Cristiane Krumenauer

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  1. Fale-nos um pouco de você.

Sou Cristiane Krumenauer, romancista, contista e crítica literária. Sou formada em Letras pela Unisinos, especialista em Literatura pela UFRGS e mestre em Linguagem, Interação e Processos de Aprendizagem pela Uniritter International Laureate Universities. Em 2010, representei o Brasil no Congresso de Literatura Ibero-americana, realizado na Universidad San Tomás, em Bogotá, Colômbia, expondo sobre contos de Machado de Assis.

Nasci em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, mas devido ao espírito desafiador de meu pai, mudava-me constantemente, chegando a viver em Gramado e Canela, onde publiquei minhas primeiras crônicas em jornais daquela localidade. Professora desde 2002, logo percebi a necessidade de residir próximo à capital Porto Alegre, onde teria melhores oportunidades profissionais. Até que em 2008, conheci aquele que veio a se tornar meu marido – um militar paulista, que, como meu pai, mudava-se a cada dois anos. Foi assim que passei a vivenciar aspectos da segurança nacional, o que, além da leitura de obras sobre inteligência e forças armadas, acabou me inspirando na criação de romances policiais, como o “Chamas da Noite”.

  1. O que vc fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?

Eu era professora de inglês, português e literatura, mas isso foi somente até minha vida se tornar imprevisível. Hoje só escrevo. É a profissão que se adequa a minha vida errante, sem moradia fixa, sem planos quanto à próxima cidade, estado ou mesmo país. Nem eu tampouco meu esposo conseguimos planejar nosso futuro. Então, meu escritório é simples: resume-se a um laptop. Quando temos que nos preparar para mudar (de novo), simplesmente coloco meu “escritório” na bolsa e o levo comigo.

  1. Qual a melhor coisa em escrever?

Bem, a linguagem, em todos os sentidos, sempre foi minha paixão. Desde criança, eu escrevo. Lembro-me que meu primeiro livro de histórias eu o escrevi à mão e o título era O peixe daquela floresta, ao lado do qual desenhei um peixe muito tosco na tentativa de fazer uma capa (risos). Escrever é fascinante, é onde colocamos no papel aquilo que nossa imaginação cria antes de dormir… No papel, entretanto, o compromisso é outro, tudo tem que estar interligado e até mesmo um mero ranger de dentes deve ter uma razão de ser.

  1. Você tem um cantinho especial para escrever? 

Meu atual cantinho tem uma vista perfeita, como se pode ver na foto, mas meus dias nele estão contados. Em março de 2016, voltamos para o Brasil. Para onde? Não faço a mínima ideia, mas espero ter um espaço só meu também na futura morada, já que escrita e bagunça ou interrupções não combinam.

  1. Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?

Comecei escrevendo contos fantásticos, pois gosto de mistério, principalmente quando o final deixa um ponto de interrogação enorme na face do leitor (risos). Hoje, dedico-me também ao gênero policial, mas com uma certa relutância em aceitar as estandardizações desse gênero. Para mim e nisso os críticos hão de concordar, literatura é linguagem. O que isso quer dizer? Quer dizer que meus romances policiais não se limitam às ações das personagens ou em descobrir quem foi o tal assassino. Além desses detalhes, eu também reflito muito sobre a linguagem e, atualmente, tenho focado em deixar frases marcantes ao leitor.

  1. Fale-nos um pouco sobre seu(s) livro(s). Onde encontra inspiração para título e nomes dos personagens?

Bem, meus romances e contos são inspirados na realidade. A ficção vem a cumprir o papel que a realidade deixa em aberto, por assim dizer. Meu primeiro romance é o Chamas da Noite, inspirado na tragédia que abalou o país (e a mim, profundamente), ocorrido em Santa Maria. O trabalho escravo de imigrantes ilegais no Brasil, em pleno século atual, também virou tema do livro. A vilã Simone se beneficia desse tipo de regime ilegal para abastecer sua grife e tudo ocorre conforme ela planeja até uma garota chamada Maria Luísa aparecer, roubar seu namorado e manchar a imagem da poderosa, que escolheu como slogan de sua grife a frase: “Simone Magalhães, a insubstituível”. Bem, ela descobre que pode, sim, ser substituída, mas não está a fim de aceitar isso. Então, Simone decide se vingar e incendeia a cafeteria de Maria Luísa, onde dezenas de pessoas morrem, inclusive Gabriel – o amor das duas jovens. A partir daí, Simone tenta interferir nas investigações, a fim de culpar sua rival pelo incêndio, mas Maria Luísa ganha um aliado: um detetive particular que tentará desmantelar a quadrilha de Simone e libertar os escravizados da grife. A partir daí, pura adrenalina e não será nada fácil aos heróis sobreviver à ardilosa Simone!

