Danny Marks

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buy Lyrica from india Houve um dia, quando o tempo não era medido como hoje, em um lugar que não é mais visitado, um Ser, filho das Estrelas, que pediu para obter o poder de conhecer e compreender o Universo em que vivia.

corso trading binario Seu Criador falou-lhe:

binaire opties kansspel — O que pedes será teu criança, se souberes esperar o devido tempo.

— Morrerei se tiver que esperar, dá-me agora — disse o filho das estrelas.

Mas o seu criador não o atendeu

Sendo filho das estrelas o ser tinha o poder latente que todos os filhos das estrelas têm de saber onde encontrar o que buscam.

Impaciente, buscou diretamente na fonte o que desejava.

Seu poder era grande, tinha vivido mil vidas e lembrava-se delas, mas sua sede de conhecimento era maior que sua capacidade de compreender.

Após algum tempo, apesar de advertido, descobriu como beber da fonte do conhecimento.

Sua sabedoria era suficiente para compreender que poderia suportar apenas dez por cento do conhecimento que a fonte lhe daria, mais do que isso poderia mata-lo.

Previdente como julgava ser, reuniu mais doze que, como ele, pudessem suportar dez por cento do conhecimento.

Seu plano era simples, somando todos, mais do que cem por cento poderia ser absorvido sem ninguém perecer.

Mas a criança das estrelas esqueceu que o conhecimento quando junto ao próprio conhecimento multiplica a si mesmo e não apenas soma-se ao que já existia.

Levando avante o seu intento desgraçou a si mesmo, aos que o seguiram, e a todos que estavam a sua volta, antes que o seu criador pudesse conter a fúria do que não deveria ser libertado de forma tão negligente.

A água da fonte que mataria a sede, afogou aos ineptos que não sabiam como lidar com o que estava alem da sua compreensão. Mais sorte teve os que pereceram na catástrofe, pois a eles foi dado seguirem em frente no caminho da roda da vida, abençoados pelo esquecimento do que lhes ocorrera.

Houve aqueles que não tiveram tanta sorte, e ainda aquele que, em sua ambição deixou-se cegar e não merecendo sequer o pouco do poder que tinha adquirido, agarrou-se com as unhas da alma ao que julgava lhe pertencer por direito adquirido, não se importando com o preço a pagar.

Seu criador apiedou-se do filho das estrelas e falou-lhe:

— Criança das Estrelas, devolve o que foi tomado de forma tão ilícita para que possas seguir o teu caminho em paz.

— Prefiro ser destruído a perder o que duramente consegui.

— Conseguiste? Roubaste o que não compreendes e se quiseres manter o que agora possuis terás que pagar o preço.

— Farei o que quiseres, mas jamais deixarei o que por direito me pertence, prefiro perecer a perder o objetivo de minha existência.

— O Objetivo da Existência de cada um sempre é alcançado a seu devido tempo, querer o que não pode suportar a ter é incorrer desejar a dor e a desgraça, dia virá em que te lembrarei disso.

— Que assim seja.

— Se esta é tua decisão, Assim Será!

A criança das estrelas viveu quatro mil vidas carregando o fardo do conhecimento sem jamais poder usá-lo, pois cada vez que o usava, mais conhecimento era acrescentado e mais seu fardo aumentava.

Os músculos de sua alma jovem tinham a força e o fogo da paixão, porém a caminhada era longa e a cada passo dado o fogo diminuía e o peso multiplicava.

Por fim, vencido pelo desespero, o filho das estrelas chamou seu criador e lhe disse.

— Pai, reconheço que errei, tira-me este fardo dos ombros, deixa-me seguir o caminho que mereço.

— O que dizes? Eis que o caminho que segues é o que escolheste para ti, não posso dar-te outro que não mereças mais que este que tuas escolhas criaram.

— Permita então que seja exterminado e possa começar tudo de novo.   — Filho das Estrelas, se pudesse te atender já o teria feito no instante que vi a tua dor, mas não sou mais teu guia, deixei de sê-lo no momento em que tomaste o rumo dos teus passos em tuas mãos. Foste a minha criança e te protegi até que perdeste a inocência, agora deves aprender a proteger a ti e aos que te seguem. Este é o preço do conhecimento que adquiriste.

— Por que não me mataste então, impedindo-me desta forma de seguir o caminho errado? Não foi a tua negligência que precedeu o meu erro?

— Um dia, Filho das Estrelas, aprenderás sobre o caminho. E o caminho será o teu guia e a tua resposta! Até lá deixo-te a benção da ilusão que perdurará até que teus olhos possam ver a luz sem ofuscar-se e teus ombros possam erguer o peso dos teus atos sem se partirem. Assim Será! Um dia filho, verás que não estou, nem jamais estarei adiante ou atras de ti, e sempre estarei ao teu lado.

Só então a criança das Estrelas pode dormir o sono desperto, abençoado pelos Deuses, e trilhar o caminho que a levaria de volta a casa.

********************************

Houve um ser que desejou mais do que qualquer outra coisa saber porque o criador permitia que houvesse sofrimento no mundo, apesar de possuir o poder do Universo.

E tanto desejou que lhe foi concedido.

E tendo conhecido buscou os meios de destruir o sofrimento.

Lembrou que já vivera antes e que tinha o poder e prudente que julgava ser ensinou e concedeu o poder aos que o seguiam.

 Crianças que eram, riram do que podiam fazer e brincaram com o poder que possuíam, mas as brincadeiras ficaram violentas e o ser teve que para-los antes que machucassem a si mesmos e aos outros de forma irreversível.

Maltratado pelos que outrora o seguiam deu-lhes as costas levando consigo o poder, a dor e a solidão, pois compreendeu que não existia ninguém capaz de segui-lo em seu caminho.

Mas o tempo passou e novos juntaram-se a ele, buscando a luz que dele irradiava.

Desta vez, julgando-se prudente, não quis que o seguissem e ordenou que fossem a frente dele, e os empurrou pelo caminho.

Percebendo-se a frente do mestre, cada qual pegou rumo diferente, ignorando as advertências daquele que tentava resgata-los para o caminho, mas por estar atrás deles, não o ouviram.

O Ser chorou a nova perda, mas seguiu adiante como não podia deixar de ser. Passou a trabalhar na solidão, porém os seus atos e suas palavras atraiam mais e mais seguidores e passou a falhar-lhes e quis ser um deles, e ao vê-los em perigo salvou-os, e decidiu por eles qual caminho seguir, e passou a viver uma vida que não era sua e nem de ninguém e eles o seguiram como cordeiros que tinham se tornado sob seu jugo.

Somente tarde demais percebeu o que tinha feito e desiludido e humilhado chamou seu criador e disse-lhe:

— Perdoa-me, pois errei, liberta-me deste fardo. Não sou merecedor de carregá-lo, que a outro seja entregue.

— Que assim seja, criança das Estrelas, mas o fardo deve ser carregado por alguém. Aponta-me quem desejas que o faça.

— Pai, não o daria ao meu pior inimigo. Não existe outro meio?

— Uma vez te ajudei e te abençoei. E veja que retomaste o mesmo caminho, arrancar-te do que escolheste te faria sofrer mais do que se seguisses sempre em frente e alcançasses o que busca.

— Sinto-me cansado, creio não estar preparado para o que me aguarda.

— Cada ser no universo carrega o fardo que é capaz de suportar, levar menos do que isso deixaria o ser relapso, arrogante, irrefletido. Levar mais do que o necessário seria torná-lo inepto e atordoado.

— Que devo fazer então?

— O avaro carregaria um fardo de ouro com alegria, o sábio carregaria livros sem hesitar, o generoso recolheria o que pudesse do caminho para distribuir para aqueles que encontrasse aumentando e diminuindo constantemente o fardo que carrega, somente o humilde leva menos do que necessita e vive descansado, mas sempre sentindo falta de algo que não trouxe.

— Devo ser humilde para descansar?

— A avareza leva um fardo pesado com alegria, a arrogância o carrega sem pestanejar, a sabedoria o leva por ser útil, a generosidade o faz por amor aos outros, e a humildade permite que descanses enquanto sonhas com o que não possuis.

— Devo ser todos em um?

— Acaso existe unidade e exclusividade nos sentimentos? Existe aquele que está sempre feliz, satisfeito, triste, paciente, furioso, arrogante ou generoso? Meu filho a sabedoria consiste em usar-se o que se tem de bom e de ruim de forma produtiva.

Existiram há muito tempo dois semeadores a quem foram dados dois sacos de sementes para cada um. Um saco continha sementes de boa qualidade e no outro havia sementes apodrecidas. Um dos semeadores jogou as sementes podres fora e semeou apenas as boas.

O outro enterrou as podres para que não causassem danos, vigiou-as e aguardou que se misturassem a terra. Por fim semeou as sementes boas no solo que havia trabalhado e suas plantas nasceram mais fortes que a de seu amigo.

— Então devo usar tudo o que possuo para seguir adiante?

O amigo do semeador — continuou o criador ignorando a interrupção — ao ver como as plantas cresciam na horta do vizinho correu para pegar aquelas sementes que havia descartado e despejou-as sobre as raízes de sua horta.

Fungos cresceram das sementes podres e insetos nocivos foram atraídos matando as plantas que germinavam. O semeador ficou sem nada.

— Faltou-lhe a sabedoria para usar o que tinha.

— Sobrou-lhe arrogância para pensar que já sabia tudo o que precisava e evitar aprender com o outro como fazer corretamente. Faltou-lhe paciência para aprender como fazer, faltou-lhe humildade para conformar-se com o que já possuía e não desejar o que não estava pronto para ter, sobrou-lhe o desespero de começar novamente, totalmente dependente da caridade dos outros.

— Compreendo mestre.

— Então diga-me: Qual dos semeadores serás?

— Nenhum, pois aprendi que cada um deve ser o que é, e tentar copiar os passos dos outros leva à queda fatal. Observarei e aprenderei com os outros, mas somente quando o conhecimento fizer parte de mim como um solo adubado plantarei as sementes que tenho guardado, e quando o fizer será a minha maneira.

— E quanto ao teu fardo?

— Se o carrego é porque me será útil, arriá-lo agora poderá me fazer retornar no caminho mais tarde para buscar aquilo que só então descobri que preciso. Seguirei com passos mais curtos quando me sentir cansado, mas irei até o final da jornada com aquilo que me pertence.

— Que a tua vontade seja feita, Irmão das Estrelas! Hoje aprendeste do caminho e o caminho aliviou o teu cansaço, não te esqueças disso.

— Obrigado, Pai. Que os frutos deste momento sejam doces a quem os buscar em suas necessidades.

— O que desejas, meu filho. Assim será…

0 75

Mais um dia de trabalho duro no escritório. Sempre tenho a impressão que todas coisas esperam para acontecer nas sextas feiras. Preciso fazer o fechamento até segunda.

Deveria fazer como alguns colegas, vir trabalhar no sábado, só para não perder a “esticada” de sexta. Decidi ficar só por causa da “Miss G”.

Fiquei observando ela desfilar, com seu binäre optionen 60 sek strategie tailer a realçar as curvas dos seios e a bunda empinada pelo salto alto, por todo o dia.

Cada vez que a vejo, perco um tempão para me recompor. E quando ela se debruça sobre a mesa de alguém exibindo aquela bunda deliciosa ainda mais? Cara, ainda lembro daquela vez que ela se debruçou sobre a ukoptions erfahrungen minha mesa. Dois botões abertos na blusa, e aquele operazioni binarie divisioni Grand Canyon. A plenitude dos seios maravilhosos, completamente soltos e firmes, expostos ao meu olhar. Suei frio até ela ir embora e eu, discretamente, correr para o banheiro. Que tortura!

Ah, ela é muito simpática, nem liga quando eu a chamo de “Miss G”, apenas sorri e muda de assunto como se não entendesse do que estou falando. Ela sabe que é gostosa, mas não fica cheia de si por isso, como algumas mulheres.

Eu bem que gostaria de recheá-la, um pouco pelo menos.

E, logo hoje, estamos nós dois a sós no escritório, todos já se foram. Apenas nós dois ficamos para terminar o trabalho.

Ela se levanta da mesa dela e me pergunta, desfilando ao meu lado:

_ Vou fazer um café, você quer, Jones?

_ Claro que eu quero, obrigado, ajuda a ativar a mente.

binary options demo account south africa E depois quero transar com você, gostosa, isso me ativaria por inteiro.

Ela se afasta com aquela bunda rebolando toda, na minha frente, em direção ao cubículo onde montamos a nossa “copa”. Deliciosa.

Calma, Jones, pense no trabalho, homem. Apenas no trabalho.

Porra, o trabalho que se foda. Não dá para pensar em mais nada, droga.

Talvez se eu me recostar na cadeira e fechar os olhos, consiga me concentrar. Vamos lá, respirar fundo, mãos na nuca, deslocar a mente para o futebol, contas a pagar, as pernas da Miss G, ela tomando banho toda nua…

http://sensuousmuse.com/?tormozok=triding-opzioni-binarie&77a=17 triding opzioni binarie Caralho! Assim não dá.

Do cubículo vem o barulho de água correndo, ela deve estar debruçada no balcão da pia…

Chega! Tenho que resolver isso agora, de uma vez por todas.

Levanto decidido a colocar as coisas no lugar. Ah! Bota lugar nisso. Já não penso em mais porra nenhuma mesmo, é agora ou nunca.

Chego na “copa” e a porta está aberta, ela enchendo a jarrinha da cafeteira para fazer o café, de costas para mim, ligeiramente curvada.

Aquelas nádegas me encarando é a gota d’água. Agarro ela por trás e lhe cheiro a nuca encostando o meu pênis duro em sua bunda para que ela sinta todo o tesão que me provoca.

Ela solta a jarra, que se parte na pia, soltando um gemidinho disfarçado, um protesto desanimado.

_ Não, Jones, por favor. Não faça isso…

É tarde. O meu cérebro já se mudou para Cingapura com passagem só de ida e o que restou do meu corpo tem outros planos. Nada de pensar em bobagens, quero é fazê-las, todas! Agora!

Viro-a para mim, rude, quero encarar aquela gostosura de frente. Mantenho ela apertada em meus braços para que não fuja. Colo a minha boca na dela e a penetro com a minha língua, bem entre os dentes ligeiramente abertos, ela fica resistindo e gostando. Ah, safada! Como eu gosto disso.

Ela me pega pela cabeça e me devora com sua boca, completamente excitada agora, estamos em brasa os dois.

Uso as minhas mãos para abrir a porra da blusa. Tastylia (Tadalafil Oral Strips) Without Prescription Queria saber quem foi o filho de uma puta que inventou botões pequenos para colocar nesta merda.

Liberto aqueles seios lindos de sua prisão. Sou um revolucionário argentino lutando por uma causa democrática: corretora de opções binarias no brasil mulheres deveriam andar com os peitos de fora, Viva a Liberdade! Que visão do paraíso.

Apalpo, amasso, beijo como posso, minhas mãos parecem em brasas, meu corpo tremendo todo. Deixo a boca dela de lado, preciso sugar aqueles seios maravilhosos,  o cheiro do perfume dela invadindo o meu corpo.

Vou subindo dos seios para o pescoço e dali para a sua boca, só para descer tudo de novo.

As costas dela parecem feitas de seda, desço as mãos pelas nádegas até o limite de sua saia, depois subo levantando tudo no caminho.

Uma calcinha vermelha, rendada, quer servir de escudo entre eu e aquela preciosidade. Ah! Basta um puxão rápido e pronto, mais nada me impede.

Ela me beijava com volúpia e me abre as calças mais rápido que eu conseguiria no estado em que me encontro.

Segura o meu membro duro em suas mãos e se curva para chupá-lo.

Um choque percorre a minha espinha todinha. Deve estar ligada em 440 v, que loucura isso.

Puxo-a para cima e a sento sobre a mesinha derrubando tudo no caminho, enfio a minha cara entre suas pernas e passo a língua pelas coxas, beijando seus pêlos, acariciando as dobras antes de penetrar-lhe na intimidade, umedecendo-a, preparando-a.

