Danny Marks

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A grande questão não é que santo de casa não faz milagres, mas o fato de que as vezes precisamos de outra coisa para solucionar as coisas que nem reza brava consegue dar jeito.

            É por esse motivo que tenho percorrido o mundo em busca de grandes gurus, pessoas iluminadas, e outras afins, na tentativa de alcançar um estado nirvânico, sem controle governamental ou coisas do tipo.

            Não é que não goste de governo, que todos sabem ser um mal necessário para que se possa ter alguém para culpar por todas as coisas erradas, feitas ou não por ele. Na verdade, não gosto de ficar mandando. Fico esperando que o bom senso prevaleça, que os acordos sejam cumpridos, que a inteligência dite as regras e, acima de tudo, que me deixem em paz para que possa cuidar do meu próprio caos interior.

            Os opostos se complementam, é a regra inflexível da existência que descobri há tempos, e culmina por me brindar com amigos caríssimos que me ajudam a ver as coisas de outra forma, e até a adquirir uma certa sabedoria alternativa aos milagres nunca alcançados.

            Uma dessas pessoas que me trazem a alegria de viver com sua simples presença, é a Juíza. Pessoa equilibradíssima, sempre generosa e de uma paz que faria inveja a muito santo de pau oco que se arroga milagroso nos tempos de hoje. Não por outro motivo que me apraz por demais ter longos diálogos com essa pessoa e, quando as complexidades das agendas permitem, sentamo-nos no mesmo restaurante para degustar a companhia e trocar experiências.

beställning viagra 25 mg på nätet utan Precription             Foi em um dia desses que a percebi triste, incomodada com algo, o que obviamente me perturbou mais ainda. Não poderia deixar que meu melhor exemplo de eixo do mundo se desestabilizasse sem, ao menos, tentar descobrir qual a tragédia que poderia acometer a humanidade, além de todas as outras.

köpa Viagra apoteket             — Não é nada, bobagem. Apenas a minha empregada que pediu demissão e pediu para enviar pelo correio o acerto das contas.

Tastylia Wholesaler             Eu, que já conhecia de outros carnavais as duas jararacas velhas que serviam de empregadas para a Juíza, estendi o assunto apenas por curiosidade. O que poderia ter acontecido de tão grave que a levara a demitir a peçonhenta criatura? E nem sabia qual das duas seria, pois embora de espécies diferentes, equivaliam em periculosidade ofídica.

الخيارات الثنائية تطبيقات آي فون             — Nossa, que coisa chata. O que houve? Pegaram dinheiro da sua carteira novamente? Tentaram afogar o cachorro na piscina? Botaram fogo na arvore de natal? — Arrisquei algumas opções que já haviam ocorrido anteriormente, sem que a Juíza tivesse perdido a sua postura equilibrada e generosa. Não conseguia conceber algo tão grave que pudesse provocar a demissão das colaboradoras centenárias.

opzioni binarie taurus             — Brigaram uma com a outra. E a Anaconde me ligou dizendo que não vai mais trabalhar lá. Imagina, depois de vinte e dois anos morando com a gente, pediu demissão por telefone e ainda quer o acerto pelo correio. Como se fosse possível isso. A Demoniana, claro, deve estar exultante. Há tempos que não se dão bem e sempre ficam fazendo intriga uma com a outra.

köpa Viagra i danmark             — Sim, eu sei. Ainda acha que foi a Demoniana que sumiu com o dinheiro para jogar a culpa na outra?

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Tastylia (Tadalafil) 100% guarantee of pleasure             — Sei, inocente. Como no caso do cachorro que caiu na piscina porque deixaram a porta aberta.

dinero facil opciones binarias             — Anaconde já tinha dito que não gosta de cachorro, nem olha para ele. Vai ver que esqueceu de fechar a porta e como ele ainda é criança, escapou. Ainda bem que o seu Armando estava por perto. Por falar nisso, nem sei o que o seu Armando estava fazendo por ali, ele deveria ficar na portaria do condomínio. Enfim, não aconteceu nada. Mas as duas ficam jogando a culpa uma na outra, querendo que eu demita essa ou aquela. Não posso fazer isso, elas já estão comigo há anos, me ajudam a fazer as coisas. Não posso deixar alguém que não conheço entrar na minha casa.

För Viagra 100 mg ingen recept             Acenei com a cabeça concordando abismado. Como desejava ter essa alma clonada de Gandhi. E essas nem eram as mais graves ofensas que aquelas duas “colaboradoras” já tinham feito. Eu apenas não queria deixar a minha amiga chateada com a minha postura que, comparativamente, seria crudelíssima.

60 sekunden traden             Me sentia arrasado por não conseguir alcançar essa tranquilidade de conviver com a adversidade e ainda ter uma paz iluminada e a tranquilidade equilibrada que a minha amiga Juíza tinha, quando percebi que o garçom se aproximou para receber o pedido. Ela olhou diretamente para ele com aquele olhar santificador e disse suavemente.

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www 24option com отзывы             Demorei algum tempo para processar o pedido, jamais teria conseguido ser garçom na vida, que apenas terminou de escrever e perguntou:

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binary options assaxin 8             Isso foi o fim. Parei de procurar pelo mundo a fonte da filosofia transcendental, ela estava o tempo todo bem aqui ao lado, ao alcance da mão. Bastava-me apenas erguer a venda que me tapava os olhos para ver. Quem precisa de juízo quando se conhece a Juíza? Que os deuses abençoem.

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order Seroquel online Danny Marks

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Há duas coisas que sinto muita falta na alma quando não as tenho por perto: o sol e o mar. Talvez por ter vivido toda a minha história recente junto a esses dois ícones que trago comigo, poucas vezes me ausentando por muito tempo e sempre sentindo falta, me acostumei a usufrui-los quase de forma natural. Sem excessos, porque, como já me lembrava a minha falecida avó, em sabedoria equiparável e confirmável por muitos sábios mais antigos, a diferença entre o veneno e o remédio é apenas uma questão de dose.

Então, sempre que me permito, sigo para a praia com um bom livro e alguns vícios à mão, para aquecer o corpo e a mente ao som da melodia constante e embaladora de sonhos.

Ainda que não tenha sido para meu ócio exclusivo, coincidentemente o prefeito da cidade onde moro mandou instalar excelentes e confortáveis bancos públicos no belo jardim que beira a longa faixa de areia, sendo-me alternativa para os dias em que não se justifica ficar tão mais próximo ao mar com suas ondas quentes e ventos refrescantes.

Em um dia desses em que a preguiça de levar a cadeira de praia e me postar na areia sob um guarda-sol a fazer-me sombra à leitura tornou-se particularmente intensa, sentei-me como digno usuário do recurso público disponível, a aproveitar as delícias divinas que a luz vinda de longe, até de outros tempos pelo que me consta nos parcos conhecimentos que acumulei sobre o assunto, e me dispus ao reconfortante emergir nas tramas e intrigas que tanto fascinam quando nos sentimos seguros ao acompanha-las.

Em um banco próximo, no entorno do mesmo pedaço de jardim cercado de calçamento por todos os lados, recostava-se um outro cidadão com um olhar tão gasto quanto a pele que lhe recobria o corpo ereto, mesmo quando sentado, lembrando-me um Drummond reencarnado em uma bermuda acompanhada de camiseta e chinelos de boa marca.

Enquanto que meus vícios não incomodem os mais próximos, acerquei-me do imaginário que muitas vezes me rouba a percepção da realidade, ainda que, no processo, acabe por aguçar a mesma nos momentos em que não lhe é exigida uma atenção direcionada para outros fins que não o fugir desta.

Portanto não sei ao certo afirmar em que momento ou de que forma se iniciou um diálogo paralelo com um personagem que, vindo como o vento, balançou as folhas, sacudindo as palavras em que me concentrava.

Péssimo hábito, diriam os mais puritanos, de ficar ouvindo conversa alheia. Mas, por esquecimento, não por qualquer outro motivo justificável, não trouxera os tampões de ouvido que atualmente se usam para abafar com alguma trilha sonora exclusiva os ruídos do ambiente em que se pretende estar. Sendo assim, foi-me impossível não ouvir as palavras que me espantaram qualquer atenção que pudesse dedicar à ficção que muito me agradava, por estar a realidade em tom tão alto que se tornava clara como uma manhã nublada de sol.

— Tinha mesmo era que voltar a ditadura para dar jeito nessa bandalheira toda. Uma revolução e colocava-se as coisas no lugar. Ainda que alguns inocentes morressem, justificava-se com o progresso.

Reclinei-me como a fugir dos resíduos poluentes do meu vício a queimar lentamente nas mãos e ajeitei os óculos para ver melhor o articulador de abismal, de tão profundo, pensamento. E para minha surpresa, se tanto, não era o pergaminho vivo de Drummond que proferia as sonoras palavras, mas um lustroso e encorpado Adônis, quase tão vestido quanto um Davi de Michelangelo empunhando as correntes que continham Cérbero fielmente guardando as portas do calçadão, ou talvez, apenas o imenso aparelho tecnológico acoplado ao braço que o tornava minúsculo.

Por segundos tive pena do poeta pigmentado, sujeito a intempestiva intimidação hormonal, apesar de sua postura engessada em uma altivez frágil de castelo de areia que já vira muitas ondas a arrebentar na costa com toda sorte de refugos que o mar regurgitava enojado. Poucos segundos, eu disse, pois foi o tempo que levou para apresentar a voz sem um tom a mais, ainda que perfeitamente audível aos ouvidos atentos que acabaram de conquistar.

— Diga-me, senhor. Considera a pessoa com quem tem um relacionamento amoroso, inocente? Talvez uma filha, ou irmã? Não lhe digo mãe ou outro parente, mas quem sabe alguém com quem tenha uma relação de respeito e admiração?

— Como assim? O que quer dizer com isso?

— Pergunto-lhe apenas como preparação para a verdadeira curiosidade que me assola neste momento. Qual dos inocentes que supostamente conhece, gostaria de ver mortos para que tal progresso voltasse a existir?

— Está me ameaçando? Não estou entendendo onde quer chegar.

— Realmente não parece estar entendendo. Acalme-se, não lhe faço ameaça maior que a que o senhor mesmo representa para si. Deixe estar, creio que não vai se recordar disso amanhã, como não se recorda sequer de quem fui, e ainda sou.

E, levantando-se com insuspeita flexibilidade e energia, foi-se embora em passo compassado e firme, aquele fantasma do passado. Não antes de piscar-me os olhos claros e sorrir com humor irônico ao deixar-me aos cuidados das aberrantes construções modernas que poderiam até ser consideradas intervenções artísticas, se algum apreço cultural despertasse.

Desde então, sento-me em outro ponto deste aprazível lugar onde moro, mas não antes de verificar o entorno, que a cada página virada é revisto para identificar se, inadvertidamente, algo terrível está para acontecer. E só então retorno para as tramas e intrigas seguras da fantasia.

E aos que queiram me perguntar sobre quem seria a tal figura de aparência insignificante que desafiou o gigante mitológico, quero deixar claro que longa e exaustiva pesquisa tive que fazer nos anais da história e, por fim, acabei por decidir-me que há coisas que é melhor que fiquem onde estão, no passado, ou no máximo se tornem ficção na mente de algum escritor, para a segurança dos que amam apenas ler em paz.