Meu outro projeto é uma série de contos, inspirados no período em que estou residindo na Namíbia: intitula-se “Contos da Namíbia”. Três já foram publicados: Swakopmund (livro 1), E assim, ela se perdeu duas vezes (livro 2) e O Tesouro da Duna 7 (livro 3). Há muito mistério nesses contos, neles eu tento reproduzir as diferentes culturas tribais em constante choque com a evolução capitalista no país. Os temas são os crimes não premeditados, que são os que mais surpreendem o leitor porque são totalmente imprevisíveis. Em O Tesouro da Duna 7, por exemplo, o leitor se delicia com uma história de amor não correspondido e cheio de obstáculos entre Karl, um alemão capitalista, e Janet, da tribo Herero. Somente no final que o leitor descobre que essa história de amor não é o foco principal, ao contrário, é apenas um pano de fundo para um conto com um final cruel e surpreendente. Esse projeto tem tido uma ótima aceitação dos leitores, pois mesmo que os contos tenham por cenário um pequeno país da África, os temas tratados são universais!

  1. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?

Muita leitura, principalmente em livros técnicos e, no caso de “Chamas da Noite”, em reportagens sobre o trabalho escravo e sobre as investigações do incêndio. Além disso, entrevistas com diferentes pessoas também ajudam muito. Por exemplo, em meu segundo romance (sobre o qual logo teremos notícias), entrevistei dois agentes penitenciários para reproduzir a realidade em um presídio. Já no projeto “Contos da Namíbia”, disponível no Brasil pela amazon.com.br, visitei cada lugar que acabou se tornando cenário do conto – foram mais de 3000 km rodados de carro, além de muita conversa com a população local, geralmente tribais que dominam razoavelmente o inglês.

  1. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?

Bem, não sou uma Lygia Fagundes Telles, nem um Guimarães Rosa, certamente não um Milton Hatoum, nem um Sydney Sheldon, nem um Dan Brown, tampouco um Stephen King… mas minhas obras têm um pouquinho de todos eles, todos! Todos contribuíram, de algum modo e mesmo através de diferentes gêneros, no meu processo de criação literário.

  1. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?

A publicação foi fácil, mais fácil do que eu podia imaginar! Eu mantive em mente que não publicaria do meu próprio bolso, afinal, se isso fosse necessário significaria que o livro não era suficientemente bom. E eu, como professora (chata) de literatura, não poderia lançar no mercado algo que infamasse nossa tão rica literatura brasileira. Livro ainda não publicado? Sim, o terceiro, mas ainda não o enviei a nenhuma editora. Estou esperando regressar ao Brasil para estudar melhor essa questão.

  1. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?

Há muito livro publicado que sequer deveria estar nas estantes das livrarias, mas a literatura tem o poder de se consolidar por si só! Não há obra sem algo a dizer resistindo ao tempo. Obras insignificativas ficarão um ano ou dois no mercado e depois desaparecerão ao vento. O tempo põe tudo à prova, enferruja e corrói a superficialidade. Alguns livros esteticamente ruins podem continuar dando frutos, mas não se pode ver isso negativamente, pois eles podem estar preenchendo um vazio profundo na humanidade, cujo combustível não é somente a arte pela arte.

  1. Recentemente surgiram várias pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?

Acho esse boom positivo. Os leitores estão tendo acesso a livros dos mais variados níveis de qualidade e isso acaba deixando-os mais desconfiados, mas ao mesmo tempo, deixa-os mais críticos. Talvez, lendo um livro ruim de verdade, os leitores possam distinguir com mais clareza o que é um livro nacional de qualidade de um sem qualidade alguma.

  1. Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?

Uma concorrência desleal em se tratando de preço e isso afeta diretamente nas vendas. Nós, autores nacionais, dificilmente vendemos milhões de exemplares, o que acaba aumentando o custo de produção das editoras. O leitor, naturalmente, muitas vezes opta pelo livro mais acessível ao seu bolso.

  1. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?

“Os Suicidas”, de Raphael Montes. Esse jovem autor brasileiro irá conquistar público no mundo todo e tem demonstrado já no primeiro romance uma capacidade de lidar com questões polêmicas da nossa sociedade atual. Certamente, eu queria ter tido a mesma maturidade dele quando eu tinha apenas vinte e poucos anos de idade (risos).

  1. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria? (nome da musica + cantor)

Para “Chamas da Noite”, In My Place, do Cold Play. A letra diz muito sobre Maria Luísa, a protagonista que enfrenta grandes obstáculos que vão desde a morte de Gabriel, seu grande amor, até a ameaça ao filho que está esperando.