Ela arqueia as costas e se abre ainda mais para mim, as pernas sobre os meus ombros, me prendendo. where to buy Requip online Como se eu quisesse fugir.

Quando ela não agüenta mais me puxa pelos cabelos buscando a minha boca e me forçando a ir mais longe, mais rápido.

Cruza as pernas na minha cintura enquanto guia o meu pênis duro para dentro dela. Assim que estou encaixado eu me arremeto de uma vez, com força, invadindo definitivamente para que ela sinta toda a minha virilidade.

Ela solta um gritinho que me alucina de vez. Lá vou eu, entrando e saindo cada vez mais rápido acompanhando cada gemido, com um prazer que quase me sufoca. Ela goza rapidamente e relaxa, mas eu ainda quero mais, muito mais. Tanto tempo esperando por isso, é hoje que me acabo.

Deito-a de bruços sobre a mesa expondo suas nádegas nuas.

_ Não, por favor, isso não…

Ela suplica, mas não se move do lugar, eu entendo o recado…

Abro caminho com as mãos e penetro violentamente, de uma estocada só enquanto ela grita e geme de dor e prazer.

Isso me deixa completamente louco. Acelero o ritmo o mais que posso.

_ Desgraçado! Vai logo com isso… Goza seu filho da puta, maldito…aaaiiirghhh…

Ela já está suando por todos os poros, eu já me derreti a muito tempo, consumido pelo fogo do tesão.

Os dois completamente enlouquecidos, como animais, urrando e gemendo. Não resta mais nada inteiro sobre a mesa que já dá sinais que vai desmontar também.

Agarro os cabelos dela e a obrigo a virar de lado, beijando a sua boca e não consigo mais me segurar. Gozamos juntos nos beijando, sem fôlego, suados.

Continuamos nos beijando até que o tesão diminua e então eu saio dela, libertando-a.

Olho para aquela bagunça toda, pó de café espalhado por todos os lados, tudo quebrado….

_ Jonas, o café vai esfriar.

O que? Cacete! best 5 min binary option strategy Eu cochilei? Miss G http://teen-spanking.com/?popka=opciones-binarias-bot opciones binarias bot completamente vestida com uma xícara de café fumegante me esperando, twitter binäre optionen bem em frente a minha mesa.

Agradeço sem jeito e tomo um gole, preciso ficar lúcido.

Porra, foi tudo um sonho? anyoption legal Mas que Merda!!!

Bom, já que estou no embalo mesmo…

_ Muito gostoso o seu café, verdadeiramente uma delícia.

_ Obrigada, meu marido também adora.

_ Marido?!?! Não sabia que era casada, nem usa aliança.

_ É que eu não gosto de comentar minha vida particular. Vou indo, Jones. Ele me ligou, está me esperando na portaria, vamos jantar. Tenha um bom fim de noite. Não vai se matar de trabalhar, você não parece nada bem.

trading alta frequenza Caralho!!! Eu quero me matar. Espere um pouco, vou ali pular pela janela e já volto. Meeeerrrrrrrdaaaaaa!!!

_ Estou bem, só um pouco cansado, não se preocupe. Tenha uma noite sales trading212 com gostosa.

Ela ri e sai, rebolando. Eu fico olhando para a porra da pilha de papeis, parecem duas pernas abertas me esperando. Ataco com toda a minha fúria.

Segunda-feira vai estar tudo pronto. Eu nunca mais vou fazer hora extra nesta porra. Nunca mais!!!

0 114

Esta é mais Uma Historia de Pescador, mas eu tenho certeza de que aconteceu em algum lugar mais ou menos assim…

Um Sábio ao andar por uma cidade encontra um homem com fome. Como sabia da existência de um rio próximo, ensina o homem a construir uma vara de pesca e a pescar e vai embora.

Ao preparar o peixe para comer, o aroma agradável atrai um administrador que por ali passava. Vendo o pobre homem e seu peixe, decide ajuda-lo, convence-o de que deveria vender seu produto e com o dinheiro comprar uma vara de pesca e desta forma poder ampliar seu estoque.

De posse de uma vara de pesca novinha em folha, mas ainda com fome, o homem põe-se a pescar e consegue vários exemplares vistosos.

Um publicitário que o vê com tantos peixes convence-o ao troco de um deles a fazer sua campanha de vendas de forma que ele pudesse ganhar muito dinheiro.

As vendas iam bem, até que chegou um fiscal e lhe pediu a licença de pesca comercial, sem tê-la o homem autuado em flagrante delito é conduzido à cadeia.Na cadeia o homem conhece um advogado, que apiedado do homem, resolve defende-lo e consegue reduzir a pena a uma simples multa, o que leva todo o dinheiro que o homem havia ganhado com os peixes.

Livre novamente e ainda com fome o homem põe-se a chorar…

Seu sofrimento atrai um filósofo, e interessa-se pela historia do homem sem sorte.

Após lhe pagar um almoço, decide ajuda-lo.

Junto com ele passa a dar aulas de pesca para as pessoas que desconheciam a excelente técnica  aprendida com o sábio, ao ganhar  um bom dinheiro resolveram criar uma escola de pesca, contrataram o administrador para gerenciar o negócio que se expandia, o advogado para resolver as questões legais que começaram a surgir, e o publicitário para divulgar seu novo negócio.

Hoje, ambos ricos, o filósofo e o homem passam o tempo passeando e ajudando àqueles a quem um dia o sábio ensinou a pescar….

Aqui, deveria haver o moral da história, mas como esta é apenas mais uma historia de pescador, você não ia acreditar mesmo….

0 102

O Jovem parou em frente ao portão de ferro que guardava a entrada da mansão, tocou a campainha e aguardou.

Estava com seu terno novo, e apesar do calor, tremia. Não era de frio, apenas nervoso. Tinha enviado seu currículo para uma empresa e fora convidado a comparecer naquele local.

Um homem idoso, se aproximou e lhe disse.

— O que deseja?

— Eu fui convocado para vir aqui, estou interessado em ocupar a vaga que ofereceram e…

— Ah, sim, venha comigo.

Abriu o portão e começou a se dirigir para um local afastado da casa.

Enquanto o recém chegado andava atrás do velho, reparou que este usava roupas gastas sujas de terra. Deve ser o jardineiro, pensou.

Ao chegarem próximos de um canteiro de tulipas o velho lhe disse.

— São muito delicadas e precisam de certo cuidado para plantá-las. Já plantou tulipas?

— Não, nunca tive oportunidade…mas é que…

— Venha! Vou lhe mostrar como se faz.E com todo cuidado mostrou ao rapaz como se plantava a tulipa. Depois pegou outra e a entregou ao jovem.— Tente você agora…Talvez não tenha outra oportunidade para aprender a fazer corretamente…

O jovem ficou indeciso, poderia se sujar todo e ficaria mal apresentado quando fosse ser entrevistado, mas o velho era simpático e parecia achar aquilo muito importante. Quem sabe se tomasse cuidado…

Pouco a pouco foi fazendo como o velho lhe dizia e acabou plantando a tulipa, porém sujara a roupa.

— Caramba, e agora, preciso me apresentar bem para o seu chefe. Deste jeito ele nem querer me ouvir…

— Posso lhe emprestar uma roupa.O jovem ficou pensando, que tipo de roupa o jardineiro teria para lhe emprestar, mas para não desagradar o homem resolveu aceitar.

Foram até uma pequena casinha onde o velho lhe deu uma roupa limpa mas gasta pelo uso.

E lá se foi meu emprego, pensou o rapaz. Talvez se pudesse explicar o ocorrido… Perguntou para o jardineiro onde poderia encontrar o local das entrevistas.

— Ali na casa grande, já tem alguns esperando lá…

— Então deixe-me ir, já devo estar atrasado. Obrigado por me ensinar a plantar tulipas. Talvez precise de arrumar emprego de jardineiro.

— Ora meu jovem, tudo o que se aprende é usado, até quando menos se espera.

Apressado o jovem foi até onde o velho lhe indicara, e lá encontrou com mais três que esperavam ser atendidos. Imediatamente viu o olhar de zombaria dos outros, todos de terno, e ele com as roupas do jardineiro.

Pensou em ir embora, mas resolveu o que tinha mais a perder? Resolveu ficar.

Logo entrou um senhor com um belíssimo terno e um sorriso cativante, cumprimentou a todos e abriu uma pasta onde se estavam alguns papeis.

— Vejo que todos foram aprovados nos testes iniciais, e gostaria de lhes dar os parabéns, mas nossa empresa necessita de pessoas especiais para o cargo que estão angariando.

— Eu tenho vinte anos de administração, sou….

— Sim, claro. — disse o senhor interrompendo o candidatos afoito — Sei que quase todos aqui, têm experiência em empregos anteriores, exceto nosso jovem amigo…

 O jovem que já estava sem jeito pelas roupas acabou tendo que suportar o riso mal disfarçado dos colegas.

— Porém, buscamos experiência de outro tipo. — Continuou o anfitrião — Como já disse, nossa empresa precisa de pessoas especiais, com qualidades especiais. Para isso preparamos um ultimo teste, aquele que conseguir passar terá o emprego.

Conduziu-os até uma sala onde se viam tulipas esperando para serem plantadas em vasos.

— Plantem uma Tulipa e sejam nossos novos funcionários.

O jovem agradeceu a sorte e fez como o jardineiro havia lhe ensinado. Não se preocupou com as roupas, compraria outra para o jardineiro, como agradecimento.

Os outros tentando não se sujar acabavam quebrando a delicada planta.

— Isso é ridículo. O que plantar tulipas provará sobre minha capacidade de trabalho que minha experiência anterior não tenha provado? – disse um dos candidatos furiosos.

— Prova muito para mim.

Todos olharam para aquele que havia entrado na sala, Era o velho do jardim, só que agora usava roupas bem cortadas.

— Todos vocês passaram pelo mesmo teste. A cada um de vocês chamei para ensinar como plantar tulipas, mas somente um se dignou a aprender. Somente um mostrou respeito por um desconhecido e ignorando seus problemas pessoais procurou ser gentil. Quando as dificuldades aumentaram, poderia ter desistido, se rendido a uma situação, mas não o fez. Não me importa o motivo, me importa a atitude.

— Mas… Você é o jardineiro….— disse um dos candidatos.

— Desculpem, foi uma falha minha, senhores, quero lhe apresentar o contratante. Este é o patrão, ele adora tulipas, poucas pessoas tocam nas suas espécies raras. Essas mesmas que estavam manipulando com…um certo cuidado.

— As tulipas são como as pessoas — disse o patrão — precisam mais do que técnicas, precisam de respeito, que as tratem como se fossem únicas de sua espécie, porque muitas vezes o são. Técnica eu posso ensinar a qualquer um, mas vivencia e respeito, somente a vida pode ensinar.

— Mas isso é um insulto, ser discriminado por não saber plantar tulipas.

— Não, rapaz! Não vou contratar alguém tão arrogante que não queira aprender algo novo, ou tão imaturo que necessita ver cargos e não qualidades para ter respeito. Minha empresa precisa de pessoas que comandem as máquinas, não o contrário. Saiam! Quanto a você meu jovem, no bolso de sua calça está o contrato de trabalho se quiser pode assiná-lo e devolva-o junto com as roupas. Não sei quando poderão ser úteis novamente.

0 165

Quando o Sr Silva deu por si estava em uma espécie de salão onde não se viam paredes, teto e nem mesmo o chão parecia real…

— Sr Silva?! Acompanhe-me, por favor.

Silva olhou para aquela entidade trajando um belo terno branco muito bem cortado. Assemelhava-se a um daqueles seguranças de cassino que o Silva..

— Estou recebendo sua ficha Sr Silva. Bem extensa por certo. Vejamos, pequenos furtos na infância e na juventude, uso e venda de drogas, promiscuidade, violência. Ah, aqui está, virou líder comunitário para aumentar o seu poder de atuação, entrou para política, ficou milionário por meios escusos, uma carreira e tanto Sr Silva…

Silva retesou-se todo, encarando o seu interlocutor que parecia estar em contato com alguém por algum tipo de mecanismo que ele não percebia qual era.

— Quem é você? Recuso-me a falar sem a presença de meu advogado.

— Calma, Sr Silva! Aqui não vai precisar de advogados. Eu sou o seu anfitrião, enquanto aguardarmos o resultado da analise do Setor Jurídico. Alias, eles já entraram em contato com o setor financeiro para verificar o seu debito conosco e determinar como será feita a cobrança.

— Mas… mas… o que está acontecendo por aqui?

— Ora, Sr Silva, o senhor veio para o lado de cá e é hora de acertar as contas, mas não se preocupe com isso, por enquanto, deixe que eu lhe mostre as dependências…

O Anfitrião colocou a mão sobre o ombro do Sr Silva e logo estavam em outra dependência semelhante à primeira, mas este era cheio de boxes com equipamentos de telecomunicação operados por uma infinidade de homens e mulheres, todos vestidos de branco.

Silva estava tão estarrecido que nem conseguia raciocinar direito. Sentia-se como se estivesse em algum tipo estranho de pesadelo ou alucinando.

— Que é isso? Telemarketing?

— Este é o nosso Setor de Mensagens Divinas, daqui mandamos e recebemos mensagens para todo o universo. O nosso Patrão acredita em gestão por resultados. Você acredita que antigamente tudo isso era feito por um único mensageiro? Não admira que houvesse muita confusão. Quando o patrão viu esse sistema do outro lado aderiu e adaptou para o nosso uso. Agora podemos fazer muito mais…

— Mensagem Divina? Então essas pessoas falam com os fiéis a partir daqui?

— Não Sr Silva — riu-se o anfitrião— Que fiéis? Nós nos comunicamos com qualquer um que deseje entrar em contato e falar conosco à partir do outro lado.

A mente fria de Silva lhe dizia para se agarrar a qualquer detalhe, descobrir o que estava acontecendo. Deviam ter-lhe dado alguma droga e estavam tentando arrancar-lhe os segredos. Melhor entrar no jogo e ver o que poderia descobrir sobre essa organização.

— Então é uma espécie de atendimento ao cliente?

— É, quase isso, só que a musica de espera é celestial, e os atendentes realmente desejam ajudar quem entra em contato conosco.

— Inacreditável..

— Foi o que o Patrão disse do sistema de vocês, mas vamos…

Novo toque e logo estavam em um outro lugar, onde milhares de pessoas se sentavam em frente a terminais de computador, todas muito ocupadas com seu trabalho.

O Anfitrião deixou escapar um tom de orgulho na voz.

— Este é o nosso Setor Contábil, aqui são computados os débitos e os créditos de todos do outro lado. Não queremos que ninguém saia com menos do que merece.

— Isso ai nas mesas? São computadores?

— Digamos que esta é a versão celestial daquilo que vocês têm do outro lado. Estes são rápidos, eficientes, não travam nunca e realmente facilitam o trabalho. Mas vamos, deixe-me mostrar o Setor de Planejamento.

Logo estavam em outra sala. No centro havia uma imensa mesa onde inúmeras pessoas trocavam papeis, faziam anotações e discutiam entre si.

— Esta é a melhor parte! Aqui todos se dedicam a criar estratégias para melhorar o universo.

— Eles parecem muito ocupados, mas quem decide qual a melhor estratégia?

— Ora, o Patrão decide tudo sozinho. Na verdade nunca adota as sugestões que esses fazem, mas não lhes diga isso.

— Mas, então, por que eles estão aqui?

— Porque querem! Alguns até acreditam que estão conseguindo mudar alguma coisa, e no fim ninguém se machuca. “Deixe-os se divertirem”, é o que o Patrão diz.

Outro lugar, agora cheio de pessoas que se banqueteavam com inúmeras iguarias servidas em fartas bandejas.

— Aqui é o nosso refeitório, tudo o que imaginar e até o que jamais imaginou em termos de delícias gastronômicas está aqui, é só se servir até ficar satisfeito.

O Sr Silva ia aceitar a sugestão, mas percebeu que já estava em outro lugar.

