Um sopro de vida – Por Leila Kruger

opcje binarne forex forum O mar dormita. As fracas ondas parecem bocejos. Mas na verdade são saudades. Lânguidas saudades de um tempo que foi embora; nem lágrimas nem gritos nem arrependimentos, nada o fará voltar. Nada o comoverá. O tempo não volta jamais. E você não aproveitou o tempo, não entendeu que nada era impossível quando tinha sonhos brilhantes no peito que às vezes até lhe roubavam o sono, mas não o sorriso. E agora, José? Você devia ter insistido um pouco mais.
Devia ter sido mais ousado. Ter abandonado aqueles velhos ditados, as vidas clichês que o espreitavam com promessas de segurança sem esperança. Você devia ter acreditado naquela conversa de transcender a vida. Devia não ter acreditado naquelas nuvens escuras que dizem sempre: “isso não vai dar certo”. E agora, José? João, Manuel, André? Maria, Juliana, Marta? Você, meu amigo, você minha amiga, devia ter largado as convenções sociais, ter pensado em algo mais. Não tanto nos outros, não tanto assim.
Você sabia que ninguém ia ser feliz por você, que ninguém ia sentir sua dor embora pudessem percebê-la. Você sabia que a vida era difícil, mas que coisas inacreditáveis aconteciam, e não precisava ser só com os outros. Um dia você sabia que teria que suar sangue para conseguir, mas que esse sangue valeria a pena. E agora? Você sabia que esse dia chegaria. No fundo você sabia. De olhar o mar com rugas nos olhos e ver apenas saudades e arrependimentos. Você não teve coragem. Você não desafiou a si mesmo. Você não tentou! E assim a vida passou calmamente por você, com aquela promessa de estabilidade que parecia suficiente. Felicidade verdadeira era arriscado. Sonhos, para desvairados. Ser quem se é? Você precisava, primeiro, sobreviver. Você sobreviveu muito bem. Nada lhe faltou, do básico que é necessário. Mas você não queria só isso. E sua alma precisava de mais, ela pedia todo dia e você fingia não ouvir, no trânsito ou preenchendo um relatório ou lendo um jornal. Entre calçadas, despertadores, despedidas e pequenos amores, você fingia não ouvir. Sua alma queria te ver feliz. Mas você não largou tudo e não tentou. E agora você é como o mar: bocejos e saudades. O tempo não volta. Finalmente você entendeu. O tempo é um trem bala, você percebeu. Você devia ter se escutado. Devia ter se acreditado. E não ter tido tanto medo. O medo é um monstro embaixo da cama, e você nunca o mandou embora.
O que lhe resta? Quem sabe inventar um sonho derradeiro. Agora que você sabe que não se pode perder tempo fazendo o que os outros fazem e sendo o que os outros são. A gente tem que ser como o mar: infinito, incompreensível, encantador! A gente tem que ser, no mar de si mesmo, pescador. Agora você sabe. Mas agora talvez seja tarde… Ou quem sabe ainda não! – brada seu coração. Seu coração envelheceu mais que seu rosto. Você acredita em sonhos, ainda? Você tem medo do medo? Finalmente você entendeu o segredo. O antigo segredo do mar, que ninguém, a não ser o tempo, pode contar.

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yapı kredi forex A gente envelhece.
E descobre que viver de um jeito simples e cândido não é mais permitido, e acreditar em grandes sonhos é pueril.
E envelhecemos, muito mais do que o espelho nos mostra.
Os olhos, sim, eles denunciam o cansaço.
Sorrir, abraçar, brincar, como no começo da nossa vida, como quando nossos dentes ainda cresciam com nosso sorriso. Vai esmaecendo.
Esse negócio de adulto estraga algumas coisas na gente. Vestimos a pesada e antiga e enferrujada armadura das “pessoas que sabem viver”. Que sabem falar as coisas que devem ser faladas, que sabem fazer o que delas se espera e que, talvez principalmente, sabem fingir.
Sim, fingir é crucial!
Crescemos por fora, diminuímos por dentro.
Essa armadura deixa vazios, procuro preenchê-los de formas estranhas e inúteis. Creio que um dia eu não fosse coberta de aço, era mais fácil erguer os braços e pular, subir nas árvores e nas cercas. Mais fácil tocar, e ser tocada, e ser um pássaro.
Tudo isso pode ser só saudade. Ou então a mais pura verdade. Daquelas que nos encontram em um lento e solitário entardecer, e seu rosto é tão triste que dói, e de repente é o nosso rosto.
Tenho procurado nas janelas minha imagem de antes. Nas portas, nos armários, nas paredes que, como eu, sujaram-se e descascaram-se.
Acho que é assim o nosso coração: vai perdendo a pintura, o viço, o brilho. E quem consegue consertá-lo? Pinta outra vez, descasca mais forte. Pinta, descasca, pinta, descasca até que apenas descasque…
Mas, por trás das paredes, há uma essência. Sempre houve. E essa essência sou eu – quem um dia tive a liberdade de ser.
Eu sou livre. Você também, todos nós. Apenas desaprendemos, sutilmente, a ser e a deixar os outros serem.
Nós envelhecemos. Aconteceu.
Nossa alma ganhou cabelos brancos, ganhou manias de não ser feliz.
Mas nós não temos que ficar tão velhos. Nem tão rápido.
Não pode ser assim, ou então não teria sentido.
Não tem que deixar a alma criar rugas. Perder a fé. Perder-se.
Quero uma alma renovada que resgate meu corpo. Meus sonhos. Minha capacidade de amar e permitir ser amada.
Quero ser como o sol, que renasce sempre.
Ele agora vai embora, mas sei que volta. E mais brilhante do que tudo o que se possa imaginar.
Pra que tantas armaduras… Armas. Duras.
Eu quero é amar, crua.
Atirar sementes nas nuvens, colher girassóis, dançar na chuva.
Um dia eu fiz. Plantei o amor, sem medo.
Um dia eu farei:
Quando eu for, outra vez, quem eu na verdade sou.

