Desafiadores de Deus – Gil Vasconcelos

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A história ocorre em ambientes diferentes, com personagens diferentes inicialmente. Em um segundo momento os dois núcleos dramáticos se unificam, encaminhando-se para a derradeira briga entre Valentina e o Ceifador.

A narrativa é econômica, sintética e a ação acompanha apenas a trajetória de uma personagem. Assim, embora haja outros personagens nessa trama, o embate se dá a partir do ponto de vista único de Valentina, que é a figura central sendo todos os outros, até mesmo o Ceifador, mero coadjuvantes,  personagens de figuração.

O cenário da trama alterna dois pólos: o da Penha, no Rio de janeiro, onde mora Valentina e seus filhos e onde se passa parte da trama; e o outro pólo, onde está localizado o Laboratório nacional de Computação Científica, em Petrópolis, no Rio de Janeiro, onde os experimentos são conduzidos.

 Logo no início da narrativa, há um experimento no laboratório: Uma tentativa de teletransportar um espécime. Aquela era a tentativa de número setenta e oito (78) onde, obviamente, todas as anteriores falharam. Então, os dois cientistas fazem nova tentativa. Os cientistas são Ivan Flikov, cientista russo e Andreas kizzer (cuja nacionalidade não foi mencionada) são amigos de longa data. Ambos são responsáveis pelo laboratório. É nítida  a falta de empatia de Filikov pelos seres humanos. A preocupação dele, em sua essência, é atingir seu objetivo científico, como se observa no trecho destacado:

“Ora, ora. A ciência tem seu preço, senhores. Nos últimos dias perdemos cães, gatos, camundongos e até lagartos. Pareço cruel para algum de vocês, eu sei. (…) mas quando o teletransporte tornar-se um meio de transporte comum ninguém lembrará quantos lagartos morreram e sim, agradecerão a cada um dos senhores”.

Então, o estagiário Vitor vai ligar o aparelho e ocorre um aumento de temperatura, ele tenta apagar o incêndio gerado pelo produto químico com água, o que resulta numa explosão que o fere mortalmente. Em sua hora derradeira Vitor balbucia que “Eles estão vindo“ e morre antes mesmo de explicar quem são eles e de onde viriam.

Mask (que conheceremos melhor à frente) toca a face de Vitor  e fecha seus olhos. Marcela Gleiser, secretária do Dr. Flilikov, o consola dizendo que nada daquilo havia sido culpa dele:

“Infelizmente houve uma negligência, na hora do acidente ele teve uma atitude errada, foi só um acidente.”

Horas depois do acidente, os cientistas conversam. No CD que gravou a tentativa frustrada, Dr Kizzer mostra a Filikov que houve uma espécie de abertura de um portal e que um ser tentou sair, mas foi puxado de volta contra a sua vontade.

No centro do Rio, tarde da noite, Valentina oferece sopão aos pobres. Agora vamos conhecer outras pessoas importantes da trama: Valentina, Rico e Vine.

Rico é um mendigo que recebe o sopão das mãos de Abdias, um dos filhos de dona Valentina. Quando Abdias diz as palavras divinas: ”A paz do Senhor”, Rico revida com um impropério. Rico provoca Abdias até que este resolve revidar e Valentina, que havia deixado o filho à frente da distribuição enquanto ia ao banheiro da igreja (pois era no terreno paroquial onde estavam servindo o sopão ) retorna e  reclama dos modos de seu filho. Ainda assim Rico se serve da sopa abençoada e tem poucos instantes depois um ataque epilético. Valentina o socorre com orações e é quando Rico é levado para o hospital.

Valentina, por alguma razão que não ficou clara a principio, se torna condoída da situação do rapaz e o leva para sua casa quando ele sai do hospital. Lá Rico conhece Mask (que trabalha no laboratório), Sad e Abdias.

A duas tramas se unem quando Mask leva Sad para trabalhar no laboratório e lá Sad conhece Marcela, por quem se apaixona e ele a leva para conhecer Valentina.

Rico, por sua vez, acaba por contar seu passado: era pastor evangélico e tendo perdido mulher e filha, perdeu também sua fé, indo parar nas ruas. Um pouco depois Rico e Valentina formarão também um casal. Valentina retira o demônio de Rico durante o ataque epilético com o poder da oração. Todos eles juntos, por fim, reúnem as forças necessárias contra aquela entidade que ao tentar sair do portal vitimou mortalmente o Vitor e que  consegue finalmente sair e vir para a Terra. É o Ceifador de Almas.

Reunindo diversos princípios de religiões diferentes numa única teoria, o autor conduz a percepção do leitor para o entendimento católico de céu e inferno. Mesmo quando apresentam princípios de outras religiões, esses são manipulados de forma a criar um entendimento no sentido único que o autor quis colocar na trama. Na trama, o Catolicismo é apresentado como único caminho verdadeiramente  cristão.

