Borges C. (Toca de Lobo)

0
922

1. Fale-nos um pouco de você.
Sou feliz, realmente feliz, casado com minha primeira e única namorada de fato. Conheci ela aos 15 anos e estamos até hoje juntos e unidos e amando. Tivemos duas filhas maravilhosas, uma decidiu seguir meus passos, formou-se em direito, é advogada, mas no caminho, depois de ser atriz dedicou-se à Terapia Holística onde se desenvolveu tão bem e se sentiu tão gratificada que não mais advoga. A outra, com uma irmã eclética, resolveu seguir os passos dela e também ser eclética deixando de atuar nos palcos para se transformar numa psiquiatra especializada na infância e juventude, coisa de louco mesmo. Realizado, bem casado e feliz só me restava plantar uma árvore, escrever um livro… e assim aqui estou eu!

2. O que vc fazia/faz além de escrever? De onde veio a inspiração para a escrita?
Sou um advogado e a profissão não conseguiu extinguir a minha necessidade de escrever. Brincava com as palavras e fui estimulado por amigos a me aventurar um pouco mais e resolvi me testar com um livro. Estou escrevendo o terceiro. Na realidade, para mim pelo menos, cada livro que fica pronto é quase três escritos. Eles ficam totalmente diferentes do que planejamos e iniciamos.

3. Qual a melhor coisa em escrever?
Expor em palavras nossos pensamentos pressupõe pensar, hábito que fugimos desesperadamente, talvez porque toda reflexão ressalte o fato de sermos mortais. Aliás é sobre esse binômio da temporalidade – mortal / eterno – que parte do meu próximo livro deve versar. A melhor coisa de escrever é aprender a assistir por diversos ângulos os desafios de nossa vida real o que me tornou um risonho otimista.

4. Você tem um cantinho especial para escrever? 
Tenho a Toca do Toca de Lobo, uma bagunça só minha, coitado de quem tenta arrumar. Aqui se misturam textos jurídicos, peças de processos, textos de contos e livros numa desorganizada bagunça pessoal, só minha. Acho que só nisso sou chato. Basta saber que fico feliz comendo feijão com farinha, por exemplo.

5. Qual seu gênero literário? Já tentou passear em outros gêneros?
Eu não tenho necessariamente um gênero. Eu saio escrevendo e o texto acaba descambando para um quase policial e muitas vezes para um sensual texto erótico com abordagem adulta, como é o caso de “A Mansão dos Lord”. Talvez por isso já tenha sido traduzido para o inglês mudando um pouco de nome por causa da tradução de Lord, ficou como “The Lordis Family Mansion”. Mas o que importa para mim é transmitir imagens e sensações pelas palavras o que torna meus livros quase intermináveis. Nunca está suficientemente bom.

6. Fale-nos um pouco sobre seu(s) livro(s). Onde encontra inspiração para título e nomes dos personagens?
O título segue como temporário e se firma apenas quando considero o livro emancipável. Ele nunca estará terminado, mas já pode fugir de mim. Já os personagens é um caso sério. Sou péssimo para nomes. Escolho, mudo no meio do caminho e só noto quando estou em uma das minhas milhares de revisões. Hoje encontrei um programa livre e gratuito que me ajuda muito, o YWrite. Na verdade foi ele quem facilitou minha desorganizada vida de inventor de textos. Sem ele eu sucumbiria com apenas “As Grutas de Spar” escrito.

7. Qual tipo de pesquisa você faz para criar o “universo” do livro?
Boa parte é da minha própria bagagem pessoal. Mas isso não impede que eu perca dias passeando pelo Google (o moderno anticristo) na busca de detalhes de objetos, lugares e até de comportamento de alguns personagens. “As Grutas de Spar” por exemplo é uma gruta que existe em Maricá, cidade do Rio de Janeiro, e está sendo destruída por uma pedreira que tem o seu domínio. Tenho até diversas fotos desta linda antiga mina que deu origem àquela cidade.