Humildade

معروض طلب وظيفة حكومية A humildade é uma qualidade humana muito admirada. Apreciamo-la mais ainda naqueles que têm muito mais do que nós, ou até mais do que a grande maioria: as pessoas famosas, proeminentes, que se destacam, ricas, bonitas, eficientes no que fazem. Elas têm tudo para não ser humildes, mas são.

buy Seroquel where O dicionário Michaelis define assim a humildade:

binary options funciona 1 Virtude com que manifestamos o sentimento de nossa fraqueza.

köpa Viagra i kina 2 Qualidade de humilde.

tren mix 200 3 Condição de quem é pobre.

Tadalafil Oral Strips 4 Demonstração de respeito, de submissão aos superiores.

http://www.boligsalg-spanien.dk/?nlnl=binaire-opties-winnen&f8d=a7 binaire opties winnen 5 Sentimento de inferioridade.

binaire opties tools Não concordo com “sentimento de inferioridade”. Não acho que humildade seja isso – está mais para modéstia. A humildade é uma das Sete Virtudes da Igreja Cristã – assim como temos os Sete Pecados. As Sete Virtudes vêm do poema épico Psychomachia, de Prudêncio, na Idade Média. Cada virtude opõe-se a um pecado. A humildade confronta a vaidade; segundo os conselhos de Eclesiastes, na Bíblia, “é tudo vaidade, e o homem não passa de vaidade”.

opzioni bninarie Então humildade, ao menos do ponto de vista cristão, que prevalece em nossa sociedade ocidental, é o que mais devemos buscar. Já que “tudo é vaidade”. E é algo que naturalmente chama a atenção. Poucas pessoas gostam de alguém vaidoso e arrogante – talvez apenas as que sejam como ele. Humildade é a característica mais marcante de Jesus Cristo em sua caminhada na terra: ele, o Filho de Deus, se fez carpinteiro, pobre e foi pregado na cruz. Ele levou isso aos seus discípulos, como um dos valores básicos que agradam ao Pai dos Céus. Do lado oriental, o islamismo original defende a ajuda aos pobres e aos necessitados, e a submissão diligente e absoluta diante de Alá, o grande e único deus, como reles homens; as religiões do norte do Oriente, mais voltadas ao misticismo, falam em autoconhecimento, harmonia, união e paz. São formas de humildade. Não querer ser mais do que os outros, não se preocupar em suplantá-los, ser bom para si mesmo e, assim, para os demais. Resignar-se.

المهن التي تربح المال الجيد A humildade pode ser negativa? Não deve ser confundida com baixa autoestima ou modéstia. A modéstia é ausência de vaidade, mas também sobriedade e moderação. É algo aquém da humildade, muitas vezes prejudicial, é como não dar valor. Temos que ter algum orgulho próprio, alguma vaidade para termos confiança em nós mesmos e nos amarmos. Isso não significará que não seremos humildes. Ah, é tão complicado! Até porque uns podem achar alguém humilde, e outros não. Eu, ou você, podemos nos achar humildes e a maioria não pensar assim.

http://tecnolec-lavages.com/?semkis=opzioni-binarie-15-minuti opzioni binarie 15 minuti Mas a humildade é uma qualidade realmente admirável, do ponto de vista da imensa maioria das pessoas. E é algo que pode ser criado, na busca por nos tornarmos pessoas melhores.

maxalt no dr contact Confesse: não é muito fácil achar por aí pessoas realmente humildes. Nossos políticos, as pessoas à nossa volta que querem “puxar nosso tapete”, os invejosos, os prepotentes, avarentos, rancorosos e mentirosos. Tudo o que, provavelmente, todos nós somos, ao menos um pouco. Ser humilde não é ser perfeito, mas a humildade tem que prevalecer ao que a destrói.

Buy Tadalafil Tastylia 20mg without prescription Humildade sempre é necessária em algumas circunstâncias, como trabalho, família e diante de Deus (ou do seu deus). Ela nos dá a consciência de nossas limitações e impede que sejamos inconsequentes e maus. Coloca-nos no nosso devido lugar. Instiga a bondade, a cooperação, a igualdade, a justiça, a compaixão. O amor também é humilde.

iqoption seriös Para descobrirmos como ser humildes, precisamos nos espelhar naqueles que consideramos assim. Ou que outras pessoas considerem.

É importante ter humildade, mas não ser idiota. Não se deixar pisar – só às vezes isso pode ser indispensável. Humildade é simplicidade. Não precisa ser como Francisco de Assis, que andava mendigando nas ruas, mas ter essa virtude no coração, com tudo o que temos e sonhamos. Reconhecer nossos erros e tentar mudar; ajudar ao próximo, mesmo sem receber nada em troca; não desprezar as pessoas, até porque um dia poderemos precisar delas; não contar vantagem; não ser tão exigente e requintado; não ser ganancioso a ponto de ficar cego e subjugar o que é certo.

Todo mundo gosta de pessoas humildes. Exceto os que não são nada humildes – e, desses, não precisamos.

É difícil descrever o que é humildade, mas a gente sabe reconhecer. E é lindo. É memorável. É afável.

Só os humildes são realmente grandes.

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Hoje acordei triste, após uma noite maldormida. Os tempos têm sido difíceis, especialmente no Brasil – mas fora também, atentados, refugiados, guerras, fome, fundamentalismo religioso, incompreensão, falta de amor…

Mas tenho percebido uma coisa: se houver Esperança, sempre haverá uma saída. Um motivo para manter um sorriso, mesmo que leve no rosto. Um motivo para acreditar que vale a pena continuar tentando, levantar-se mais uma vez, fazer uma oração – Deus ouve -, amar a si mesmo, recomeçar.

Fui criada de uma forma a pensar que tudo tinha que ser certo e retilíneo na vida: você escolhe a profissão certa, se forma, encontra a pessoa certa para casar, têm filhos, e no meio disso encontra o trabalho certo, e assim você está dentro da vontade de Deus, seguindo o caminho reto. Mas nem sempre é assim. Às vezes precisamos dar voltas até chegar ao ponto certo. A vida é uma sucessão de cair e se levantar. Nós não sabemos sempre o que fazer, não vamos sempre tomar as melhores decisões, vamos descumprir nossas promessas, recair em nossos vícios e defeitos, termos noites agitadas pensando na falta de dinheiro, em nosso futuro, em Deus, em nossos amados…

Não há, eu creio, UMA MISSÃO para cada um: há várias missões dadas a nós por Deus, e as mais bonitas e necessárias estão relacionadas a nos aproximar dele, e também as outras pessoas, principalmente nossos amados. O resto é resto…

Mas eu falava em ESPERANÇA. É algo a ser treinado por nós, por que não? A cada dia abrir os olhos e tentar ver as coisas boas da sua vida, tanto do passado como do presente. Sempre há dois lados para cada situação. Esperança vem de Esperar. E Esperar está ligado a fé: “A firme certeza das coisas que se esperam”.