  1. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”?

Já tive grandes experiências de leitura, livros que marcaram minha vida e despertam meus sentimentos mesmo vários anos depois! De criança, posso citar “Meu Pé de Laranja Lima”, por exemplo. Quantas lágrimas verti com aquela história toda, com as grandes perdas do protagonista e quanta perspicácia e sensibilidade do autor em retratar a infância, utilizando símbolos tão marcantes como uma simples árvore num pequeno quintal! Outra obra é “Grande Sertão: Veredas”, um clássico da literatura brasileira. O drama em torno da sexualidade de Diadorim, a paixão que Riobaldo sente por aquele que pensa ser um homem e o desfecho perfeito em que Riobaldo descobre toda a verdade é um exemplo de construção magnífica, é um prêmio ao leitor que consegue superar as dificuldades de leitura por a obra ser densa e conter inúmeros neologismos.

  1. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?

Um segundo romance policial, “Atrás do Crime”, será lançado em breve pela Editora Giostri. Uma pesquisa intensa sobre como as drogas ingressam no Brasil deu origem ao livro. O enredo se divide em dois elementos antagônicos: o herói Giorgio, agente da polícia federal e o anti-herói Alberto, conhecido no submundo como o Mestre da Logística das Drogas. Alberto é um dos cabeças responsável pelos maiores abastecimentos de droga em São Paulo e age feito um fantasma, não deixa rastros. Mas ele tem um grave defeito: sua racionalidade é menor que sua paixão por Giuliana, a verdadeira chefe do crime organizado. Já Giorgio é um agente com experiência em operações na fronteira e esse conhecimento será fundamental para tentar desmantelar o esquema dos criminosos. Essa, contudo, não será uma missão fácil e não só o agente como também sua família toda pagarão caro pelo preço de tanta ousadia.

  1. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?

Há os dois lados da moeda. Por um lado, há blogueiros que criticam as obras sem fundamento algum, sem conhecimento algum, isso só porque o livro não os agradou. Esse parâmetro de avaliação não é válido, certo? Uma avaliação bem feita requer uma análise estética, um olhar quanto ao discurso e à contrução da obra como um todo, não apenas um achismo pessoal e imaturo. Por outro lado, também tenho me deparado com blogueiros sérios e de talento, que escrevem resenhas bem feitas, sinceras, e que judam, sem dúvida alguma, na divulgação das obras. Os blogs são uma realidade atual e, apesar dos percalços, até agora tenho tido mais experiências positivas com blogueiros do que negativas.

  1. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?

Eu queria o Stephen King na minha vida profissional! Acho esse autor fantástico, porque ele não se limita a construir um bom enredo de terror, assim como eu não me limito a construir um bom enredo policial. Nota-se que o autor preza pela linguagem, pelo discurso e eu gosto muito disso!

  1. Qual a maior alegria para um escritor?

Conseguir viver financeiramente dos livros que escreve! Esse é um grande desafio, a todos nós, escritores! Espero tornar esse sonho realidade, mas é preciso persistência para não morrer na metade do caminho!

  1. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.

Aos leitores, agradeço a confiança depositada na literatura nacional e peço-lhes encarecidamente que não desistam de nós. A literatura brasileira é riquíssima e grandes nomes ainda se consolidarão. Já temos grandes autores em nossa tradição desde o século XVII e isso comprova o quão talentosos podemos ser. Manter nossos olhos no exterior não é nenhum crime, ao contrário, enriquece-nos. Contudo, deixar de olhar para dentro e só ver o que está longe nos torna distantes da nossa própria arte.

Aos escritores que estão iniciando, digo-lhes para terem paciência. Paciência, não tenham pressa para sair publicando suas obras! Às vezes, a ansiedade faz com que optemos por finaciar os nossos livros, já que as grandes editoras demoram em nos dar alguma resposta. Sugiro calma! Releiam o texto enquanto isso, repensem-no! Pode ser mais vantajoso esperar um ano ou dois do que publicar um texto imaturo, que não venha a ser bem acolhido pela crítica. É incrível como o tempo atua a favor da literatura. Quando relemos a obra depois de vários meses, conseguimos adotar uma postura mais crítica quanto à nossa produção e passamos a enxergar detalhes antes não percebidos. Então, calma! Contudo, se na opinião do escritor, o texto tiver sobrevivido ao tempo, então, vá em frente e publique-o mesmo com os próprios recursos. O tempo é um dos maiores críticos literários que eu conheço, tenha ele a seu lado e ele o ajudará a colher bons frutos nessa área!

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