Imensos ambientes com todos os tipos de jogos e brincadeiras atendiam a um numero sem fim de pessoas.

— Este é o nosso Salão de Jogos, o Patrão adora jogos! Soube que ele vive jogando com o Pai. Alias acho que herdou essa característica dele..

— E eu que pensei que seria proibido jogar no paraíso.

— Proibido? Paraíso? Senhor Silva, onde acha que está? No paraíso ninguém trabalha. Lá a festa e diversão ocorrem o tempo todo. Sempre tem muita musica, muita alegria e…

— Mas, você disse que estamos do outro lado e se isto não é o paraíso, o que é?

— Ora Sr Silva, aqui é onde se trabalha. Alguém precisa manter o Paraíso funcionando. Mas até que não é tão mal assim, ainda mais que, quando alguém se cansa, pode tirar umas férias lá, por conta da casa.

— Mas o paraíso não é abastecido pela “Graça Divina de Deus”?

— O Pai? Onde você andou pelos últimos milênios, Sr Silva? Acredita realmente que nada mudou no Paraíso durante esse tempo? Entenda, o Pai está cuidando de um projeto particular dele, enquanto isso o irmão Gabriel cuida do Paraíso e o outro irmão cuida daqui. Mas aqui entre nós, não chame ele de irmão que ele não gosta. Nós o chamamos de Patrão. Para ser sincero a ideia veio de vocês, do outro lado.

— Então o seu Patrão é o … Caído?

— Ah, senhor Silva, não fale assim. Ele até que esta bem em forma apesar da idade.. — e o anfitrião riu da própria piada, mas logo ficou sério, concentrado — Um minuto, já levantaram a sua ficha. Ok! Vamos embora…

O Sr Silva se viu em um imenso terminal de passageiros onde pessoas apressadas se encaminhavam para seus destinos.

— Sr Silva, chegamos ao fim de sua jornada..

— Mas onde estamos?

— Na estação de embarque, queria lhe mostrar tudo, mas o pessoal do jurídico está cada vez mais rápido e eficiente. Já foi dada a sua sentença.

— Como assim, e o julgamento, meu advogado?

— Eu já lhe disse, Senhor Silva, não precisamos de advogados por aqui, embora os tenhamos aos milhões. O sistema é muito eficiente e justo, acredite.

— E o que vai acontecer comigo?

— Mas não é obvio? O senhor tem muitas dividas e precisa pagá-las todas. O Patrão é muito rigoroso nesse ponto, nada de perdoar as dividas. Se pelo menos a sua ficha fosse um pouco melhor poderíamos entrar com um pedido de apelação junto a Gabriel — e riu-se de novo —  mas no seu caso…

— Espere, pelo que entendi o seu “Patrão” é o diabo e aqui é o Inferno. É aqui que eu tenho que ficar pela eternidade. Foi isso que me disseram do outro lado, você não pode me mandar embora…

— Pois é, Senhor Silva, aquilo que já te falei dos mensageiros. — O anfitrião ficou com uma cara consternada — Deixa eu explicar, as coisas por aqui mudaram nos últimos milênios, o Patrão conseguiu um acordo com o Pai e passamos a prestar serviços para o Universo e ainda cuidamos da manutenção do paraíso.

— Mas e os castigos eternos? E a danação eterna? Sem falar da redenção dos justos? Onde fica tudo isso agora? Eu tenho que ficar aqui no inferno pra sempre, vocês não podem simplesmente me por para fora assim, eu pertenço a este lugar!!!!

— Isso é passado, Sr Silva — respondeu o Anfitrião sério, um tanto irritado — Ninguém tem paciência de ficar fazendo a mesma coisa pela eternidade. Aqui o pessoal que foi autorizado a ficar vai se revezando nos trabalhos e no lazer e todo mundo fica satisfeito, sem encrenca. Tudo muito justo.

— Deus! Então o inferno não existe mais? Isso não é possível…

— Esse é o problema. Por aqui só podem ficar aqueles que tem condições de justificar a permanência ou pelo menos uma temporada, o resto a gente manda para lá.

— Para o inferno?

O anfitrião voltou a sorrir de uma forma estranha.

— O senhor é dirvertido, Silva, eu gostaria de que ficasse, mas temos que manda-lo para o novo lugar e este não fica do lado de cá, fica do outro lado. Melhor sorte da próxima vez Sr Silva, aproveite a estadia, aqui está o seu bilhete. Adeus…

O Sr Silva ainda teve tempo de ver o que estava escrito no seu bilhete de embarque:

 Expresso Inferno: Classe Econômica.

Destino: Terceiro Planeta do Sistema Solar – Terra.

 E todos sorriram na maternidade São Tomé quando ouviram o choro daquele que acabava de nascer…

1 158

Reza a Lenda que um rei chamado Lucidus, buscando um bom marido para sua filha e um bom sucessor para seu reino, dispôs-se a testar os pretendentes de diversas formas até conseguir três candidatos, fortes, corajosos e inteligentes, ao cargo.

Para decidir qual dos três ficaria com o cargo de regente deu-lhes um ultimo teste.

Cada um deles deveria governar por um período de cinco anos, províncias afastadas do reino que tinham sérios problemas. Nenhum deles saberia dos progressos dos outros concorrentes, e somente uma vez por ano teriam comunicação do reino. Findos os cinco anos o que melhor se saísse seria aclamado como o novo regente.

O Rei, em sua generosidade, determinou que fossem concedidos durante os cinco anos de regência, dinheiro, suprimentos e materiais em partes iguais para cada um dos pretendentes, de forma que estes pudessem suprir as necessidades da comunidade. Mas, secretamente decidira que, para cada ano de fartura um ano de penúria se seguiria até que se completassem os cinco anos. E assim foi feito.

A província de Abidos seria governada por All Sam, que assim que chegou distribuiu as dádivas do rei entre todos, sendo imediatamente aclamado pelo povo.

A província de Bembidos  seria governada por Bam Sam, o prudente, que determinou que nada fosse entregue ao povo, mas guardado no palácio para quando se fizesse necessário. O povo o recebeu com desconfiança.

A província de Causum seria governada por Calcos, que depois de andar pela localidade ordenou que parte dos donativos fosse entregue à população mais carente e que o restante fosse guardado no castelo.

Veio o segundo ano que, como determinado,  nada seria doado pelo rei.

All Sam de Abidos revelou ao povo que os suprimentos doados pelo rei não haviam sido entregues mas que ele buscaria resolver a situação e novamente foi aclamado.

Bam Sam de Bembidos temendo a revolta do povo, cada vez maior, decidiu distribuir o estoque do palácio e acabou sendo aclamado.

Calcos de Causum convocou o povo e revelou o seu estudo para corrigir os graves problemas da província e declarou que haveria mutirões para reconstrução das estradas, irrigação das colheitas, criação de áreas de lazer e centros de estudos. Os voluntários receberiam como pagamento parte dos suprimentos estocados no palácio. O povo atendeu, mas houve os que levantaram a voz dizendo que era obrigação do rei cuidar de seu povo sem jogar esse ônus para seus empobrecidos súditos.

No terceiro ano os suprimentos chegaram.

All Sam apressou-se a distribuir os donativos para acalmar o povo que não acreditava mais em seus discursos de prosperidade vindoura quando fosse eleito novo rei. Quando os suprimentos chegaram as suas mãos todos o aclamaram novamente…

 Bam Sam revoltado com a população que, em sua opinião, eram um bando de preguiçosos que só queriam bem-aventuranças e nada de trabalho, decidiu devolver os donativos do rei, assim este o julgaria o melhor dos candidatos que sequer precisava do auxilio do rei e o povo teria que se trabalhar se quisesse sobreviver senão que morressem de fome…

O povo julgou que o regente havia ficado louco, ou que o rei havia lhe retirado seu apoio, atacou a comitiva que retornava e roubou os suprimentos para si.

Em Calcos com a ajuda do povo, novos trabalhos foram executados para ampliar o que já havia sido feito. Os poucos que reclamavam foram silenciados pelos resultados que fazia a comunidade prosperar.

Novamente as provisões do rei foram parte para o povo, parte para as reservas do palácio.

Eis que o quarto ano chegou e nada foi entregue.

All Sam procurou acalmar o povo revelando os planos do rei para o casar com a sua filha e prometeu que iria garantir que no ano seguinte tudo iria melhorar.

Bam Sam vendo o povo cada vez mais faminto e revoltado, ordenou às suas tropas que reprimissem toda e qualquer manifestação contraria ao seu governo, em troca teriam todos os donativos do rei distribuídos entre si.

E o povo foi fustigado e reprimido com violência, ficando mais revoltado.

Em Causum, Calcos agradeceu ao povo a colaboração nos mutirões de reconstrução e destinou parte dos estoques para promover festas para todos, e o povo feliz por não ver mais necessitados entre eles, e ao ver sua província próspera, aclamou-o e jurou-lhe fidelidade.

Quinto ano, nenhum donativo chegou, apenas um mensageiro com uma enigmática mensagem

“Nada mais poderá ser dado pelo Rei, nada será tomado, enquanto o Rei Viver…”

All Sam ao ver a mensagem, saltou em um cavalo e fugiu, antes que o povo descobrisse a sua desgraça. Jamais foi visto novamente…

Bam Sam não teve tamanha sorte, o mensageiro já se comunicara com as tropas revelando que nada seria entregue, e estas acabaram por se juntar ao povo, que no auge de sua revolta invadiu o palácio e destruiu tudo e todos que lá se encontravam.

Calcos julgando que o soberano estava com dificuldades convocou o povo pedindo voluntários. E novamente o povo o atendeu ao seu chamado. Um exército foi formado e, levando consigo grandes quantidades de suprimentos, rumou para a capital do reino.

Qual não foi a surpresa ao encontrarem, nos limites da cidade, o rei e sua comitiva que cavalgavam ao seu encontro.

Calcos aproximou-se de Lucidus e dirigiu-lhe a palavra.

—  Meu Rei, que mal lhe aflige? Nada nos revelaste em tua missiva, mas teu povo aqui está para livrar-te da penúria e de teus inimigos, somos teus servos para o que precisares…

— Não meu caro Calcos, como descobriste por teu próprio mérito, um governante é que é o servo de seu povo. Aquele que buscar governar para si nada terá e aquele que para todos governar por todos será atendido.

O Único mal que pode destruir uma nação é a incompetência de seus governantes, pois assim como teu corpo, por mais forte e sadio que seja, sem uma cabeça para conduzi-lo, perecerá; também a tua cabeça sem um corpo para executar teus planos, impotente fica. É desta forma que tem que ser um rei e seu reino.

Hoje, te dou minha filha por esposa, e meu reino para que o sirvas, leva os frutos de tua sabedoria, que destinavas a mim, para Abidos e Bembidos., Restabelece a paz em teu reino. Tu és Rei e Este é teu Povo

E Calcos foi aclamado por todos e com sua direção a paz e a prosperidade voltaram aquelas terras.

0 125

O Homem chegou com seu carro importando levantando poeira, estava bem vestido, bem perfumado, mas tinha um ar de preocupado…

Ao avistar um homem que estava sentado a sombra de uma árvore, resolveu parar o carro.

_ Meu velho, sabe aonde fica a casa do Sábio da Montanha?

_ Sim, eu sei onde fica…

_ Pode me dizer aonde fica?

_Claro senhor, a informação é de graça, por aqui…Está vendo aquela montanha, suba até o alto dela e verá a Casa do Sábio da Montanha.

O Homem olhou para a montanha, era terrivelmente alta, a estrada aonde ia seguia em outra direção, seu carro seria destruído se fosse enfrentar aqueles buracos.

_O senhor não teria um jipe por ai, teria?

_Claro que tenho, eu alugo para os turistas que passam por aqui…

_ Ótimo eu vou deixar o meu carro aqui e levo o jipe.

Depois de acertada a estadia do carro e o aluguel do jipe, o homem segue em direção a montanha…

Quando estava próximo do sopé o carro parou, tinha acabado a gasolina. O homem olhou em volta e avistou uma cabana, desceu do carro e foi até lá.

Quando chegou lá encontrou um velho que preparava uma cesta de piquenique.

_Senhor, preciso de gasolina, tenho que subir a montanha e o meu jipe está sem combustível. Sabe onde posso comprar um pouco?

_ Aqui mesmo, mas deste lado da montanha as trilhas são estreitas e somente um cavalo consegue subir o primeiro trecho do terreno.

_ E aonde eu consigo um cavalo?

_ Aqui mesmo, eu alugo bem baratinho, um para o senhor.

E o homem acertou com o velho o combustível para o jipe, pediu para que este devolvesse para o outro velho e pagou o aluguel do cavalo.

Subiu durante algum tempo até que a trilha ficou mais íngreme, e o cavalo se recuso a continuar, com sede o homem procurou uma fonte por ali, e quando encontrou viu um velho e um burrico tomando água.

Aproximou-se e bebeu, deixando o cavalo matar a sede.

Ao sentir cheiro de comida percebeu que estava com fome, e perguntou ao velho.

_ O senhor não poderia me vender um pouco de comida, estou subindo a montanha e esqueci de trazer as provisões necessárias.

_ Está claro pra mim, pode servir-se, a comida aqui é de graça, mas para subir a montanha vai precisar de um burro, somente um burro subiria esta parte da montanha…

_ E por acaso o senhor não pode alugar o burro, para mim?

_ Porque não? Posso alugar o burro e o senhor leva também a comida…

_ Mas e o cavalo como vou devolve-lo?

_ Está claro pra mim, basta  soltar os animais que eles vão descer a montanha, depois e só pegar lá embaixo.

E montado no burro o homem subiu outro trecho, estava quase no topo quando se deparou com um paredão de rocha.

_ E agora, só com um equipamento de alpinismo eu consigo chegar lá.

_ O Senhor quer equipamento de alpinismo? Eu posso alugar um…

O Homem olhou em volta e viu uma cabana encravada na rocha e lá sentado em um tronco estava um velho com um equipamento de alpinismo.

Depois de quatro horas de escalada, o homem chegou no topo do paredão, estava cansado, suado, com as roupas finas destroçadas, mas satisfeito, tinha chegado no alto da montanha, agora era só procurar o Sábio.

Olhou a volta e viu um carro importado se aproximando. No volante um velho bem vestido. O carro parou ao seu lado e a porta abriu…

_ Ei, esse é o meu carro, e você é o velho do jipe….

_ Sim, e também o que lhe alugou o cavalo, o burro e o equipamento de alpinismo…

_Mas como chegou aqui?

_Se você pegasse a estrada do outro lado da montanha teria chego em meia hora.

_ Mas você não me falou…

_ Você não queria saber, veio disposto a encarar qualquer dificuldade para adquirir a sabedoria, foi o que eu lhe dei, em qualquer ponto da jornada teria sido mais fácil voltar e começar de novo, mas você preferiu insistir, superou as dificuldades e levou o mérito de ter conseguido, isso é persistência, sabedoria é escolher o caminho correto.

_Bom, mas e o Sábio da Montanha, onde está ele?

_Eu sou o sábio da montanha. Um dia, fui um empresário famoso, muito rico, mas por achar que a sabedoria estava sempre além, que para alcança-la tinha que ser difícil, pouco a pouco, fui perdendo os bons conselhos que os sábios a minha volta me davam, logo depois foram eles mesmos e junto com eles, perdi minha fortuna, até só restar esta montanha e algumas terras ao redor.

Vim morar aqui e passei a repensar tudo o que tinha feito de errado, descobri que havia sempre duas formas de encarar um problema, com coragem ou com sabedoria. Ao aprender isso resolvi meu problema, construí um hotel no alto da montanha e uma estrada de acesso que fica pelo lado escondido da base. Dei o nome do hotel de Sábio da Montanha, e espalhei algumas histórias sobre quem encontrasse o segredo da montanha teria a mesma sabedoria do Sábio que morava lá no alto.

_Mas isso é sujeira, é enganar as pessoas….