8. Você se inspira em algum autor ou livros para escrever?
Impossível fugir das influências. No meu caso ela é tão plural e renovada que é difícil descrever. Todo advogado tem que ler muito e eu me viciei nisso também. Aliás eu vicio com facilidade com qualquer coisa que estimule minha mente. Estou ávido por saber, conhecer, destrinchar. Hoje estou escrevendo um livro, lendo o livro da Mirian Leitão, do Clóvis de Barros Filho com Júlio Pompeu e o livro de uma nova autora brasileira, Bárbara Shênia que achei muito legal.

9. Você já teve dificuldade em publicar algum livro? Teve algum livro que não conseguiu ser publicado?
Tive dificuldade de investir valores que, para um ilustre desconhecido, com seu primeiro livro, não teriam retorno. Hoje me arrependo, mas segui o caminho da auto publicação em e-book e hoje eles estão disponíveis como livros impressos.

10. O que você acha do novo cenário da literatura nacional?
O brasileiro ainda lê pouco, e ainda nossa cultura é invadida por lançamentos e autores consagrados dos Estados Unidos. É fácil encontrar um leitor que tenha lido diversos livros de Agatha Christie sem jamais ter lido um poema do já saudoso imortal Ferreira Goulart. Nem sabem que foi ele quem musicou Trenzinho Caipira de Heitor Villa Lobos (Lá vai o trem com o menino / Lá vai a vida a rodar / Lá vai ciranda e destino / Cidade e noite a girar / Lá vai o trem sem destino / Pro dia novo encontrar / Correndo vai pela terra / Vai pela serra / Vai pelo mar / Cantando pela serra do luar / Correndo entre as estrelas a voar / No ar no ar no ar no ar no ar) que hoje é tema de novela global.

11. Recentemente surgiram vários pessoas lançando livros nacionais, uns são muito bons, outros nem tanto, outros são até desesperadores, o que você acha sobre este boom?
Acho que o brasileiro vem se destacando em todas as áreas, e na literatura e no campo editorial não é diferente. Sempre vão existir os melhores e piores, mas temos que existir, nos expor, viver. Temos fenômenos como Paulo Coelho e Cury. Infelizmente não consegui ser tão bom. Mas existe espaço para muitos outros fenômenos. Precisamos de mais educação, mais incentivo, mais prêmios literários e mais ARCAS LITERÁRIAS para que o produto nacional seja tão difundido no Brasil como são os “pornôs” estrangeiros, água com açúcar, de cultura diferente da nossa, vendido em séries nos jornaleiros do país.

12. Qual sua opinião sobre os preços elevados dos livros nacionais?
Tão inexplicável como produzirmos os carros mais caros do mundo sem levar em consideração os impostos. Falta mais gente investindo no setor industrial, facilitando a impressão / digitalização de livros, sua divulgação e comercialização e incentivando a indústria de serviços que se forma por trás deste grupo da atividade cultural brasileira. Temos muito a mostrar a brasileiros e estrangeiros, temos como ganhar o mundo difundindo nossa cultura e valores, mas precisamos de mais pessoas criando uma verdadeira concorrência neste setor que é dominado, no Brasil, por corporações.

13. Qual livro você falaria: “queria ter tido esta ideia”?
Difícil responder. Como eu disse, leitor viciado, com tantas influências, tenho também muitas invejas, tanto no campo técnico, onde nem me aventuro, como no campo das ficções, que eu adoro. Gostaria de ter competência para escrever um clássico da ficção científica, mas quem sou eu. Faltam dados, recursos, apoios e competência mesmo.

14. Se tivesse que escolher uma trilha sonora para seus livros qual seria? (nome da musica + cantor)
Cheguei a pensar nisso e conclui que sou um fraco amante das músicas por ser péssimo com nomes. Deu para entender? Sei de que música eu gosto, mas canto mal e ninguém lembra qual é e como sou fraco com nomes nem sei o nome da música, nem do cantor, nem do autor. A única música que lembrei neste esforço foi “Minha Rainha”, de autoria de “Lourenço Cantineto e outros” por ser Cantineto um amigo da minha infância. Confesso que para lembrar de “Trenzinho Caipira” recorri à internet, não sabia seu nome e não lembrava toda a letra.