Danny Marks

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Você já deve ter ouvido essa história em algum outro momento, mas não exatamente desta forma. Calma, não perdeu o início do texto, é assim mesmo, a questão está em que as narrativas raramente são totalmente originais, isso porque desde tempo pré-históricos elas são utilizadas – fazem parte de nossa trajetória civilizatória – e fica difícil, depois de tanto tempo, criar coisas novas.

            Um outro fato interessante é que usamos narrativas para praticamente tudo, desde ensinar valores morais que sejam úteis a sociedade, até comandar exércitos e seguidores contra um determinado inimigo. As possibilidades de uso das Narrativas são infinitas e a cada dia descobre-se mais modelos e usos que antes não haviam sido investigados, embora as mais famosas sejam no meio artístico, como expressão de sentimentos e concepções, retratando justamente as sociedades que ajudaram a criar e a desenvolver.

            Mas o que é uma Narrativa afinal? Fugindo de todos os tecnicismos possíveis poderia definir a narrativa como a exposição sequencial de fatos – reais ou imaginários – sob um viés interpretativo que possui intencionalidades, expressas ou não, nos conteúdos apresentados de forma a criar uma perspectiva parcial orientada. Ainda muito complicado? Ok, vamos fugir um pouco mais das questões técnicas. Uma Narrativa é uma forma de alinhavar fatos reais ou imaginários sob uma perspectiva particular com a intenção de orientar a percepção do outro. É, não melhorou muito, então vamos a um exemplo:

            — Diz-me com quem andas, que te direi quem és.

            Essa expressão extremamente popular está enraizada na base da nossa formação psicológica e pode ser traduzida em infinitas possibilidades e usos. Basta que pense em uma linguagem não formal, aquela que não usa palavras. Pense em, por exemplo, cantores de Rap. Eles vão ter uma determinada “atitude”, um determinado tipo de vestimenta, um determinado vocabulário, um determinado estilo musical, tudo isso define os adeptos desse grupo. O mesmo vale para surfistas, para empresários, para advogados, para políticos, para donas-de-casa, para qualquer classe social, geográfica, racial, etc.

            Nosso cérebro evoluiu para identificar e usar padrões classificatórios, era uma vantagem quando a velocidade que se identificava um predador ou um aliado significava viver ou morrer. Portanto sempre buscamos nos mesclar com os grupos que nos dão a sensação de segurança e absorvemos automaticamente padrões de comportamento desse grupo em oposição a todos os outros. Ou seja, as pessoas com quem me identifico, dizem muito sobre quem sou e onde quero chegar, ou “diz-me com quem andas, que te direi quem és”.

            Mas o que isso tem a ver com a Narrativa? Basicamente tudo. Da mesma forma que identificamos padrões para sobreviver, criamos narrativas dentro desses padrões interpretativos para auxiliar nessa identificação de aliados e predadores. Essa tendência de seleção de fatos interpretados que permita a assimilação mais fácil dos padrões é que cria as narrativas. Associamos determinadas atitudes a determinados grupos e pressupomos que todos os integrantes assumam as mesmas possibilidades de ação em situações semelhantes, em outras palavras, criamos uma narrativa para cada conjunto de ações que determinam previamente uma tendência quase que irrevogável.

            Contra fatos não há argumentos, certo? Errado. A narrativa é feita de fatos escolhidos e alinhados dentro de um argumento que vai ser utilizado de forma a obter um resultado objetivado. A forma como escolho os fatos que vou ressaltar ou omitir, a sequência e velocidade que vou apresenta-los, são determinantes para construir o meu argumento de forma que crie uma tendência de assimilação dos mesmos como sendo a expressão da verdade que quero demonstrar. Portanto, fatos interpretados são na verdade argumentos disfarçados em verdades incontestáveis e totalmente convincentes de acordo com a habilidade utilizada na construção da narrativa.

            A forma mais utilizada para impedir que uma narrativa nos conduza onde quiser e nos faça agir sem refletir profundamente sobre os padrões é contrapor com uma narrativa igualmente consistente – com fatos interpretados sob um viés contraditório de forma a anular a assimilação automática da narrativa e obrigar uma reflexão sobre os fatos sem interpretação que são a base da verdade.

            Claro que em tempos em que a internet aumenta a facilidade com que os fatos são apresentados e versões sobre eles são divulgados aos borbotões isso não ocorre. Estamos vacinados das narrativas por quantidades homéricas de fatos apresentados por infinitas fontes e não vamos cair jamais em armadilhas argumentativas das narrativas criadas exclusivamente para direcionar pensamentos e ações, certo? Errado de novo. A internet tornou ainda mais fácil a construção de narrativas justamente pela inundação de dados interpretados que criam um caos interpretativo e a única solução para não enlouquecer com tantas versões da mesma sequência narrativa é justamente apoiar-se em padrões aglutinadores, a versão do grupo ao qual pertencemos.

            Quando observamos uma narrativa sendo elaborada, identificamos em primeiro lugar qual a fonte, em que grupo ela foi criada – e, na atualidade, as narrativas mais relevantes são criadas e desenvolvidas no meio de grupos amplamente estruturados e, na maioria das vezes, opositores – antes de nos posicionarmos contra ou a favor dela – sem precisar refletir muito sobre a narrativa, porque é preciso estar livre para a infinidade de outras narrativas que estão sendo produzidas a todo momento.

            Assim, a internet tem desenvolvido tipos de comportamento grupal que extrapolam os limites geográficos e as tendências comportamentais locais. Aprendemos constantemente a nos redefinir pelos grupos que possuem maior quantidade de características semelhantes às nossas. Ainda buscamos pertencer a grupos, mas atualmente os filtramos não pelo que podemos verificar em tempo real, mas pelas narrativas que esses grupos produzem, pelo comportamento geral e específico de seus indivíduos, que pressupomos serem livres em suas expressões, como nós mesmos.

            Cada vez mais nos identificamos com o que as pessoas dizem ser – mesmo que não sejam – do que com atitudes reais e concretas. Nos identificamos com as narrativas chamadas de “discursivas”, ou apenas Discursos, que permeiam cada grupo como uma regra consensada e não escrita ao qual nos filiamos ou nos posicionamos contrários. A generalização e superficialidade necessárias desses discursos é contida apenas pelas contribuições individuais daqueles que acabamos por definir como representantes do grupo todo, e quanto maior o nível de influência externa, maior o poder desse indivíduo na construção do Discurso do grupo ao qual nos filiamos ou contra o qual combatemos.

            Antes havia sempre um único macho alfa e uma fêmea alfa no grupo – os chamados líderes que poderiam ser contestados de tempos em tempos dentro das premissas do próprio grupo – que seriam seguidos incontestes em casos onde a sobrevivência grupal estivesse em jogo. Pertencer a um grupo quase que automaticamente o excluía de todos os outros por uma questão puramente física – a impossibilidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Atualmente as coisas são mais complexas e podemos fazer parte de diversos grupos que não sejam completamente antagônicos e seguir ou ser o macho/fêmea Alfa do momento, já que os papeis grupais são mais líquidos e se moldam com a situação e o envolvimento.

            O fato de que é possível construir a própria narrativa virtual com base apenas em um Discurso apresentado sem necessidade de provas concretas, torna ainda mais evidente que podemos ser uma coisa e nos apresentar de outra forma, ou seja, podemos pertencer a dois grupos antagônicos com discursos completamente opostos e ainda ser aceitos por ambos como sendo verdadeiros, até que se prove o contrário. A internet possibilitou a construção de narrativas que neguem os fatos reais com fatos imaginários bastando para isso manter o Discurso certo nos momentos em que é necessário.

            Por isso a confiabilidade individual e grupal se tornou mais essencial do que o próprio discurso propagado pela narrativa. Vou seguir um Discurso enquanto ele for fiel nos atos a si mesmo, e se em algum momento trair uma parte de si com atos ou palavras ao que anteriormente – e existem registros disso, facilmente acessíveis – dito ou feito, vou invalidar completamente o Discurso e o Grupo, desconsiderando inclusive todo o histórico anterior que comungava com minhas identificações, ainda que muitas dessas se mantenham. A integração ou desintegração do Grupo não está ainda mais vinculada ao Discurso, mas ao seu principal e atual fomentador.

            Portanto, na atualidade, não é preciso atacar diretamente todo o grupo, apenas o seu líder mais influente na questão mais sensível do Discurso, a credibilidade de sua narrativa. Com a mesma facilidade que se pode criar uma narrativa e aliciar diversos grupos dentro de um Discurso que os englobe, também pode-se destruir completamente o Discurso criando uma narrativa que ataque diretamente a credibilidade de seu principal produtor, o “rosto” do Discurso.

            Apesar de ser simples na apresentação dada, a complexidade e a periculosidade desse tipo de sociedade fundada em narrativas, vai além do que é normalmente divulgado, até porque isso poderia criar um caos maior ainda se não houver algo que o substitua de forma eficiente e rápida, e até o momento isso ainda não foi desenvolvido. Para o bem ou para o mal a guerra de Narrativas está cada vez mais forte no mundo atual e se desenvolvendo assustadoramente em complexidade. Não é por acaso que se possa observar uma radicalização em vários segmentos sociais, é apenas um efeito subliminar desse retorno a estratégia de “diga-me com quem andas, que te direi quem és”.

            Quanto mais avançamos nas construções narrativas dos Discursos veiculados ao longe, mais nos afundamos no “regionalismo concreto” que nos define, porque podemos ao menos vivenciar os fatos – por mais aberrantes que nos pareçam, são reais o suficiente para que possamos comprovar sua existência concreta em contraposição a virtualidade confusa de infinidade de “versões” – e nos posicionar diante deles.

A crise de confiança que permeia os Discursos – cada vez mais elaborados e esquematizados para produzir efeitos significativos dentro de esquemas psicológicos pré-definidos – nos empurra na desconstrução da identidade grupal em direção ao individualismo concreto e a construção de uma máscara social que serve como escudo e que tem sua confiabilidade construída não por bases reais, mas de acordo com as necessidades de sobrevivência grupal.

Assim nos dividimos entre o concreto e “real” que vivenciamos e o “virtual” onde testamos a nossa narrativa pessoal antes de a apresentar no mundo real, ou apesar de não o fazer. No virtual podemos até ser outra persona que na verdade não somos, mas gostaríamos de ser e que se contrapõe ao que de fato somos enquanto agentes da realidade em que vivemos. Essa ruptura de identidades pode gerar sérias crises existenciais e até a perda de auto definição que leva a consequências imprevisíveis.

            Obviamente é possível combater essa guerra de Narrativas Discursivas de forma eficiente, mas para isso seria necessário a construção de um novo tipo de conhecimento que a cada dia – de forma intencional ou não – vem sendo minado em suas bases e desconsiderado em sua importância. Esse conhecimento tem suas raízes justamente na mesma área que cria as Narrativas, é a Análise Discursiva. Não é interessante que na mesma velocidade e intensidade que se criam Narrativas Globais que determinam os rumos de toda uma sociedade, cada vez mais se busca diminuir a importância da interpretação de textos, do estudo das construções narrativas, da análise discursiva nas obras clássicas?