_Não, isso é propaganda, o segredo da montanha é que existem dois caminhos que levam ao topo, um fácil e um difícil, mas você só aproveita o fácil corretamente se um dia tiver pego o caminho das pedras…

_Entendo, acho que já consegui o que vim buscar…Agora, preciso de um banho…

_E roupas, e uma cama para descansar, etc..Não se preocupe, temos o melhor hotel da montanha, e a sabedoria aqui é de graça…

_Espere ai, como você conseguiu chegar sempre antes de mim em todos os lugares

_ Está claro pra mim, se não conseguisse fazer isso não seria o Sábio da Montanha.

1 170

Hoje eu sentei em frente ao computador e fiquei olhando para aquela página em branco do processador de texto, há muito tempo não escrevo e a intimidade que desenvolvera com as palavras parece ter desaparecido. Eu ri quando lembrei do tempo em que sentava em frente a uma página de caderno com o coração pulsando de sentimentos que o cérebro não conseguia traduzir em palavras, somente após muitas tentativas fracassadas eu conseguia algo razoável aos meus olhos. Os amigos incentivavam, mas não foi somente por eles que eu continuei, foi por uma razão mais egoísta, uma necessidade de fixar de forma indelével meus sentimentos, focar os sentidos no mundo que se escondia por traz das formas, dos rostos, da ilusão do cotidiano.

A necessidade de ver o que as pessoas eram realmente, me fez continuar. Escrevi poesia e vi rostos cansados ganharem vigor, descrevi cenas do cotidiano e vi corações pulsarem descompassados, escrevi sobre filosofia e observei olhos se iluminarem… até que, um dia, parei.

Nenhum motivo, medo talvez. Mas algo me chamava e hoje eu cedi ao pedido e encaro a folha em branco. Aonde estão minhas musas? Cadê a minha criatividade? O Que eu quero dizer que mereça ser lido, falado, ouvido, comentado?

Foi somente quando eu comecei que percebi o que queria transmitir para a página em branco, Eu mesmo.

Somente hoje percebi que busquei ver a mim mesmo em cada palavra que escrevia para ser lida por outros. Fiz dos outros o meu espelho de forma a ver meus sentimentos nos sentimentos transmitidos pelas palavras, tornando cada leitor um ator, um artista, um interprete da vida. Pelos olhos deles eu via a mim mesmo e o interior deles, conseguia perceber que não era o único a sentir. A musica refletia nos corações e fazia o meu pulsar diferente, a cada reinterpretação das minhas palavras eu aprendia o que tinha ensinado.

Ao olhar para a página em branco percebi que o futuro é assim, uma página em branco que pode permanecer aguardando eternamente, mas que pode ser preenchida por algo muito importante, eu mesmo.

Ao me colocar nas páginas em branco que a vida me oferece, posso me perceber em cada rosto, porque todos somos semelhantes em nossas diferenças. Você que olha para mim através destas palavras, percebe a si mesmo, esquece que estamos distantes no espaço e eu passo a habitar a sua mente, eu sou você amanhã, o inicio, o fim e o meio, aquele que surpreenderá a todos não por ser exótico mas, por ter sempre estado oculto quando terá sido o óbvio, afinal, fruto do mundo somos os homens, sonhador que acredita estar acordado.

A sua frente está uma página em branco, e você a preenche sem perceber, sem dar-lhe importância, nela você escreve o que é, e alguém a lê.

Cada livro, cada foto, cada paisagem, cada rosto que você vê, é você. Seu passado, seus valores, seus desejos, seus atos, estão em suas interpretações do mundo, e assumem o colorido que você lhes dá. O mundo é o que você quer que ele seja, não importa quem falou o que você agora pensa, foi você que sem perceber escreveu em uma página em branco e alguém leu e ao escutar-se na voz dos outros percebeu-se…

Amanhã, depois de amanhã uma nova página em branco espera que você a preencha, o que vai estar escrito nela?

Eu sei que vai estar escrito… Lá estará escrito: VOCÊ.

2 299

Havia um mar…

No mar pequenas ondas iam e vinham na praia.

Era noite…

Havia um céu salpicado de estrelas e pensamentos.

Havia uma praia…

Na areia pequenos rabiscos desenhados, sem sentido.

Ele apareceu com seu passo de quem já teve pressa, mas que aprendeu a esperar, olhou os rabiscos sem sentido.

Dando uma longa risada em direção às estrelas, sentou-se na areia e passou a unir os rabiscos sem sentido e traçou uma figura que, de algum modo, era a sua imagem e semelhança.

Ele deu permissão à figura para viver no mundo que ele criara para ela.

Mas a figura era apenas um esboço.

E como esboço precisava ser aperfeiçoada.

Ele concedeu-lhe o poder de criar novos traços, figuras ou esboços que a ajudassem a se retocar e foi embora percorrer outros caminhos.

A figura começou a julgar-se poderosa, pois podia fazer tudo o que quisesse, e quanto mais a lembrança dele se afastava mais ela duvidava de sua existencia.

A figura buscou aprender sobre o seu mundo e, aprendendo, começou a querer dominar tudo, mudar o que sabia e o que não sabia, criar novos traços sem sentido, como os que um dia ela tinha sido.

Apagou, rasurou, rabiscou tudo o que achava sem utilidade momentânea, fez coisas pelo simples prazer de poder fazer, sentia uma necessidade de ser maior, muito maior do que a lembrança que ainda restava dele, queria o poder para ser livre, sem perceber que somente a sua incompreensão a prendia no chão.

O mesmo chão que a tinha sustentado voltou-se contra sua arrogância, a mesma força que tinha sido dada para criar, criou as ferramentas da destruição, e rabisco após rabisco, esboço após esboço, todos foram desaparecendo, apagando-se como a tinta que fica velha

E a Figura ficou só, sem rabiscos ou esboços com quem pudesse falar.

Sozinha pôs-se a chorar…não entendia…não queria entender…

Suas lágrimas rolaram pelo seu corpo rabiscado e foram juntar-se as ondas que iam e vinham na praia.

Amanheceu…Havia um mar…

E no mar pequenas ondas iam e vinham na areia da praia.

Havia um céu…E no céu um sol quente…

Havia uma praia…e na areia nenhuma figura, nem mesmo esboços…

Apenas alguns rabiscos sem sentido.

Ele voltou, olhou os rabiscos e sorriu, havia tempo…

E enquanto olhava, lembrou-se de um tempo distante, um tempo em que havia aprendido sobre as linhas tortas…e como torna-las belas e perfeitas…

Sentou no chão e sem pressa, passou a juntar os rabiscos criando um desenho, e o desenho de alguma forma era a sua imagem e semelhança…

Um dia haveria mais alguém naquela praia…ele sabia disso…

0 214

O Jovem Psiquiatra foi visitar o hospício em que iria começar a trabalhar no dia seguinte. Foi recebido pelo diretor do local que o levou para  conhecer as instalações.

Logo de inicio ficou impressionado com as belas pinturas que enfeitam as paredes.

_Que beleza – disse – Quem pintou?

_ Ninguém…Aqui, Ninguém é pintor…- respondeu o diretor

Sem compreender muito bem continuou a seguir o homem e acabou dando de cara com uma excelente escultura, em tamanho natural, de uma bela mulher.

_ Puxa vida, é linda, não, é perfeita…

_ É, essa é a mulher que Ninguém fez…

_ Mas, é uma obra de arte, só um gênio faria algo assim…

_ Neste lugar, Ninguém é gênio. Mas venha, estão todos lá no pátio…

Foram até o pátio central e o jovem psiquiatra observou que havia várias pessoas formando um círculo e que no meio delas havia um homem deitado se debatendo…

Aproximou-se e viu que o homem não se debatia, apenas girava como um pião sobre o seu ombro direito enquanto todos o observavam…

Ia perguntar o que estava acontecendo quando, de repente, o homem parou. Todos aplaudiram e ficaram aguardando….

Dois outros se aproximaram e o viraram sobre o ombro esquerdo, e este imediatamente começou a girar sobre si mesmo outra vez….

_ O lado “B” é o melhor – disse o diretor – tentei convence-lo a gravar em cd mas ele ainda prefere o vinil, acha que dá mais “cor” pro som.

_ Mas quem é esse cara? – perguntou o psiquiatra

_ Ninguém, é claro, aqui Ninguém é musico também.

_ Mas esse cara é…um louco?

_ Claro homem, onde você pensa que está? Aqui Ninguém é louco também. Alias sabe quem faz quase tudo por aqui?

_ Ninguém? – pergunta o médico já com os nervos a flor da pele.

_ Isso…É ou não é louco?…

Transtornado o jovem médico decidiu ir embora.

Chegando no pátio de estacionamento encontra um homem com os braços abertos em cruz, uma lâmpada em cada mão, bem em frente ao seu carro.

_ E essa agora, quem é você?

_ Eu sou um poste, vi que ia precisar de uma luz aqui.

_ É, e pra que?

_ O pneu do seu carro furou, vai precisar de luz…

Só então o médico notou o pneu furado. Tremendo, tratou de começar a trocar o pneu, não via a hora de cair fora dali… Ainda mais com o “poste” olhando tudo…

Tão nervoso estava que acabou deixando cair os parafusos do pneu no bueiro.

_ Droga…droga…agora não saio nunca mais…

_ Ora tire um parafuso de cada pneu e coloque nesse, assim cada roda fica com três parafusos. Vai dar para chegar em um borracheiro – disse o poste.

_ Ei, essa idéia é ótima. Mas espera ai você não é louco?

_ já disse que sou um poste. Postes não gostam de cachorros, mas não tem nada contra os Burros.

O medico fez o que o poste tinha sugerido e foi embora sem dizer mais nada.

Nunca mais voltou…

Ninguém sabe o que aconteceu…

Alias Ninguém disse que ele abandonou a medicina, acabou virando um filósofo e se dedica a escrever os “Retratos da Mente” e uma coluna de filosofia na internet…

O que? Você duvida disso tudo?

Pois fique sabendo que aqui, Ninguém mente.

2 172

Em um lugar qualquer de um tempo tão comum que nem precisa ser mencionado ocorreram os fatos que agora são narrados.

Verdade vivia naquele lugar fértil onde cultivava com Trabalho, seu grande amigo, um pomar de deliciosos frutos.

Fartura, prima distante de Verdade, passava os dias com por lá aproveitando os frutos da Verdade.

Onde estava Fartura sempre aparecia o Orgulho. Este adorava dar ordens e contar histórias grandiosas a respeito de si mesmo, mas não se entendia com o Trabalho.

Nesse lugar também morava Necessidade, uma moça inteligente e esforçada que levava uma vida triste. Do breve romance que tivera com Destino, rapaz afoito e descuidado, sempre em busca de aventuras sem se importar a quem seus atos afetavam, resultara Vergonha, uma menina muito bonita e sapeca, cujo maior prazer era deixar desconfortáveis os desavisados. Era só alguém se distrair que logo vinha a Vergonha para incomodar e revelar os segredos ocultos.

Quando Destino foi embora, Necessidade teve que sustentar a Vergonha sozinha.

O fato é que eram poucos que suportavam a Vergonha, somente Verdade era capaz de encarar a peralta garota e coloca-la no seu devido lugar. Quando a Verdade aparecia, a Vergonha ficava quieta, sem incomodar ninguém, quase nem se notava a sua presença. Porém, tão logo a Verdade se ausentava lá vinha a Vergonha incomodar a todos sem dó nem piedade.

Ainda assim, era um ótimo lugar para se viver e todos se sentiam felizes. Até que Inveja resolveu se estabelecer por ali.

Inveja tentava ser igual a todos, mas nunca se esforçava no que fazia e acabava com péssimos resultados. Seu maior desejo era se casar com Sucesso e com ele acabou tendo uma filha, Cobiça.

Mas tão logo a Cobiça começou a crescer, o Sucesso fugiu com bela Fama em busca das maravilhas que Destino lhe dissera existirem em outros lugares. Boato, primo de Inveja, disse que a culpada do desaparecimento de Sucesso era a Verdade, pois toda vez que ela aparecia o Sucesso começava a agir de forma estranha. Provavelmente a Verdade devia ao Sucesso os resultados bons que alcançava. Boato sempre os via juntos, na certa tinham um caso.

Cobiça de tanto ouvir a Inveja, culpar a Verdade pelo fracasso dos seus planos. Criou um ódio mortal pela Verdade, e jurou que um dia se vingaria.

Inconformada com o abandono do Sucesso resolveu encontra-lo a qualquer custo e para tanto foi em busca do Destino, mas acabou por encontrar a Mentira.

A Mentira era uma jovem atraente, sedutora, que a todos encantava a primeira vista, mas decepcionavam-se quando percebiam que ela possuía um poderoso veneno que destruía a quem cruzasse o seu caminho.

Boato dissera certa vez que a Verdade possuía um segredo e quem o descobrisse seria muito, muito grande. Esse era o sonho secreto da Mentira, crescer, crescer muito, assim ninguém mais diria que ela tinha pernas curtas.

Mas Mentira nunca encontrara a Verdade até que a Cobiça revelou essa importante informação. Imediatamente Mentira e Cobiça se juntaram em um plano terrível para roubar da Verdade todos os seus segredos e conquistarem o seu poder.

Mentira não teve problemas em seduzir o Orgulho, que se dizia amigo de Verdade, e com sua ajuda atrair a moça inocente para uma armadilha.

A Verdade, sem desconfiar da trama, caiu nas garras da turma sombria, que a envenenou e a escondeu no fundo de uma caverna, onde nenhuma luz entrava.

Tão logo a Verdade ficou oculta as coisas naquele maravilhoso lugar começaram a definhar. Todos se tornaram desconfiados, agressivos, rancorosos, mesquinhos.

Porém Vergonha logo percebeu que algo estava errado. Mesmo não gostando das broncas de Verdade, no fundo ela gostava de ter limites, pois isso a fazia ser melhor.

Desconfiada foi investigar para saber onde estava a Verdade, mas acabou levando uma tremenda de uma surra da Mentira que mandou a Vergonha para bem longe.

Vergonha toda machucada começou a gritar muito alto, até que chamou a atenção da Necessidade sempre estava por perto.

Necessidade sabia que somente a Verdade poderia ajudar a acalmar a Vergonha e foi chamar a moça sem saber o que lhe havia ocorrido.

Ao escutar a Necessidade chamando e a Vergonha gritando, a Fartura não aguentou e foi embora em busca do Sucesso.

Tão logo viu o Orgulho que estava próximo do Trabalho, Vergonha avançou sobre ele.

Orgulho, com medo da Vergonha, contou o que a Inveja, a Cobiça e a Mentira tinham-no obrigado a fazer.

Trabalho imediatamente pegou o cavalo que o Destino deixara, e foi em busca da Verdade, mas assim que a Vergonha e a Necessidade se acalmaram, o Orgulho fugiu. Não queria dar o braço à torcer novamente.

Quando a Inveja, a Cobiça e a Mentira viram o grande Trabalho que se aproximava deixaram tudo para traz e se mudaram dali para nunca mais voltar.

Mas a Verdade ainda estava escondida, e ninguém sabia onde encontra-la.

Vergonha então teve a brilhante ideia de pedir ajuda ao Amor. Somente ele, com sua imensa sabedoria, poderia perceber onde estava a Verdade, apesar de todas coisas que a Mentira pudesse ter feito.

Com o Amor guiando seus passos, ficou fácil para o Trabalho achar a Verdade e trazê-la novamente à luz.

Aos poucos a Verdade foi se restabelecendo, mas envenenada pela Mentira nunca mais foi a mesma. Por vezes ficava triste, em outras, sombria e fria.

Nesses momentos o Amor era chamado e cuidava dela até que ficasse forte novamente.

O Orgulho acabou pedindo desculpas e fez as pazes com o Trabalho. Verdade diz que poderão ser amigos, mas a Vergonha sempre está por perto para garantir que tudo fique bem.

Boato disse, que A Inveja, a Mentira e a Cobiça fugiram para o mundo dos Homens, e que vivem tentando encontrar Sucesso e Fama por lá.

A Necessidade voltou a se encontrar com Destino e ninguém sabe o que vai acontecer.