Não vamos exigir demais uns dos outros – mas nos abraçarmos e multiplicarmos a Esperança um do outro. Essa palavra tem sido escassa no mundo – Esperança. Você pode ajudar a levá-la a si mesmo – ninguém dá o que não tem – e aos outros. Você pode encontrá-la em Deus, das maneiras mais simples, do canto de um pássaro ao sol que sai de trás das nuvens, a um incentivo de um amigo.

Vamos ter Esperança. Vamos criar motivos para tê-la, todo dia. Ela mora dentro de nós, só precisamos encontrá-la, e esse encontro é um encontro com nossa própria felicidade e com nosso Criador.

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SEM TÍTULO, APENAS UM SUSPIRO

Talvez eu nunca mais diga
E também você nunca entenda
E ninguém escute
E nem acredite
E nem as estrelas festejem
E o inverno continue
E tudo o mais pare…

Talvez eu não saiba
Dizer as coisas que se dizem nesses casos
Raros
De saudade crônica, silêncio
Mas deixa eu te cutucar de novo
Aflita, com as pontas dos dedos
Te contar este improvável segredo:
Sempre te amei…

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Mentira. Não vou postar ficção, como eu havia dito. Eu vou é continuar filosofando – como se entendesse minha própria filosofia – e supondo e divagando.

E agora eu ando pensando sobre como nós simplesmente não enxergamos, às vezes, os erros que cometemos. Preferindo colocar toda a culpa no outro, na vida, em Deus e até no acaso. Às vezes a bigorna da culpa não é nossa mesmo, ou não em sua maior parte; mas quase sempre nossa parcela de culpa é maior do que imaginamos, nós, cegos submersos em nosso ego superficial.

E aí a necessidade de refletir, de tempos em tempos, sobre nossos relacionamentos e nossos comportamentos. Nada dramático, melancólico, exaustivo. Apenas considerar, da forma mais prática possível, alguns pontos. Tentar se colocar no lugar do outro. Coisa que não é nada fácil. Ser capaz de reconhecer que o outro nos oprime, porque esse é um direito nosso. E ser capaz, ainda mais capaz de reconhecer que oprimimos alguém. Alguém a quem talvez estejamos tão acostumados a repreender, como se a culpa fosse inteiramente dele.

Só acho que, no fim, tudo é com a gente. Não importam as pessoas, os fatos, as probabilidades, nem mesmo o que você fala; importa é o que você faz. E mais: o que decide fazer. Porque viver, viver só pode ser decisões!

E assim eu termino esse breve hiato existencialista.

Com a gente tentando não culpar o mundo, e também não se culpar por tudo. Equilibrar na balança. E que se dane a balança, também. É a gente fazer o que dá, e principalmente o que é necessário. Olhar as coisas direito. Admitir o quanto nossa vida depende de nossos atos, de quem nós escolhemos ser. É nossa responsabilidade! Somos nós que precisamos enxergar, e escolher, e fazer, e mudar!

E é isso.

Pare de culpar os outros. Pare de se culpar demais. Faça alguma coisa! De preferência, todas as que forem possíveis e impossíveis!

 

Fonte da imagem: We Heart It.

Escrevendo

Hey.

Pareço empolgada? Hm, presumo que não…

Faz certo tempo que não escrevo nada na Arca (e nem em lugar algum). E, pensando no que já escrevi aqui, bom, parece que quase sempre foram textos filosóficos: “como se tornar melhor”, ou talvez “como ser mais feliz”, ou ainda: “a vida como ela é”, e “o que é o amor”, ah, claro… Essas coisas, que até fazem bem para quem escreve e para quem lê. Só que ando, digamos, precisando fugir um pouco da reflexão, dos porquês, dos comos, dos quandos e de outros pronomes e advérbios. Meu coração pede pela velha e boa ficção. Mais especificamente, crônicas de ficção e contos. E é isso o que pretendo postar aqui na Arca nos próximos tempos. Contos e crônicas (não de autoajuda) também podem ser um belo tipo de reflexão, ainda que simbólica. E nos ajudar – autores e leitores – a compreender o mundo e a nós mesmos. Ou a dar um descanso de ambos, seja como for.

Só para lembrar: eu tenho um livro de crônicas, “Coração em Chamas”, lançado em 2014. Você pode encontrá-lo na Amazon em ebook. Na Livraria Cultura infelizmente o livro impresso está em falta, assim como na Livraria da Travessa (tenho só 1 exemplar guardado, esse é meu!). São histórias polêmicas de amor vividas por diferentes personagens em diferentes contextos: tem padre, garota de programa, gay, machista ao extremo, atriz famosa, amor virtual etc. Lema do livro: “Que minha loucura seja perdoada, porque metade de mim é amor, e a outra metade também” – Oswaldo Montenegro sempre sabe tudo quanto canta. Quando ama, já não sei…

E falando em contos, eu gostaria de sugerir, para finalizar essa pseudocoluna de hoje, o livro “Clarice Lispector Todos os Contos”, da Rocco, 656 páginas da mais pura magia da nossa grande diva imortal. Tá em #PROMO na Saraiva ;)

Então é isso. Daqui a poucos dias venho postar uma crônica, de preferência inédita, aqui no Arca. [Por hora, vou tentar, mais uma vez, desesperadamente estancar essa tal de Tensão Pré-Menstrual, que, como quase todas as mulheres sabem, pode ser mortal – principalmente para os outros. Como na melhor frase que eu li hoje, não sei de quem: “A TPM é como se, uma vez por mês, o corpo da mulher acidentalmente apertasse o botão CAPS LOOK para suas emoções”. E aí, como desliga? ? Dizem que na menopausa piora…]

Então até mais, leitores!

