A Hora da Estrela – Clarice Lispector

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Clarice Lispector reúne em “A Hora da Estrela” três abordagens fundamentais: filosófica, social e estética.

Pela perspectiva filosófica, enfoca os limites e alcances do conhecimento do mundo mediante a palavra e a consciência, através das quais o ser humano se diferencia dos outros seres; em relação ao social, investiga os impasses criados pela separação dos indivíduos em diferentes grupos, destacando o escritor e o nordestino. Quanto à estética, investiga o ato da criação e da originalidade.

A narrativa se estrutura a partir de um narrador-personagem que fala de si mesmo e de um narrador onisciente que conta a história de Macabéa.

Há trechos na obra de Clarice que parafraseiam ou lembram grandes autores da fase realista e modernista. Observe os fragmentos a seguir:

I – “E só minto na hora exata da mentira. Mas quando escrevo não minto.” (Fernando Pessoa)
II – “Mas voltemos a hoje. Porque, como se sabe, hoje é hoje. Não estão me entendendo e eu ouço escuro que estão rindo de mim em risos rápidos e ríspidos de velhos.”(Machado de Assis)
“É coisa muito séria e muito alegre: sua vida vai mudar completamente!”(Machado de Assis)
III – “Por Deus! Eu me dou melhor com os bichos do que com gente.” (Graciliano Ramos)
IV – “Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui.” (Manuel Bandeira)

“A Hora da Estrela” apresenta treze títulos que se desdobram na primeira página do livro:

A Hora da Estrela
A culpa é minha
ou
A Hora da Estrela
ou
Ela que se arranje
ou
O direito ao grito
Quanto ao futuro
ou
Lamento de um blue
ou
Ele não sabe gritar
ou
Uma sensação de perda
ou
Assovio no vento escuro
ou
Não posso fazer nada
ou
Registro dos fatos antecedentes
ou
História lacrimogênica de cordel
ou
Saída discreta pela porta dos fundos

Todos aparecem ao longo da narrativa, durante o processo de criação. Reúnem narrador, escritor e criação. É importante observar que apenas o 5º título é acompanhado por ponto final. Isto acontece porque a história a ser narrada contém segredos (um deles pode ser lido como “o que é o mistério da morte?”) e também é a frase que Macabéa pronunciou antes de morrer.

A “Hora da Estrela” representa o momento epifânico de Macabéa: a hora da morte. É irônica porque só no momento da morte é que Macabéa alcança a grandeza do ser. Já a autora atinge a epifania ao concluir a obra. É a epifanização do tormento de escrever.

O narrador também é personagem principal porque, ao desenvolver a narrativa, mostrando-nos Macabéa, busca a própria identidade. Moldara Macabéa sobre o seu próprio destino e solidão, e morre com ela. Ao mesmo tempo, ele é um disfarce do “eu” da escritora.

A escritora e o narrador, usando as personagens Macabéa e Olímpico, tecem críticas a respeito do ato de falar, expressar-se, escrever, ler, interpretar. Macabéa possui um vocabulário restrito, cultura por flashes, baseada na memorização acrítica. Olímpico não tem consciência crítica para interrogar o código linguístico e aproximar-se das palavras sem conhecer o seu conceito.

A obra de Clarice Lispector pertence à Terceira Geração Modernista. Há o trabalho com o fluxo de consciência, com a linguagem; transita pelo plano metafísico (indagações existenciais), pelo inconsciente, pela autoanálise com projeções da filosofia existencialista.

Fonte: http://vestibular.uol.com.br/ultnot/livrosresumos/ult2755u19.jhtm

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