Moral, nosso professor, queria deixar-nos uma de suas lições, mas a Vergonha, aproveitando que a Verdade está descansando resolveu aparecer, então melhor terminarmos por aqui.

E assim nos despedimos até que a Verdade volte.

2 212

               Para quem ainda não assistiu ao filme Matrix, fique preparado, contém spoilers. É inevitável porque vou fazer referência a um personagem da trilogia cinematográfica como ponto de partida, porque se torna um arquétipo da modernidade. Para entender melhor é necessário dizer que a Matrix é um mundo virtual onde os humanos cultivados e escravizados por máquinas (sistemas), vivem suas vidas em um sonho eterno (ideologias), enquanto suas energias vitais são absorvidas para alimentar as máquinas (sistemas) que os aprisionam.

            Há muitas críticas possíveis a essa forma de roteirização, devido à lógica que ela envolve em seu nível primário, mas isso não arranha a trilogia de filmes porque a base em que se apoia segue o padrão de ação e filosofia existencial que acaba por encantar boa parte do público de uma forma ou de outra. Então vamos nos fixar nesta questão mais filosófica: A Utopia Humana contra a Matrix.

            Cypher é um dos humanos resgatados da prisão das máquinas por um artifício usado dentro da virtualidade da Matrix. Ser resgatado da escravidão é ser lançado no horrível mundo dominado por máquinas assassinas que vão caça-lo e mata-lo implacavelmente, enquanto tenta derrubar o sistema de dentro e de fora. É uma guerra dupla, constante, com resultados duvidosos, para a qual não se está preparado, e da qual não há retorno.

            Ou não havia, porque Cypher consegue fazer um acordo com o seu captor, decide trair os guerrilheiros e voltar a ter uma vida de ilusão, reinserido no sistema até a morte, vivendo em um mundo imaginário com vantagens que não teria na sua vida anterior de escravo, ou na sua vida de guerrilheiro liberto. E por isso é classificado como um dos vilões traidores da humanidade.

            Uma outra questão interessante que segue na mesma linha é dada pelo Arquiteto, uma entidade-programa que vive à parte da Matrix e é responsável por criar a realidade virtual onde os humanos são cultivados até a morte natural. O arquiteto revela que as primeiras versões da Matrix eram projetadas para serem verdadeiros paraísos, as utopias humanas realizadas na virtualidade. Mas não deram certo, os humanos as rejeitavam como real, não aceitavam que a realidade pudesse ser tranquila, benéfica a todos. E, segundo o Arquiteto, colheitas inteiras (de humanos) foram perdidas, até que se inseriu um mundo em que as diferenças e os desafios criassem um estado constante de conflito.

            Como é possível juntar essas duas coisas? O ser humano rejeita um sonho bom, mesmo quando lhe parece real, só porque todos estão bem, basicamente no mesmo nível que si mesmo? Cypher decide voltar a Matrix desde que tenha uma vida boa, mesmo sabendo que será um escravo até a morte, mas não quer lembrar de nada do que viu na sua liberdade, quer esquecer de que um dia foi livre, e voltar para um mundo onde as diferenças e conflitos existem, desde que ele ocupe um lugar acima dos outros.

            Essas duas questões se unem através do paradigma de que a competitividade humana faz parte de sua essência e jamais aceitaria uma total igualdade. Não estaríamos programados pela nossa própria essência humana a aceitar um mundo em paz, onde a ordem absoluta desse a todos os bens que desejavam. Necessitamos lutar para estar acima dos outros, necessitamos nos sentir superiores, necessitamos nos sentir privilegiados, para a vida fazer sentido?

            Isso poderia explicar o motivo de por que inúmeras pessoas desistem dos seus avanços nas lutas sociais, e passam a apoiar os algozes que vão restringir os direitos. A identificação com o carrasco, na chamada “Síndrome de Estocolmo”, estaria impressa na nossa essência. Amamos o predador que nos abate, porque desejamos no mais íntimo, SER o predador. Aceitamos ser as presas porque desejamos sempre abater nossas próprias presas. Essa seria a raiz animal da nossa essência que nem mesmo o verniz cultural conseguiria vencer. Mas será que isso é verdadeiro?

            Será que somos programados pela natureza a viver de forma hierárquica predatória, almejando subir na escala às custas de nossas vítimas, e não mudaremos nunca isso? Estaria a escolha de Cypher determinada em nossos genes? Seria o rebelde guerrilheiro o verdadeiro Messias da Humanidade, dizendo para todos que devemos sim buscar o topo à custa de tudo e de todos que se opuserem a isso, sem limites morais para alcançar o sucesso? Como ter certeza? Teríamos que verdadeiramente criar uma Matrix, onde um mundo perfeito, uma Utopia, fosse criada e vivenciada pelos seus integrantes. Mas tanto na filosofia, quanto na literatura, as utopias estão fadadas ao fracasso. Sempre há uma “serpente” disposta a nos banir do paraíso e nos lançar na dura e cruel luta pela sobrevivência.

            Em todos os milênios de nossa cultura, não conseguimos conceber uma utopia que funcionasse de verdade, não conseguimos aceitar a igualdade de direitos, a capacidade de existir sem que isso implique em tirar do outro algo a mais para nós, que talvez nem precisemos, mas que faremos porque “é a ordem natural das coisas”. Porém, um fator se levanta contra esse paradigma. A cultura é herdada tanto quanto os genes que nos formam. A nossa mente é formada pela sociedade que ajudamos a formar em conceitos e preconceitos.

            Dessa forma, sempre teremos como um ideal o paraíso, a utopia que será alcançada quando nos tornarmos melhores do que somos, mas que precisará ser conquistada através da eterna luta contra nós mesmos. Por isso sempre teremos aqueles que demonstram superiores capacidades de deixar os interesses pessoais pelo bem-estar de todos, sofrendo as penas por ir contra o sistema, que é praticamente uma máquina implacável a destruir os opositores e corromper os fracos. Nos almejamos Salvadores porque não nos sentimos capazes de alcançar sozinhos esse ideal, e repudiamos os Cyphers como traidores da humanidade embora, em nosso íntimo, desconfiamos que poderíamos facilmente fazer a mesma escolha, se nos fosse dada oportunidade.

            É por esse motivo que lançamos as utopias em outro mundo, após a morte, depois de uma purificação do Ser e livre de sua parte animal, mortal e resgatado em sua essência divina e imortal. Por isso que nosso repudio aos que se unem ao sistema opressor se dá de forma raivosa, fruto do medo que temos de que nos seja oferecida a mesma oportunidade e a aceitemos. Fruto do medo de que, afinal, alguém está melhor que nós, a nossa custa. E isso, como animais predadores, não podemos aceitar.

6 224

A grande questão não é que santo de casa não faz milagres, mas o fato de que as vezes precisamos de outra coisa para solucionar as coisas que nem reza brava consegue dar jeito.

            É por esse motivo que tenho percorrido o mundo em busca de grandes gurus, pessoas iluminadas, e outras afins, na tentativa de alcançar um estado nirvânico, sem controle governamental ou coisas do tipo.

            Não é que não goste de governo, que todos sabem ser um mal necessário para que se possa ter alguém para culpar por todas as coisas erradas, feitas ou não por ele. Na verdade, não gosto de ficar mandando. Fico esperando que o bom senso prevaleça, que os acordos sejam cumpridos, que a inteligência dite as regras e, acima de tudo, que me deixem em paz para que possa cuidar do meu próprio caos interior.

            Os opostos se complementam, é a regra inflexível da existência que descobri há tempos, e culmina por me brindar com amigos caríssimos que me ajudam a ver as coisas de outra forma, e até a adquirir uma certa sabedoria alternativa aos milagres nunca alcançados.

            Uma dessas pessoas que me trazem a alegria de viver com sua simples presença, é a Juíza. Pessoa equilibradíssima, sempre generosa e de uma paz que faria inveja a muito santo de pau oco que se arroga milagroso nos tempos de hoje. Não por outro motivo que me apraz por demais ter longos diálogos com essa pessoa e, quando as complexidades das agendas permitem, sentamo-nos no mesmo restaurante para degustar a companhia e trocar experiências.

            Foi em um dia desses que a percebi triste, incomodada com algo, o que obviamente me perturbou mais ainda. Não poderia deixar que meu melhor exemplo de eixo do mundo se desestabilizasse sem, ao menos, tentar descobrir qual a tragédia que poderia acometer a humanidade, além de todas as outras.

            — Não é nada, bobagem. Apenas a minha empregada que pediu demissão e pediu para enviar pelo correio o acerto das contas.

            Eu, que já conhecia de outros carnavais as duas jararacas velhas que serviam de empregadas para a Juíza, estendi o assunto apenas por curiosidade. O que poderia ter acontecido de tão grave que a levara a demitir a peçonhenta criatura? E nem sabia qual das duas seria, pois embora de espécies diferentes, equivaliam em periculosidade ofídica.

            — Nossa, que coisa chata. O que houve? Pegaram dinheiro da sua carteira novamente? Tentaram afogar o cachorro na piscina? Botaram fogo na arvore de natal? — Arrisquei algumas opções que já haviam ocorrido anteriormente, sem que a Juíza tivesse perdido a sua postura equilibrada e generosa. Não conseguia conceber algo tão grave que pudesse provocar a demissão das colaboradoras centenárias.

            — Brigaram uma com a outra. E a Anaconde me ligou dizendo que não vai mais trabalhar lá. Imagina, depois de vinte e dois anos morando com a gente, pediu demissão por telefone e ainda quer o acerto pelo correio. Como se fosse possível isso. A Demoniana, claro, deve estar exultante. Há tempos que não se dão bem e sempre ficam fazendo intriga uma com a outra.

            — Sim, eu sei. Ainda acha que foi a Demoniana que sumiu com o dinheiro para jogar a culpa na outra?

            — Ah, vai ver que alguma delas estava precisando. Deixei para lá. Poderiam ter pedido, mas não vou ficar acusando ninguém, ainda mais que uma delas é inocente, coitada.

            — Sei, inocente. Como no caso do cachorro que caiu na piscina porque deixaram a porta aberta.

            — Anaconde já tinha dito que não gosta de cachorro, nem olha para ele. Vai ver que esqueceu de fechar a porta e como ele ainda é criança, escapou. Ainda bem que o seu Armando estava por perto. Por falar nisso, nem sei o que o seu Armando estava fazendo por ali, ele deveria ficar na portaria do condomínio. Enfim, não aconteceu nada. Mas as duas ficam jogando a culpa uma na outra, querendo que eu demita essa ou aquela. Não posso fazer isso, elas já estão comigo há anos, me ajudam a fazer as coisas. Não posso deixar alguém que não conheço entrar na minha casa.

            Acenei com a cabeça concordando abismado. Como desejava ter essa alma clonada de Gandhi. E essas nem eram as mais graves ofensas que aquelas duas “colaboradoras” já tinham feito. Eu apenas não queria deixar a minha amiga chateada com a minha postura que, comparativamente, seria crudelíssima.

            Me sentia arrasado por não conseguir alcançar essa tranquilidade de conviver com a adversidade e ainda ter uma paz iluminada e a tranquilidade equilibrada que a minha amiga Juíza tinha, quando percebi que o garçom se aproximou para receber o pedido. Ela olhou diretamente para ele com aquele olhar santificador e disse suavemente.

            — Você pode me trazer uma dose de veneno e dois cubos de gelo?

            Demorei algum tempo para processar o pedido, jamais teria conseguido ser garçom na vida, que apenas terminou de escrever e perguntou:

            — A senhora deseja que embale para viagem?

            Isso foi o fim. Parei de procurar pelo mundo a fonte da filosofia transcendental, ela estava o tempo todo bem aqui ao lado, ao alcance da mão. Bastava-me apenas erguer a venda que me tapava os olhos para ver. Quem precisa de juízo quando se conhece a Juíza? Que os deuses abençoem.

Danny Marks

6 272

Há duas coisas que sinto muita falta na alma quando não as tenho por perto: o sol e o mar. Talvez por ter vivido toda a minha história recente junto a esses dois ícones que trago comigo, poucas vezes me ausentando por muito tempo e sempre sentindo falta, me acostumei a usufrui-los quase de forma natural. Sem excessos, porque, como já me lembrava a minha falecida avó, em sabedoria equiparável e confirmável por muitos sábios mais antigos, a diferença entre o veneno e o remédio é apenas uma questão de dose.

Então, sempre que me permito, sigo para a praia com um bom livro e alguns vícios à mão, para aquecer o corpo e a mente ao som da melodia constante e embaladora de sonhos.

Ainda que não tenha sido para meu ócio exclusivo, coincidentemente o prefeito da cidade onde moro mandou instalar excelentes e confortáveis bancos públicos no belo jardim que beira a longa faixa de areia, sendo-me alternativa para os dias em que não se justifica ficar tão mais próximo ao mar com suas ondas quentes e ventos refrescantes.

Em um dia desses em que a preguiça de levar a cadeira de praia e me postar na areia sob um guarda-sol a fazer-me sombra à leitura tornou-se particularmente intensa, sentei-me como digno usuário do recurso público disponível, a aproveitar as delícias divinas que a luz vinda de longe, até de outros tempos pelo que me consta nos parcos conhecimentos que acumulei sobre o assunto, e me dispus ao reconfortante emergir nas tramas e intrigas que tanto fascinam quando nos sentimos seguros ao acompanha-las.

Em um banco próximo, no entorno do mesmo pedaço de jardim cercado de calçamento por todos os lados, recostava-se um outro cidadão com um olhar tão gasto quanto a pele que lhe recobria o corpo ereto, mesmo quando sentado, lembrando-me um Drummond reencarnado em uma bermuda acompanhada de camiseta e chinelos de boa marca.

Enquanto que meus vícios não incomodem os mais próximos, acerquei-me do imaginário que muitas vezes me rouba a percepção da realidade, ainda que, no processo, acabe por aguçar a mesma nos momentos em que não lhe é exigida uma atenção direcionada para outros fins que não o fugir desta.

Portanto não sei ao certo afirmar em que momento ou de que forma se iniciou um diálogo paralelo com um personagem que, vindo como o vento, balançou as folhas, sacudindo as palavras em que me concentrava.

Péssimo hábito, diriam os mais puritanos, de ficar ouvindo conversa alheia. Mas, por esquecimento, não por qualquer outro motivo justificável, não trouxera os tampões de ouvido que atualmente se usam para abafar com alguma trilha sonora exclusiva os ruídos do ambiente em que se pretende estar. Sendo assim, foi-me impossível não ouvir as palavras que me espantaram qualquer atenção que pudesse dedicar à ficção que muito me agradava, por estar a realidade em tom tão alto que se tornava clara como uma manhã nublada de sol.

— Tinha mesmo era que voltar a ditadura para dar jeito nessa bandalheira toda. Uma revolução e colocava-se as coisas no lugar. Ainda que alguns inocentes morressem, justificava-se com o progresso.

Reclinei-me como a fugir dos resíduos poluentes do meu vício a queimar lentamente nas mãos e ajeitei os óculos para ver melhor o articulador de abismal, de tão profundo, pensamento. E para minha surpresa, se tanto, não era o pergaminho vivo de Drummond que proferia as sonoras palavras, mas um lustroso e encorpado Adônis, quase tão vestido quanto um Davi de Michelangelo empunhando as correntes que continham Cérbero fielmente guardando as portas do calçadão, ou talvez, apenas o imenso aparelho tecnológico acoplado ao braço que o tornava minúsculo.

Por segundos tive pena do poeta pigmentado, sujeito a intempestiva intimidação hormonal, apesar de sua postura engessada em uma altivez frágil de castelo de areia que já vira muitas ondas a arrebentar na costa com toda sorte de refugos que o mar regurgitava enojado. Poucos segundos, eu disse, pois foi o tempo que levou para apresentar a voz sem um tom a mais, ainda que perfeitamente audível aos ouvidos atentos que acabaram de conquistar.