Ah! Não deixem – quem quiser, é claro – de me seguir nas redes, tô tentando sempre atualizá-las: em breve, mas em breve mesmo, vou fazer sorteios de livros “Reencontro” com brindes por lá! (Obs.: tem o link do primeiro capítulo na página do livro Reencontro no Facebook)

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Às vezes, é necessário banir de nós mesmos os intermináveis barulhos cortantes que a vida, as outras pessoas e inclusive nós mesmos nos proporcionamos.

Não falo apenas de meditação, de fugir para as montanhas, para a praia, fugir da civilização, embora isso possa ser útil. Eu me refiro, principalmente, a um tempo de recolhimento, um silêncio necessário que às vezes precisamos dar ao mundo, entre os urros do caos. Tempo de se sentar na estrada, de refletir, de não fazer nada, mesmo que haja mil vontades irreconciliáveis na cabeça, mil impulsos inadiáveis, mil saudades. Tempo de se pertencer apenas a si mesmo, ao etéreo, ao que não pode ser dito. Tempo de, quiçá, renovar-se, engendrar novos rumos, novos “eus” que ainda continuem sendo “eu”.

Abster-se. Ponderar. Resolver. Ou apenas descansar, deixar tudo fluir para algum lugar. Esse tempo que nós às vezes precisamos dar a nós mesmos, à nossa sanidade mental, à nossa força que não cessa. Não quer dizer parar com tudo. Muito menos deixar de lado aqueles a quem mais amamos. Bem, talvez um pouco. Às vezes isso é também necessário. O tempo de simplesmente dar um tempo.

Uma indispensável distância de tudo o que nos cerca. Um silêncio nosso.

E então contemplar a si mesmo. Sem atitudes, expressões, decisões. Silenciar o lado de fora, ouvir o lado de dentro e compreendê-lo. Buscar a paz com si mesmo através do silêncio necessário.

Fechada para balanço, queira não perturbar, aprenda também a silenciar e a não desmerecer o silêncio, o recolhimento, a peregrinação interna de alguém.

E assim a gente pode escutar os recônditos sussurros das nossas próprias verdades. Elas falam no silêncio.

Desde criança eu vinha aprendendo que a vida parece um tanto linear: estudar, namorar, encontrar a alma gêmea, trabalhar, casar, ter filhos, viver feliz para sempre. Essa é a ideia geral de uma vida. Bem, para alguns realmente é essa.

Mas a Pós-Modernidade tem nos mostrado (e a vida sempre nos mostrou) que não é bem assim. Que nossa vida não é um conto de fadas medieval (pobres gerações as nossas, que cresceram acreditando, sem querer querendo, na total dualização das coisas e em castelos impenetráveis de amor). E por que digo Pós-Modernidade? É que o que mais caracteriza nossa época é exatamente a desconstrução de padrões, instituições e crenças antigos.

E isso é aceitar que a vida não é (ou não precisa ser) linear.

Que a vida é feita de recomeços, de dúvidas, de não saber exatamente, eu tô aprendendo. Que não se pode estar tão certo de tudo, mesmo seguindo todas as premissas. Que as premissas podem mudar. Que ter a mente aberta não quer dizer arrancar todas as raízes, mas que algumas raízes precisam ser arrancadas para se ir mais longe.

E que cada um tenha a vida que escolher, dentro do que puder optar. E que nos importemos menos com as escolhas alheias, mais com as nossas. E entendamos que cada um é diferente e tem um caminho próprio nesta vida. E o que é bom para um pode não ser para o outro. E o que foi bom um dia, hoje pode não mais ser. E não é necessário sempre saber.

E que a mania de sempre ter respostas e soluções não nos roube o mistério e a emoção que é viver. Que volta e meia haja “outra curva ali”. E possamos ir, voltar, tentar mil vezes ou não tentar.

Nosso maior objetivo só pode ser a felicidade. E ela não é um pote de ouro no fim do arco-íris (como nos ensinam os livros, os filmes, os contos e as regras), mas o próprio arco-íris por onde você caminha – e às vezes ele é bem cinzento.

Caminha e o caminho se abrirá, diz um ditado oriental. Viva e você descobrirá o que é viver para você. Às vezes não é tão linear. Às vezes, dentro de uma só vida você inventa várias vidas. E se reinventa. E de repente, sem perceber, é feliz.

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Já dizia o imortal Caetano, na antológica música: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.

É. Só quem sente sabe.

E a grama do vizinho não é tão verde, nunca é, quanto parece de longe. Tem que pisar, todo dia, em diferentes estações e tempos, para saber. Tem que ser bem de pertinho, dentro do jardim.

As redes sociais, por exemplo. Elas adoram exibir jardins verdejantes, gramas brilhantes: a pessoa só seleciona aquilo que quer mostrar. Às vezes, acaba criando um personagem bem diferente do “real”. Seja para o bem ou para o mal.

E também fora da tela do computador a gente, querendo ou não, ostenta, mostra, aparenta. Por vezes nem nos damos conta da imagem que passamos. Alguns, por outro lado, fazem questão de parecer o que sabem que não são (ou acham que são, mas não são). Cada um tem sua grama verde para olhar e almejar. Cada um sabe o quanto sua grama não é exatamente o Jardim do Éden.

Uma coisa eu aprendi: todo mundo tem seus calcanhares de Aquiles, suas dores, suas sinas. Deus deu a cada um caminho de aprendizado e evolução. Não queiramos ser os outros, mas o melhor que cada um de nós pode ser. Isso exige saber, em primeiro lugar, quem somos de verdade. Meio clichê, mas é: viver é se descobrir, e se descobrir é realmente viver.

E enquanto você olhava a grama verde do vizinho, seu jardim virava mato e até secava…

Não olhe demais para o lado.

Olhe para dentro: seu coração bate, sussurra todo dia segredos e sentimentos (secretos) que às vezes você insiste em ignorar. Está ocupado demais olhando o outro.

Mas lá, em seu singelo peito nu, está o que importa: quem você é. Deixa eu repetir: olhe sempre seu coração. Não passe a vida mirando, incólume, a grama verde (que nem tão verde é) do vizinho. Cada um tem seu caminho.

E cada um sabe a dor e a delícia de ser quem é. Às vezes mais dor, outras vezes mais delícia.

