Amor, somente amor – Márcio Muniz

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“Amor, somente amor”, de Márcio Muniz, conta a história de amor de Breno e Sabrina cujas vidas se cruzam quando Breno, ao atravessar inadvertidamente a rua, em mais um árduo dia de trabalho, se choca com o automóvel de Sabrina, que está voltando da escola em seu carro de luxo. Esse quase atropelamento muda para sempre a vida dos dois.

Breno é um adolescente negro de dezessete anos, morador de uma favela do Rio de Janeiro. Seu pai era alcoólatra desde os doze anos de idade e, após perder o emprego, abandonou a casa e tornou-se um pedinte. No início, a mãe de Breno tentou suprir a falta de seu pai trabalhando como doméstica, mas se envolveu no tráfico de cocaína e acabou sendo presa diversas vezes e prostituindo-se. Para não ser internado em uma instituição para menores, Breno foi morar com uma tia num minúsculo barraco na mesma favela, fato este que não agradou ao seu tio. Com o propósito de não incomodar o tio, Breno saía de casa muito cedo em busca de alguns trocados e só retornava na hora de dormir. Será que Breno conseguirá contrariar a cruel estatística e conquistará um futuro promissor?

Sabrina tem uma vida oposta a de Breno. É uma menina rica, de família com conceitos rígidos e tradicionais. Acabou de completar 15 anos e reside em um condomínio de luxo. Sua mãe morreu quando ela ainda era muito criança. Foi criada por seu pai, Levi, um empresário bem sucedido e muito bem relacionado e conceituado na alta sociedade. Pouco conhece da vida fora das grades de seu condomínio, pois praticamente só saí de casa para ir à escola e para alguns eventos sociais, sempre acompanhada pelo motorista e guarda-costas. Sabrina sofre com o tédio e a rotina de seus dias de “patricinha”, nos quais não há imprevistos nem novidades, porque tudo em sua vida é planejado e esquematizado para que todos os acontecimentos de seus dias estejam de acordo com o que seu pai julga ser o melhor para ela. Será que Sabrina se satisfará com dias tão banais e previsíveis?

Lucas é o típico filhinho de papai, sem deixar de ser um “boa praça”. Mora no mesmo condomínio de Sabrina e também frequenta a favela que Breno mora, pois é lá que adquire cocaína para alimentar seu vício. Lucas é o elo, o “cupido” que ajudará nos encontros furtivos de Breno e Sabrina. Lucas, devido ao vício, vive envolvido em situações que colocam sua vida em risco e Breno o auxiliou em algumas dessas situações perigosas. Numa dessas ajudas quando, a princípio, é mal interpretado pelo pai de Lucas, acaba contribuindo para que o pai do amigo, perceba que o filho precisa desesperadamente de sua presença, apoio e amor.

A história se inicia com um acidente de trânsito que envolveu Breno e o carro de Sabrina. Num final de tarde, de um determinado dia, enquanto Sabrina voltava do colégio em seu carro importado, Breno voltava de mais uma entrega de supermercado com seu colega Pequeno. Atravessava as ruas distraidamente, contando os trocados que conseguira ganhar até aquele momento quando, de repente, foi surpreendido por uma freada brusca e o som estridente de uma buzina. Foi salvo por Pequeno que o puxou para trás, conseguindo que o carro apenas esbarrasse nele. O motorista após dar uma bronca em Breno e certificar-se de que ele estava bem, deu partida no carro. Nesse momento, Breno avistou um par de olhos azuis que o observava através de uma pequena brecha aberta na janela traseira do carro. Era o olhar mais belo e terno que ele já vira.

Sabrina também ficou encantada com o que viu por trás daqueles olhos tristonhos, com a sensibilidade e humanidade que vira naquele olhar e com a simplicidade do rosto de Breno. Aquele olhar triste e impactante marcou e conquistou seu coração. O carro começou a andar e, sem pensar, Breno saiu em disparada perseguindo o carro. Quando já estava quase o perdendo de vista, viu que o carro entrou em um condomínio luxuoso, cercado por grades e seguranças. Respirou aliviado pois, soube que era ali que morava “a luz da sua vida”.

O enredo vai se desenvolvendo mostrando todas as dificuldades, represálias, humilhações e preconceitos que os protagonistas sofrerão e passarão em busca de um encontro, um beijo, um abraço. Lucas foi fundamental na promoção dos encontros.

No decorrer da história, vemos Breno e Sabrina enfrentando a todo instante, com determinação e coragem, os desafios e obstáculos que vão surgindo para viverem um amor que é tão especial quanto sofrido. Sabrina agora deve enfrentar a pressão do pai, o escárnio dos colegas e o julgamento de uma sociedade preconceituosa que condena qualquer modo de vida que fuja dos padrões da “normalidade”.

Em “Amor, somente amor”, Márcio Muniz convida o leitor a refletir sobe o modo de pensar e agir da sociedade, discutindo com honestidade e sutileza questões relacionadas a dramas familiares, preconceitos e intolerâncias. O autor encontrou também espaço para falar sobre outras questões delicadas, como a dura realidade dos jovens que convivem diariamente com a violência, o tráfico de drogas, o abandono dos pais e da sociedade, o descaso das autoridades e a falsa premissa dos pais mais abastados, que acham que o luxo e os bens materiais são necessários para manterem seus filhos longe das drogas e da criminalidade.

O livro é pequeno, com poucas páginas, simples e fácil de ler. Quando falo simples, não estou me referindo à proposta e nem a condução do enredo. Falo da linguagem direta e do tema atual que envolve discrepâncias e injustiças sociais. Achei a capa do livro criativa e me agradou, pois faz alusão aos opostos, retratando as duas faces da cidade do Rio de Janeiro.

Amor, somente amor é uma espécie de espelho da sociedade atual que mostra a verdade nua e crua de uma sociedade hipócrita, injusta, omissa e preconceituosa. O romance entre Breno e Sabrina exemplifica a questão do pré-julgamento e do preconceito social e transforma-o num romance implausível, onde dois jovens por serem tão desiguais etnicamente, e com realidades de vidas tão diferentes, são obrigados a lutarem bravamente, dia após dia, pelo futuro do tão sonhado amor.

Bem, leitores queridos, espero que vocês aceitem o convite do autor e leiam o livro, (re)pensando nas ações, concepções, e comportamento da sociedade e tirem suas próprias conclusões.

Por Vanda Costa – Blog Clube do livro e amigos

(resenha disponibilizada pelo autor para efeito de divulgação)

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