15. Já leu algum livro que tenha considerado “o livro de sua vida”?
Incrivelmente o livro que eu poderia chamar de livro da minha vida é o Livro dos Espíritos, quem já leu sabe que se tiver saco de ler até o fim vai ver se descortinar a sua frente muitos temas a serem digeridos mentalmente, num debate pessoal de você consigo mesmo (falta essa palavra em nosso idioma) e muitos questionamentos religiosos como a justiça e bondade divinas se justificam de alguma forma. Costumo dizer que se existe vida após a morte, se ela é infinita e se eu posso ir para um céu onde tudo é maravilhoso, queria tido um pistolão junto a Deus para morrer após meu primeiro suspiro. Morrer puro, inocente e sem pecados. Uma eternidade perfeita é melhor do que 70 anos sofridos nesta terra de ninguém e de todos nós.

16. Você tem novos projetos em mente? Se sim, pode falar sobre eles?
Loucuras. O cara leva um tiro, está em coma, alguém resolve que ele precisa morrer para salvar o mundo. Ele destruiu a fórmula de um veneno acidentalmente elaborado. Esse veneno como arma liquida os seres humanos em massa sem afetar nenhum patrimônio. Ele fica do outro lado da vida, Sua família do lado de cá. A empresa onde ele trabalha está sob espionagem industrial… e vai ser uma loucura! Espero que eu consiga termina-lo e que vocês gostem como estou adorando escrevê-lo.

17. Você acompanha as críticas feitas por blogueiros nas redes sociais? O que você acha sobre isso?
Acho que a melhor divulgação para produtos culturais é a crítica, o debate e o boca a boca. Você pode tentar se promover mas precisa de alguém que conheça seu produto e que fale dele, bem ou mal, gerando curiosidade até atingir uma massa crítica que pode sepultar seu trabalho, mas pode também fazer dele um grande sucesso e hoje para ser sucesso com livro tem que estar bem nas Redes Sociais ou pagar propagando no Jô Soares.

18. Se pudesse escolher um leitor para seu livro (escritor, alguém que admire) quem seria?
Acabei de citá-lo. Jô Soares é culto, letrado e formador de opiniões. Ele é um profissional que vende serviços de divulgação, mas também não se contém quando conhece algo que mereça ser divulgado. Se ele falasse 10 segundos sobre um livro meu eu venderia mais em 24 horas do que num mês inteiro.

19. Qual a maior alegria para um escritor?
Simplesmente ser lido. Acho que ninguém espera viver de literatura no Brasil. Até acontece e já citei dois autores que vendem horrores, mas essa é a exceção. Quem escreve quer saber que alguém leu. Que alguém quer discutir o que leu. Que alguém melhorou em algum aspecto através de suas palavras. Não esqueço uma leitora que disse que eu salvei seu relacionamento. Até hoje fico imaginando como, mas foi o que ela disse e eu devo acreditar.

20. Deixe uma mensagem a nossos leitores e para aqueles que estejam iniciando no mundo da escrita literária.
Aventure-se, tanto na leitura como redigindo. Transformar em palavras seu pensamento traz sensações maravilhosas.
Não se preocupe em ser artista, preocupe-se em dias depois ler e entender aquele ambiente, aquele personagem, seus pensamentos e sensações.
Quem lê está em busca de emoções, sentimentos, viagens, e de uma bela história. Peço a você, que adora ler, o presente de ser prestigiado com sua crítica sincera. Já a você, que nunca lê, eu gostaria de conquista-lo para o mundo dos leitores. E todos vocês deveriam se aventurar na forma natural de expressão humana.
Se escrita permite, pelo menos, que você converse consigo mesmo. A leitura ajuda a se perder em aventuras, conhecimentos, paixões e até a esquecer a si mesmo, seus problemas, e fugir de você com uma pausa salutar na vida.
E saibam que hoje vocês podem contar com pessoas, como as que se agrupam para formar a Arca Literária, que estão prontos a ajudar todos nós, leitores e escritores.

Ricardo Borges Cavalcante / Borges C. – Toca de Lobo

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here