Felicidade é isso: recomeçar sempre, equilibrando-se entre o bem e o mal. Entre querer ser e ser.

No mais: cultive sua grama, seu jardim, não para os outros, mas para você e os que você ama.

Agora deixa eu também tentar seguir esses conselhos.

Que eu sou humana, demasiado humana para não cobiçar o que o outro tem; e cobiçamos, até que tenhamos um dia, quem sabe, e cobicemos outras coisas.

Nunca basta, quando não nos bastamos.

Bolada

Eu consegui voltar a escrever. E escrevi assim:

As coisas ganham e perdem sentido tão rápido…

As esquinas de repente todas ficaram iguais; é como se você estivesse em cada uma delas, em uma mesa bebendo uma Coca-Cola e olhando a paisagem, nunca olhando para mim, apenas o infinito da paisagem onde nós, as pessoas que amam, costumam se perder.

Essas esquinas que estão em avenidas velozes, highways para qualquer lugar, essas esquinas sempre cheias e no entanto vazias, esquinas em escadas, à beira-mar, à meia-luz de madrugada, no espelho quando a gente se olha bem dentro do olho, essas esquinas de repente todas iguais porque em todas você está.
Eu, é como se não estivesse…

Nas paredes da cidade estão cartazes com as feridas que em seu recôndito desenhei, sem ver, acredite. Toda vez que olho para eles, pareço sangrar; ou talvez seja você quem sangre, ou o mundo inteiro apenas.

E nas janelas velhinhas sonham com o tempo em que eram felizes, eu sonho com a época em que sonhava, era mais livre. Até acho que não ando fazendo nada direito, isso é certo e também incerto, mas vou andando por aí. Recolhendo um pedacinho aqui, outro ali. Não é fácil se achar nessa multidão de gente que raramente se dá ao trabalho de se procurar.

Mas hoje, só hoje, eu procuro tudo o que não tenho. Às vezes acho que não sei ter. Mas eu posso aprender. Aprender a ter, tanto quanto tenho aprendido a perder…

E nada mais clichê que a falta.

Fonte da imagem: We Heart It.

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Uma receita de vida milenar:

Eis aqui o que eu vi, uma boa e bela coisa: comer e beber, e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, em que trabalhou debaixo do sol, todos os dias de vida que Deus lhe deu, porque esta é a sua porção.
E a todo o homem, a quem Deus deu riquezas e bens, e lhe deu poder para delas comer e tomar a sua porção, e gozar do seu trabalho, isto é dom de Deus.
Porque não se lembrará muito dos dias da sua vida; porquanto Deus lhe enche de alegria o seu coração.
Eclesiastes 5:18-20

Não se sabe bem quem escreveu o livro de Eclesiastes, na Bíblia. Alguns pensam que foi Salomão, e também ele seria o autor do livro de Provérbios, com sábios conselhos para diferentes aspectos da vida humana. Bem, Eclesiastes é um livro, digamos, “amargo”. O autor vê, desolado, a brevidade e a futilidade da vida. Em um sopro o homem se vai. Corre para acumular coisas que não levará deste mundo, e que provavelmente ficarão nas mãos de outros. Acumula vento. Então, a única coisa que compensa é aproveitar a vida, colhendo os frutos do que é conquistado:

Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe com coração contente o teu vinho, pois já Deus se agrada das tuas obras.
(…)
Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vida vã, os quais Deus te deu debaixo do sol, todos os dias da tua vaidade; porque esta é a tua porção nesta vida, e no teu trabalho, que tu fizeste debaixo do sol.
Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.
Eclesiastes 9:7-10

Há muita gente que não sabe aproveitar a vida. Passam os dias resmungando, reclamando do que poderiam fazer se conseguissem, do que tem que fazer. Falando também de quem tem a ousadia de tentar coisas novas, inusitadas, diferentes. E os dias se gastam rapidamente, em trabalho árduo e preocupações corriqueiras, e a relação vira rotina, os filhos crescem, pessoas envelhecem, nós mesmos, e deixa-se de fazer coisas de que se gostava tanto, não tem mais a mesma graça; deixa-se de rir, de acreditar com simplicidade nas coisas sem ter que explicá-las. E deixa-se de gozar a vida, beber e comer com alegria, entre amigos, entre irmãos, sem se preocupar com o amanhã, pois o destino de todos nós é o mesmo. E o que vale a pena é aproveitar a vida com aqueles que nós amamos. Sermos felizes com quem nos faz feliz.

Algumas coisas podem esperar. E não são tão importantes assim. É necessário fazer o que se gosta. E viver com paixão, aproveitar muito bem o tempo que resta, seja ele qual for. Trabalhar, cumprir obrigações, sim, mas principalmente viver. Com um mínimo de responsabilidade e sensatez, mas com liberdade de ser quem é alegria, SEM CULPA.

Reveja seus compromissos, suas prioridades, sua agenda, seus hábitos e suas pessoas. A coisa mais preciosa do mundo é o tempo. E a mais certa, que um dia ele terminará para cada um de nós. Então, aproveite! Sugue da vida o que de melhor ela pode oferecer. Seja você. Seja você com aqueles que ama. Tudo é passageiro, menos a lembrança dos bons momentos.

Seja feliz!

Esta é a melhor forma, e a única, de realmente viver.

Pensando...

Telefone sem fio. Quem nunca brincou disso na infância, na adolescência, em algum momento da vida? É assim: um ao lado do outro, o primeiro sussurrando para o segundo alguma coisa, o segundo para o terceiro e assim por diante até o último. E aí se vê a discrepância entre a mensagem inicial e a final. Ela foi deturpada, houve entropia (ruído no processo de comunicação entre emissor e receptor, como se fala na área da Comunicação). Conforme o emissor inicial vai ficando mais distante, o ruído vai aumentando.

Há muita coisa que a gente sabe por “telefone sem fio”. A gente ouviu alguém dizer, e esse alguém também ouviu outros dizerem, e esses outros aprenderam com outros e assim por diante. Há muita coisa em que a gente acredita, e que a gente faz, sem saber por quê. Apenas porque alguém disse. E alguém disse que é certo. E disse que é errado. E disse que faz bem. E que faz mal. E que é pra ser assim. E como é mesmo? Sem todas as superstições, enfeites e adereços contextuais, ocasionais, adaptações, superficialidades, opressões, as entropias do tempo e das mentes obstinadas dos ouvintes.