            Isso ocorre porque quanto mais as pessoas conseguirem observar e separar os fatos das suas interpretações, mais complexas terão que ser as narrativas para conduzir os pensamentos e interpretações, e mais sólidos e reais terão que ser os Discursos para que permaneçam com a credibilidade que lhes dá força. Em um tempo em que qualquer um pode escrever um livro e publicar conteúdo sem o mínimo conhecimento técnico necessário, banalizando algo essencial a construção da sociedade, cria-se o envenenamento da única ferramenta que pode construir uma sociedade forte e saudável onde os seus indivíduos podem se sentir seguros e se identificar no contexto.

            Não sou contrário que haja um aumento de publicações e uma diversidade de narrativas ficcionais, pelo contrário, isso permite uma ampliação de leitores de novos modelos narrativos, o que é fundamental é que haja a capacitação desses novos autores para que possam, eles mesmos, serem críticos em seu olhar acerca dos fatos e não passem apenas a reproduzir narrativas infundadas validando-as até que sejam desmontadas e desapareçam completamente. Reveja, se necessário, a parte em que comento sobre o risco de se destruir uma narrativa complexa apenas destruindo a credibilidade do “rosto” do discurso, que pode ser apenas um autor inexperiente que o reproduziu sem aprofundamento necessário. Não apenas a carreira desse novo autor, mas todo o discurso que apoiava em suas narrativas, passa a ser invalidado, apesar de poder conter coisas importantes e verdadeiras, junto com outras inverossímeis que serão apontadas e generalizadas na sua destruição.

            Antes queimava-se ou proibia-se livros para que não houvesse “contaminação” da Narrativa Oficial, atualmente com a internet isso seria impensável e impraticável, então faz-se o caminho oposto. Cria-se tantas narrativas superficiais ou complexas que possam ser desmontadas dentro de um plano estratégico que invalide todo um conjunto ao qual tenham se vinculado mantendo apenas a Narrativa Oficial que passa a ser a única confiável dentro da interpretação que se quer dar. Não é mais necessário – ou possível – destruir uma obra literária relevante, mas tornou-se fácil criar uma enxurrada de obras irrelevantes e banais de forma que aquela significativa se afogue no mar de possibilidades e apenas a que se mantem artificialmente pela força da divulgação constante é que sobrevive, e – como todos sabemos – quem detém a capacidade de divulgação, detém o poder de determinar a narrativa.

            Pelo que foi apresentado, pode-se afirmar que o mundo do futuro depende não de novos líderes que orientem seus grupos, já que estes podem ser desenvolvidos artificialmente, mas da capacidade individual de interpretar textos para identificar os verdadeiros líderes e as intencionalidades escondidas em seus discursos para poder se posicionar a favor ou contra. É na busca pelos fatos reais e na capacidade de interpreta-los por si mesmo que se consegue a sobrevivência na era dos discursos enganosos.

            E, então, qual é a sua Narrativa?

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Sabe, tem aqueles dias em que tudo parece confuso

E você se pergunta o que tem feito de errado

Se está tudo certo na sua vida e chegou onde queria

Mas não pode ficar apenas parado.

 — Siga. Enfrente! Siga em frente.

Qual o sentido de tentar alcançar o impossível?

E se todos os seus sonhos forem realizáveis?

Quão pequena é a sua imaginação?

Será o objetivo da vida ficar frustrado?

Ou descobrir que acreditou nas pessoas erradas?

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Senti o meu mundo girando em louca velocidade,

E meus olhos estavam fechados ao terror

As coisas só eram assim na minha cabeça

Não era o mundo que girava rápido, eu que havia parado

em relação ao universo. Então ele disse;

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Oh, Deus, onde você está?

Por que só tenho pesadelos, quando penso nos seus planos?

Você me disse que havia um caminho

E não revelou como chegar lá.

Oh, Deus, você é insano! Agora eu sei.

Tem uma voz gritando no meu lado esquerdo:

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Só pode morrer o que está vivo.

Li em um livro que escrevi, há muito tempo.

Ontem completei mais um ciclo neste mundo

E só agora descobri que sempre quis morrer,

mas para isso tenho que aprender como VIVER.

E você nem se importa quando digo:

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Aprendi uma ou duas coisas novas, entende?

Talvez ainda haja uma chance para mim.

Me livrar das correntes que me acorrentei

Voltar a sorrir e sentir que não é vantagem

ter um bom coração no inferno

Isso serve apenas para dizer, seu lugar não é aqui.

Então, volte pra casa. Ah, volte pra casa!

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Não há como retornar no caminho

As coisas mudam, eu/você sabe, é assim

De alguma forma vai chegar onde estava

Quando finalmente resolveu partir

antes da hora de chegar.

Não pare agora, apenas vá, você sabe…

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

A curva está logo ali a esperar.

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Deixe-me contar-lhe a história da Fabulosa Bola Quadrada, originária da fantástica terra de Obtusolândia. Uma terra tão boa que qualquer coisa que se plantasse por ali, dava e abundava até os horrores. E digo isso porque todos hão de saber que há sempre mais ervas daninhas que arvores frutíferas em qualquer pomar descuidado. Mas não nos desviemos, ainda, do rumo dessa interessante história sobre o inacreditável ocorrido nos idos de alguma década que não me vem à memória no momento, nesse paraíso de comércios e consumos.

            Não me recordo direito dos detalhes, ainda influenciado pelos efeitos da visita em Obtusolândia, de como a coisa se deu, mas digamos que havia uma nova perspectiva comercial muito boa, inspirada em algo semelhante que já ocorria em outras terras. Era a Bola Quadrada, um sucesso imediato entre os comerciantes e seus produtores. Houve um momento em que todo mundo se considerava capaz de produzir a sua própria bola quadrada e comercia-la, e isso gerou todo um modelo de negócio vantajoso para o comércio. Desde os maiores e mais preparados autores de bolas quadradas até os mais simples e inspirados, todos acabavam tendo sua chance de inserir suas produções artisticamente feitas com todos os ângulos desenhados para atender as expectativas dos que iriam confecciona-la. E as empresas que produziam bolas quadradas sob encomenda dos seus criadores, ganhavam muito dinheiro entregando seus produtos acabados em vários formatos para os seus autores, algumas até ofereciam brindes extras e outros penduricalhos para alavancar a venda da tal bola quadrada. Mas depois de algum tempo começou a haver reclamações, os autores trocavam, doavam, pagavam para que outros autores falassem sobre suas bolas quadradas e como eram maravilhosas, mas não havia consumidores para elas. Ninguém que não era autor de bolas quadradas ou amigo dos autores ou parente dos autores, ou produtor de bolas quadradas para autores, queria comprar o produto e assim o negócio foi definhando. Houve um ou outro que tentou apresentar um novo modelo, um Poli Dodecaedro, mas foram escorraçados pelos famosos entre si, autores de bolas quadradas que chamavam aquilo de imitação do produto estrangeiro, cheio de pontas e ângulos que doíam só de olhar. E, por falta de novos clientes autores de bolas quadradas, até mesmo as produtoras acabaram deixando a Obtusolândia e indo trabalhar em outras terras, onde se vendia bolas redondas para outro tipo de público.

            Ok, deve estar me perguntando que porcaria de história ridícula é essa. Mas é o mesmo tipo de pergunta que me faço quando falam na “crise do livro brasileiro”. Como assim? Até onde sei, para que haja uma crise comercial, em algum momento teve um comércio vigoroso que entrou em declínio por algum fator a ser analisado. A menos que o nome da crise esteja errado, por motivos quaisquer que possam haver. Quando me falam das “grandes livrarias” fechando as portas e saindo do país, e como isso vai afetar as vendas de livros nacionais, quando ouço falar nas tecnologias que ”estão matando” o hábito de ler, quando ouço dizerem que “esta nova geração” não gosta de leituras, fico completamente confuso quanto a quem essas pessoas se referem.

            Vejo muitos jovens lendo, boa parte em formatos de eBooks nos celulares que (pasmem) permitem esse tipo de leitura também (!) porque são mais acessíveis no preço (absurdo) que os livros físicos são vendidos. Sem falar que houve toda uma campanha em rádio e tv (e nas próprias publicações impressas) quando lançaram os eBooks para que evitassem derrubar arvores para fazer papel (hoje nem se fala mais nisso, acho que acabaram as arvores ou a vontade mudou). Eu vejo editoras investindo em autores novos, no sentido de tentar cada vez mais ter autores publicando com eles. Todos os dias novas editoras (e outras já estabelecidas) incentivam os autores a estarem enviando seus originais para avaliação. Nunca se escreveu tanto neste país, em diversas plataformas, eletrônicas ou aquelas mais formais, em livro. Chovem resenhas, e citações, e comentários de livros de autores nacionais, crescem os blogs literários, criou-se até um comercio (escondido, mas que todos sabem que existe) de “leituras” e “likes” e recomendações de livros de autores que “são um sucesso de vendas”.
Então como é possível que as livrarias estejam fechando? Como é possível que haja uma crise nesse meio? Pois é, há uma crise e não é nova. Na verdade, todo o modelo comercial foi estruturado de forma errada. Quando se foca um modelo comercial na produção estrangeira, quando se cria uma demanda nacional sem um estudo completo do negócio, se estabelece a base para uma crise séria, uma base que se assemelha a uma “pirâmide”. É, aquela daquele golpe clássico em que é preciso haver sempre uma “injeção” de novos “contribuintes” para que não desabe sobre si mesma. Até os que já obtiveram lucros em algum momento são incitados a se reinserir na base para que ela continue aumentando, até que tudo explode e muitos perdem para que poucos ganhem. E nunca se sabe em que estágio da “pirâmide” se vai estar quando ela explodir, ou implodir, para ser mais exato.

            O negócio de livros é complexo e envolve muitas variáveis de investimento. O Governo diz que investe em livros, mas só faz é comprar livros clássicos para ser doado em escolas para alunos que não foram preparados para ler de forma crítica, mesmo livros modernos não funcionariam assim. Ok, vão falar que há autores nacionais muito ruins, e há de fato, mas onde estão as faculdades, os cursos técnicos, as oficinas públicas de Literatura? Há cursos (caros e muitas vezes inacessíveis) de escrita, mas quantos desses procuram formar LEITORES? Quantos desses ensinam como fazer uma leitura crítica? Ou mais importante, como formar leitores críticos para os livros existentes? Podemos reclamar que as livrarias vendem os livros caros, ao que elas vão dizer que pagam caro para obtê-los e mantê-los em estoque, até porque mais da metade (para não dizer quase todos) são de autores estrangeiros e apenas os nacionais que vendem muito (ou seja, que possuem um público já formado) são disponibilizados.

            Vejam a complexidade da coisa. Há investimentos que são feitos em um produto que ninguém conhece, para um consumidor que não sabe que necessita desse produto e que nem sabe para que serve, e quando não vende se fala em crise. Aí entra o governo com seus investimentos em produtos consagrados que mais ninguém quer, na tentativa de estimular a venda dos produtos mal-acabados feitos por principiantes que não tiveram condições alguma de aprimorar seus produtos e que se acham o máximo porque leram resenhas pagas para dizerem isso. E novamente se fala em crise. Alguma semelhança com a Obtusolândia e sua fantástica bola quadrada?