— Diga-me, senhor. Considera a pessoa com quem tem um relacionamento amoroso, inocente? Talvez uma filha, ou irmã? Não lhe digo mãe ou outro parente, mas quem sabe alguém com quem tenha uma relação de respeito e admiração?

— Como assim? O que quer dizer com isso?

— Pergunto-lhe apenas como preparação para a verdadeira curiosidade que me assola neste momento. Qual dos inocentes que supostamente conhece, gostaria de ver mortos para que tal progresso voltasse a existir?

— Está me ameaçando? Não estou entendendo onde quer chegar.

— Realmente não parece estar entendendo. Acalme-se, não lhe faço ameaça maior que a que o senhor mesmo representa para si. Deixe estar, creio que não vai se recordar disso amanhã, como não se recorda sequer de quem fui, e ainda sou.

E, levantando-se com insuspeita flexibilidade e energia, foi-se embora em passo compassado e firme, aquele fantasma do passado. Não antes de piscar-me os olhos claros e sorrir com humor irônico ao deixar-me aos cuidados das aberrantes construções modernas que poderiam até ser consideradas intervenções artísticas, se algum apreço cultural despertasse.

Desde então, sento-me em outro ponto deste aprazível lugar onde moro, mas não antes de verificar o entorno, que a cada página virada é revisto para identificar se, inadvertidamente, algo terrível está para acontecer. E só então retorno para as tramas e intrigas seguras da fantasia.

E aos que queiram me perguntar sobre quem seria a tal figura de aparência insignificante que desafiou o gigante mitológico, quero deixar claro que longa e exaustiva pesquisa tive que fazer nos anais da história e, por fim, acabei por decidir-me que há coisas que é melhor que fiquem onde estão, no passado, ou no máximo se tornem ficção na mente de algum escritor, para a segurança dos que amam apenas ler em paz.

Danny Marks

0 278

Você já deve ter ouvido essa história em algum outro momento, mas não exatamente desta forma. Calma, não perdeu o início do texto, é assim mesmo, a questão está em que as narrativas raramente são totalmente originais, isso porque desde tempo pré-históricos elas são utilizadas – fazem parte de nossa trajetória civilizatória – e fica difícil, depois de tanto tempo, criar coisas novas.

            Um outro fato interessante é que usamos narrativas para praticamente tudo, desde ensinar valores morais que sejam úteis a sociedade, até comandar exércitos e seguidores contra um determinado inimigo. As possibilidades de uso das Narrativas são infinitas e a cada dia descobre-se mais modelos e usos que antes não haviam sido investigados, embora as mais famosas sejam no meio artístico, como expressão de sentimentos e concepções, retratando justamente as sociedades que ajudaram a criar e a desenvolver.

            Mas o que é uma Narrativa afinal? Fugindo de todos os tecnicismos possíveis poderia definir a narrativa como a exposição sequencial de fatos – reais ou imaginários – sob um viés interpretativo que possui intencionalidades, expressas ou não, nos conteúdos apresentados de forma a criar uma perspectiva parcial orientada. Ainda muito complicado? Ok, vamos fugir um pouco mais das questões técnicas. Uma Narrativa é uma forma de alinhavar fatos reais ou imaginários sob uma perspectiva particular com a intenção de orientar a percepção do outro. É, não melhorou muito, então vamos a um exemplo:

            — Diz-me com quem andas, que te direi quem és.

            Essa expressão extremamente popular está enraizada na base da nossa formação psicológica e pode ser traduzida em infinitas possibilidades e usos. Basta que pense em uma linguagem não formal, aquela que não usa palavras. Pense em, por exemplo, cantores de Rap. Eles vão ter uma determinada “atitude”, um determinado tipo de vestimenta, um determinado vocabulário, um determinado estilo musical, tudo isso define os adeptos desse grupo. O mesmo vale para surfistas, para empresários, para advogados, para políticos, para donas-de-casa, para qualquer classe social, geográfica, racial, etc.

            Nosso cérebro evoluiu para identificar e usar padrões classificatórios, era uma vantagem quando a velocidade que se identificava um predador ou um aliado significava viver ou morrer. Portanto sempre buscamos nos mesclar com os grupos que nos dão a sensação de segurança e absorvemos automaticamente padrões de comportamento desse grupo em oposição a todos os outros. Ou seja, as pessoas com quem me identifico, dizem muito sobre quem sou e onde quero chegar, ou “diz-me com quem andas, que te direi quem és”.

            Mas o que isso tem a ver com a Narrativa? Basicamente tudo. Da mesma forma que identificamos padrões para sobreviver, criamos narrativas dentro desses padrões interpretativos para auxiliar nessa identificação de aliados e predadores. Essa tendência de seleção de fatos interpretados que permita a assimilação mais fácil dos padrões é que cria as narrativas. Associamos determinadas atitudes a determinados grupos e pressupomos que todos os integrantes assumam as mesmas possibilidades de ação em situações semelhantes, em outras palavras, criamos uma narrativa para cada conjunto de ações que determinam previamente uma tendência quase que irrevogável.

            Contra fatos não há argumentos, certo? Errado. A narrativa é feita de fatos escolhidos e alinhados dentro de um argumento que vai ser utilizado de forma a obter um resultado objetivado. A forma como escolho os fatos que vou ressaltar ou omitir, a sequência e velocidade que vou apresenta-los, são determinantes para construir o meu argumento de forma que crie uma tendência de assimilação dos mesmos como sendo a expressão da verdade que quero demonstrar. Portanto, fatos interpretados são na verdade argumentos disfarçados em verdades incontestáveis e totalmente convincentes de acordo com a habilidade utilizada na construção da narrativa.

            A forma mais utilizada para impedir que uma narrativa nos conduza onde quiser e nos faça agir sem refletir profundamente sobre os padrões é contrapor com uma narrativa igualmente consistente – com fatos interpretados sob um viés contraditório de forma a anular a assimilação automática da narrativa e obrigar uma reflexão sobre os fatos sem interpretação que são a base da verdade.

            Claro que em tempos em que a internet aumenta a facilidade com que os fatos são apresentados e versões sobre eles são divulgados aos borbotões isso não ocorre. Estamos vacinados das narrativas por quantidades homéricas de fatos apresentados por infinitas fontes e não vamos cair jamais em armadilhas argumentativas das narrativas criadas exclusivamente para direcionar pensamentos e ações, certo? Errado de novo. A internet tornou ainda mais fácil a construção de narrativas justamente pela inundação de dados interpretados que criam um caos interpretativo e a única solução para não enlouquecer com tantas versões da mesma sequência narrativa é justamente apoiar-se em padrões aglutinadores, a versão do grupo ao qual pertencemos.

            Quando observamos uma narrativa sendo elaborada, identificamos em primeiro lugar qual a fonte, em que grupo ela foi criada – e, na atualidade, as narrativas mais relevantes são criadas e desenvolvidas no meio de grupos amplamente estruturados e, na maioria das vezes, opositores – antes de nos posicionarmos contra ou a favor dela – sem precisar refletir muito sobre a narrativa, porque é preciso estar livre para a infinidade de outras narrativas que estão sendo produzidas a todo momento.

            Assim, a internet tem desenvolvido tipos de comportamento grupal que extrapolam os limites geográficos e as tendências comportamentais locais. Aprendemos constantemente a nos redefinir pelos grupos que possuem maior quantidade de características semelhantes às nossas. Ainda buscamos pertencer a grupos, mas atualmente os filtramos não pelo que podemos verificar em tempo real, mas pelas narrativas que esses grupos produzem, pelo comportamento geral e específico de seus indivíduos, que pressupomos serem livres em suas expressões, como nós mesmos.

            Cada vez mais nos identificamos com o que as pessoas dizem ser – mesmo que não sejam – do que com atitudes reais e concretas. Nos identificamos com as narrativas chamadas de “discursivas”, ou apenas Discursos, que permeiam cada grupo como uma regra consensada e não escrita ao qual nos filiamos ou nos posicionamos contrários. A generalização e superficialidade necessárias desses discursos é contida apenas pelas contribuições individuais daqueles que acabamos por definir como representantes do grupo todo, e quanto maior o nível de influência externa, maior o poder desse indivíduo na construção do Discurso do grupo ao qual nos filiamos ou contra o qual combatemos.

            Antes havia sempre um único macho alfa e uma fêmea alfa no grupo – os chamados líderes que poderiam ser contestados de tempos em tempos dentro das premissas do próprio grupo – que seriam seguidos incontestes em casos onde a sobrevivência grupal estivesse em jogo. Pertencer a um grupo quase que automaticamente o excluía de todos os outros por uma questão puramente física – a impossibilidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Atualmente as coisas são mais complexas e podemos fazer parte de diversos grupos que não sejam completamente antagônicos e seguir ou ser o macho/fêmea Alfa do momento, já que os papeis grupais são mais líquidos e se moldam com a situação e o envolvimento.

            O fato de que é possível construir a própria narrativa virtual com base apenas em um Discurso apresentado sem necessidade de provas concretas, torna ainda mais evidente que podemos ser uma coisa e nos apresentar de outra forma, ou seja, podemos pertencer a dois grupos antagônicos com discursos completamente opostos e ainda ser aceitos por ambos como sendo verdadeiros, até que se prove o contrário. A internet possibilitou a construção de narrativas que neguem os fatos reais com fatos imaginários bastando para isso manter o Discurso certo nos momentos em que é necessário.

            Por isso a confiabilidade individual e grupal se tornou mais essencial do que o próprio discurso propagado pela narrativa. Vou seguir um Discurso enquanto ele for fiel nos atos a si mesmo, e se em algum momento trair uma parte de si com atos ou palavras ao que anteriormente – e existem registros disso, facilmente acessíveis – dito ou feito, vou invalidar completamente o Discurso e o Grupo, desconsiderando inclusive todo o histórico anterior que comungava com minhas identificações, ainda que muitas dessas se mantenham. A integração ou desintegração do Grupo não está ainda mais vinculada ao Discurso, mas ao seu principal e atual fomentador.

            Portanto, na atualidade, não é preciso atacar diretamente todo o grupo, apenas o seu líder mais influente na questão mais sensível do Discurso, a credibilidade de sua narrativa. Com a mesma facilidade que se pode criar uma narrativa e aliciar diversos grupos dentro de um Discurso que os englobe, também pode-se destruir completamente o Discurso criando uma narrativa que ataque diretamente a credibilidade de seu principal produtor, o “rosto” do Discurso.

            Apesar de ser simples na apresentação dada, a complexidade e a periculosidade desse tipo de sociedade fundada em narrativas, vai além do que é normalmente divulgado, até porque isso poderia criar um caos maior ainda se não houver algo que o substitua de forma eficiente e rápida, e até o momento isso ainda não foi desenvolvido. Para o bem ou para o mal a guerra de Narrativas está cada vez mais forte no mundo atual e se desenvolvendo assustadoramente em complexidade. Não é por acaso que se possa observar uma radicalização em vários segmentos sociais, é apenas um efeito subliminar desse retorno a estratégia de “diga-me com quem andas, que te direi quem és”.

            Quanto mais avançamos nas construções narrativas dos Discursos veiculados ao longe, mais nos afundamos no “regionalismo concreto” que nos define, porque podemos ao menos vivenciar os fatos – por mais aberrantes que nos pareçam, são reais o suficiente para que possamos comprovar sua existência concreta em contraposição a virtualidade confusa de infinidade de “versões” – e nos posicionar diante deles.

A crise de confiança que permeia os Discursos – cada vez mais elaborados e esquematizados para produzir efeitos significativos dentro de esquemas psicológicos pré-definidos – nos empurra na desconstrução da identidade grupal em direção ao individualismo concreto e a construção de uma máscara social que serve como escudo e que tem sua confiabilidade construída não por bases reais, mas de acordo com as necessidades de sobrevivência grupal.

Assim nos dividimos entre o concreto e “real” que vivenciamos e o “virtual” onde testamos a nossa narrativa pessoal antes de a apresentar no mundo real, ou apesar de não o fazer. No virtual podemos até ser outra persona que na verdade não somos, mas gostaríamos de ser e que se contrapõe ao que de fato somos enquanto agentes da realidade em que vivemos. Essa ruptura de identidades pode gerar sérias crises existenciais e até a perda de auto definição que leva a consequências imprevisíveis.

            Obviamente é possível combater essa guerra de Narrativas Discursivas de forma eficiente, mas para isso seria necessário a construção de um novo tipo de conhecimento que a cada dia – de forma intencional ou não – vem sendo minado em suas bases e desconsiderado em sua importância. Esse conhecimento tem suas raízes justamente na mesma área que cria as Narrativas, é a Análise Discursiva. Não é interessante que na mesma velocidade e intensidade que se criam Narrativas Globais que determinam os rumos de toda uma sociedade, cada vez mais se busca diminuir a importância da interpretação de textos, do estudo das construções narrativas, da análise discursiva nas obras clássicas?

            Isso ocorre porque quanto mais as pessoas conseguirem observar e separar os fatos das suas interpretações, mais complexas terão que ser as narrativas para conduzir os pensamentos e interpretações, e mais sólidos e reais terão que ser os Discursos para que permaneçam com a credibilidade que lhes dá força. Em um tempo em que qualquer um pode escrever um livro e publicar conteúdo sem o mínimo conhecimento técnico necessário, banalizando algo essencial a construção da sociedade, cria-se o envenenamento da única ferramenta que pode construir uma sociedade forte e saudável onde os seus indivíduos podem se sentir seguros e se identificar no contexto.

            Não sou contrário que haja um aumento de publicações e uma diversidade de narrativas ficcionais, pelo contrário, isso permite uma ampliação de leitores de novos modelos narrativos, o que é fundamental é que haja a capacitação desses novos autores para que possam, eles mesmos, serem críticos em seu olhar acerca dos fatos e não passem apenas a reproduzir narrativas infundadas validando-as até que sejam desmontadas e desapareçam completamente. Reveja, se necessário, a parte em que comento sobre o risco de se destruir uma narrativa complexa apenas destruindo a credibilidade do “rosto” do discurso, que pode ser apenas um autor inexperiente que o reproduziu sem aprofundamento necessário. Não apenas a carreira desse novo autor, mas todo o discurso que apoiava em suas narrativas, passa a ser invalidado, apesar de poder conter coisas importantes e verdadeiras, junto com outras inverossímeis que serão apontadas e generalizadas na sua destruição.

            Antes queimava-se ou proibia-se livros para que não houvesse “contaminação” da Narrativa Oficial, atualmente com a internet isso seria impensável e impraticável, então faz-se o caminho oposto. Cria-se tantas narrativas superficiais ou complexas que possam ser desmontadas dentro de um plano estratégico que invalide todo um conjunto ao qual tenham se vinculado mantendo apenas a Narrativa Oficial que passa a ser a única confiável dentro da interpretação que se quer dar. Não é mais necessário – ou possível – destruir uma obra literária relevante, mas tornou-se fácil criar uma enxurrada de obras irrelevantes e banais de forma que aquela significativa se afogue no mar de possibilidades e apenas a que se mantem artificialmente pela força da divulgação constante é que sobrevive, e – como todos sabemos – quem detém a capacidade de divulgação, detém o poder de determinar a narrativa.

            Pelo que foi apresentado, pode-se afirmar que o mundo do futuro depende não de novos líderes que orientem seus grupos, já que estes podem ser desenvolvidos artificialmente, mas da capacidade individual de interpretar textos para identificar os verdadeiros líderes e as intencionalidades escondidas em seus discursos para poder se posicionar a favor ou contra. É na busca pelos fatos reais e na capacidade de interpreta-los por si mesmo que se consegue a sobrevivência na era dos discursos enganosos.

            E, então, qual é a sua Narrativa?

0 211

Sabe, tem aqueles dias em que tudo parece confuso

E você se pergunta o que tem feito de errado

Se está tudo certo na sua vida e chegou onde queria

Mas não pode ficar apenas parado.

 — Siga. Enfrente! Siga em frente.

Qual o sentido de tentar alcançar o impossível?

E se todos os seus sonhos forem realizáveis?

Quão pequena é a sua imaginação?

