Carolina Maria de Jesus: A catadora de lixo que mais vendeu livro no Brasil.

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Escritora negra que vendeu mais de um milhão de exemplares de seu livro ” O quarto de despejo”, que também foi traduzido para mais de 40 países. hoje suas obras não são oferecidas para estudos nas escolas e universidades.

Quarto de despejo- diario de uma mujer que tenia hambre, edição argentina do primeiro livro de Carolina Maria de Jesus. Buenos Aires- Abraxas, 1962

O nome dela é Carolina Maria de Jesus, nascida na comunidade rural de Sacramento,Minas Gerais, em 14 março de 1914. Carolina de Jesus estudou apenas por dois anos, que foi o suficiente para que ela tomasse gosto pela leitura.
A vida difícil de Carolina fez com que ela se mudasse para São Paulo,onde foi morar na casa do médico Euryclides Jesus Zerbini, para trabalhar como empregada doméstica, em seus finais de semana ela preferia ficar na biblioteca particular do médico para viajar em suas leituras. A pobre Empregada doméstica de Sacramento é movida pela curiosidade, é assim ela forma uma intimidade com as palavras.
Em 1934, ficou desempregada e teve que ir morar na favela do Canindé, zona norte de São Paulo,foi então que Carolina de Jesus com seus 33 anos e grávida começa a conhecer os problemas da cidade grande,que estão presentes até hoje na nossa sociedade. As questões de preconceito contra a mulher negra é muito constante em seu livro ” O quarto de despejo”, a questão da beleza da mulher negra é colocada em suas escritas,a afirmação da negritude e sua própria beleza que naquela época afirmar sua beleza.

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”…Esquendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o meu cabelo de preto mais iducado do que o cabelo do branco.Porque onde põe,fica. É obediente. E o cabelo de branco ,é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indicisclinado.Se é que existe reincarnações,eu quero voltar sempre preta…”
Há com muita frequência em sua a obra a fome, que em cada diário Carolina de Jesus relata o sofrimento para alimentar seus três filhos, sua luta para catar papéis pelas ruas de São Paulo, era um sofrimento contante para comprar leite e pão para enganar o estômago, vivia com os pouco cruzeiros que recebia e com doações de Instituições de caridades, fazia o possível e o impossível para alimentar Vera Eunice, João José e o José Carlos. Acorda de madrugada para trabalhar,mas sempre antes de sua partida buscava água e fazia o café, comprava pão e saía para conquistar seus cruzeiros,além de catar os papéis Carolina de Jesus separava folhas,revistas e jornais que poderiam ser utilizados para ela ler e escrever.Ela nunca dormia sem ler e escrever,sempre relatava os acontecimentos de seu dia,descrever o seu dia foi o método que ela encontrou para aliviar suas angústias,era a unica da favela que escrevia,dizia que um dia iria publicar suas obras,a catadora de lixo se destacava na sua comunidade, porque falava melhor do que os demais e com isso gerava alguns conflitos.Carolina de Jesus prezava pela paz em seu lar, não tinha marido e convivia com a violência de mulher que apanhava de seus companheiros,que chegavam em casa bêbados e violentava suas mulheres tanto fisicamente,quanto verbalmente, e esses acontecimento se tornava festa na favela as margens do Rio Tietê, os envolvidos não preocupavam com a presença das crianças que presenciava todos os atos de violências e pornográficas,havia uma preocupação da escritora de seus filhos presenciar essas cenas.Os relatos nos da uma dimensão do quanto as mulheres vêm sofrendo ao longo do tempo,mas principalmente o quanto as mulheres de nossas periferias ,para ela dormir em paz com seus filhos estava entre usas prioridades,ela vivia em dois mundos opostos,o mundo no centro da cidade e a realidade na periferia.

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“… Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais,seus tapetes de viludo, almofadas de sitim.E quando estou na favela tenha a impressão que sou um objeto fora de uso,digno de um quarto de despejo…”
“… As vezes mudam algumas familias para a favela,com crianças.No inicio são iducadas,amaveis.Dias depois usam o calão,são soezes e repgnantes.São diamentes que se transformam-se em objetos que estavam na sala de visita e foram para o quarto de espejo…