            Quantos autores se dedicam a criar um público leitor? Quantos falam de Livros que não sejam os seus? Que sejam de autores nacionais contemporâneos? Que ensinem como se lê um clássico ou mesmo um livro moderno? Que se aprimoram em técnicas de escrita para levar para seus leitores uma qualidade melhor, seja nos seus livros, seja na crítica que fazem de outros autores? Quantos incentivam a leitura seja no celular, no tablet, no notebook, no eReader, no livro físico, tendo como base a importância da leitura de qualidade e não do meio em que ela é feita?

            Lembro-me de um caso em que uma de minhas alunas não tirava os olhos do celular, enquanto tentava dar aula de como fazer uma resenha. Fui até ela e perguntei o que estava fazendo e ela me disse constrangida (assustada até) que estava lendo um livro. Achei interessante, nunca havia visto alguém ler no celular. Perguntei o que estava lendo, era um autor estrangeiro desses best sellers instantâneos. Perguntei se estava gostando. Disse que sim. Então pedi que fizesse um resumo da história, uma apresentação do livro para os colegas de classe. Ela foi engatinhando na coisa e fui ajudando (eu havia lido o tal livro e detestado, mas o objetivo não era expor a minha opinião ou debate-la com pessoas menos preparadas) e ela foi se entusiasmando e fez um ótimo trabalho de estimular os colegas a ler. Aproveitei o gancho e sistematizei a resenha dela dentro de um modelo profissional de qualidade, que era o objetivo da aula.

            O que aconteceu? Todos prestaram atenção redobrada e me perguntaram se poderiam trazer as suas próprias resenhas de livros que estavam lendo para divulgar entre os colegas. Claro que incentivei e fizemos ótimas leituras de resenhas, com inúmeras sugestões de livros que poderiam ler. Até mesmo eu fiz algumas para demonstrar que havia autores nacionais contemporâneos ótimos e que mereciam um espaço. Mas quantos fazem algo do tipo? Quantos não teriam dito que “aula de literatura não é para ler” (oi??), ou então “guarde esse celular que aqui não é o lugar”, ou coisa pior ainda, matando o estímulo de leitura de alguém que só tinha condições de ler pelo celular, porque não podia comprar um aparelho mais adequado, porque não podia pagar o preço de um livro da moda, por morar em uma comunidade carente.

            Será que haveria crise se os investimentos no comercio de livros fossem mais estruturados com os verdadeiros consumidores? Se o governo criasse políticas para formar tanto leitores quanto autores qualificados, de forma que houvesse um crescimento da qualidade do produto e um incremento de toda uma nova forma mercadológica estruturada de ponta a ponta e não no velho “vai que dá certo” do jeitinho brasileiro? Informalidade não pode ser padrão, tem que ser exceção para poder funcionar direito. As livrarias poderiam reduzir seus estoques porque os autores nacionais são mais acessíveis, os livros impressos aqui mesmo, com tecnologias que seriam desenvolvidas aqui para os leitores nacionais, com o seu jeito específico de ler, sua cultura revisitada por autores que não teriam a preocupação de serem “vendáveis” como os estrangeiros.

            Poderia haver toda uma nova forma de negócio nas plataformas digitais, para todos os bolsos e gostos, que não seria exclusiva, mas complementar (eu mesmo leio e escrevo nos dois modelos, por que não?) com suas vantagens e desvantagens apreciadas pelo seu principal fomentador, os leitores. Poderia até mesmo haver um novo investimento em tecnologias mais baratas e acessíveis, modelos de distribuição de livros criados para atender as demandas de um país de nível continental. Quantos modelos menores de negócios poderiam ser criados a partir de um investimento no rumo certo, nos agentes certos, com a visão correta. O governo poderia investir em aparelhos para leituras de livros eletrônicos, com milhares de livros disponíveis para todos os gostos, em vez de comprar livros que muitas vezes vão para o lixo sem chegarem nunca na mão dos leitores a que se destinam (sim, já houve muito disso por aqui).

            Ou podemos nos juntar ao povo de Obtusolândia que não consegue entender por que uma bola quadrada não vende tão bem quanto as bolas redondas que são produzidas em outros lugares, mas são tão caras que se tornam proibitivas para o grande público, se resumindo a pequenos consumidores que as abandonam em troca de outras coisas mais “da moda”. Podemos continuar falando em crises, apontando os culpados, rindo dos polis dodecaedros que aparecerem, e dizendo que a culpa é do “governo”, da “falta de cultura do povo”, da péssima qualidade dos (outros) autores. E talvez um dia, não haja nem mais espaço para um blog sobre literatura que não seja a estrangeira. Difícil vai ser tentar vender resenhas para os autores de lá com a qualidade crítica das produzidas aqui. E então, a Fabulosa Bola Quadrada fará todo o sentido e eu terei sido apenas uma voz berrando na multidão ululante com suas ideias fechadas e suas bolas quadradas.

            Agora, diga-me, posso lhe contar uma boa história?

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Posso lhe contar uma história? Será algo criado especialmente para você e lhe fará refletir de uma forma muito simples e direcionada sobre questões complexas que todos estão discutindo no momento. Como vou fazer isso? Na verdade, de uma forma bem simples, usando todas as informações que forneceu voluntariamente através das suas redes sociais, compiladas através de um algoritmo que me fornece um mapa do seu perfil psicológico e os pontos em que posso atuar influenciando as suas opiniões e comportamentos, mas relaxe, você não vai nem perceber. Mais provavelmente vai acreditar que todas as suas constatações são apenas suas e que está muito bem fundamentado na sua opinião a respeito de um assunto que, anteriormente, não estaria tão atento assim, mas para o qual foi despertado pelo insight que teve de sua importância, tornando-se um militante da temática apresentada.

            Parece coisa de ficção científica, não é mesmo? Aquelas coisas inventadas por escritores com imaginação fértil que servem para nos assustar de uma forma agradável e nos fazer sair da nossa realidade e dar uma relaxada em um mundo alternativo que, por pior que possa ser, não vai nos afetar de verdade. Afinal a verdade é algo concreto e sólido, consistente e facilmente verificável, que sempre dará um jeito de emergir das sombras da mentira e iluminar a todos com seu poder de diluir os conflitos e nos conduzir no rumo do Bem Maior, com a ajuda de Deus e o apoio dos Homens e da Ciência. Tem sido assim desde os primórdios da nossa civilização, quando os pensadores e filósofos se debruçaram sobre as questões universais, entre elas a busca da verdade e de como alcança-la. E essa busca tem se mantido até hoje, com resultados diversos.

            A Filosofia, mãe de todas as ciências, chegou a ter cinco formas de descrever a verdade. A verdade como correspondência, originária em Platão, diz que a verdade é o que garante a realidade, ou seja, o objeto falado (discurso) é apresentado como ele é. Já o empirismo, a metafísica e a teologia apresentam a verdade como uma concepção de revelação, ou seja, algo que se revelou ao homem por meio das sensações ou pela intervenção de um Ser Supremo que evidência a essência das coisas. Platão e Santo Agostinho retornam com uma outra perspectiva em que a verdade deve se apresentar no sentido da conformidade e adequar-se a uma regra ou conceito, para ser verdadeira. Já no movimento idealista inglês, por volta da metade do século XIX, o filósofo Bradley alega que “o princípio de que o que é contraditório, não pode ser real”, portanto “a verdade é a coerência perfeita”, e assim apresenta-se a verdade como Coerência. Mas há aqueles mais pragmáticos, como Nietzche, que acreditam que a verdade deve ser funcional, ter uma utilidade. Para ele “Verdadeiro não significa em geral senão o que é apto à conservação da humanidade. O que me deixa sem vida quando acredito nele não é a verdade para mim, é uma relação arbitrária e ilegítima do meu ser com as coisas externas”. Portanto, tudo o que não colabora para a conservação do bem para toda a humanidade, poderíamos dizer que é verdade?

            Mas as coisas complicam de verdade, com o perdão do trocadilho, quando a tecnologia recria a realidade em uma forma diferente, seja pela ampliação dos sentidos, seja pela virtualização do que é real, criando uma realidade alternativa sensível à nossa interferência e interação, ampliando e torcendo todos os conceitos de realidade e de verdade que se poderia imaginar ou intuir. Como então buscar uma base razoavelmente sólida e confiável, verificável em seus efeitos sob todos os aspectos práticos, passível de ser reproduzida e que mantenha uma coerência com as revelações que forem produzidas a partir dela ou nela em si mesma? Surge então a perspectiva de que os fatos não mentem, e levantados os fatos e alinhados de forma correta e coerente teremos, por fim, a revelação da verdade de forma incontestável. Só que não é bem assim. Platão também foi o precursor da análise discursiva que investiga os fatos através de técnicas de desconstrução dialética que revelam as suas estruturas elementares e as intencionalidades por trás dos discursos. Ou seja, os discursos são capazes de alinhar os fatos de forma lógica e coerente, revelando uma verdade particular, mas também podem ser usados para selecionar e alinhar fatos de forma a produzir uma verdade alternativa que apenas se parece com a realidade, embora seja consistente de alguma forma com as intencionalidades que lhe foram impressas e sustentada pela verificação dos fatos de forma individualizada e parcial.

            Uma verdade alternativa não é uma mentira, como não é uma mentira um mundo virtual, ou o que é dito em uma rede social, ou a alucinação de um psicótico, porque produz um efeito significativo e concreto naqueles que acreditam nas revelações que traz gerando, por consequência, outras verdades irrefutáveis e não alternativas. Quando a tecnologia permitiu que diversas realidades, concretas ou construídas, inundasse o paradigmático mundo da virtualidade recriando e manipulando narrativas através de um realinhamento de fatos comprováveis que justificariam, de certa forma, as conclusões apresentadas pelas verdades alternativas e flexíveis, criou-se uma crise conceitual do que seria, afinal, uma verdade. Na atualidade vemos os efeitos significativos dessas verdades alternativas construídas com base em fatos fornecidos de forma espontânea ou não, haja vista a ação direcionada de hackers que invadem as privacidades em busca de fatos ocultos para compor as narrativas que lhes servem, temos cada vez menos confiança na verdade como uma coisa libertadora, como até então era vista, grosso modo.

            A verdade líquida dos tempos tecnológicos, nos obriga a repensar as bases sólidas em que se apoiava a concepção de verdade e nos cobra muito mais atenção e flexibilidade na forma de lidar com os conceitos fundamentais da realidade. A realidade, bem como a verdade, tornou-se relativa e é preciso aprender a lidar com essa relatividade de forma eficiente, usando os conceitos padrões e estabelecidos como ponto de partida, não como um fim em si mesmo. A busca pela verdade começa quando buscamos o ponto de partida para iniciar a jornada, demolindo padrões e limitações anteriormente dados como verdadeiros. Embora seja um terreno pantanoso devido à nossa inexperiência em lidar com ele, pode se tornar um terreno fértil para a construção de uma sociedade melhor, mais líquida em seus conceitos. Podemos repensar a sexualidade, os papeis sociais, as responsabilidades individuais, a ética, a moral, etc, incluindo a pluralidade como parte da verdade e não como uma aberração que foge ao que havíamos definido como normalidade.