Será o objetivo da vida ficar frustrado?

Ou descobrir que acreditou nas pessoas erradas?

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Senti o meu mundo girando em louca velocidade,

E meus olhos estavam fechados ao terror

As coisas só eram assim na minha cabeça

Não era o mundo que girava rápido, eu que havia parado

em relação ao universo. Então ele disse;

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Oh, Deus, onde você está?

Por que só tenho pesadelos, quando penso nos seus planos?

Você me disse que havia um caminho

E não revelou como chegar lá.

Oh, Deus, você é insano! Agora eu sei.

Tem uma voz gritando no meu lado esquerdo:

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Só pode morrer o que está vivo.

Li em um livro que escrevi, há muito tempo.

Ontem completei mais um ciclo neste mundo

E só agora descobri que sempre quis morrer,

mas para isso tenho que aprender como VIVER.

E você nem se importa quando digo:

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Aprendi uma ou duas coisas novas, entende?

Talvez ainda haja uma chance para mim.

Me livrar das correntes que me acorrentei

Voltar a sorrir e sentir que não é vantagem

ter um bom coração no inferno

Isso serve apenas para dizer, seu lugar não é aqui.

Então, volte pra casa. Ah, volte pra casa!

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

Não há como retornar no caminho

As coisas mudam, eu/você sabe, é assim

De alguma forma vai chegar onde estava

Quando finalmente resolveu partir

antes da hora de chegar.

Não pare agora, apenas vá, você sabe…

— Siga. Enfrente! Siga em frente.

A curva está logo ali a esperar.

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Deixe-me contar-lhe a história da Fabulosa Bola Quadrada, originária da fantástica terra de Obtusolândia. Uma terra tão boa que qualquer coisa que se plantasse por ali, dava e abundava até os horrores. E digo isso porque todos hão de saber que há sempre mais ervas daninhas que arvores frutíferas em qualquer pomar descuidado. Mas não nos desviemos, ainda, do rumo dessa interessante história sobre o inacreditável ocorrido nos idos de alguma década que não me vem à memória no momento, nesse paraíso de comércios e consumos.

            Não me recordo direito dos detalhes, ainda influenciado pelos efeitos da visita em Obtusolândia, de como a coisa se deu, mas digamos que havia uma nova perspectiva comercial muito boa, inspirada em algo semelhante que já ocorria em outras terras. Era a Bola Quadrada, um sucesso imediato entre os comerciantes e seus produtores. Houve um momento em que todo mundo se considerava capaz de produzir a sua própria bola quadrada e comercia-la, e isso gerou todo um modelo de negócio vantajoso para o comércio. Desde os maiores e mais preparados autores de bolas quadradas até os mais simples e inspirados, todos acabavam tendo sua chance de inserir suas produções artisticamente feitas com todos os ângulos desenhados para atender as expectativas dos que iriam confecciona-la. E as empresas que produziam bolas quadradas sob encomenda dos seus criadores, ganhavam muito dinheiro entregando seus produtos acabados em vários formatos para os seus autores, algumas até ofereciam brindes extras e outros penduricalhos para alavancar a venda da tal bola quadrada. Mas depois de algum tempo começou a haver reclamações, os autores trocavam, doavam, pagavam para que outros autores falassem sobre suas bolas quadradas e como eram maravilhosas, mas não havia consumidores para elas. Ninguém que não era autor de bolas quadradas ou amigo dos autores ou parente dos autores, ou produtor de bolas quadradas para autores, queria comprar o produto e assim o negócio foi definhando. Houve um ou outro que tentou apresentar um novo modelo, um Poli Dodecaedro, mas foram escorraçados pelos famosos entre si, autores de bolas quadradas que chamavam aquilo de imitação do produto estrangeiro, cheio de pontas e ângulos que doíam só de olhar. E, por falta de novos clientes autores de bolas quadradas, até mesmo as produtoras acabaram deixando a Obtusolândia e indo trabalhar em outras terras, onde se vendia bolas redondas para outro tipo de público.

            Ok, deve estar me perguntando que porcaria de história ridícula é essa. Mas é o mesmo tipo de pergunta que me faço quando falam na “crise do livro brasileiro”. Como assim? Até onde sei, para que haja uma crise comercial, em algum momento teve um comércio vigoroso que entrou em declínio por algum fator a ser analisado. A menos que o nome da crise esteja errado, por motivos quaisquer que possam haver. Quando me falam das “grandes livrarias” fechando as portas e saindo do país, e como isso vai afetar as vendas de livros nacionais, quando ouço falar nas tecnologias que ”estão matando” o hábito de ler, quando ouço dizerem que “esta nova geração” não gosta de leituras, fico completamente confuso quanto a quem essas pessoas se referem.

            Vejo muitos jovens lendo, boa parte em formatos de eBooks nos celulares que (pasmem) permitem esse tipo de leitura também (!) porque são mais acessíveis no preço (absurdo) que os livros físicos são vendidos. Sem falar que houve toda uma campanha em rádio e tv (e nas próprias publicações impressas) quando lançaram os eBooks para que evitassem derrubar arvores para fazer papel (hoje nem se fala mais nisso, acho que acabaram as arvores ou a vontade mudou). Eu vejo editoras investindo em autores novos, no sentido de tentar cada vez mais ter autores publicando com eles. Todos os dias novas editoras (e outras já estabelecidas) incentivam os autores a estarem enviando seus originais para avaliação. Nunca se escreveu tanto neste país, em diversas plataformas, eletrônicas ou aquelas mais formais, em livro. Chovem resenhas, e citações, e comentários de livros de autores nacionais, crescem os blogs literários, criou-se até um comercio (escondido, mas que todos sabem que existe) de “leituras” e “likes” e recomendações de livros de autores que “são um sucesso de vendas”.
Então como é possível que as livrarias estejam fechando? Como é possível que haja uma crise nesse meio? Pois é, há uma crise e não é nova. Na verdade, todo o modelo comercial foi estruturado de forma errada. Quando se foca um modelo comercial na produção estrangeira, quando se cria uma demanda nacional sem um estudo completo do negócio, se estabelece a base para uma crise séria, uma base que se assemelha a uma “pirâmide”. É, aquela daquele golpe clássico em que é preciso haver sempre uma “injeção” de novos “contribuintes” para que não desabe sobre si mesma. Até os que já obtiveram lucros em algum momento são incitados a se reinserir na base para que ela continue aumentando, até que tudo explode e muitos perdem para que poucos ganhem. E nunca se sabe em que estágio da “pirâmide” se vai estar quando ela explodir, ou implodir, para ser mais exato.

            O negócio de livros é complexo e envolve muitas variáveis de investimento. O Governo diz que investe em livros, mas só faz é comprar livros clássicos para ser doado em escolas para alunos que não foram preparados para ler de forma crítica, mesmo livros modernos não funcionariam assim. Ok, vão falar que há autores nacionais muito ruins, e há de fato, mas onde estão as faculdades, os cursos técnicos, as oficinas públicas de Literatura? Há cursos (caros e muitas vezes inacessíveis) de escrita, mas quantos desses procuram formar LEITORES? Quantos desses ensinam como fazer uma leitura crítica? Ou mais importante, como formar leitores críticos para os livros existentes? Podemos reclamar que as livrarias vendem os livros caros, ao que elas vão dizer que pagam caro para obtê-los e mantê-los em estoque, até porque mais da metade (para não dizer quase todos) são de autores estrangeiros e apenas os nacionais que vendem muito (ou seja, que possuem um público já formado) são disponibilizados.

            Vejam a complexidade da coisa. Há investimentos que são feitos em um produto que ninguém conhece, para um consumidor que não sabe que necessita desse produto e que nem sabe para que serve, e quando não vende se fala em crise. Aí entra o governo com seus investimentos em produtos consagrados que mais ninguém quer, na tentativa de estimular a venda dos produtos mal-acabados feitos por principiantes que não tiveram condições alguma de aprimorar seus produtos e que se acham o máximo porque leram resenhas pagas para dizerem isso. E novamente se fala em crise. Alguma semelhança com a Obtusolândia e sua fantástica bola quadrada?

            Quantos autores se dedicam a criar um público leitor? Quantos falam de Livros que não sejam os seus? Que sejam de autores nacionais contemporâneos? Que ensinem como se lê um clássico ou mesmo um livro moderno? Que se aprimoram em técnicas de escrita para levar para seus leitores uma qualidade melhor, seja nos seus livros, seja na crítica que fazem de outros autores? Quantos incentivam a leitura seja no celular, no tablet, no notebook, no eReader, no livro físico, tendo como base a importância da leitura de qualidade e não do meio em que ela é feita?

            Lembro-me de um caso em que uma de minhas alunas não tirava os olhos do celular, enquanto tentava dar aula de como fazer uma resenha. Fui até ela e perguntei o que estava fazendo e ela me disse constrangida (assustada até) que estava lendo um livro. Achei interessante, nunca havia visto alguém ler no celular. Perguntei o que estava lendo, era um autor estrangeiro desses best sellers instantâneos. Perguntei se estava gostando. Disse que sim. Então pedi que fizesse um resumo da história, uma apresentação do livro para os colegas de classe. Ela foi engatinhando na coisa e fui ajudando (eu havia lido o tal livro e detestado, mas o objetivo não era expor a minha opinião ou debate-la com pessoas menos preparadas) e ela foi se entusiasmando e fez um ótimo trabalho de estimular os colegas a ler. Aproveitei o gancho e sistematizei a resenha dela dentro de um modelo profissional de qualidade, que era o objetivo da aula.

            O que aconteceu? Todos prestaram atenção redobrada e me perguntaram se poderiam trazer as suas próprias resenhas de livros que estavam lendo para divulgar entre os colegas. Claro que incentivei e fizemos ótimas leituras de resenhas, com inúmeras sugestões de livros que poderiam ler. Até mesmo eu fiz algumas para demonstrar que havia autores nacionais contemporâneos ótimos e que mereciam um espaço. Mas quantos fazem algo do tipo? Quantos não teriam dito que “aula de literatura não é para ler” (oi??), ou então “guarde esse celular que aqui não é o lugar”, ou coisa pior ainda, matando o estímulo de leitura de alguém que só tinha condições de ler pelo celular, porque não podia comprar um aparelho mais adequado, porque não podia pagar o preço de um livro da moda, por morar em uma comunidade carente.

            Será que haveria crise se os investimentos no comercio de livros fossem mais estruturados com os verdadeiros consumidores? Se o governo criasse políticas para formar tanto leitores quanto autores qualificados, de forma que houvesse um crescimento da qualidade do produto e um incremento de toda uma nova forma mercadológica estruturada de ponta a ponta e não no velho “vai que dá certo” do jeitinho brasileiro? Informalidade não pode ser padrão, tem que ser exceção para poder funcionar direito. As livrarias poderiam reduzir seus estoques porque os autores nacionais são mais acessíveis, os livros impressos aqui mesmo, com tecnologias que seriam desenvolvidas aqui para os leitores nacionais, com o seu jeito específico de ler, sua cultura revisitada por autores que não teriam a preocupação de serem “vendáveis” como os estrangeiros.

            Poderia haver toda uma nova forma de negócio nas plataformas digitais, para todos os bolsos e gostos, que não seria exclusiva, mas complementar (eu mesmo leio e escrevo nos dois modelos, por que não?) com suas vantagens e desvantagens apreciadas pelo seu principal fomentador, os leitores. Poderia até mesmo haver um novo investimento em tecnologias mais baratas e acessíveis, modelos de distribuição de livros criados para atender as demandas de um país de nível continental. Quantos modelos menores de negócios poderiam ser criados a partir de um investimento no rumo certo, nos agentes certos, com a visão correta. O governo poderia investir em aparelhos para leituras de livros eletrônicos, com milhares de livros disponíveis para todos os gostos, em vez de comprar livros que muitas vezes vão para o lixo sem chegarem nunca na mão dos leitores a que se destinam (sim, já houve muito disso por aqui).

            Ou podemos nos juntar ao povo de Obtusolândia que não consegue entender por que uma bola quadrada não vende tão bem quanto as bolas redondas que são produzidas em outros lugares, mas são tão caras que se tornam proibitivas para o grande público, se resumindo a pequenos consumidores que as abandonam em troca de outras coisas mais “da moda”. Podemos continuar falando em crises, apontando os culpados, rindo dos polis dodecaedros que aparecerem, e dizendo que a culpa é do “governo”, da “falta de cultura do povo”, da péssima qualidade dos (outros) autores. E talvez um dia, não haja nem mais espaço para um blog sobre literatura que não seja a estrangeira. Difícil vai ser tentar vender resenhas para os autores de lá com a qualidade crítica das produzidas aqui. E então, a Fabulosa Bola Quadrada fará todo o sentido e eu terei sido apenas uma voz berrando na multidão ululante com suas ideias fechadas e suas bolas quadradas.

            Agora, diga-me, posso lhe contar uma boa história?

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Posso lhe contar uma história? Será algo criado especialmente para você e lhe fará refletir de uma forma muito simples e direcionada sobre questões complexas que todos estão discutindo no momento. Como vou fazer isso? Na verdade, de uma forma bem simples, usando todas as informações que forneceu voluntariamente através das suas redes sociais, compiladas através de um algoritmo que me fornece um mapa do seu perfil psicológico e os pontos em que posso atuar influenciando as suas opiniões e comportamentos, mas relaxe, você não vai nem perceber. Mais provavelmente vai acreditar que todas as suas constatações são apenas suas e que está muito bem fundamentado na sua opinião a respeito de um assunto que, anteriormente, não estaria tão atento assim, mas para o qual foi despertado pelo insight que teve de sua importância, tornando-se um militante da temática apresentada.

            Parece coisa de ficção científica, não é mesmo? Aquelas coisas inventadas por escritores com imaginação fértil que servem para nos assustar de uma forma agradável e nos fazer sair da nossa realidade e dar uma relaxada em um mundo alternativo que, por pior que possa ser, não vai nos afetar de verdade. Afinal a verdade é algo concreto e sólido, consistente e facilmente verificável, que sempre dará um jeito de emergir das sombras da mentira e iluminar a todos com seu poder de diluir os conflitos e nos conduzir no rumo do Bem Maior, com a ajuda de Deus e o apoio dos Homens e da Ciência. Tem sido assim desde os primórdios da nossa civilização, quando os pensadores e filósofos se debruçaram sobre as questões universais, entre elas a busca da verdade e de como alcança-la. E essa busca tem se mantido até hoje, com resultados diversos.

            A Filosofia, mãe de todas as ciências, chegou a ter cinco formas de descrever a verdade. A verdade como correspondência, originária em Platão, diz que a verdade é o que garante a realidade, ou seja, o objeto falado (discurso) é apresentado como ele é. Já o empirismo, a metafísica e a teologia apresentam a verdade como uma concepção de revelação, ou seja, algo que se revelou ao homem por meio das sensações ou pela intervenção de um Ser Supremo que evidência a essência das coisas. Platão e Santo Agostinho retornam com uma outra perspectiva em que a verdade deve se apresentar no sentido da conformidade e adequar-se a uma regra ou conceito, para ser verdadeira. Já no movimento idealista inglês, por volta da metade do século XIX, o filósofo Bradley alega que “o princípio de que o que é contraditório, não pode ser real”, portanto “a verdade é a coerência perfeita”, e assim apresenta-se a verdade como Coerência. Mas há aqueles mais pragmáticos, como Nietzche, que acreditam que a verdade deve ser funcional, ter uma utilidade. Para ele “Verdadeiro não significa em geral senão o que é apto à conservação da humanidade. O que me deixa sem vida quando acredito nele não é a verdade para mim, é uma relação arbitrária e ilegítima do meu ser com as coisas externas”. Portanto, tudo o que não colabora para a conservação do bem para toda a humanidade, poderíamos dizer que é verdade?

