Coisas de Menino – Alexandre Braoios

0
620

Em 267 páginas conhecemos um pouco da vida de Raul, um antigo professor de educação física que no auge da sua juventude era idolatrado pelas crianças de Cinco Morros, uma cidade pequena no Mato Grosso. O então vigoroso e belo Raul agora se vê limitado em uma cama aos cuidados de Andrea, sua prestativa enfermeira, definhando lentamente por sofrer de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica).
O fato de perder o controle dos movimentos do corpo e tornar-se totalmente dependente do auxilio de outras pessoas, faz Raul perceber que na iminência da doença, logo não conseguirá falar e decide pedir a ajuda de Andrea para relatar alguns fatos de sua vida, fatos dos quais ele não se orgulha nem um pouco e sabe que quando expostos, acabarão com sua reputação de bom moço que adquiriu durante a juventude.

Pelo bem do paciente, Andrea resolve ajudar seu patrão enfermo com seus últimos desejos. E espanta-se com a revelação de que Raul tivera abusado sexualmente de um garotinho no auge de sua carreira como professor. No meio da revelação Carolina, a mulher de Raul, escuta a confissão do marido e se desespera, ela não consegue acreditar que um homem tão honrado e querido pela sociedade pode ser capaz de algo tão terrível. Decepcionada e enojada, ela parte para a casa do filho Felipe, deixando o marido moribundo, a quem foi tão devotada, aos cuidados da enfermeira.

Andrea também pensa em abandonar o posto quando escuta tal atrocidade, mas tendo em vista que a esposa do patrão partira, resolve permanecer e cuidar do mesmo. Mesmo a contra gosto e também movida pela curiosidade, ela cumpre com a promessa de ouvir os relatos de Raul. Muitas vezes tais revelações mostram-se tão absurdas e cruéis que a enfermeira mal aguenta olhar na cara do patrão e resolve proporcionar momentos de desconforto para ele, seja simplesmente “esquecendo” de ministrar algum remédio para dor, ou até mesmo colocando laxante em sua bebida, ela descumpria com a ética de sua profissão, mas não via outro modo de fazer com que sua raiva diminuísse.

Ao início de sua história, Raul se mostra frio, dando a entender que está fazendo isso pelo simples fato de querer aliviar sua consciência e mostrar para as pessoas que o crime cometido não fora tão grave quanto parecia. Isso fazia Andrea sentir mais asco pelo patrão, pois o mesmo alegava que a tal criança que sofreu com seus atos era um garoto afeminado que até mesmo gostava das investidas do professor.

A lã macia acaricia e aquece, mas também oculta os pelos mais grossos da alma lupina. Como fugir? A quem recorrer, se sob as enormes asas celestiais se esconde uma fera esfomeada? Um abraço. Quantas intenções cabem entre dois braços? Deve-se correr em sua direção ou fugir dele? Onde se aprende sobre isso?Quem é o professor? E quando o espírito grita por aconchego e descanso, é possível decifrar sinais tão ambíguos?
Portas, abraços, afagos… a dubiedade é uma besta com dois grandes olhos. Um deles está sob o tapa-olho e só se revela quando os dentes já estão fincados em sua carne, tarde demais para qualquer defesa.”

Ao longo do enredo vamos descobrindo a infância perturbada de Raul e a real identidade de sua vítima, o filho de um grande amigo de Raul, um garotinho mirrado e delicado, motivo de chacota dentre as crianças da cidade e a grande vergonha do pai machista e do irmão mais velho dedo-duro. Tal criança era conhecido como Piccolo e tivera uma infância triste e perturbada.

Com o passar os acontecimentos e descobertas, Andrea começa a inserir na mente do patrão que o tal perdão e o peso de sua consciência só diminuirá se o mesmo conseguir se reencontrar com garoto e pedir-lhe desculpas. Então a enfermeira bola toda uma trama para reunir Raul e sua vítima, Piccolo, assim como a revelação de tais atrocidades para a esposa de Raul e seu filho, como também a família de Piccolo.