            Mas é claro que para que o pântano se torne fértil, é preciso também levar em consideração os seus perigos e armadilhas, sua função transformadora que recolhe e transforma o lixo, digerindo-o e tornando-o uma reserva vital importante para a existência. Assim também a verdade líquida deve ser capaz de absorver todo o lixo produzido pelo radicalismo e separatismo e recicla-lo em conceitos mais eficientes e vivos, que preservem o que há de bom e decomponham o que há de ruim, obrigando a todos nós, que navegamos por sua diversidade estranha e sombria, a lidar com o inusitado para encontrar as belezas que produz, evitando as armadilhas pelo conhecimento dos seus mecanismos necessários. Não é negando a verdade líquida dos tempos de revolução tecnológica que poderemos aprender a lidar com ela, e sim mergulhando em seus mistérios e descobrindo os seus tesouros e possibilidades de forma tão real quanto descobrimos suas armadilhas e perigos. Só assim poderemos sobreviver como uma sociedade e construir um futuro cheio de narrativas, reais ou imaginárias, que nos atenda em nossos mais íntimos desejos e nos torne melhores.

            E então, posso lhe contar uma história?

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Para quem ainda não assistiu ao filme Matrix, fique preparado, contém spoilers. É inevitável porque vou fazer referência a um personagem da trilogia cinematográfica como ponto de partida, porque se torna um arquétipo da modernidade. Para entender melhor é necessário dizer que a Matrix é um mundo virtual onde os humanos cultivados e escravizados por máquinas (sistemas), vivem suas vidas em um sonho eterno (ideologias), enquanto suas energias vitais são absorvidas para alimentar as máquinas (sistemas) que os aprisionam.

            Há muitas críticas possíveis a essa forma de roteirização, devido à lógica que ela envolve em seu nível primário, mas isso não arranha a trilogia de filmes porque a base em que se apoia segue o padrão de ação e filosofia existencial que acaba por encantar boa parte do público de uma forma ou de outra. Então vamos nos fixar nesta questão mais filosófica: A Utopia Humana contra a Matrix.

            Cypher é um dos humanos resgatados da prisão das máquinas por um artifício usado dentro da virtualidade da Matrix. Ser resgatado da escravidão é ser lançado no horrível mundo dominado por máquinas assassinas que vão caça-lo e mata-lo implacavelmente, enquanto tenta derrubar o sistema de dentro e de fora. É uma guerra dupla, constante, com resultados duvidosos, para a qual não se está preparado, e da qual não há retorno.

            Ou não havia, porque Cypher consegue fazer um acordo com o seu captor, decide trair os guerrilheiros e voltar a ter uma vida de ilusão, reinserido no sistema até a morte, vivendo em um mundo imaginário com vantagens que não teria na sua vida anterior de escravo, ou na sua vida de guerrilheiro liberto. E por isso é classificado como um dos vilões traidores da humanidade.

            Uma outra questão interessante que segue na mesma linha é dada pelo Arquiteto, uma entidade-programa que vive à parte da Matrix e é responsável por criar a realidade virtual onde os humanos são cultivados até a morte natural. O arquiteto revela que as primeiras versões da Matrix eram projetadas para serem verdadeiros paraísos, as utopias humanas realizadas na virtualidade. Mas não deram certo, os humanos as rejeitavam como real, não aceitavam que a realidade pudesse ser tranquila, benéfica a todos. E, segundo o Arquiteto, colheitas inteiras (de humanos) foram perdidas, até que se inseriu um mundo em que as diferenças e os desafios criassem um estado constante de conflito.

            Como é possível juntar essas duas coisas? O ser humano rejeita um sonho bom, mesmo quando lhe parece real, só porque todos estão bem, basicamente no mesmo nível que si mesmo? Cypher decide voltar a Matrix desde que tenha uma vida boa, mesmo sabendo que será um escravo até a morte, mas não quer lembrar de nada do que viu na sua liberdade, quer esquecer de que um dia foi livre, e voltar para um mundo onde as diferenças e conflitos existem, desde que ele ocupe um lugar acima dos outros.

            Essas duas questões se unem através do paradigma de que a competitividade humana faz parte de sua essência e jamais aceitaria uma total igualdade. Não estaríamos programados pela nossa própria essência humana a aceitar um mundo em paz, onde a ordem absoluta desse a todos os bens que desejavam. Necessitamos lutar para estar acima dos outros, necessitamos nos sentir superiores, necessitamos nos sentir privilegiados, para a vida fazer sentido?

            Isso poderia explicar o motivo de por que inúmeras pessoas desistem dos seus avanços nas lutas sociais, e passam a apoiar os algozes que vão restringir os direitos. A identificação com o carrasco, na chamada “Síndrome de Estocolmo”, estaria impressa na nossa essência. Amamos o predador que nos abate, porque desejamos no mais íntimo, SER o predador. Aceitamos ser as presas porque desejamos sempre abater nossas próprias presas. Essa seria a raiz animal da nossa essência que nem mesmo o verniz cultural conseguiria vencer. Mas será que isso é verdadeiro?

            Será que somos programados pela natureza a viver de forma hierárquica predatória, almejando subir na escala às custas de nossas vítimas, e não mudaremos nunca isso? Estaria a escolha de Cypher determinada em nossos genes? Seria o rebelde guerrilheiro o verdadeiro Messias da Humanidade, dizendo para todos que devemos sim buscar o topo à custa de tudo e de todos que se opuserem a isso, sem limites morais para alcançar o sucesso? Como ter certeza? Teríamos que verdadeiramente criar uma Matrix, onde um mundo perfeito, uma Utopia, fosse criada e vivenciada pelos seus integrantes. Mas tanto na filosofia, quanto na literatura, as utopias estão fadadas ao fracasso. Sempre há uma “serpente” disposta a nos banir do paraíso e nos lançar na dura e cruel luta pela sobrevivência.

            Em todos os milênios de nossa cultura, não conseguimos conceber uma utopia que funcionasse de verdade, não conseguimos aceitar a igualdade de direitos, a capacidade de existir sem que isso implique em tirar do outro algo a mais para nós, que talvez nem precisemos, mas que faremos porque “é a ordem natural das coisas”. Porém, um fator se levanta contra esse paradigma. A cultura é herdada tanto quanto os genes que nos formam. A nossa mente é formada pela sociedade que ajudamos a formar em conceitos e preconceitos.

            Dessa forma, sempre teremos como um ideal o paraíso, a utopia que será alcançada quando nos tornarmos melhores do que somos, mas que precisará ser conquistada através da eterna luta contra nós mesmos. Por isso sempre teremos aqueles que demonstram superiores capacidades de deixar os interesses pessoais pelo bem-estar de todos, sofrendo as penas por ir contra o sistema, que é praticamente uma máquina implacável a destruir os opositores e corromper os fracos. Nos almejamos Salvadores porque não nos sentimos capazes de alcançar sozinhos esse ideal, e repudiamos os Cyphers como traidores da humanidade embora, em nosso íntimo, desconfiamos que poderíamos facilmente fazer a mesma escolha, se nos fosse dada oportunidade.

            É por esse motivo que lançamos as utopias em outro mundo, após a morte, depois de uma purificação do Ser e livre de sua parte animal, mortal e resgatado em sua essência divina e imortal. Por isso que nosso repudio aos que se unem ao sistema opressor se dá de forma raivosa, fruto do medo que temos de que nos seja oferecida a mesma oportunidade e a aceitemos. Fruto do medo de que, afinal, alguém está melhor que nós, a nossa custa. E isso, como animais predadores, não podemos aceitar.

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— Você não me conhece tão bem assim!

                Foi o que ela me disse aos gritos, logo depois que lhe soprei vida, descrevendo-a como já existia na minha imaginação. Somente depois que me decidi falar sobre como ela seria é que fui preenchendo as lacunas que a imaginação necessariamente cria.

                A imaginação é imperfeita para contextualizar uma ideia não realizada, normalmente fica apenas na superfície, nos contornos gerais que darão o “tom” do que será criado. Ainda mais quando a ideia em si é extremamente complexa.

                Thaís já nasceu complexa, como um paradoxo existencial.

                Imagine uma pessoa Nerd. Dessas que tem uma inteligência rápida acima da média, que parecem ter todas as respostas do mundo, ou que são capazes de criar todas as respostas necessárias como se precisassem apenas expirar o conhecimento que já haviam inspirado em um momento qualquer.

Essa é a parte fácil.

                Fica complicado quando se dá a essa pessoa o sexo feminino. Sim, uma mulher nerd!

                Já deu para perceber como a coisa fica complexa, quando se pensa em nerds, pensa-se logicamente em um homem com pouca habilidade social, tímido ou introvertido, mas por isso mesmo ou como subproduto da estrutura neuronal, com uma habilidade de aprender acima do normal.

Quem imaginaria uma mulher tendo essas características?

                Se conseguir imagina-la, provavelmente será uma baixinha, de óculos, cara sisuda, sem nenhum atributo físico ou recurso cosmético que lhe permita produzir um encanto adicional. Normalmente associamos a inteligência como uma compensação da natureza para aqueles que não nasceram belos. Quem é bonito por natureza não precisa ser inteligente e, muitas vezes, torna-se cruel, indiferente aos danos que sua beleza causa.

                Mas Thais não é assim, ela tem seus encantos femininos preservados apesar da inteligência acima da média. Mais ainda, tem sua sensibilidade aguçada em relação ao outro, preocupa-se com a alegria ou a dor do próximo, tem um senso de justiça que comunga perfeitamente com sua capacidade de ser incisiva, com as palavras, tanto no juízo que faz dos outros, quanto na hora em que decide defender aqueles que lhe parecem carecer de ajuda.

                Alguém mais imaginativo até poderia conseguir criar essa imagem mental de Thaís, apesar dos paradoxos que parecem flutuar a sua volta, como satélites.

                Um desses paradoxos fica evidente quando nos aprofundamos mais, mergulhamos por trás da máscara social de uma pessoa forte e destemida, com soluções práticas (embora isso pudesse contradizer a sua feminilidade. Mulheres não nascem para serem práticas ou nascem?), mas acima de tudo determinada em fazer o que acredita.

                Ao ultrapassar essa camada superior (e não digo isso como um defeito, mas como uma característica) encontramos uma frágil e dócil menininha, com seus bichinhos de pelúcia, sua esperança feliz, seu carinho tranquilo.  Encontramos também a solidão que a envolve em tons mais escuros e percebemos imediatamente que foi a luz que, ao abrirmos um buraco durante a nossa passagem, conseguiu penetrar até aquele lugar habitado pela melancolia e dar algumas, não muitas, cores.

                E a deusa que até então estávamos imaginando, torna-se algo superior ao se tornar humana, reconstruindo todo o entendimento que havia em nossas mentes ao restringi-la simplesmente a algum arquétipo arrancado do nosso inconsciente.