            Mas as coisas complicam de verdade, com o perdão do trocadilho, quando a tecnologia recria a realidade em uma forma diferente, seja pela ampliação dos sentidos, seja pela virtualização do que é real, criando uma realidade alternativa sensível à nossa interferência e interação, ampliando e torcendo todos os conceitos de realidade e de verdade que se poderia imaginar ou intuir. Como então buscar uma base razoavelmente sólida e confiável, verificável em seus efeitos sob todos os aspectos práticos, passível de ser reproduzida e que mantenha uma coerência com as revelações que forem produzidas a partir dela ou nela em si mesma? Surge então a perspectiva de que os fatos não mentem, e levantados os fatos e alinhados de forma correta e coerente teremos, por fim, a revelação da verdade de forma incontestável. Só que não é bem assim. Platão também foi o precursor da análise discursiva que investiga os fatos através de técnicas de desconstrução dialética que revelam as suas estruturas elementares e as intencionalidades por trás dos discursos. Ou seja, os discursos são capazes de alinhar os fatos de forma lógica e coerente, revelando uma verdade particular, mas também podem ser usados para selecionar e alinhar fatos de forma a produzir uma verdade alternativa que apenas se parece com a realidade, embora seja consistente de alguma forma com as intencionalidades que lhe foram impressas e sustentada pela verificação dos fatos de forma individualizada e parcial.

            Uma verdade alternativa não é uma mentira, como não é uma mentira um mundo virtual, ou o que é dito em uma rede social, ou a alucinação de um psicótico, porque produz um efeito significativo e concreto naqueles que acreditam nas revelações que traz gerando, por consequência, outras verdades irrefutáveis e não alternativas. Quando a tecnologia permitiu que diversas realidades, concretas ou construídas, inundasse o paradigmático mundo da virtualidade recriando e manipulando narrativas através de um realinhamento de fatos comprováveis que justificariam, de certa forma, as conclusões apresentadas pelas verdades alternativas e flexíveis, criou-se uma crise conceitual do que seria, afinal, uma verdade. Na atualidade vemos os efeitos significativos dessas verdades alternativas construídas com base em fatos fornecidos de forma espontânea ou não, haja vista a ação direcionada de hackers que invadem as privacidades em busca de fatos ocultos para compor as narrativas que lhes servem, temos cada vez menos confiança na verdade como uma coisa libertadora, como até então era vista, grosso modo.

            A verdade líquida dos tempos tecnológicos, nos obriga a repensar as bases sólidas em que se apoiava a concepção de verdade e nos cobra muito mais atenção e flexibilidade na forma de lidar com os conceitos fundamentais da realidade. A realidade, bem como a verdade, tornou-se relativa e é preciso aprender a lidar com essa relatividade de forma eficiente, usando os conceitos padrões e estabelecidos como ponto de partida, não como um fim em si mesmo. A busca pela verdade começa quando buscamos o ponto de partida para iniciar a jornada, demolindo padrões e limitações anteriormente dados como verdadeiros. Embora seja um terreno pantanoso devido à nossa inexperiência em lidar com ele, pode se tornar um terreno fértil para a construção de uma sociedade melhor, mais líquida em seus conceitos. Podemos repensar a sexualidade, os papeis sociais, as responsabilidades individuais, a ética, a moral, etc, incluindo a pluralidade como parte da verdade e não como uma aberração que foge ao que havíamos definido como normalidade.

            Mas é claro que para que o pântano se torne fértil, é preciso também levar em consideração os seus perigos e armadilhas, sua função transformadora que recolhe e transforma o lixo, digerindo-o e tornando-o uma reserva vital importante para a existência. Assim também a verdade líquida deve ser capaz de absorver todo o lixo produzido pelo radicalismo e separatismo e recicla-lo em conceitos mais eficientes e vivos, que preservem o que há de bom e decomponham o que há de ruim, obrigando a todos nós, que navegamos por sua diversidade estranha e sombria, a lidar com o inusitado para encontrar as belezas que produz, evitando as armadilhas pelo conhecimento dos seus mecanismos necessários. Não é negando a verdade líquida dos tempos de revolução tecnológica que poderemos aprender a lidar com ela, e sim mergulhando em seus mistérios e descobrindo os seus tesouros e possibilidades de forma tão real quanto descobrimos suas armadilhas e perigos. Só assim poderemos sobreviver como uma sociedade e construir um futuro cheio de narrativas, reais ou imaginárias, que nos atenda em nossos mais íntimos desejos e nos torne melhores.

            E então, posso lhe contar uma história?

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Para quem ainda não assistiu ao filme Matrix, fique preparado, contém spoilers. É inevitável porque vou fazer referência a um personagem da trilogia cinematográfica como ponto de partida, porque se torna um arquétipo da modernidade. Para entender melhor é necessário dizer que a Matrix é um mundo virtual onde os humanos cultivados e escravizados por máquinas (sistemas), vivem suas vidas em um sonho eterno (ideologias), enquanto suas energias vitais são absorvidas para alimentar as máquinas (sistemas) que os aprisionam.

            Há muitas críticas possíveis a essa forma de roteirização, devido à lógica que ela envolve em seu nível primário, mas isso não arranha a trilogia de filmes porque a base em que se apoia segue o padrão de ação e filosofia existencial que acaba por encantar boa parte do público de uma forma ou de outra. Então vamos nos fixar nesta questão mais filosófica: A Utopia Humana contra a Matrix.

            Cypher é um dos humanos resgatados da prisão das máquinas por um artifício usado dentro da virtualidade da Matrix. Ser resgatado da escravidão é ser lançado no horrível mundo dominado por máquinas assassinas que vão caça-lo e mata-lo implacavelmente, enquanto tenta derrubar o sistema de dentro e de fora. É uma guerra dupla, constante, com resultados duvidosos, para a qual não se está preparado, e da qual não há retorno.

            Ou não havia, porque Cypher consegue fazer um acordo com o seu captor, decide trair os guerrilheiros e voltar a ter uma vida de ilusão, reinserido no sistema até a morte, vivendo em um mundo imaginário com vantagens que não teria na sua vida anterior de escravo, ou na sua vida de guerrilheiro liberto. E por isso é classificado como um dos vilões traidores da humanidade.

            Uma outra questão interessante que segue na mesma linha é dada pelo Arquiteto, uma entidade-programa que vive à parte da Matrix e é responsável por criar a realidade virtual onde os humanos são cultivados até a morte natural. O arquiteto revela que as primeiras versões da Matrix eram projetadas para serem verdadeiros paraísos, as utopias humanas realizadas na virtualidade. Mas não deram certo, os humanos as rejeitavam como real, não aceitavam que a realidade pudesse ser tranquila, benéfica a todos. E, segundo o Arquiteto, colheitas inteiras (de humanos) foram perdidas, até que se inseriu um mundo em que as diferenças e os desafios criassem um estado constante de conflito.

            Como é possível juntar essas duas coisas? O ser humano rejeita um sonho bom, mesmo quando lhe parece real, só porque todos estão bem, basicamente no mesmo nível que si mesmo? Cypher decide voltar a Matrix desde que tenha uma vida boa, mesmo sabendo que será um escravo até a morte, mas não quer lembrar de nada do que viu na sua liberdade, quer esquecer de que um dia foi livre, e voltar para um mundo onde as diferenças e conflitos existem, desde que ele ocupe um lugar acima dos outros.

            Essas duas questões se unem através do paradigma de que a competitividade humana faz parte de sua essência e jamais aceitaria uma total igualdade. Não estaríamos programados pela nossa própria essência humana a aceitar um mundo em paz, onde a ordem absoluta desse a todos os bens que desejavam. Necessitamos lutar para estar acima dos outros, necessitamos nos sentir superiores, necessitamos nos sentir privilegiados, para a vida fazer sentido?

            Isso poderia explicar o motivo de por que inúmeras pessoas desistem dos seus avanços nas lutas sociais, e passam a apoiar os algozes que vão restringir os direitos. A identificação com o carrasco, na chamada “Síndrome de Estocolmo”, estaria impressa na nossa essência. Amamos o predador que nos abate, porque desejamos no mais íntimo, SER o predador. Aceitamos ser as presas porque desejamos sempre abater nossas próprias presas. Essa seria a raiz animal da nossa essência que nem mesmo o verniz cultural conseguiria vencer. Mas será que isso é verdadeiro?

            Será que somos programados pela natureza a viver de forma hierárquica predatória, almejando subir na escala às custas de nossas vítimas, e não mudaremos nunca isso? Estaria a escolha de Cypher determinada em nossos genes? Seria o rebelde guerrilheiro o verdadeiro Messias da Humanidade, dizendo para todos que devemos sim buscar o topo à custa de tudo e de todos que se opuserem a isso, sem limites morais para alcançar o sucesso? Como ter certeza? Teríamos que verdadeiramente criar uma Matrix, onde um mundo perfeito, uma Utopia, fosse criada e vivenciada pelos seus integrantes. Mas tanto na filosofia, quanto na literatura, as utopias estão fadadas ao fracasso. Sempre há uma “serpente” disposta a nos banir do paraíso e nos lançar na dura e cruel luta pela sobrevivência.

            Em todos os milênios de nossa cultura, não conseguimos conceber uma utopia que funcionasse de verdade, não conseguimos aceitar a igualdade de direitos, a capacidade de existir sem que isso implique em tirar do outro algo a mais para nós, que talvez nem precisemos, mas que faremos porque “é a ordem natural das coisas”. Porém, um fator se levanta contra esse paradigma. A cultura é herdada tanto quanto os genes que nos formam. A nossa mente é formada pela sociedade que ajudamos a formar em conceitos e preconceitos.

            Dessa forma, sempre teremos como um ideal o paraíso, a utopia que será alcançada quando nos tornarmos melhores do que somos, mas que precisará ser conquistada através da eterna luta contra nós mesmos. Por isso sempre teremos aqueles que demonstram superiores capacidades de deixar os interesses pessoais pelo bem-estar de todos, sofrendo as penas por ir contra o sistema, que é praticamente uma máquina implacável a destruir os opositores e corromper os fracos. Nos almejamos Salvadores porque não nos sentimos capazes de alcançar sozinhos esse ideal, e repudiamos os Cyphers como traidores da humanidade embora, em nosso íntimo, desconfiamos que poderíamos facilmente fazer a mesma escolha, se nos fosse dada oportunidade.

            É por esse motivo que lançamos as utopias em outro mundo, após a morte, depois de uma purificação do Ser e livre de sua parte animal, mortal e resgatado em sua essência divina e imortal. Por isso que nosso repudio aos que se unem ao sistema opressor se dá de forma raivosa, fruto do medo que temos de que nos seja oferecida a mesma oportunidade e a aceitemos. Fruto do medo de que, afinal, alguém está melhor que nós, a nossa custa. E isso, como animais predadores, não podemos aceitar.

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— Você não me conhece tão bem assim!

                Foi o que ela me disse aos gritos, logo depois que lhe soprei vida, descrevendo-a como já existia na minha imaginação. Somente depois que me decidi falar sobre como ela seria é que fui preenchendo as lacunas que a imaginação necessariamente cria.

                A imaginação é imperfeita para contextualizar uma ideia não realizada, normalmente fica apenas na superfície, nos contornos gerais que darão o “tom” do que será criado. Ainda mais quando a ideia em si é extremamente complexa.

                Thaís já nasceu complexa, como um paradoxo existencial.

                Imagine uma pessoa Nerd. Dessas que tem uma inteligência rápida acima da média, que parecem ter todas as respostas do mundo, ou que são capazes de criar todas as respostas necessárias como se precisassem apenas expirar o conhecimento que já haviam inspirado em um momento qualquer.

Essa é a parte fácil.

                Fica complicado quando se dá a essa pessoa o sexo feminino. Sim, uma mulher nerd!

                Já deu para perceber como a coisa fica complexa, quando se pensa em nerds, pensa-se logicamente em um homem com pouca habilidade social, tímido ou introvertido, mas por isso mesmo ou como subproduto da estrutura neuronal, com uma habilidade de aprender acima do normal.

Quem imaginaria uma mulher tendo essas características?

                Se conseguir imagina-la, provavelmente será uma baixinha, de óculos, cara sisuda, sem nenhum atributo físico ou recurso cosmético que lhe permita produzir um encanto adicional. Normalmente associamos a inteligência como uma compensação da natureza para aqueles que não nasceram belos. Quem é bonito por natureza não precisa ser inteligente e, muitas vezes, torna-se cruel, indiferente aos danos que sua beleza causa.

                Mas Thais não é assim, ela tem seus encantos femininos preservados apesar da inteligência acima da média. Mais ainda, tem sua sensibilidade aguçada em relação ao outro, preocupa-se com a alegria ou a dor do próximo, tem um senso de justiça que comunga perfeitamente com sua capacidade de ser incisiva, com as palavras, tanto no juízo que faz dos outros, quanto na hora em que decide defender aqueles que lhe parecem carecer de ajuda.

                Alguém mais imaginativo até poderia conseguir criar essa imagem mental de Thaís, apesar dos paradoxos que parecem flutuar a sua volta, como satélites.

                Um desses paradoxos fica evidente quando nos aprofundamos mais, mergulhamos por trás da máscara social de uma pessoa forte e destemida, com soluções práticas (embora isso pudesse contradizer a sua feminilidade. Mulheres não nascem para serem práticas ou nascem?), mas acima de tudo determinada em fazer o que acredita.

                Ao ultrapassar essa camada superior (e não digo isso como um defeito, mas como uma característica) encontramos uma frágil e dócil menininha, com seus bichinhos de pelúcia, sua esperança feliz, seu carinho tranquilo.  Encontramos também a solidão que a envolve em tons mais escuros e percebemos imediatamente que foi a luz que, ao abrirmos um buraco durante a nossa passagem, conseguiu penetrar até aquele lugar habitado pela melancolia e dar algumas, não muitas, cores.

                E a deusa que até então estávamos imaginando, torna-se algo superior ao se tornar humana, reconstruindo todo o entendimento que havia em nossas mentes ao restringi-la simplesmente a algum arquétipo arrancado do nosso inconsciente.

                Só nesse momento é que nos afeiçoamos verdadeiramente a Thaís. Ao lhe percebermos os defeitos para além das qualidades que se esforça em nos mostrar, mas ao contrário do que esperava isso nos encanta muito mais do que a fria aceitação objetiva que poderia haver ao desconsiderarmos sua fragilidade.

                — Você não me conhece tão bem assim.

                Repete ela, desta vez em um tom mais melancólico, um traço de medo escapando por entre um olhar e outro, cabisbaixo, na expectativa do que poderemos fazer ao descobrir-lhe. Sente-se nua, mesmo vestida com tantos traços, e ao perceber que não há qualquer movimento agressivo de nossa parte (na verdade nenhum movimento de qualquer espécie), busca forças na sua própria construção e deixa que a vejamos por inteiro.

                Ergue o olhar em desafio, aceitando que, se conseguimos romper qualquer obstáculo até ali não seriam suas delicadas mãos que encobririam o pudor. Igualmente nos desafia com a sua nudez e aguarda a nossa retórica.

                Ao fazer isso nos desarma de todo preconceito, todas as possibilidades de conjeturas e entendimentos que arrastamos até aqui… e nos vence.

                — Você não me conhece tão bem assim…

                E desta vez há uma certeza delicada em suas palavras. Ela sabe!

                Percebeu que mesmo tendo sido inventada por mim a partir de alguém ou de muitos outros; mesmo tendo sido o que a desvelou de forma dramática (talvez) para você, ainda assim ela preserva algo incognoscível, algo misteriosamente feminino que nos acolhe, mas também nos faz ir embora, buscar o que nem sabíamos que não possuíamos.

                Com um abraço indefinido, nos coloca para fora de si, garantindo que na passagem que produzimos continue haver a janela pela qual olhamos, para que se possa voltar a vê-la quando ela quiser se revelar a nós. Novamente no controle de quem é e de quem deseja ser.

                É desse personagem que inventamos; que nasceu durante o nosso olhar e refletir sobre ele, nossas descobertas; é desse ser que descobrimos o quanto podemos dizer para nós mesmos:

                — Você não me conhece tão bem assim!

                Agora é Thaís que nos inventa… enquanto a ouvimos falar de nós.

 Danny Marks

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