Será que tamanha brutalidade de proporções tão horrendas tem e merece perdão?

Acredito que essa tenha sido uma das leituras mais tensas que já fiz até hoje. Uma temática pesada que retrata um assunto bastante polêmico, mas que é passado para o leitor de forma sutil, ou seja, por mais absurda e revoltante que possa parecer tal situação, o autor abordou-a de forma branda, se é que isso possa ser possível. O que estou querendo dizer é que, por mais que o leitor comece a entrar em estado de choque, ou fique nauseado com determinadas passagens, o autor soube conduzir o enredo de forma primorosa, fazendo com que os leitores enxergassem diferentes pontos de vista de um fato extremamente revoltante.
Sim, eu já li outros livros que abordavam esse mesmo tema, o abuso infantil, e me surpreendi positivamente com a maneira a qual Alexandre Braoios expôs o assunto. Gostei da forma como ele contextualizou as situações absurdas de abuso, essas que ocorrem com frequência no nosso país infelizmente, isso é horrível! Mas acontece com nossas crianças diariamente.

A linguagem usada é simples e totalmente apropriada, nada do uso de excessivo de palavrões e gírias que empobrecem o nosso vocabulário. Isso deixa a leitura mais confortável, mesmo com o peso o qual a temática aborda, o leitor consegue aproveitar de forma agradável a leitura, devorando a obra em poucos dias.

A obra alterna-se em momentos ocorrentes no presente, 2016, fatos e lembranças vividas em 1979, época na qual o crime foi cometido por Raul.
É difícil prever o desfecho de tal obra, pois como o assunto é bem polêmico, o leitor fica confuso quanto aos reais motivos que levaram Raul a cometer tal atrocidade (problemas psicológicos, traumas de infância, pura maldade…), e o quão inocente ele pode ser (se é que isso seja possível, pelo menos é o que ele acredita).

Como já mencionei anteriormente, o personagem inicialmente alegava que a culpa fora do menino (como se uma criança de oito anos entendesse de sexualidade em plena década de 70), dizia que o mesmo se insinuava e que as outras crianças também abusavam de sua inocência. Mas aos poucos ele vai se transformando, passa a se sensibilizar com a monstruosidade que fizera o menino sofrer (a própria família, pai e irmão não cansavam de chamar o menino de ‘viado’ devido sua delicadeza e por ser pequeno e fraco)…

Até que ponto a culpa é apenas desses seres humanos doentes que concretizam tal ato de crueldade? A falta de apoio, carinho e confiança dos familiares podem fazer com que uma vítima de abusos torne-se mais reclusa e com medo de expor o sofrimento o qual vem passando?
Gostei bastante da leitura, mesmo difícil e dolorosa em alguns pontos, ela proporciona ao leitor ótimos momentos de reflexão…O que é certo, o que é errado? Todo crime merece perdão? Os verdadeiros monstros nem sempre são pessoas desconhecidas, muitas vezes são aquelas que convivem diariamente e bem próximo das crianças.

O desfecho é sensacional, pouco antes do clímax eu já havia sacado o que estava para acontecer e achei fantástico o rumo que a história tomou no final.

Outra coisa que gostei bastante foi a capa, adorei a imagem escolhida, retrata bem o contexto o qual o leitor irá encontrar ao abrir o livro, quanto ao título, esse também diz muito sobre o enredo, casando perfeitamente no conjunto da obra.
Na diagramação, o único ponto negativo que encontrei foi quanto ao tamanho da fonte utilizada, achei pequena, isso acaba por dificultar a dinâmica da leitura. Mas no restante, a edição está muito boa, o trabalho de revisão foi bem conduzido, pois encontrei poucos erros, nada que desmereça a obra, apenas confusões no nome de alguns personagens.

Super recomendo essa obra e já estou no aguardo dos próximos trabalhos do autor.

Resenha de Quel, resenhista do blog Literaleitura

(resenha disponibilizada pelo escritor para efeito de divulgação)

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here