                Só nesse momento é que nos afeiçoamos verdadeiramente a Thaís. Ao lhe percebermos os defeitos para além das qualidades que se esforça em nos mostrar, mas ao contrário do que esperava isso nos encanta muito mais do que a fria aceitação objetiva que poderia haver ao desconsiderarmos sua fragilidade.

                — Você não me conhece tão bem assim.

                Repete ela, desta vez em um tom mais melancólico, um traço de medo escapando por entre um olhar e outro, cabisbaixo, na expectativa do que poderemos fazer ao descobrir-lhe. Sente-se nua, mesmo vestida com tantos traços, e ao perceber que não há qualquer movimento agressivo de nossa parte (na verdade nenhum movimento de qualquer espécie), busca forças na sua própria construção e deixa que a vejamos por inteiro.

                Ergue o olhar em desafio, aceitando que, se conseguimos romper qualquer obstáculo até ali não seriam suas delicadas mãos que encobririam o pudor. Igualmente nos desafia com a sua nudez e aguarda a nossa retórica.

                Ao fazer isso nos desarma de todo preconceito, todas as possibilidades de conjeturas e entendimentos que arrastamos até aqui… e nos vence.

                — Você não me conhece tão bem assim…

                E desta vez há uma certeza delicada em suas palavras. Ela sabe!

                Percebeu que mesmo tendo sido inventada por mim a partir de alguém ou de muitos outros; mesmo tendo sido o que a desvelou de forma dramática (talvez) para você, ainda assim ela preserva algo incognoscível, algo misteriosamente feminino que nos acolhe, mas também nos faz ir embora, buscar o que nem sabíamos que não possuíamos.

                Com um abraço indefinido, nos coloca para fora de si, garantindo que na passagem que produzimos continue haver a janela pela qual olhamos, para que se possa voltar a vê-la quando ela quiser se revelar a nós. Novamente no controle de quem é e de quem deseja ser.

                É desse personagem que inventamos; que nasceu durante o nosso olhar e refletir sobre ele, nossas descobertas; é desse ser que descobrimos o quanto podemos dizer para nós mesmos:

                — Você não me conhece tão bem assim!

                Agora é Thaís que nos inventa… enquanto a ouvimos falar de nós.

 Danny Marks

0 198

O policial entrou nervoso na sala do delegado.

            — Senhor, tem um caso de furto…

            — Tá, e o que eu tenho a ver com isso? Faz a ocorrência e coloca na fila.

            — Mas é que o denunciante alega que foram depenados.

            — Que se foda, anota a porra da ocorrência e coloca na caixinha.

            — O senhor não está entendendo, é um papagaio.

            O delegado apagou o cigarro na placa de proibido fumar.

            — Que tá acontecendo contigo? Não quer mais fazer as ocorrências? Que merda! Tem alguém querendo denunciar um furto, anota as coisas e depois coloca na fila. Dá pra fazer isso?

            — Mas senhor, é que é muito suspeito.

            — O que é suspeito?

            — É que ele está usando botas.

            O delegado ficou olhando para o policial por um tempo, mas nada mais foi dito. A contra gosto levantou da sua cadeira e deu uma olhada na sala de espera. Estava lá, o papagaio de botas.

            — Realmente é muito suspeito.

            — O senhor está vendo? Foi o que pensei.

            — Muito bem. Mas temos que fazer alguma coisa. Ele deu alguma indicação do endereço do furto?

            — Sim, é onde ele mora.

            — Entendo. E havia mais alguém com o suspeito para comprovar a veracidade da coisa?

            — Não, senhor. Disse que quando chegou já tinha acontecido tudo e que não viu mais ninguém.

            — Ai tem truta. Esse ai está escondendo alguma coisa, posso sentir.

            — Eu senti a mesma coisa, por isso vim falar com o senhor.

            — Precisamos agir com cautela, as coisas andam difíceis e não podemos dar vacilo, entendeu? Faz o seguinte, quem tá de plantão hoje?

            — Tem mais uns dois tomando café na padaria.

            — Passa um radio e manda virem preparados pra tudo. Enquanto isso enrola esse ai. Fica vigiando que a gente não sabe o que pode acontecer.

            — E quando os outros chegarem?

            — Captura o desgraçado e joga na cela. Deixa comigo, vou fazer esse papagaio cantar como nunca na vida dele.

            — Eu sabia que o senhor ia resolver a situação.

            — Só uma coisa.

            — Sim, senhor.

            — Bico fechado. Entendeu?

Danny Marks

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“Mitos são aquilo que os seres humanos têm em comum, são histórias de nossa busca da verdade, de sentido, de significação, através dos tempos. (…) São metáforas da potencialidade espiritual do ser humano, e os mesmos poderes que animam nossa vida animam a vida do mundo.”

(Joseph Campbell)

             “Precisamos de um Herói” é a fala mais profunda do Rei Hrothgar, ele mesmo um antigo herói, no filme “A Lenda de Beowulf”.

            O que teria levado o heróico rei, amado por seu povo, a declarar-se impotente? Grendell, o filho do rei com a Bruxa dos Pântanos. E é Beowlf quem vem em socorro do rei caído e de seu reino: o novo herói.

            A Lenda de Beowulf é um mito moderno, um filme arquetípico que traça uma linha direta entre o inconsciente coletivo e nossas necessidades atuais. Este mito fala da busca do Herói, das provações que ele passa para encontrar o maior desafio de sua vida, o Si Mesmo.

            O Rei Hrothgar representa o herói que fracassou em enfrentar o desafio, após percorrer toda a sua jornada de glória e dor. É o anti-herói moderno: simpático, forte, destemido diante de quase tudo, mas que não consegue superar as próprias limitações e se torna decadente e pede ajuda deixando, em um último ato heróico, o caminho livre para o novo herói e sua jornada.

            Não há como não simpatizar com a triste derrocada deste antigo herói, superado, ultrapassado pelo novo, que se viu frente a frente com a Grande Mãe  (a Bruxa do pântano) e, com essa força sombria, fez um pacto que o permitiu ir além das possibilidades imediatas e obter o reconhecimento até que, como em todo pacto mais cedo ou mais tarde é cobrado o preço, o confrontamento se fez necessário.

            Grendell se recusa a atacar o pai, por ordem da Mãe Devoradora. E o pai não consegue atacá-lo, incita-o à luta, mas não avança sobre o mal que o corroe e destrói a tudo que tinha conquistado. Recusando-se a enfrentar sua própria sombra, deixa de ser o herói e é derrotado por Si Mesmo.

            Beowulf é o novo herói que iniciará a sua busca aprendendo com aquele que irá substituir, usando o que já foi conquistado. Seu primeiro embate é a prova de que é merecedor, a luta contra o demônio do antigo herói. Vencendo-o conquista a glória de ir além dele, mas antes terá que enfrentar a mesma prova, encontrar a Sombra e forjar o seu pacto que lhe garantirá ingressar no caminho do herói efetivamente, e o ciclo recomeça.

            É dessa forma que a cultura, os ganhos de uma civilização, passam para a geração seguinte, e o rei antigo tem que ser superado, absorvido, logo após passar a coroa ao novo vencedor, ou se tornará um empecilho para a jornada seguinte, para no novo ciclo a ser cumprido.

            Mas quem é a Bruxa do Pântano? Ela é a parte sombria dos arquétipos, a força que move o herói e a que o subjuga se não for vencida no seu devido tempo. A trégua que se faz no pacto com a sombra é o impulso inicial que se precisa para conquistar o mundo. Alimentando-se da força da Sombra o herói parte para suas conquistas e autoconhecimento até que, coberto de glórias, tem que enfrentar os seus demônios. Conquistou o seu lugar no mundo externo e agora tem que conquistar o seu mundo interno, fazer as pazes com o seu passado, olhar para Si Mesmo e enfrentar o resultado de suas escolhas. É a maturidade do Herói, onde ele tem que escolher entre doar-se ao mundo como um Deus ou perecer como um mortal. Dos frutos dessa batalha final se alimentarão as futuras gerações que o sucederão.

            A Bruxa nunca morre, nunca é derrotada como os seus filhos sombrios, a quem reabsorve junto com o herói, sua força não pertence a ninguém, é emprestada e tomada no devido tempo, como toda a força da natureza que anima a vida que se alimenta da vida e retorna como alimento da natureza para o novo ciclo.

            No Caminho do Herói não existe bem ou mal, existem apenas escolhas certas ou erradas, na comunhão com os poderes animais e espirituais que impulsionam a vida como um todo, em ciclos que se sucedem e se complementam. O passado se torna futuro e os velhos símbolos ressuscitam em novas formas e vem resgatar suas dividas arquetípicas.

            O “Herói” somos nós, cada um de nós, em nossa busca pela glória, em nossa necessidade de imortalidade nas futuras gerações, nossa luta constante contra o mundo e, quando conquistado esse mundo, nossa luta final contra a sombra, que fortalecemos em nossas conquistas, em busca do equilíbrio que nos dará a paz derradeira: o aceitar-se.

            Essa busca heróica não é feita sozinha, nela o aventureiro encontra a Bruxa, o Amigo Fiel, a Rainha, a Amante e finalmente o seu inimigo: O Demônio do Si Mesmo.

            Quando o Si Mesmo confronta o Herói eles estão equivalentes, lados opostos da mesma força primordial, luz e trevas. O Demônio despreza as conquistas do Herói e as destrói para demonstrar como são efêmeras diante de seu poder sobrenatural. É quando o Herói tem que encarar a própria morte com a coragem que encarou a vida para que o ciclo se feche, e recomece o novo ciclo, perecer agora é invalidar todo o caminho percorrido, sobreviver a ele é condenar as gerações futuras ao sofrimento.

            A solução está no fundir-se com o adversário, juntar luz e sombras em uma paz harmônica que traz as cores, romper o poder sobrenatural da morte com a espada da vida penetrando-lhe o coração, ofertando-se como oferenda e alimento que será consumido pelos que virão e, assim, imortalizando-se como o Deus Vivo que dá a vida com a sua morte.

            A vida se alimentando da vida, a morte sendo apenas uma transição entre o passado e o futuro, dando-se como oferenda, como presente ao novo Herói em sua busca, até que as forças da natureza o chamem de volta ao berço primordial para que, finalmente, descanse em paz.

            Em “A Lenda de Beowulf” podemos aprender de forma simples como os mitos nos ensinam sobre a jornada da vida, a busca pelo autoconhecimento. O feito heróico do dia a dia é o superar as adversidades, muitas vezes através de pactos sombrios, que nos custarão um preço futuro. Escolhas que nós confrontarão e para as quais temos que ter uma resposta à altura de um herói.

REFERÊNCIAS:

Filme: A Lenda de Beowulf

Livros:

CAMPBELL, Joseph & MOYERS, Bill. O poder do mito. 1990.

Jung, C G. & Jaffé, Aniela. Memórias, Sonhos e Reflexões

Diversos. Enciclopédia Times Life – Mistérios do Desconhecido.

Marks, Danny.  A Lei da Completitude – Ciência Evolucionária.