A pobre escritora sempre relatava seu sonho de se mudar daquele lugar, porque lá não era o melhor lugar para que os filhos, morar em uma casa de tijolo com quartos,sala,cozinha e banheiro, uma casa onde não falte comida,que ela possa sair para trabalhar despreocupada com a segurança de seus três filhos,porque sua realidade é totalmente o contrário do que ela sonhava.A catadora de lixo foi uma mãe muito presente na vida de seus filhos,sempre esteve incentivando os estudos de suas crianças, poderia faltar o dinheiro para comprar comida,mas ficar sem ir a escolas seus filhos nunca ficou,só faltava nos casos mais extremos que não dava para eles irem assistir suas aulas.Seu filho mais velho João José ficava em casa cuidando do outros dois irmãos enquanto sua mãe estava catando papéis pelas ruas da grande São Paulo.Porém humilde mãe não trabalha despreocupada, porque quando ela saia suas vizinhas entravam em seu quintal para agredir seus filhos, quase sempre Carolina de Jesus entrava em conflito com suas vizinhas,pelo fato dela ser uma mãe solteira as moradoras de sua rua não tinha bons olhos para ela.Ser mãe Solteira era muito complicado,todavia ela tinha que dar educação,amor,atenção e o que mais faltava alimentação,roupas e calçados.Um sofrimento ver seus filhos pedirem mais comida e não ter.
“… Choveu, esfriou. É o inverno que chega.E no inverno a gente come mais .A Vera começou pedir comida .E eu não tinha…”
” Eu não ia comer porque o pão era pouco.Será que é só que levo essa vida? O que posso esperar do futuro ? …”

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Os livros deu a ela muitas sabedorias,Carolina de Jesus em sua obra o ” Quarto de despejo” fala sobre políticas públicas que os políticos nunca colocaram em prática, relata algumas visitas de candidatos na favela do Canindé,os futuros representantes do povo tratavam as pessoas como ser reis e rainhas em sua corrida pelo poder ,mas na hora de executar os planos de ações de seus governos em relação as periferias, nada era feito,nada era mudado. A escritora coloca em sua obra o descaso da prefeitura,do governo e dos empresários que jogam seus lixo na favela,que o local onde ela morava tinha mal cheiro,não tinha saneamento básico e água tratada, retrata também vizinhança tinha que sair para pedir água nas casas de alvanária e a falta de humanidade dos moradores que tem água encanada.Sua consciência é notória porque ela nos conta todas as dificuldades de morar na favela,e ela descreve a política para pessoas brancas,sabe descrever os planos dos governantes, e sem saber também fala sobre questões do feminismo,quando denúncia os atos de violências contras as mulheres.
“… O que o senhor Juscelino tem que aproveitável é a voz.Parece um sabiá e a sua voz é agradevel aos ouvidos.E agora, o sabiá está residindo na gaiola do ouro que é o catete.Cuidado sabiá, para não peder essa gaiola,porque os gatos quando estão com fome completa as aves nas gaiolas.E os favelados são os gatos.Tem fome…”

“… Quando um político diz nos seus discurso que está ao lado do povo,que visa incluir-se na politica para melhorar as nossas condições de vida pedindo o nosso voto prometendo congelar os preços, já está ciente que abordando este grave problema ele vence nas urnas.Depois divorcia-se do povo.Olha o povo com os olhos semi-cerrados. Com um orgulho que fere a nossa sensibilidade...”

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Carolina Maria de Jesus é uma escritora que descreveu a vida marginal,podendo afirmar que ela deu voz a favela, denunciou o racismo,descrevendo-o, mulher favelada que mesmo com toda as dificuldades conseguiu representar a realidade das nossas favelas brasileiras com seu modo próprio de gritar para o mundo,exclamar para todos nós que nada é feito para melhor a qualidade de vida humana dos moradores dos “quartos de despejos” do Brasil.Carolina de Jesus foi uma mulher de luta,que hoje é ícone de resistência,uma mera catadora de lixo que com folhas catadas nas ruas da grande São Paulo transformou sua vida em história.
E foi a favelada que escreveu o livro Quarto de despejo, que foi publicado na década de 60, e foi retratando sua vida na favela do Canindé que a Carolina Maria de Jesus vendeu mais de um milhão de exemplares de seus livros em todo o mundo,este livro foi traduzido para mais de 40 países,mas na verdade talvez você nem tenha ouvido falar no nome dessa escritora que tanto vendeu.Você não conhece Carolina de Jesus pelo fato que sua escrita não é está dentro da norma culta e foi escrita por uma mulher negra,o conteúdo desse livro tem uma relevância muito grande,os relatos de sua vida são realidades no ano de 2017.No meu ponto de vista esse livro deveria ser obrigatório no ensino médio,estudar esses livro é necessário,porque está instalado nele violências,racismo,políticas,condições humanas e muito mais.Leia Carolina Maria de Jesus, garanto que você irá se apaixonar por sua obra o Quarto de despejo.Ouça também um álbum de música que Carolina de Jesus .

“Fui ver o livro. E pela primeira vêz entrei no barraco número 9 da Rua A, favela do Canindé. E vi os cadernos do guarda-comida escuro de fumaça. Narrativa diária da vida de Carolina e da vida da comunidade-favela. Coisa bem contada, assim como aparece agora em letra de fôrma, sem tirar nem pôr. Eu vi eu senti. Ninguém podia melhor do que a negra Carolina escrever histórias tão negras. Nem escritor transfigurador poderia arrancar tanta beleza triste daquela miséria tôda. Nem repórter de exatidão poderia retratar tudo aquilo no sêco escrever. Foi por isso que eu disse assim para Carolina Maria de Jesus, lá mesmo, na horinha que lia trechos de seu diário: 
___ Eu prometo que tudo isto que você escreveu sairá num livro.”