Há algum tempo eu me acostumei (ou tenho tentado me acostumar) a “desafiar o telefone sem fio”. Questionar o porquê de certas coisas, que vão de hábitos a crenças a conceitos de certo e errado. É claro, temos nossos parâmetros, mas mesmo estes, principalmente os mais antigos, que seriam as “mensagens originais”, sofreram a ação de interpretações particulares, de coisas que se tornaram corriqueiras, pensamentos que se tornaram leis, tabus indestrutíveis que ecoam de lugares desconhecidos.

E desafiar o “telefone sem fio”, o socialmente aceito e ensinado e acordado, dói. Ir contra a maré cansa. Um dia Francisco de Assis foi, Giordano Bruno foi (a Terra, o homem, a divina criação, tinha que ser o centro do sistema no lugar do Sol!), Lutero, Elvis Presley (não existia rock! E era a “música do diabo”), Martin Luther King (negros eram negros, outro tipo hostil de gente), Jesus Cristo! E muitos, muitos que todos os dias, um dia de cada vez, questionam o “telefone sem fio”, o que sempre ouviram falar que é verdade, que é certo, mas que pode não ser – e por que seria?

O ser humano nunca lidou bem com quebras de tradições. Questionamentos sobre mensagens de “telefones sem fio milenares”. Eles fizeram fogueiras para queimar pessoas vivas por causa disso, decapitaram e empalaram, tiraram a liberdade daqueles que nasceram livres. E eles fizeram isso, muitas vezes, em nome de um Deus cuja mensagem sofreu tantas entropias a ponto de torná-la irreconhecível.

O natural é não aceitar o diferente daquilo que aprendeu. Algo irônico, pois a Humanidade só evolui com novos conhecimentos e percepções. Faíscas pululam furiosas da dúvida e da mudança. Não defendo arrancar todas as raízes. Apenas algumas. Outros solos, outras sementes, outras realidades. Cortar o fio do telefone, às vezes é necessário.

Aprendamos a ter, dentro de nós, filtros. Não acreditemos cegamente em tudo, não duvidemos cegamente de tudo. Não façamos porque todo mundo faz, não deixemos de fazer porque ninguém fez. E se ninguém fez, de repente eu posso fazer. E se ninguém viu, de repente eu esteja vendo. E isso possa mudar as coisas. Ao menos eu mesmo, o que é uma grande coisa.

E se todo mundo estivesse errado? E se a tradição precisasse urgentemente ser mudada? A começar por mim?

E se a entropia estivesse ensurdecendo nossos corações? E se viver, e ser, fosse adentrar a escuridão da autodescoberta, uma solitária e constante peregrinação em direção ao que é mesmo verdadeiro?

Há uma frase do Bukowski – que não exatamente nos deu um exemplo de vida, entre mulheres de uma noite e bebedeiras de todas as noites e dias – que eu adoro:
“Aonde quer que a multidão vá, corra na outra direção. Eles estão sempre errados. Por séculos estiveram errados e estarão sempre errados”.

A Inquisição, as Eleições e até Jesus Cristo que nos digam, porque o povo O escolheu para morrer no lugar de Barrabás.

Nem tudo o que aprendemos está errado. Nem tudo o que aprendemos está certo.

Descubra por si mesmo! Essa é a jornada da vida.

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A cidade com pressa de chegar, não se sabe bem aonde, suspira o bonde, acelera o motor, ardor, dor, ninguém imagina o que se passa por detrás da vidraça de um carro, de um rosto, de uma pequena janela no último andar na rua de cima.

Todo mundo quer carinho, ninho, esquecer, beijar, ser feliz só por hoje nunca mais. Mais, muito mais, sempre, não, isso não é pedir demais. A cidade ensina, sina – de tudo ela é capaz.

Mas e o amor, do que é que ele é capaz?

E qual a cura para a própria cura…?

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Não tem jeito. É assim que a gente cresce, de verdade. Que a gente aprende. E que a gente se ultrapassa, se vence, se entende e entende ao outro. É assim: decepcionando-se, frustrando-se, sofrendo.

A dor. Que remédio amargo é a dor, mas ainda assim um remédio, e dos bons.

A alegria é muito agradável, mas, como os amigos “só para as boas horas”, pouco nos acrescenta. O caminho é a gente perder para poder ganhar, não ter para poder conseguir, doer para curar, e ter ainda mais “saúde” que antes. É assim que as coisas funcionam, sei lá eu por quê.

Nós, seres humanos, somos ossos duros de roer. É só na marra mesmo que a gente amadurece, desabrocha, percebe, geralmente. É só no tapa na cara, não no tapinha nas costas.

É claro que sofrer não é legal. É claro que a dor é egoísta dentro da gente, um monstrengo cinza que nos rouba ideias, pessoas, vida. E que saqueia principalmente o coração, aquele porrete de espinhos que às vezes insiste em bater no peito quando devia “bater as botas”. Mas é bem verdade que “há males que vêm para bem”. Eu só espero que saibamos ver, enxergar o que a dor nos mostrar. O que a frustração, a decepção, a tristeza nos escrever no espelho, com letras garrafais, às vezes sangrentas, seja em relação a nós mesmos ou a outras pessoas.

E a gente sabe bem, esses momentos são só nossos. De a gente atravessar o escuro abraçando as nossas fraquezas, todas elas, que não é fácil reconhecê-las ainda mais tão de repente, ainda mais na solidão de galgar a montanha da própria alma rumo a um “eu” melhor.

Lágrimas estão para sorrisos como a chuva para o arco-íris. Vem antes. Não depois. Para merecer a felicidade, a conquista, o sucesso, tem que doer. Porque é assim, e pronto. É a Lei da Vida. Como a Lei do Retorno, essas sentenças invisíveis que Deus nos outorgou em Sua sabedoria.

Que a gente só não deixe a dor nos congelar, nos paralisar, ou, pior, nos tornar tão horrorosos quanto ela. Que a gente não deixe o outro pisar na gente, ninguém tem esse direito, mas que entenda os recados que as reações das pessoas ao nosso redor, e a nossa própria vida em si mesma estão nos dando, insistentemente, às vezes de forma tão brusca que nos roubam todo o ar.

