ele fez um trabalho minucioso e muito bem cuidado, citando os fatos de uma época marcante do Brasil. A obra é ilustrada por elementos históricos, citados de forma coerente e bem pontuada ao longo da narrativa.

 O ano de publicação do livro data de 2015, tem 250 páginas e é publicado pela Editora Cultura em Letras Edições. Possui capítulos numerados, dispostos em folhas brancas e simples, com uma fonte de fácil leitura.

 Passa-se nos dias atuais, fala de história, drama e realismo. O tema principal é ditadura militar brasileira, conhecida como os “Anos de Chumbo”. É um livro bem escrito e a história é contada em primeira pessoa por Marcos, um professor universitário, separado, que vive uma vida tranquila, morando sozinho.

 Marcos no início do livro é abordado na rua por um homem que estava lhe seguindo e que ao ser abordado por ele, descobre que era João, seu antigo amigo e companheiro de luta contra a repressão vivida na época da ditadura militar. Eles já não se viam há mais de 20 anos e as lembranças retornaram todas e com estas, as dores que ficaram presas no peito, os traumas psicológicos e as sequelas emocionais deixadas pela ditadura. As sensações automaticamente retornam, pois estas causaram imensa dor e sofrimento a Marcos. Esse evento traumático afetou o comportamento, os pensamentos e os sentimentos dele que a princípio, fará de tudo para evitar reviver ou relembrar qualquer fato ligado aos dolorosos Anos de Chumbo.

 Na ocasião, muitos presos políticos foram violentados, torturados e até mesmo mortos, jogados em valas e registrados como desaparecidos, em uma tentativa de limpar as atrocidades cometidas. A vontade de saber o que de fato aconteceu e talvez, dessa forma, encontrar redenção no passado, faz com que os antigos amigos decidam e comecem a planejar o sequestro de seu antigo algoz e torturador: o Dr. Asmodeu.

 Esse homem já não era mais aquele imponente vilão, era agora um velho decadente: obeso e alcoólatra. Mas ainda assim, era o homem que torturou Marcos, João e seus companheiros de esquerda, em especial, o amigo Carlos, morto na época. Com o sequestro, eles passam a obrigar o Dr. Asmodeu a revelar todos os planos escusos do regime militar e o envolvimento de vários políticos, civis e de militares na tortura de várias pessoas pelo país afora.

 O mais importante para eles, era saber onde se encontravam os corpos dos companheiros desaparecidos, que até então ainda não tinham sido encontrados. Eles queriam que a verdade aparecesse e que ao menos, pudessem encontrar os restos mortais do companheiro Carlos. Os três eram amigos desde a infância, cresceram e lutaram juntos durante os anos opressores. O objetivo deles era além da vingança, dar descanso de maneira honrosa, à memória do amigo morto na ditadura militar.

 Aos poucos, Asmodeu é levado a contar sobre todo o seu envolvimento com a ditadura. Além de relatar o que João e Marcos já tinham conhecimento, Asmodeu os surpreende, pois revela um cenário que eles não faziam ideia. O reencontro e as palavras ecoando na mente deles trazem tudo à tona novamente, pois embora os anos tenham se passado e as vidas reconstruídas do que sobrou, as cicatrizes no corpo e na alma permaneceram latentes, prontas para serem exacerbadas a qualquer momento.

Os relatos e o discurso de Asmodeu sobre a ditadura e política latino-americana, são para mim, uma obra à parte. Sabemos que na América Latina, a ditadura proporcionou mais perdas e danos do que benefícios numa guerra obscura, travada há séculos. Além de se tratar de uma narrativa policial, o livro é um suspense psicológico e uma obra histórica. Apesar de não ser especificamente um livro de ação, nos deixa atentos em toda a leitura, pois narra as atrocidades e crueldades baseadas na realidade dos Anos de Chumbo.

Os personagens e as situações são bem descritos e nos sentimos na cena, participando ativamente da situação. A obra fala de História e de realidade e sendo assim, nos coloca a pensar no passado de nosso país, nas máculas de nosso povo. A narrativa entre ficção e realidade nos deixa instigados para saber qual será o desfecho da história.

 Vivemos um momento do que dizem ser democracia em nosso país, mas ainda há resquícios do período da ditadura no Brasil, pois são cometidos arbítrios e abusos de autoridades em nosso cotidiano. Hoje falamos de corrupção e em tempo de veneração de Tortura no Plenário, a ditadura voltou a estar nas rodas de conversa, na mídia e nas redes sociais. Os brasileiros estão totalmente insatisfeitos com o atual Governo e o livro Para que os Vivos e os Mortos Descansem em Paz, possibilita a rememoração de uma série de fatos que mancharam a nossa história com o sangue de tantos perseguidos e mortos pelas torturas da Ditadura Militar.

Durante as manifestações nas ruas, as pessoas pedem a intervenção militar, mas não é preciso muitos argumentos para comprovar como muitas delas não têm ideia do que estão pedindo e seria uma desonra à memória do Brasil, aceitar a veneração de pessoas que torturaram e mataram tantos. A Literatura com sua importância para a formação de opiniões e conceitos pode nos ajudar a rever ideias e desconstruir pré-conceitos.

Em minha análise pessoal, o final de Para que os Vivos e os Mortos Descansem em Paz traz um desfecho bem vinculado à realidade e bem contextualizado. Por ser Psicóloga e uma pessoa aficionada por História, esse é um tema que desperta muito o meu interesse. Mesmo sendo um período muito obscuro de nossa história, ele deve ser relatado em memória de tantas vidas perdidas.

É uma trama emocional e é impossível ler essa obra e ficar indiferente diante deste período histórico e tão sombrio do Brasil, mesmo que seja uma obra de ficção, ela coloca o leitor defronte de questões do passado de seu povo e os faz pensar em que caminhos estamos seguindo. É hora de enterrar de vez o nosso passado ditatorial e caminhar rumo a uma democracia que seja efetivamente real, certamente o principal anseio dos milhões de brasileiros. O que o passado nos ensina que não devemos repetir em nosso futuro?

 Ditadura é um discurso constante te ensinando que seus sentimentos, seus pensamentos, e desejos não têm a menor importância, e que você é um ninguém e deve viver comandado por outras pessoas que desejam e pensam por você.

 

Stephen Vizinczey

 

 

Resenha de Mhorgana  Alessandra, resenhista do Arca Literária

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