Quando o autor Gil Vasconcelos cita o Tao e o principio do Yin Yang, ele coloca o seguinte questionamento através do diálogo entre os personagens Sad e Marcela:

“- As pessoas ruins quando morrem vão para o inferno e levam sua maldade consigo. Mas já as pessoas boas vão para o céu, mas sua maldade, se houver, fica aqui, (…) numa separação de bem e mal.”

“E assim o Yin yang constitui forças opostas e complementares, energias masculinas e femininas.”

“-Essa energia aparece sem um traço de maldade e quando a pessoa boa morre essa parte se desprende e vai para o céu”.

Para o leitor que desconhece essa teoria, o sentido permanece confuso nesse trecho. Se o autor destaca que há maldade numa pessoa boa; e se esta morrer essa parte negativa fica na Terra; conclui-se que, segundo o equilíbrio de forças, haveria uma energia positiva na pessoa má. Afinal no interior da parte escura de Yin há a presença de um ponto branco correspondendo a Yang.

Yin Yang, mencionado pelo autor sem maiores aprofundamentos de seu significado, constitui-se num princípio da filosofia chinesa, onde yin e yang são duas energias opostas. Yin significa escuridão sendo representado pelo lado pintado de preto, e Yang é a claridade. A luz, que é uma energia luminosa e apresenta-se de maneira muito intensa em Yang, sendo a luz  muito fraca o Yin.  Segundo os chineses, o mundo é composto por forças opostas e achar o equilíbrio entre elas é essencial.

Do ponto de vista da trama apresentado no livro Os Desafiadores de Deus a luta contra o diabo é bem interessante. A cruz de madeira de Valentina que representa Jesus toca o coração do Ceifador e este sofre um abalo. É curioso imaginar esse abalo sob a visão taoista, afinal há uma porção boa que conseguiu ser ativada pelo símbolo de Jesus no coração do representante de Satanás.

A personagem Valentina é forte, dominadora e acredita que sua fé é suficiente para vencer o Ceifador, mas é um pouco manipuladora também, tornando-a psicologicamente interessante. Ainda sim é uma personagem boa em essência e, portanto, é uma personagem bidimensional. Não há complexidade na personagem porque em nenhum momento ela entra em conflito, nem mesmo quando perde um de seus filhos.

Marcela tenta consolar o cientista falando que não havia sido culpa dele, mas a verdade é que foi sim. Se o estagiário colocou água sob um fogo químico era fato de que não era uma pessoa preparada para a posição que ocupava, sendo tudo o que acontece de responsabilidade do líder. Numa situação de extrema importância é o líder que assume para si a responsabilidade, foi um erro de liderança.

Não posso falar mais sobre a trama para não dar spoiler. Enfim.

Percebi uma forma muito superficial de apresentar algumas noções teológicas e mesmo Física das situações. Talvez um aprofundamento melhor da trama trouxesse maior entendimento da mensagem que o autor quis transmitir. Abordar esses conceitos de difícil compreensão precisaria de uma narrativa mais densa e com ritmo mais lento.

Foi interessante colocar a personagem Marcela Gleiser sendo nitidamente  uma referência ao Marcelo Gleiser, físico, astrônomo, roteirista e escritor brasileiro de  renome. Diz que: “O fato de a gente não entender alguma coisa não significa que ela precise ser explicada de uma forma sobrenatural. A ciência vive da dúvida. E a gente não precisa entender tudo para se ter uma vida feliz e completa. Eu prefiro viver com a dúvida do que ser enganado por uma ilusão.”

Marcela não entende de física, sendo apenas uma secretária do laboratório, mas de certa forma, Valentina consegue tocar o coração dela a doutrinando para a fé, porque agora “Você faz parte da família”. Isto é, ficou subentendido que, para participar daquela configuração familiar, a moça não poderia questionar Deus, mas como ela apenas desconhecia quem Ele era está tudo bem. Ela tinha a desculpa de não conhecer quem era Deus.

Após a morte de Vitor, ainda no inicio do livro, haveria alguma investigação sobre os culpados, mesmo a reação da mãe do estagiário não seria tão suave como foi. Se o cientista achava toda a perda seria algo esperado, a população não compactuaria com o entendimento de que a perda de uma vida humana para o bem da ciência seria algo tolerável, muito menos a polícia teria esse entendimento.

          Um último aparte: a condição que provoca um ataque epilético foi por muitos anos entendida do ponto de viste espiritual, como um castigo divino. Assim como em outras culturas  a epilepsia foi considerado manifestação de divindade. Hoje se sabe que é uma condição neurológica e resultado de problemas genéticos, ou seja, puramente físicos. Mesmo pessoas espiritualizadas e boas podem sofrer ataques epiléticos.

       A diagramação está boa. Linguagem culta com citações bíblicas e de outros livros sagrados, além de expressões em Hebraico ( dito pelo Ceifador). Gostei da ilustração da capa.

       Um livro que se lê numa tarde e que rende boas horas de entretenimento e alguma reflexão.

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