Volte sempre : )

Escrito pelo Colunista:

Kennedy José de Oliveira Júnior- Estudante da Universidade estadual de Goiás´-UEG

Facebook: kjunior9871

Instagram: kjunior9871

13 Comentários

  1. Danny Marks que colocação perfeita, concordo com tudo que você explanou em sua colocação.Espero que volte sempre no Arca Literária.
    Obrigado, abraços 🙂

  2. A Literatura Marginal, aquela que “foge aos padrões” aceitos pelo mercado, sempre foi discriminada e raramente atinge as escolas e universidades brasileiras. Normalmente ficam segregadas em movimentos undergrounds, resgatados por alguma ONG que os leva para fora do Brasil, e lá fazem sucesso. Só então há a perspectiva de algum retorno por aqui. Ouço muita gente dizendo que o brasileiro não gosta de ler, que não sabe escrever direito, que não se interessa por cultura, mas isso é apenas “a voz do dono” como disse Chico Buarque na sua Ópera do Malandro (outra obra pouco difundida por aqui e que retrata o cotidiano brasileiro).
    Sim, o brasileiro gosta de ler, e o faz bastante, mas isso não aparece nas pesquisas porque são livros emprestados em bibliotecas ou de amigos, os novos são caros demais para serem objetos de consumo, porque as livrarias tem que pagar royalties aos estrangeiros. Livros brasileiros não recebem o mesmo tratamento, são escondidos nas livrarias, não são divulgados se não forem de famosos, se não tiverem publico pronto, nem são publicados, a menos que sejam independentes.
    O brasileiro tem talento, escreveria melhor se tivesse acesso à cursos de escrita, a uma instrução melhor, como ocorre nos países desenvolvidos ou que se orgulham de sua cultura. Aqui há um complexo colonial que impregna a nossa sociedade, o bom é o que vem de fora, o bom é o que o rico faz, o resto é marginal, é ruim.
    Por isso, que livros desse tipo jamais vão aparecer em escolas e universidades, para não mostrar ao povo a realidade das favelas, do dia a dia de um povo que é forte e sobrevive a quase tudo, que se tivesse incentivo, seria muito melhor. O que chega às escolas e universidades é o glamour esteriotipado da pobreza (há pobres retratados em novelas que tem carro, casa espaçosa, três refeições ao dia, vencem na vida pelo seu próprio esforço sem incentivo algum, ou então, são vilões, traficantes desalmados prontos a matar ou morrer).
    Depois as pessoas dizem não compreender porque o mercado literário brasileiro está em crise. Por que o povo brasileiro aceita políticos corruptos e os elege? Por que aceita ser escravizado, desprezado, desestimulado? Porque o povo brasileiro não se vê com olhos reais, não se vê pelo que é de fato e o que pode alcançar se lhe forem dadas as condições mínimas, se não lhes roubarem o pouco que constroem. Como crescer sem ver os fatos? Como crescer sem saber o que é e onde pode ir? Esse deveria ser o papel dos escritores, mostrar a nossa realidade, mostrar a nossa imaginação, mostrar que aqui, como em qualquer lugar do mundo, há uma cultura que, sim precisa melhorar, mas que tem também suas riquezas e belezas. Então as coisas seriam diferentes.
    Ótimo texto Kennedy, muito bem apresentado e inspirado. Parabéns.

    Abraços,

    Danny Marks

  3. Olá Kennedy,
    Ótimo texto. Carolina de Jesus viveu e escreveu sobre uma época que hoje nao deveria mais existir, no entanto, parece até que está pior. Foi a voz que deveria ter sido ouvida para que as políticas públicas fossem realmente cumpridas. E o Racismo nunca esteve tão pior do que nos dias atuais.
    um abraço,

    • Antônio,tudo que você falou é real.O Arca Literária é contra qualquer tipo de preconceito!
      Obrigado volte sempre 🙂

  4. Que história forte e… real :/
    Esse é um dos livros em que a leitura deveria ser influenciada nas universidades, assunto de debate nas aulas e tema de Vestibular.
    Obrigada por nos apresentar essa pessoa maravilhosa que é a Carolina.

    • Carolina de Jesus é um ícone na história da literatura negra… Adoro todas as suas obras ????.
      Obrigado volte sempre 🙂

    • Carolina de Jesus é um ícone na história da literatura negra… Adoro todas as suas obras ????.
      Obrigado volte sempre 🙂

    • Carolina de Jesus é um ícone na história da literatura negra… Adoro todas as suas obras ????.
      Obrigado volte sempre 🙂

  5. Parabéns, texto de excelência. É uma honra ver mulheres conquistando seu espaço na literatura.

    • Boa tarde querida, é uma satisfação escrever sobre as grandes mulheres do nosso país que escrevem suas próprias histórias. Obrigado, volte sempre 🙂

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