A dor

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Não tem jeito. É assim que a gente cresce, de verdade. Que a gente aprende. E que a gente se ultrapassa, se vence, se entende e entende ao outro. É assim: decepcionando-se, frustrando-se, sofrendo.

A dor. Que remédio amargo é a dor, mas ainda assim um remédio, e dos bons.

A alegria é muito agradável, mas, como os amigos “só para as boas horas”, pouco nos acrescenta. O caminho é a gente perder para poder ganhar, não ter para poder conseguir, doer para curar, e ter ainda mais “saúde” que antes. É assim que as coisas funcionam, sei lá eu por quê.

Nós, seres humanos, somos ossos duros de roer. É só na marra mesmo que a gente amadurece, desabrocha, percebe, geralmente. É só no tapa na cara, não no tapinha nas costas.

É claro que sofrer não é legal. É claro que a dor é egoísta dentro da gente, um monstrengo cinza que nos rouba ideias, pessoas, vida. E que saqueia principalmente o coração, aquele porrete de espinhos que às vezes insiste em bater no peito quando devia “bater as botas”. Mas é bem verdade que “há males que vêm para bem”. Eu só espero que saibamos ver, enxergar o que a dor nos mostrar. O que a frustração, a decepção, a tristeza nos escrever no espelho, com letras garrafais, às vezes sangrentas, seja em relação a nós mesmos ou a outras pessoas.

E a gente sabe bem, esses momentos são só nossos. De a gente atravessar o escuro abraçando as nossas fraquezas, todas elas, que não é fácil reconhecê-las ainda mais tão de repente, ainda mais na solidão de galgar a montanha da própria alma rumo a um “eu” melhor.

Lágrimas estão para sorrisos como a chuva para o arco-íris. Vem antes. Não depois. Para merecer a felicidade, a conquista, o sucesso, tem que doer. Porque é assim, e pronto. É a Lei da Vida. Como a Lei do Retorno, essas sentenças invisíveis que Deus nos outorgou em Sua sabedoria.

Que a gente só não deixe a dor nos congelar, nos paralisar, ou, pior, nos tornar tão horrorosos quanto ela. Que a gente não deixe o outro pisar na gente, ninguém tem esse direito, mas que entenda os recados que as reações das pessoas ao nosso redor, e a nossa própria vida em si mesma estão nos dando, insistentemente, às vezes de forma tão brusca que nos roubam todo o ar.

Doa, doa a quem doer – o peito nosso, a lembrança nossa, o medo, a incerteza – se for para vencer. Para ser.

A dor ensina, sempre.

Mas só a quem se permite aprender. Quem tem humildade e paciência para tal.

Venha, dor.

Devore.

Dessa massa de medos, lembranças e sonhos distantes, e saudades e angústias, nasça um bebê de parto sofrido, um herói, um guerreiro, um “novo eu”.

É assim que é.

A gente escolhe, se a dor vem para destruir ou para mudar o que nós precisamos. Nós mesmos. O mundo, também, por que não. Uma gota de cada vez.

Uma coisa é certa: não há mudança profunda e verdadeira dentro de um coração, e de uma vida, que não se reflita no Universo. Quer dizer: em outros eus, em coisas que nem imaginamos. O Efeito Borboleta, sabe? Uma batida de asas aqui, um tsunami lá.

Mas a dor.

Venha, Big Bang. Estraçalhe. Faça surgir “o melhor que eu posso ser”. E que não tenha que ser tão bom assim. Apenas paz. É isso que tanto buscamos.

A felicidade é sempre depois do caos. Para os que não se renderam a ele. Para os que tiveram a coragem de olhar bem dentro de seus olhos e enfrentá-lo. Ninguém disse que é fácil. Mas também não é impossível.

Uma rosa de Hiroshima pode de repente aparecer. Você a vê?

Jardins inteiros de fé. Esperança. Amor. Plantados de joelhos. Com lágrimas. Com o coração ardendo, explodindo, quase acabando. Hey: nada há que escureça e não possa outra vez, de algum jeito, brilhar.

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