  Por Danny Marks

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             Creio que este ensaio deveria começar com um pedido do tipo “Salve os apaixonantes autores de Literatura” ou algo do tipo, mas há um problema com a palavra “salve” que nesta construção pode tanto significar “aplauda” ou “socorra”. Nesse caso a dubiedade da palavra poderia comprometer o objetivo.

            Esse é apenas um dos inúmeros problemas que os autores de Literatura encontram a cada palavra que colocam nos seus textos, de forma a criarem suas belíssimas obras que podem perdurar séculos, ou morrer no esquecimento logo depois de produzidas.

            “Mas o que eu tenho a ver com isso?” diriam alguns; aos quais responderia em sonoro e bom tom interjetivo: Aha!!! Tem tudo a ver.

            Como escritor, palestrante e professor de Literatura e técnicas de redação, escutei por diversas vezes em diferentes situações a clássica pergunta: O que fazer para as pessoas lerem mais?

            A resposta mais comum, e já a usei em diversos momentos, é de que “Os livros são caros”, ou algo do tipo. Mas confesso que, após anos analisando a questão sob diversos ângulos, isso não explica absolutamente nada.

            Então vamos tentar decifrar juntos esse caminho lógico para descobrir os motivos possíveis, claro que a construção a seguir foi a que desenvolvi, haja vista que não se pode começar um texto sem ter uma ideia clara do que se quer dizer, um ensaio precisa versar sobre uma linha de raciocínio mais ou menos coerente para que o leitor possa corroborar ou refutar, total ou parcialmente, o que foi dito pelo ensaísta.

            Consideremos então a resposta padrão: O preço do livro no Brasil é muito caro e as pessoas não podem compra-lo.

            Essa questão cai por terra ao verificarmos que há recordes de vendas de livros em diversos segmentos, em especial os “da moda”, ou seja, os que caem por algum motivo no gosto do público, independente do seu conteúdo, pois não se quer neste momento fazer juízo de valor (intelectual) e sim estabelecer uma relação “preço x consumo”.

            Obviamente que uma boa campanha de marketing, a utilização dos canais de mídia para estimular o consumo de uma determinada obra ou autor, o uso de todos os recursos disponíveis de distribuição e promoção de exemplares, facilita muito que um livro se torne um Best-Seller imediato, mas o que se quer buscar não é entender como o mercado trabalha para vender o seu produto, mas entender por que o leitor médio brasileiro é considerado como um péssimo leitor, com um consumo literário bem abaixo de outros países, até mesmo os que são considerados como “pobres”.

            A questão não é descobrir o tipo de literatura que agrada a que tipo de público, mas o que fazer para que o povo brasileiro leia mais e com mais prazer, independente do tipo de literatura que lhe agrade.

            Se fosse uma questão de divulgação, a famosa “divulgação boca a boca” com a qual muitos autores contam para alavancar a sua carreira, poderia ser um fator decisivo. O que se vê é que muitas pessoas realmente acabam adquirindo exemplares de autores desconhecidos porque simplesmente viram que estes autores estão sendo lidos por outras pessoas conhecidas.

            Poderia dizer que o problema é com a Literatura mesmo; as escolas mandam os alunos lerem os clássicos que são difíceis de serem entendidos em tempos de internet onde a leitura é rápida e intuitiva e não estruturada e metafórica. Mas há muitos autores, principalmente os nacionais, que estão totalmente adaptados a esses novos parâmetros de literatura. Criam literatura com a agilidade de um videogame ou de um jogo de RPG.
Há os que utilizam padrões de oralidade e até mesmo as desconstruções próprias da literatura marginal. Sem falar que há os adventos dos microcontos, minicontos, Web textos e por ai vai.

            Se o problema não é preço, não é divulgação, não é a forma escrita, o que impede que tenhamos no Brasil um público mais afeito à literatura?

            CULTURA! Berrariam lá do fundo da multidão.

            Isso mesmo! Berraria eu de volta, até porque acredito que realmente seja esse o problema, mas não da forma como alguns acreditam.

            Entenda-se, cultura não é erudição, não é entender profundamente disso ou daquilo. Cultura é um padrão socialmente aceito, adotado por um grupo e levado adiante nas suas contribuições espontâneas a esse conjunto de atos que formam uma coletividade com características próprias, uma identidade social desenvolvida e acolhida pelos integrantes.

            Vivemos em um país onde a paixão pelos seus ídolos transborda por todos os poros, consumimos produtos com a marca do nosso time favorito, defendemos com unhas e dentes o personagem que amamos na novela como se fosse um parente nosso. Entregamos-nos a sacrifícios imensos apenas para poder dar uma olhada no ilustre desconhecido que nos representa em alguma situação midiática. Mas não falamos nada sobre o autor que lemos e amamos, não defendemos o personagem do livro que lemos diversas vezes e que se parece tanto com o que passamos a ser, a voz que recorremos quando nos faltam palavras para dizer algo que tememos não expressar tão profundamente.

            E por que isso ocorre? Se gritamos com orgulho o nome do nosso time, da nossa escola de samba, do nosso cantor preferido. Se usamos o mesmo corte de cabelo do nosso jogador estimado, ou as roupas e joias que vimos a musa televisiva usar, por que só sussurramos em conversas privadas com outros aficionados pela leitura o nome do nosso autor preferido?

            Simples, porque ninguém nos disse para amar descaradamente, sem preconceitos, a literatura, o livro, o autor que nos encanta dia a dia.

            Eu mesmo, confesso, já me peguei fazendo algo do tipo. Sou apaixonado por Bradbury, Asimov, Mia Couto, Marcelino Freire, Quintana, Drummond e tantos outros autores nacionais e estrangeiros, mas o quanto falo sobre eles?

            Já os homenageei em meus textos, reproduzindo os estilos, misturando elementos que mais gostei neste ou naquele livro, revivendo falas e marcações em epígrafes e aforismos, mas o quanto berro “Eu amo este autor?”.

            Não saio por ai com uma camiseta estampada de Nietzsche, não declamo em praça pública Adélia Prado, não proclamo as maravilhas imaginativas de Robert Heinlein ou Machado de Assis. O que há comigo?

            Cultura. Somos levados a acreditar que os autores são seres extra-humanos com capacidades sobrenaturais de produção textual, inatingíveis de alguma forma que nos coloca distantes anos-luz de qualquer contato.

            Posso fotografar uma rainha de bateria de escola de samba, posso pedir autógrafo para um jogador de futebol ou para um ator famoso, mesmo sabendo que jamais vou sambar do mesmo jeito, jogar bola com tanta maestria ou representar um personagem com tanta convicção. Mas como fotografar a mente de uma pessoa? Como pedir autógrafo para um gênio inatingível? Como me expressar com um mestre das palavras sem parecer estar crocitando?

            E os autores brasileiros pecam por não desfazerem essa imagem de idolatria absoluta, por alimentarem seus egos com o carisma abstrato de um público reduzido, membros de uma seita fechada que só reconhece os adeptos.

            O que poderia ser feito para que o brasileiro lesse mais? A resposta me parece simples agora: Apenas demonstre o seu amor pelo livro, pelo autor que escolheram. Defenda com a mesma garra o seu personagem favorito no livro que mais gostou do autor que descobriu ser importante para você.

            Vista a camisa do seu autor, do seu livro, do seu personagem com a mesma vontade que veste a camisa do seu time, da sua escola de samba.

            Abra um blog e coloque o que gostou e o que não gostou, fale para os amigos sobre este ou aquele autor, sobre este ou aquele livro. Fantasie-se do seu personagem e não aceite que não o reconheçam, mesmo que ainda não tenha saído a versão cinematográfica.

            Apaixonem-se abertamente, descaradamente, despudoradamente pela literatura, porque sempre haverá uma literatura que fará com que o seu coração pulse mais forte, faça suas pernas tremerem, cole um sorriso no seu rosto e lhe transmita a coragem de um herói diante dos obstáculos mais terríveis.

            Viva a Literatura da mesma forma que vive todas as suas outras paixões e liberte-se de rótulos ou estigmas, porque autores não são deuses, embora criem mundos; não são mestres da vida, embora reproduzam a vida em seus textos; não são diferentes de você, embora possam representar muitos papeis.

            Ensine as crianças, os amigos, a você mesmo, que ler não o torna pior ou melhor que ninguém, apenas faz com que perceba todas as outras coisas como nunca havia visto antes, porque além dos seus olhos, há os olhos de todos aqueles que habitam os livros.

            E não se esqueça de Danny Marks, um excelente autor brasileiro com uma diversidade estilística impressionante, que vai conduzi-lo por lugares e situações que mais ninguém poderia apresentar-lhe, e merece que todos saibam disso, a começar por você.

            Se fizer isso, poderemos definir o “Salve” do início deste ensaio, não como um pedido de socorro para os autores e para a Literatura, mas como um glorioso “Ave” à Literatura e a todos os seus autores maravilhosos que conseguem traduzir a sua vida em textos para todos lerem. Só depende de você.

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Danny Marks

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Eu queria escrever uma história verdadeira onde a verossimilhança fosse o ponto mais alto da narrativa. Para isso tinha que construir um personagem verdadeiro.

Pensei em um garoto com problemas de saúde que o obrigassem a passar boa parte da infância em um hospital. Não seria um garoto muito bonito, mas também não seria feio, assim os leitores poderiam se identificar com ele. Não queria que sentissem pena, então ele seria forte ou ao menos aparentaria isso aos outros. A justificativa para esse engodo seria a sua personalidade introvertida que o faria estar bem mesmo em momentos de solidão, porém ele gostaria do contato humano, ainda que por pouco tempo ou se sentiria cansado pela demanda emocional.

Mas quem se identificaria com um garoto assim? A menos que ele fosse algum tipo de super-herói, o que me obrigaria a entrar para o estilo Fantasia.

O personagem poderia ser um bruxo famoso, a reencarnação de um maquiavélico ser originário de uma civilização antiga, com conhecimentos fabulosos sobre o Universo e algum contato místico com essa outra personalidade. Poderia ter sido condenado por seus crimes ou enganos e, sentindo-se culpado, aceitado a penalidade e tentado reverter os danos da vida anterior usasse o seu conhecimento para auxiliar a humanidade.

Claro que poucos saberiam disso, seus poderes seriam usados apenas para fazer o bem e um senso de responsabilidade fundamentado na culpa pregressa poderiam causar o equilíbrio necessário.

E quem acreditaria em um personagem assim?

Então o melhor era fazê-lo um jovem romântico e tímido, mas com muita inteligência. Ele conheceria pessoas do submundo e elas o adotariam por seu jeito enigmático e sua capacidade de compreender o outro. O iniciariam nas artes sexuais e ele se tornaria um excelente amante.

Porém, como justificar a incoerência entre o romântico e o sexualizado?  Entre o tímido e o sedutor?  Sem falar que o risco da história se tornar pornográfica e superficial seria grande, o que fugiria ao objetivo.  Um amante extraordinário e romântico funciona na primeira vez, mas essa história já foi contada e qualquer outra beiraria o plágio ou a falta de inspiração.