Doa, doa a quem doer – o peito nosso, a lembrança nossa, o medo, a incerteza – se for para vencer. Para ser.

A dor ensina, sempre.

Mas só a quem se permite aprender. Quem tem humildade e paciência para tal.

Venha, dor.

Devore.

Dessa massa de medos, lembranças e sonhos distantes, e saudades e angústias, nasça um bebê de parto sofrido, um herói, um guerreiro, um “novo eu”.

É assim que é.

A gente escolhe, se a dor vem para destruir ou para mudar o que nós precisamos. Nós mesmos. O mundo, também, por que não. Uma gota de cada vez.

Uma coisa é certa: não há mudança profunda e verdadeira dentro de um coração, e de uma vida, que não se reflita no Universo. Quer dizer: em outros eus, em coisas que nem imaginamos. O Efeito Borboleta, sabe? Uma batida de asas aqui, um tsunami lá.

Mas a dor.

Venha, Big Bang. Estraçalhe. Faça surgir “o melhor que eu posso ser”. E que não tenha que ser tão bom assim. Apenas paz. É isso que tanto buscamos.

A felicidade é sempre depois do caos. Para os que não se renderam a ele. Para os que tiveram a coragem de olhar bem dentro de seus olhos e enfrentá-lo. Ninguém disse que é fácil. Mas também não é impossível.

Uma rosa de Hiroshima pode de repente aparecer. Você a vê?

Jardins inteiros de fé. Esperança. Amor. Plantados de joelhos. Com lágrimas. Com o coração ardendo, explodindo, quase acabando. Hey: nada há que escureça e não possa outra vez, de algum jeito, brilhar.

Essa é uma crônica que já publiquei aqui, mas publico novamente, como um retrato de uma situação corriqueira – a perda de uma vida “que tinha uma vida pela frente”, e não sabia…

AllStar

Sentada em cima de um tênis All-Star sujo cinza, as calças largas devido à esqualidez, os cabelos untados de suor e possivelmente caspas caindo-lhe nervosamente sobre os ombros encolhidos; e, finalmente, a mão magra de ossos protuberantes sobre a concavidade que provinha de seu ventre: sua criança, dentro da barriga, uma vida querendo nascer.

Debaixo de uma ponte qualquer, em uma capital qualquer dessas onde todo dia milhares se perdem. Repletas de sombras, fantasmas, fome.

Abandonada.

Ainda tinha um celular, sem crédito, poderia ligar a cobrar. Mas para quê? Todos a tinham abandonado. Era assim que as pessoas faziam, elas abandonavam quem mais precisava de cuidados. Havia três meses ela carregava aquilo, aquela criança que chamava de aquilo, consigo. Não sabia se sentia amor, se sentia raiva, se sentia ambos ou nada. Não sabia mais para onde ir, mal sabia de onde vinha.

O pai daquela vida na barriga estava desaparecido. O celular, quando ligava para ele, falava que estava fora da área de cobertura ou temporariamente desligado. E aquela garota suja e triste ligara centenas de vezes para ele. Pior que ainda o amava. Talvez agora finalmente tivesse desistido. Ela, ali, apenas com seu filho. Não o sentia como filho, era mais um fardo. Era aquilo. Por mais cruel que possa parecer.

Ela tinha fugido de casa. Mas, antes, seu pai já dissera que teria de ir embora, já que tinha “engravidado daquele calhorda irresponsável drogado”. É verdade, drogado, como ela, embora ela tivesse ficado só no baseado e deixado o pó. Não tinha mais verba para nada, muito menos para uma erva que a acalmasse. Há dias sem fumar, sem beber, sem quase comer. Pedira umas coisas na rua.

Tivera de vender seu corpo algumas vezes. Fora a única solução. Conseguia alimento em um abrigo, na verdade em mais de um, mas precisava pagar o pequeno quarto onde fora morar. Percebera que morar na rua, dormir ao relento com os cachorros magros, os mendigos e os crackeiros, não era a melhor alternativa. Então tinha de pagar o quarto, e o aluguel venceria logo. Mas tinha gastado o que ganhara com maconha e porcarias, havia um tempo.

Precisava urgentemente de dinheiro. Fazer o quê? Não, crack não. Aquela pedra maldita. Pedra que seu ex-ficante fumava, o tal “irresponsável drogado”. Ele perguntara a ela se ela queria, mas ela sempre dissera que não, ficara só no fumo de maconha. Graças a Deus, pensava, ou estaria tendo que “dar” o dia inteiro para pagar as dezenas de pedras que fumaria em um só dia. Maconha era mais relax pra ficar sem, diziam, então ela conseguia ficar sem.

Conseguira ficar uns dias sem. Conhecera um traficante que vendia barato, mas devia ser farinha adulterada. Queria o que, ali perdida? Mas, agora, a barriga estava roncando e a fissura estava pegando. Se a abordassem, até aceitaria uma pedra de crack. Só uminha, talvez não se tornasse dependente. Olhou sua bolsa suja, como seus cabelos, sua roupa, seu tênis, sua moral: quase nada, escova de cabelo, escova de dentes (para que, se nem pasta tinha havia dias), esmalte, celular quieto (comprara outro chip para que sua mãe parasse de ligar, e o pessoal de sua cidade). Ela não era dali, da cidade grande, mas de uma cidadezinha perto da capital.

Fugira para a capital com uma mochila e uma bolsa havia um mês. A mochila estava em seu quarto repousando. Aberta, como uma boca faminta. Não tinha muita coisa. Ela saíra na madrugada às pressas com o dinheiro que roubara de seu pai, ele a ia matar se a visse, quebrar seus dentes. Mas ela nunca voltaria para lá.

Nunca mais voltaria para lá. Preferia ir ao inferno.

Aquele ogro bêbado, sua mãe submissa que, além de apanhar, ainda o defendia. Aquele irmão que para eles era “santo”, mas que, na verdade, ela sabia, roubava carros e fumava maconha o dia inteiro. Ela sabia, fumara com ele.

Para o inferno com aquela família idiota, com seus pais que nunca tinham nem lhe dado um abraço, com seu pai que dissera que ela era uma vagabunda e devia sair de casa, para o inferno com sua vida de merda que insistia em continuar.