Então o melhor seria coloca-lo como um pai de família dedicado, com uma grande capacidade criativa. Ele poderia ser um solucionador de problemas e isso o colocaria em uma carreira administrativa de sucesso. O conflito estaria entre a sua capacidade imaginativa e as exigências mecanicistas da carreira com que pagava as contas. Em pouco tempo teria que coloca-lo em uma rota suicida porque seria impossível resolver o dilema entre o sustento familiar e a busca dos sonhos em um plano criativo. Todos sabem que poucos sonhadores conseguem se manter com suas criações, vender sonhos não é fácil a menos que eles gerem utilidades reais. O conflito seria insolúvel.

A menos que o personagem fosse um promissor, mas nunca realizado efetivamente, gestor. Teria a capacidade mas não a ambição e se limitaria a cargos menores equilibrando as finanças.  Poderia ter o potencial para um grande salto em qualquer área que escolhesse, mas evitava ingressar por caminhos mais realistas para não abandonar os seus sonhos.  Poderia desejar ser um desenhista, um projetista, talvez um roteirista ou quem sabe, o pior de todos, um escritor. Mas isso também o tornaria um egoísta, subvertendo a qualidade de vida que sua família poderia ter em troca de um sonho pessoal. Quantos leitores veriam o meu personagem como anti-herói ou até mesmo um vilão? Como apoiar a narrativa em um personagem tão dicotômico?

E se, por essas questões psicológicas internas ele usasse seus recursos intelectuais para estudar o psiquismo humano e poder lidar com essas questões complexas e antagônicas de uma forma inusitada?  Ele poderia se tornar um humanista e construir sua carreira de forma a juntar os seus recursos em um só caminho, o de professor.

Porém um professor pode ser tímido ou mesmo introvertido? Afinal era esse o modelo inicial. Alguma coisa estava muito errada com o personagem e a verossimilhança me escapava constantemente.

Não importava o que fizesse para construir a sua personalidade, os antagonismos se sobrepunham e ele se tornava o protótipo de um fracassado.

Nenhum leitor iria se identificar com um personagem que, embora com profundidade psicológica, estivesse fadado desde o início da trama a se tornar um derrotado, por mais que fosse capaz de solucionar problemas pessoais ou de outros.

Ninguém gosta de pessoas que não se dão bem na vida. É como se o mundo gritasse em silêncio que se o Autor está com a personagem, ela vai superar todos os obstáculos e vencer, ou então algo está muito errado na narrativa.

Nas novelas até os subalternos tem boa saúde e moram em ótimas residências. Os favelados fazem quatro refeições diárias; Os bandidos que são presos, são tratados humanitariamente, enquanto isso não ocorre fartam-se em prazeres e maldades.

Nas histórias maniqueístas, mesmo o mais baixo dos personagens tem suas vantagens e sempre há a possibilidade de contar com a generosidade do autor de, no final, ser tratado com justiça ou compaixão. Os bons não podem cometer atos maus, não é mesmo?

Foi então que eu percebi que jamais poderia escrever uma história verdadeira porque a vida não imita a arte, ao contrário, é a arte que tenta melhorar a vida. Torna-la pura, bela, justa e agradável aos olhos de quem lê.

O que torna a mentira irracional uma bela obra de ficção que se assemelha de forma idealizada à realidade e nos faz querer viver dentro dessas histórias, como personagens impossíveis na vida que gostaríamos de ter.

 Danny Marks

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Houve um tempo em que reunia todo poder de vida e mistérios de morte. De si brotava toda sabedoria, estratégias de destino, sentidos, ilusões e sentimentos.

Era a Deusa Virginal, a Consorte Celestial, Mãe de toda humanidade e de todas as artes, motivo e consequência de todos os atos concebíveis, com os cabelos irradiando estrelas e os pés enraizados na terra.

            Sob o seu manto a vida simples e natural, ao seu olhar os caminhos eram de busca pela beleza em todas as coisas.

            Mas os filhos crescem, em tamanho e numero e espalhados pelos ventos, habitam em outros lares. Ela fragmentou-se para acompanha-los.

            Foi virginal para alguns, mãe acolhedora para outros, sábia idosa em santos lugares e, sacerdotisa de si mesma, era rainha de todos.

            Na quantidade de papeis necessários distribuiu-se em força e fragilizou-se. Tomou então o complementar como seu protetor.

            Mas esqueceu de ensinar sobre o todo aos seus filhos e filhas, e com o tempo o peso dos múltiplos papeis recaiu sobre seus ombros e ela, na servidão.

De inspiração para a beleza maior, tornou-se necessidade de ideal menor.

            Tornou-se motivo para conquistas, para acúmulos, para excessos. De provedora de paz, tornou-se sombria dama de guerra conclamando seus soldados para a batalha em troca de prazeres e luxúria. E, com o tempo, de prêmio passou a espólio.

            Sua força acorrentada na servidão, sua multiplicidade condicionada a necessidades dos dominadores, sua sabedoria desfeita em pedaços impossíveis, em luta contra o si mesmo, descartada da unicidade.

            Quebrado o vinculo com o supremo, tornou-se terrena. Um corpo a seduzir e a servir, um espírito a doar a luz e a penar na escuridão.

            E de fragmento em fragmento, de pedaços que se partiam, foi perdendo o entendimento de si e buscando-o cada vez mais no que lhe faltava.

            O guerreiro que lhe daria a sua vida, tornou-se o poeta que cantava a saudade e a perda. Do consorte se tornou amante, às vezes dona, às vezes objeto.

E tornou-se mulher, sacerdotiza, prostituta, mãe, filha, estranha, corpo cristalino em frágil beleza, molde, motivo, horror, amor, desejo, dor, esteio, corrente, sangue e suor.

            Enclausurada, exposta, armazenada e servida na necessidade, na ansiedade de alcançar glórias do passado, através da reconquista de si através do outro, perdeu-se novamente.

E de inspiração para o sublime tornou-se reprodutora do poder estabelecido.

Revoltou-se contra a natureza de si projetada no mundo e em virulenta corrupção de seu ideal, voltou-se contra suas partes lançando-se em embates que valorizavam o que possuía e desmereciam o que poderia se tornar.

            Destituída do que lhe parecia virginal, em sua essência de amante, deixou de ser mulher, não por abrir mão de vaidades ou compartilhar o pouco que possuísse com seu consorte, mas por deixar de acolher em si o amor que elegesse na busca pelo possuir que pudesse alcançar através do que lhe pertencia na troca que se fizesse.

            Valorizou a sedução e o sexo como fonte de conquista e caiu na armadilha de ensinar aos que deveria resgatar, para ser resgatada, a vilania da posse, a corrupção do todo na busca da satisfação imediata pela parte.

            Cada vez mais separou-se de si mesma, adotando por vezes a parte que lhe era menor como estandarte de luzes, e lançou-se a luta com as mesmas armas que a subjugavam e a partiam em pedaços.

            E mesmo o corpo deixou de ser inteiro e passou a ser rosto, cabelos, seios, bundas, pernas e pele. Deixou de ser natural e estendeu-se na confecção cosmética da suposta perfeição, vencida no discurso das vencedoras fabricadas.

            Despiu-se da inteligência para se refugiar em fragilidades, despiu-se de valores para se tornar desejável, despiu-se da sensualidade para se tornar objeto, despiu-se para encontrar-se.

            E por não conseguir, incorporou a busca pela igualdade ilusória que lhe roubaria definitivamente a pluralidade de ser múltipla.

            Violentada por si mesma, voltou-se contra si em fúria cada vez mais injusta, reduzindo-se ao extremo.

E o poeta que tanto tempo levou para entendê-la, chorou os pedaços que restaram e na montagem imaginária, tenta restabelecer a dignidade que, decadente, ameaça desaparecer para sempre.

            Nesse suspiro é que resiste a inspiração da humanidade e a esperança de que a Musa, ao ouvi-lo, retorne a Ser.

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Nenhum relacionamento é fácil, ou não haveriam tantos tratados de paz e estudos de psicologia ao longo da história da humanidade. Mas, alguns são fadados a serem mais complicados que outros.

À bem da verdade, um homem que lê, ou pior, um cara que escreve, é complicado. Possui inúmeras camadas prontas, e mais outras mais abaixo, sendo construídas constantemente.

Namorar um cara assim é querer uma aventura sem fim, um descobrir constante com certezas que mudam a cada nova descoberta, mais profunda, que modifica todo o entendimento anterior. É fazer do desconhecido algo fascinante que vicia com seu jeito cativante, mas assusta com suas incertezas.

Cada dia um capítulo novo, cada ano o término de uma temporada e a incerteza de qual o rumo que será seguido na próxima. Se houver uma renovação do contrato com a produtora.

Para um homem que escreve, a vida não é feita de finais, ainda que felizes; são mais fechamentos de enredos que se alternam, se sucedem, que vão se sedimentando aos poucos em algo maior chamado simplesmente de obra. E essa coisa dura uma vida inteira, cheia de vidas e de altos e baixos.

Namorar um homem que escreve é ter que descobrir quando as lágrimas são de tristeza ou de alegria; quando o brilho no olhar é de sorriso ou dor; quando os gestos teatrais são para uma platéia ou apenas para pedir que o notem; quando os silêncios são de expectativa ou apenas de reflexão.

É muito difícil manter um relacionamento com um homem  que escreve porque ele é muitos em um só, e é sempre o mesmo por traz de todos que aparenta ser.

Você pode conquistar um homem que escreve, mas ele jamais será seu.

Ele morre se você o prender, e vive mais intensamente se o deixar livre para escolher ficar. E nunca se sabe qual será a escolha que ele fará.

Ele é um universo inteiro, na fragilidade de uma pessoa. Sempre terá uma ideia nova, uma grande sacada, mas nem sempre elas vão chegar no momento que espera, da forma que gostaria.

 Um homem que escreve é um companheiro para todos os momentos, mas você tem que saber ficar sozinha ao lado dele, pois às vezes ele estará muito distante em busca de você.

Namorar um homem que escreve é tão complicado quanto olhar-se no espelho e ver a sua alma refletida e ter que aceitar o que se vê sem julgar, da mesma forma que ele o fará.

Um homem que escreve jamais pedirá a você algo a mais do que ele mesmo possa lhe oferecer ou conquistar por si, mas receberá cada presente da sua alma como se fosse o que ele mais necessitava para se manter vivo, ainda que materialmente não se importe com valores.

Ele sempre será fiel às suas ideias, e a mais nada além disso, ainda que elas mudem com o tempo. Nada mais o fará respeitar a tudo o que encontrar com a mesma imparcialidade, com o mesmo empenho, que uma ideia que o convença, o conquiste.

O homem que escreve vive de ideias, não de ideais, embora muitas vezes pareça um mito, em outras, demagogo; mas ele jamais ira trair o que acredita, enquanto acreditar.

Um homem que escreve é o melhor amigo que se pode ter por perto, e o pior adversário que se pode desejar, pois com a mesma facilidade que constrói histórias de amor, produz tragédias.

Mas, se ainda assim quiser namorar um homem que escreve, então perceberá que a coisa mais importante para ele é que você seja feliz e que a única dúvida constante na cabeça dele, é se escolheu o homem certo para namorar.

E isso, só quando a obra estiver completa, ele saberá.

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