Não, mas se matar seria muito bobo. Tinha um conhecido que se matara com um tiro na cabeça. Ela nem arma tinha, mas se quisesse poderia dar um fim à sua vida e àquela vida dentro de seu corpo. Ninguém a esperava, ela não esperava mais ninguém.

Ter ou não ter aquele filho? Aquilo. Tinha umas clínicas de aborto clandestinas. Precisava de um cliente. Vários clientes. Dar uma de Bruna Surfistinha em uma versão piorada. Que vergonha ainda tinha, o que para renegar ainda? Um ser vazio, só repleto de amargura e raiva.

Subiu os degraus até em cima do viaduto.

Abriu os braços. Assim ficava mais romântico. Sentiu os cabelos balançarem, como nos filmes. Até ouviu uma música bonita como trilha sonora, uma música imaginária que tocava em seu coração e era muito infeliz. Sorriu, por um momento.

Apenas por um momento sorriu, respirou fundo e se sentiu a dona do mundo. A dona de um mundo, que nunca fora e nunca seria seu. Ela era bela, tinha dezoito anos e o segundo grau completo. Seria médica, se tudo desse certo, mas não tinha dado. Seria então apenas uma águia.

Atirou-se.

Recolheram seu corpo, seus pais não ficaram sabendo, enterram-na como indigente.

E assim se acabou mais uma história como tantas que acontecem todos os dias no mundo.

Assim se acabou a garota Mariana, que um dia prometera a si mesma que seria feliz.

Mas ela, no final, voou.

A Beleza efêmera
A Beleza efêmera
A Beleza efêmera

Amante das amantes,
Os olhares todos arrebata,
Lua sol, jovens anciãos, homens mulheres, beatas,
Como vinho ao coração nu embriaga,
Como quer dança na madrugada,
Com quem quer, e de repente se foi embora por só ter querido diversão.

Tecedora da loucura,
Roubadora de almas,
Assassina de reputações, messalina, por vezes,
Veneno com gosto de mel, mel com gosto de fim,
Gelo que queima, fogo que arde, sordidez que teima.

Vem agora, vai outrora,
Leva muito, deixa pouco,
Olhos de cigana oblíqua e dissimulada,
Capitu tresloucada, amada, insaciada,
Feiticeira das eras,
Beijo de feras,
Seu nome é segredo,
Seu lema é desejo,
Leva embora o que na verdade não deu,
Apenas amostrou,
Para sorrir triunfante e, obediente ao Tempo,
Esmaecer-se noite adentro,
Noite adentro no coração do vazio.

Por que me inebria
Se nunca até tarde fica?
Beleza,
Esfinge negra,
Perséfone e Afrodite,
Sempre dá adeus.

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Dentro, lá dentro, no fundo do fundo de nós – além de onde os olhos podem ver, de onde as mãos podem tocar – habita um ente voluntarioso, rebelde, às vezes até rude; abstrato, e ainda assim muito presente, quer sempre seus desejos realizados esse ente, não importando o preço.

Mas não esconde que é também frágil, desengonçado, enxerga mal, não vê o óbvio – embora às vezes, em certas circunstâncias, enxergue o que ninguém mais consegue ver; encontre a verdade mais verdadeira, não raro o impossível.

Tem um adversário chatíssimo esse vivente, e robusto, águia austera a caçar suas voluptuosas carnes, gritantes carnes, no oceano bravio em que mergulham livres. Inimigo potente, dogmático, cheio de empáfia, nariz empinado, reticências, elucubrações mornas no meio da rua, na fila do pão, principalmente na madrugada negra – nunca descansa, ou raramente descansa esse algoz. Amargurado, sua tristeza é não pulsar, seu martírio é não sentir. Não vê cores…

Eles fazem guerra, sangrenta, difícil saber quem é o bom e quem é o mau, Indiana Jones não é fácil de ser alcançado, menino levado, aos trancos e barrancos eles convivem, e no mesmo lugar estão tão longes…

Um menino levado que bate no peito, um velho esclerosado que grita na cabeça.

E não é que o menino tantas vezes tem razão. E não é que o menino, que nunca cresce, um tipo de Peter Pan, o menino que mora bem fundo, bem dentro de cada um, nem visto nem tocado, mas apenas sentido – o que lhe basta, e como basta –, e não é que esse jovial aventureiro pode até se gabar de saber as coisas mais importantes da vida; coisas que o velho não sabe porque não sente, que o velho não entende, não entende… Nunca entenderá. Eles são muito diferentes. Eles só sabem viver juntos. Rasgando-se…

Um avalia, outro quer. Um explica, outro sabe. Um pensa, outro ama.

Sabemos bem quem são eles, sabemos bem dentro de nós. Moram aqui. E o corpo é um campo de batalha, o corpo é pequeno demais para duas coisas que querem existir soberanas, e lhe transbordam. Cada uma útil a seu modo, nenhuma mais importante que a outra, mas, definitivamente – não nasceram para viver em paz!

Cérebro, o ancião inteligente, coração, o menino sábio – e também desvairado.

Cérebro, o esperto, coração, o sincero.

Brigam para ver quem é mais dono. Quem é mais.

Mas o menino, toda noite antes de dormir, sorri.

É que o menino sabe (porque sabe de todas as coisas que são essenciais saber), no fundo o menino que pulsa sente, vê, tem certeza de que é mais capaz. Mais forte. Mais vivo que o velho. Inocência maquiavélica, ele que apenas deseja – e o que ele deseja? Ser quem é, ser livre, ser. Não usa máscaras, como seu desafeto, ele vive nu. E atira-se de precipícios, cujo fundo não se vê, apenas para colher uma rosa que lhe perfuma lá de baixo.

E o ancião, bruta caixa de aço, cérebro amordaçado – o ancião não compreende, nem nunca saberá a beleza de uma verdadeira rosa… Apenas por não poder senti-la. E não ter coragem de tocá-la.

O amor exige, quase sempre, o perigo da escuridão dos precipícios.

Apenas para encontrar a rosa.

Apenas para se encontrar na rosa, que – nem todos um dia ousam lhe descobrir o arriscado nome – se chama Felicidade.

Atire-se, não deixe a rosa morrer…

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